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Cicatrizes Ocultas e Batimentos Falhos
A manhã na cobertura de Emanuel tinha um sabor metálico e pesado. O sol que entrava pelas janelas panorâmicas parecia não ser capaz de aquecer o ambiente, que permanecia gélido sob a tensão do dia anterior. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa de jantar, observando Sara. Ela, em sua exuberância habitual, usava um robe de seda champagne que deixava claro o contorno dos seios turbinados e a curva da barriga onde Valentina crescia.
Emanuel esticou a mão e acariciou o rosto de Sara, um gesto de adoração que ele nunca escondia.
— Você dormiu bem, meu amor? — perguntou ele, a voz suavizando apenas para ela. — Valentina chutou muito?
— Ela é agitada como o pai, Manu — Sara deu um sorriso largo, inclinando-se para receber um beijo casto na testa. — Mas eu estou ótima. Já você... parece que não pregou o olho.
Emanuel suspirou, o olhar desviando-se para o corredor que levava aos quartos de hóspedes.
— Não consegui. A ideia de que ela passou cinco meses me enganando... isso ainda queima.
— Ela é uma menina, Emanuel. Assustada, virgem até ontem, criada em redoma — Sara disse, pegando um pedaço de mamão. — Mas você precisa se acalmar. O estresse não faz bem nem para mim, nem para a bonequinha de porcelana lá no quarto.
Emanuel não respondeu. Ele se levantou, a figura alta e tatuada impondo um silêncio imediato. Ele caminhou até o quarto onde Eduarda estava instalada. Não bateu. Abriu a porta com a autoridade de quem era dono de tudo ali, inclusive do destino dela.
Eduarda estava sentada na beira da cama, ainda com a camisola de renda clara que a fazia parecer um anjo caído. Seus olhos estavam inchados. Ao ver Emanuel, ela encolheu os ombros, buscando proteção no próprio corpo.
— Levante-se. Vamos ao médico — ordenou ele, seco.
— Eu... eu já tenho médico, Emanuel. Eu faço o pré-natal na clínica perto da faculdade — ela sussurrou, a voz falhando.
— Você *tinha* um médico. Agora você terá o melhor. Quero um check-up completo. Quero saber o estado da minha filha — ele deu um passo à frente, e Eduarda sentiu a eletricidade da fúria dele ainda vibrando. — E não ouse omitir um único detalhe da consulta.
O trajeto até a clínica de elite foi um tormento. Emanuel não deu a mão a ela. No consultório do Dr. Arnaldo, um dos cardiologistas e obstetras mais renomados da cidade, o silêncio era interrompido apenas pelo som do gel sendo espalhado sobre o ventre de Eduarda.
Emanuel observava a tela com uma mistura de fascínio e possessividade. Lá estava Amélie. Pequena, delicada, o fruto daquela única noite de entrega total. Mas, conforme o médico movia o transdutor, o semblante do profissional mudou. O silêncio se prolongou por tempo demais.
— O que foi? — Emanuel perguntou, a voz como um chicote.
O Dr. Arnaldo suspirou, ajustando os óculos.
— Emanuel, Eduarda... Eu estou vendo uma alteração no fluxo sanguíneo do coração da pequena Amélie. É uma comunicação interventricular, associada a uma leve estenose. É uma cardiopatia congênita.
O mundo de Emanuel pareceu girar. Ele olhou para Eduarda, esperando ver choque, surpresa, dor. Mas o que viu foi culpa. Uma culpa profunda e devastadora que inundou os olhos castanhos dela.
— Você já sabia — Emanuel afirmou. Não era uma pergunta. Era uma sentença.
Eduarda começou a tremer.
— O médico do posto... ele disse que havia uma suspeita... eu ia repetir o exame... eu não queria te dar mais um problema, Emanuel! Eu achei que se eu esperasse, talvez... talvez sumisse...
— Sumisse? — Emanuel rugiu. O médico recuou, surpreso com a violência súbita na voz do homem. — Você escondeu a existência dela por cinco meses e agora eu descubro que ela está doente? Que minha filha pode precisar de cirurgia porque você foi covarde demais para me contar a verdade?
— Emanuel, por favor, aqui não é o lugar... — o Dr. Arnaldo tentou intervir.
— Cale a boca! — Emanuel se virou para Eduarda, os olhos injetados de sangue. A fúria racional que ele costumava manter tinha desaparecido, dando lugar a um monstro de dor e traição. — Você é negligente, Eduarda! Você colocou a vida da Amélie em risco com esse seu silêncio doentio!
Ele agarrou o braço dela quando saíram da sala, arrastando-a pelo corredor da clínica. Eduarda soluçava alto, atraindo olhares, mas Emanuel não se importava. Ele a jogou dentro do carro, batendo a porta com tanta força que o vidro pareceu vibrar.
Ao chegarem na cobertura, a cena foi de caos. Sara, ao ver o estado de Eduarda e a face transtornada de Emanuel, tentou se aproximar, mas ele a afastou com um gesto brusco.
— Ela sabia! — gritou Emanuel, chutando uma poltrona de couro de design caro, que tombou com um estrondo. — A menina tem um problema no coração e essa... essa idiota sabia e não disse nada!
Emanuel avançou na direção de Eduarda, que se encolheu contra a parede da sala. Ele não a bateria, sua moral não permitia, mas sua presença era física, esmagadora. Ele segurou o rosto dela com uma mão só, obrigando-a a olhar para ele.
— O que mais você está escondendo? — ele sibilou, a voz trêmula de ódio. — Você tem noção de que eu poderia ter perdido as duas por causa da sua omissão? Você é uma criança brincando de ser mãe!
— Eu tive medo de você! — Eduarda gritou, as lágrimas lavando o rosto. — Olha como você está agora! Eu sabia que você ia me odiar!
