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Marcas de uma Posse Absoluta
A brisa do mar trazia o cheiro de sal e protetor solar caro, um contraste gritante com o ar condicionado controlado e o aroma de tinta de tatuagem que dominava a cobertura de Emanuel. Eles haviam descido para a casa de praia em Angra dos Reis, um refúgio de vidro e madeira nobre cercado por uma vegetação exuberante e águas cristalinas. Para Emanuel, era o cenário perfeito para exibir seu domínio; para Sara, era um palco para brilhar sob o sol; e para Eduarda, era um campo minado de olhares e julgamentos.
Eduarda estava sentada sob o amplo guarda-sol de linho, observando o movimento das ondas. Ela usava um biquíni de crochê em tom de areia, delicado como ela, mas o que realmente chamava a atenção não era a peça de designer ou a barriga de cinco meses que agora despontava com clareza. Eram as marcas.
Por ter a pele extremamente branca, quase translúcida, cada toque mais firme de Emanuel deixava um rastro. Seus braços tinham pequenas sombras arroxeadas onde os dedos dele a haviam segurado com força durante uma discussão ou um momento de paixão possessiva. Em suas coxas, marcas de pressão contavam a história da noite anterior, quando ele a reivindicara com a fúria de quem teme perder o controle.
Sara, exuberante em um biquíni fio-dental dourado que realçava seu bronzeado artificial e suas curvas siliconadas, aproximou-se com um grupo de amigas. Eram mulheres como ela: loiras, vulgares de uma forma luxuosa, e com línguas tão afiadas quanto seus saltos agulha.
— Meninas, olhem a nossa pequena bailarina — disse Sara, ajeitando os óculos escuros de grife. — Não parece uma boneca de porcelana?
As amigas de Sara, Kátia e Mirella, aproximaram-se com sorrisos predatórios. Elas analisaram Eduarda da cabeça aos pés, e não demorou muito para que o escrutínio chegasse às marcas na pele da jovem.
— Meu Deus, Sara — comentou Kátia, apontando para o braço de Eduarda com um copo de dry martini na mão. — O Emanuel anda treinando jiu-jitsu com a menina? Olhe esses roxos.
Eduarda encolheu-se na espreguiçadeira, tentando puxar a saída de praia para cobrir o corpo, mas Sara a impediu com um gesto rápido.
— Deixe disso, Duda. Aqui é todo mundo de casa — Sara riu, uma risada alta que atraiu a atenção de Emanuel, que estava a poucos metros, conversando com o caseiro. — O Manu é intenso, vocês sabem. Ele não sabe o que é delicadeza quando quer marcar o que é dele.
— Mas isso está quase artístico — Mirella aproximou-se, inclinando-se para ver de perto uma mancha no ombro de Eduarda. — Parece que ele tentou tatuar você sem usar agulha, só na base da pressão. Duda, querida, você é tão branquinha que parece que vai quebrar.
Eduarda sentiu o rosto queimar. A timidez, sua eterna companheira, a impedia de reagir com a mesma agressividade verbal de Sara.
— Ele não faz por mal — sussurrou Eduarda, a voz manhosa e trêmula. — Ele só... ele se esquece da força que tem.
— Ele não se esquece, bonequinha — rebateu Kátia, soltando uma nuvem de fumaça de seu cigarro eletrônico. — Ele faz questão de deixar o autógrafo. Homem rico e poderoso é assim. O meu ex deixava joias; o seu deixa hematomas. Acho que o seu presente dói mais, mas dura o mesmo tempo.
Emanuel, percebendo o círculo formado ao redor de sua protegida, caminhou em direção a elas. Ele estava sem camisa, exibindo o abdômen definido e a profusão de tatuagens que cobriam seus braços e peito. Sua presença era magnética e intimidadora. Ele parou atrás da cadeira de Eduarda, colocando as mãos grandes sobre os ombros dela, exatamente onde Mirella acabara de apontar uma marca.
— Algum problema, meninas? — perguntou ele, a voz profunda e calma, mas com um subtexto que fez as amigas de Sara recuarem um passo.
— Problema nenhum, Manu — disse Sara, aproximando-se e passando a mão pelo peito do marido. — As meninas só estavam comentando como a pele da Duda é sensível. Elas dizem que você está deixando a menina parecendo um dálmata de tantos roxos.
Emanuel não desviou o olhar. Ele apertou levemente os ombros de Eduarda, sentindo-a estremecer sob seu toque. Ele não sentia culpa. Para ele, aquelas marcas eram a prova física de que ela estava sob sua guarda, de que o segredo que ela escondera por cinco meses fora perdoado, mas não esquecido.
— A Eduarda é minha — disse Emanuel, olhando diretamente para Kátia. — E o que é meu, eu trato como eu bem entender. Se a pele dela marca fácil, é apenas um lembrete de que ela precisa de mais cuidado. E quem cuida dela sou eu.
— Credo, Emanuel, que possessivo! — Kátia riu, tentando disfarçar o desconforto. — Só estávamos brincando. Mas que dá aflição de ver, dá. Parece que você vai esmagar a coitada.
— Ela não reclama — respondeu ele, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Eduarda. — Reclama, Duda?
Eduarda olhou para cima, encontrando os olhos escuros e intensos de Emanuel. Ela viu a adoração e a ameaça misturadas ali. Ela buscou a proteção dele, mesmo sendo ele a causa das marcas.
— Não, Manu. Eu estou bem.
Sara deu um gole em sua bebida, observando a cena com um misto de satisfação e ironia. Ela gostava dessa dinâmica. Gostava de ser a mulher que Emanuel exibia como um troféu de ouro e silicone, enquanto Eduarda era a joia escondida e marcada, a parte vulnerável dele que ninguém mais podia tocar.
