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O Peso do Amor e o Dobro do Destino
A cobertura de Emanuel nunca pareceu tão pequena quanto nas semanas que se seguiram à descoberta da cardiopatia de Amélie. O silêncio punitivo que ele impunha a Eduarda era intercalado apenas por ordens diretas e consultas médicas exaustivas. Ele não a perdoara. Cada vez que seus olhos escuros pousavam na silhueta de Eduarda, havia uma mistura de desejo possessivo e uma mágoa que ele se recusava a deixar morrer.
Sara, por outro lado, florescia. Ela era a âncora de Emanuel, a mulher que sabia como domar suas explosões com um toque de unhas bem feitas e um sorriso carregado de autoconfiança. Ela não via Eduarda como rival, mas como uma extensão da família peculiar que estavam construindo.
Naquela tarde, Emanuel entrou na sala carregando várias sacolas de grifes exclusivas. Ele ignorou Eduarda, que estava sentada no sofá lendo um livro sobre História da Arte, e foi direto para Sara.
— Um presente para a minha rainha — disse ele, entregando as sacolas. — E para a Valentina.
Sara abriu as caixas com entusiasmo, revelando um conjunto de joias de ouro e vestidos de seda que realçariam ainda mais sua beleza exuberante.
— Oh, Manu! É maravilhoso! — Sara se jogou nos braços dele, beijando-o com paixão. — Você sabe exatamente como me agradar.
Eduarda observava a cena, sentindo uma pontada de tristeza que não conseguia evitar. Ela não tinha inveja das joias, mas da facilidade com que Sara ocupava o espaço no coração de Emanuel sem medo, sem culpa.
— Eduarda — a voz de Emanuel soou fria, tirando-a de seus pensamentos. — Vá se trocar. Temos outra ultrassonografia morfológica em uma hora. O Dr. Arnaldo quer revisar os exames cardíacos.
— Sim, Emanuel — ela respondeu baixo, levantando-se com dificuldade.
Sua barriga estava estranhamente grande para cinco meses e meio. Ela se sentia pesada, seus pés inchavam e o cansaço era constante. Enquanto se vestia com um vestido de malha leve e romântico, ela acariciava o ventre, conversando mentalmente com Amélie, pedindo desculpas por todo o estresse que a pequena estava sofrendo.
No carro, o clima era o de sempre: Emanuel focado no trânsito, as mandíbulas cerradas, e Eduarda encolhida no banco do passageiro.
— Você tem comido tudo o que a nutricionista mandou? — perguntou ele, sem olhar para ela.
— Tenho. Mas me sinto muito cheia o tempo todo. Minha barriga parece que vai rasgar.
— É o mínimo que você pode fazer — rebateu ele, a voz carregada de sarcasmo. — Já que decidiu esconder a gestação por metade do tempo, agora vai seguir cada vírgula do que eu mandar.
Eduarda não respondeu. As lágrimas silenciosas rolaram, mas ela as limpou antes que ele visse.
Ao chegarem à clínica, o Dr. Arnaldo os recebeu com a seriedade habitual. Emanuel sentou-se ao lado da maca, observando a tela com uma intensidade que chegava a ser assustadora. Ele queria cada resposta, cada detalhe do coração de Amélie.
O médico espalhou o gel e começou o exame. O som do batimento cardíaco preencheu a sala.
— O fluxo na comunicação interventricular parece estável, Emanuel — explicou o doutor. — Vamos monitorar, mas a Amélie está lutando bem.
Emanuel soltou um suspiro de alívio, mas o médico continuou movendo o transdutor para a parte superior do útero de Eduarda, franzindo a testa.
— Esperem um pouco... — O Dr. Arnaldo ajustou o foco da imagem. — Isso é muito incomum. Eduarda, você tem sentido muitos movimentos em posições diferentes?
— Sim, doutor. Parece que ela não para quieta em lugar nenhum.
O médico soltou uma risada curta e surpresa.
— Não é a Amélie que não para quieta. É que ela tem companhia.
O silêncio na sala foi absoluto. Emanuel inclinou-se para a frente, os olhos fixos na tela onde, atrás da silhueta já conhecida da menina, outra coluna vertebral e outro par de perninhas se tornavam visíveis.
— O que você está dizendo? — a voz de Emanuel saiu rouca.
— Tem outro bebê aqui, Emanuel. Um menino. Ele estava posicionado exatamente atrás da irmã, e como a Eduarda é muito magra e o útero estava muito tensionado, ele acabou ficando "escondido" nas primeiras imagens mais superficiais. Mas aqui está ele. Perfeitamente saudável.
Eduarda soltou um soluço, levando as mãos à boca. Emanuel parecia ter sido atingido por um raio. Ele olhava para a tela, depois para a barriga enorme de Eduarda, e então para o médico.
— Um menino? — repetiu Emanuel, e pela primeira vez em semanas, a fúria em seus olhos deu lugar a um choque puro e uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.
— Sim. Um menino robusto e, pelo que vejo aqui, sem as alterações cardíacas da irmã. Ele é o que chamamos de "gêmeo de proteção".
Emanuel estendeu a mão trêmula e, pela primeira vez desde a descoberta da gravidez, tocou a pele da barriga de Eduarda com delicadeza, sem a força da posse, mas com a reverência da descoberta.