Emanuel levantou a mão, o punho cerrado, a tensão atingindo o ápice. Ele parecia pronto para quebrar tudo ao redor, inclusive a pouca sanidade que restava a Eduarda.
— Emanuel, para! — A voz veio da porta.
Era Lucas, o irmão mais novo de Emanuel. Ele tinha a chave do apartamento e acabara de chegar, deparando-se com a cena de guerra. Lucas correu e se colocou entre Emanuel e Eduarda, empurrando o peito do irmão.
— Sai da frente, Lucas — rosnou Emanuel.
— Não saio! Você enlouqueceu? Ela está grávida, seu imbecil! — Lucas gritou, mantendo a guarda. — Olha o que você está fazendo! Quer que ela perca o bebê aqui, agora, no meio da sala?
Emanuel tentou desviar de Lucas, mas o irmão o segurou pelos ombros, usando toda a força para contê-lo.
— Ela escondeu a doença da minha filha, Lucas! Ela me traiu de todas as formas possíveis! — Emanuel lutava contra o aperto do irmão, os músculos das costas retesados como cordas de aço.
— E você acha que aterrorizar ela vai curar o coração da Amélie? — Lucas rebateu, firme. — Respira, porra! Você é o porto seguro dessa família ou o carrasco?
Sara, percebendo que a situação poderia fugir do controle mesmo com Lucas ali, aproximou-se devagar. Ela ignorou a fúria de Emanuel e foi até Eduarda, que estava catatônica no chão, abraçando os próprios joelhos. Sara, com toda a sua vulgaridade aparente e seu jeito prático, ajoelhou-se e puxou a cabeça de Eduarda para o seu ombro.
— Já chega, Emanuel — Sara disse, a voz calma, mas cortante. — Você já deu o seu show. Agora sai daqui. Vai para um dos seus estúdios, vai tatuar alguém, vai socar um saco de areia. Mas sai da minha frente e da frente dela.
Emanuel parou de lutar contra Lucas. Seu peito subia e descia com violência. Ele olhou para as duas mulheres no chão — a loira que ele amava com a alma e a morena que ele desejava com o sangue. Ambas carregando pedaços dele. Ambas, agora, unidas contra a sua agressividade.
— Eu não vou esquecer isso, Eduarda — ele disse, a voz agora baixa e perigosa, o que era quase pior do que os gritos. — Você tirou de mim o direito de cuidar da Amélie desde o início. Você vai pagar por cada segundo desse silêncio.
Ele se soltou de Lucas com um tranco e caminhou até a porta. Antes de sair, ele se virou para o irmão.
— Garanta que ela não saia desse apartamento. Se ela fugir, a culpa será sua.
A porta bateu com a força de um trovão.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelos soluços convulsivos de Eduarda. Lucas suspirou, passando a mão pelo rosto, exausto.
— Ele vai se acalmar, Duda — Lucas tentou consolar, embora não tivesse certeza. — O Emanuel é um maníaco por controle. Quando ele sente que perdeu as rédeas, ele explode.
Sara afastou os cabelos de Eduarda do rosto.
— Ele é um bruto quando quer — Sara comentou, ajudando Eduarda a se levantar. — Mas ele está certo em uma coisa, bonequinha: você foi bem burra. A gente não esconde nada do Emanuel. Ele descobre até o que a gente ainda não pensou.
— Eu só... eu só queria que ela fosse perfeita — Eduarda soluçou, a mão sobre o ventre de cinco meses. — Eu não queria que ele me visse como alguém que deu um "filho estragado" para ele, enquanto você é toda perfeita e a Valentina é saudável...
Sara soltou uma risada curta, mas sem maldade.
— Meu amor, olhe para mim. Eu sou feita de silicone e vontade própria. Perfeição não existe. E o Emanuel não te quer porque você é perfeita. Ele te quer porque você é o oposto de tudo o que ele é. Mas agora, você vai ter que aguentar o tranco. Ele vai te cercar de médicos, enfermeiras e segurança. Você virou o projeto principal dele.
Eduarda olhou para a sala vazia, sentindo o rastro da presença de Emanuel. Ela sabia que a liberdade, se é que algum dia a tivera, havia acabado. Ela era agora uma prisioneira do amor e da fúria dele.
Enquanto isso, em seu carro, Emanuel dirigia sem destino, as mãos sangrando onde ele havia socado o volante. A imagem do pequeno coração de Amélie na tela da ultrassonografia, lutando para bater corretamente, misturava-se com a imagem de Eduarda chorando.
Ele a odiava por ter mentido. Ele a amava por carregar sua filha. E ele a puniria, cuidando dela tão intensamente que ela nunca mais teria espaço para respirar um segredo sequer.
— Amélie — ele sussurrou para o vazio do veículo. — Você vai ficar bem. Nem que eu tenha que arrancar o coração de qualquer um para te dar um novo.
A obsessão de Emanuel havia acabado de ganhar um novo e perigoso combustível: a fragilidade da vida que Eduarda tentara esconder. E ele, em sua mente distorcida pela riqueza e pelo poder, não permitiria que nada, nem mesmo a vontade de Eduarda, interferisse em seu controle absoluto sobre o futuro daquelas duas crianças e daquelas duas mulheres.
A noite caiu sobre a cidade, mas para Eduarda, a escuridão estava apenas começando. Ela sabia que, quando Emanuel voltasse, ele não seria o menino que limpava seus joelhos ralados. Ele seria o dono de sua vida, o juiz de seus erros e o único ar que ela teria permissão para respirar. E Sara, em seu papel de cúmplice e rainha daquele castelo, apenas observaria, garantindo que, no final, Emanuel tivesse tudo o que desejava.