— Benício — sussurrou Eduarda, entre lágrimas. — Se você concordar... eu sempre pensei que, se tivesse um filho homem, ele se chamaria Benício. O abençoado.
Emanuel não retirou a mão. Ele sentiu um chute forte exatamente onde seus dedos estavam. Um chute de um herdeiro, de um menino que ele nem sabia que existia. A fúria que ele alimentava contra Eduarda por ter escondido Amélie foi subitamente atropelada por uma avalanche de novas emoções.
— Dois — murmurou Emanuel. — Eu vou ter três filhos. Valentina, Amélie e Benício.
Ele olhou para Eduarda. A raiva ainda estava lá, em algum lugar, mas o milagre daquele momento era maior. Ele a viu tão frágil, carregando o peso de duas vidas em um corpo tão pequeno, e algo dentro dele se partiu.
— Por que você é tão complicada, Eduarda? — perguntou ele, a voz falhando. — Por que me fez perder cinco meses de dois filhos?
— Eu não sabia do Benício, Emanuel! Eu juro! — Ela chorava abertamente agora. — Eu só queria sobreviver ao medo que eu tenho de você.
Emanuel não disse nada. Ele ajudou-a a se levantar da maca com uma solicitude que ela não recebia há tempos. No caminho de volta, o silêncio era diferente. Não era mais o silêncio de um túmulo, mas o de uma tempestade que estava mudando de direção.
Ao chegarem em casa, Sara estava na sala, provando um dos vestidos novos.
— Como foi? A Amélie está bem? — perguntou ela, girando em frente ao espelho.
Emanuel caminhou até o centro da sala, parando diante de Sara, mas mantendo o braço firme ao redor da cintura de Eduarda, como se temesse que ela desabasse.
— A Amélie está estável — disse ele, a voz profunda. — Mas a Eduarda não está carregando só ela.
Sara parou de girar, os olhos azuis arregalados.
— Como assim?
— Há um menino, Sara. Benício. Ele estava escondido — Emanuel explicou, e um brilho de orgulho começou a surgir em seu rosto. — Eu vou ser pai de um menino também.
Sara soltou um grito de alegria genuína e correu para abraçar os dois.
— Meu Deus! Três bebês de uma vez nesta casa! — Ela riu, beijando o rosto de Emanuel e depois o de Eduarda. — Eduarda, sua danadinha! Você é pequena, mas é eficiente, hein?
Eduarda deu um sorriso tímido, sentindo-se, pela primeira vez, parte de algo maior. Mas o momento de leveza foi interrompido quando Emanuel a conduziu para o sofá e a fez sentar.
— Sara, amanhã quero que você desmonte o quarto de hóspedes ao lado do da Valentina. Quero um berçário duplo. O melhor que o dinheiro puder comprar. E quero uma enfermeira morando aqui a partir de semana que vem para cuidar da Eduarda.
— Com certeza, Manu! — Sara concordou prontamente. — Vou cuidar de tudo. A loja pode esperar, agora o foco é o nosso império de fraldas.
Emanuel ajoelhou-se na frente de Eduarda. Ele pegou as mãos dela nas suas. A rigidez ainda estava lá, o controle ainda era sua marca registrada, mas o olhar era de uma determinação feroz.
— Ouça bem, Eduarda — disse ele, a voz baixa e firme. — Eu ainda estou furioso com você. O que você fez com a Amélie, escondendo a condição dela, foi imperdoável. Mas agora existe o Benício. E por eles, e por você, eu vou transformar esta casa em uma fortaleza. Você não vai dar um passo sem que eu saiba. Você não vai sentir uma dor sem que eu sinta junto.
— Você vai me perdoar algum dia? — ela perguntou, a voz manhosa, buscando a proteção que só ele sabia dar, apesar de sua agressividade.
Emanuel apertou as mãos dela, os olhos faiscando.
— O perdão é algo que você vai ter que conquistar todos os dias, sendo a mulher que eu espero que você seja. Mas eu nunca vou te deixar ir. Você é minha, Eduarda. Com seus erros, com sua timidez e com meus filhos.
Ele se inclinou e beijou a barriga dela, um beijo longo sobre o tecido do vestido. Depois, levantou-se e beijou Sara com a mesma intensidade.
— Eu tenho as duas — disse ele, olhando de uma para a outra. — E eu vou ter os três. Ninguém toca no que é meu.
Naquela noite, Eduarda deitou-se sentindo o peso de Amélie e Benício. Ela sabia que a vida sob o domínio de Emanuel seria uma corda bamba entre o cuidado extremo e o controle absoluto. Mas, enquanto ouvia as risadas de Sara e Emanuel na sala, discutindo decorações e nomes de padrinhos, ela sentiu que, apesar de toda a vulgaridade de Sara e da fúria de Emanuel, aquele era o seu lugar.
Ela era a bailarina delicada capturada pelo tatuador implacável, dividindo-o com a loira que não conhecia limites. E agora, com Benício chutando forte ao lado do coração cansado de Amélie, Eduarda entendeu que seu silêncio havia acabado para sempre. Ela agora pertencia ao mundo barulhento, intenso e perigoso de Emanuel. E, de alguma forma distorcida, era exatamente ali que ela queria estar.