— Bom, já que a "vítima" não reclama, vamos entrar na água — sugeriu Sara, puxando as amigas. — Deixem os dois aí com o romantismo bruto deles.
Quando as mulheres se afastaram, Emanuel sentou-se na beira da espreguiçadeira de Eduarda. Ele passou o polegar por um roxo em formato de meia-lua no antebraço dela.
— Elas te incomodaram? — perguntou ele.
— Um pouco. Elas falam como se eu fosse um objeto que você está estragando — Eduarda disse, sentindo as lágrimas subirem. — Eu não gosto que vejam, Emanuel. Me sinto exposta.
— Você está exposta porque é linda, Eduarda. E essas marcas... elas são para que qualquer um que olhe para você, inclusive aquele seu "amigo" patrocinador, saiba exatamente a quem você pertence.
— Você ainda está pensando no Ricardo? — ela perguntou, incrédula.
— Eu nunca esqueço, Duda. Eu te disse. O perdão não apaga a memória.
Ele a puxou para o colo, ignorando o volume da barriga que os separava. Emanuel enterrou o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de pele e sol.
— Amanhã vamos sair no barco. Só nós três. Sem as amigas da Sara. Eu quero você onde ninguém mais possa comentar sobre a sua pele. Onde eu possa te marcar sem que o mundo meta o nariz.
— Você é violento às vezes, Manu — sussurrou ela, as mãos perdidas nos cabelos dele.
— Eu sou o que você me obriga a ser, Eduarda. Se você não tivesse mentido, talvez eu fosse mais suave. Mas agora... agora eu preciso sentir que você é real. E a dor é a forma mais real de sentir alguém.
Eduarda fechou os olhos. Ela sabia que aquela era a lógica distorcida dele. Emanuel era um homem que vivia de marcar peles com agulhas; para ele, o amor não era um sentimento etéreo, era algo que precisava ser gravado, sangrado e cicatrizado.
Mais tarde, no interior da casa, Sara encontrou Eduarda no quarto, passando uma pomada refrescante nos hematomas.
— Ele pegou pesado ontem, não foi? — perguntou Sara, encostando-se no batente da porta.
— Ele estava bravo por causa da conversa que tive com meu pai ao telefone. Ele acha que estou planejando voltar para a casa dos meus pais depois que os bebês nascerem.
Sara soltou uma risada curta.
— E você está?
— Eu não sei, Sara. Às vezes eu sinto que vou sufocar aqui.
— Você não vai a lugar nenhum, Duda. O Emanuel te ama, do jeito louco dele, mas ama. E eu também quero você aqui. A Valentina e a Amélie vão precisar uma da outra. E eu... bom, eu gosto de ter você por perto. Você me equilibra.
Sara aproximou-se e pegou o tubo de pomada da mão de Eduarda. Ela mesma começou a espalhar o creme nos roxos da jovem, com uma delicadeza surpreendente para alguém tão exuberante.
— Não ligue para o que a Kátia disse. Ela tem inveja. O marido dela nem encosta nela, prefere as modelos de vinte anos. O Emanuel... ele é obcecado por você. E, no nosso mundo, obsessão é o mais próximo que chegamos da lealdade.
— Dói, Sara. Não só na pele.
— Eu sei que dói. Mas olhe pelo lado positivo: você tem o homem mais poderoso que já conhecemos aos seus pés. Ele pode te marcar, mas ele também mataria por você. Quantas mulheres podem dizer o mesmo?
Eduarda olhou para Sara. A loira era prática, fria e, de certa forma, sua maior aliada naquela prisão dourada.
— Você não tem ciúmes, Sara? De verdade?
— Ciúmes? — Sara riu, terminando de passar a pomada. — Duda, o Emanuel tem coração e pau suficientes para nós duas. Eu sou a rainha, você é a princesa. Ele precisa do meu fogo e da sua água. Se ele tivesse só uma de nós, ele acabaria nos destruindo. Dividindo o peso, a gente sobrevive.
Emanuel apareceu na porta, observando as duas. A imagem das suas duas mulheres grávidas, cuidando uma da outra, trouxe-lhe uma satisfação sombria.
— O jantar está pronto — anunciou ele. — E Eduarda, coloque um vestido longo. Não quero mais ninguém comentando sobre o que é de foro íntimo.
— Sim, Emanuel — ela respondeu, voltando a ser a menina submissa.
Durante o jantar, a tensão era palpável. As amigas de Sara continuavam a lançar olhares furtivos para Eduarda, cochichando entre si. Emanuel, percebendo o desconforto de Eduarda, segurou a mão dela por cima da mesa, apertando-a com força suficiente para que ela soubesse que ele estava no comando.
— Kátia — disse Emanuel, interrompendo uma risadinha da mulher. — Ouvi dizer que o seu marido está tendo problemas com a receita federal. Se precisar de um advogado criminalista, eu conheço os melhores. Mas, em troca, eu gostaria que o clima aqui na minha casa fosse de respeito. Especialmente com a Eduarda.
O silêncio caiu sobre a mesa como uma guilhotina. Kátia empalideceu, balbuciando um agradecimento desajeitado. A mensagem fora clara: ninguém tocava na ferida de Emanuel sem sair sangrando.
Após o jantar, Emanuel levou Eduarda para a varanda privativa do quarto deles. O som do mar era a única trilha sonora. Ele a abraçou por trás, as mãos espalmadas sobre a barriga dela, sentindo os movimentos de Amélie e Benício.
— Você viu? — sussurrou ele no ouvido dela. — Eu protejo você.
— Você me protege do mundo que você mesmo cria, Manu.
— Talvez. Mas ninguém mais vai ousar falar de você.
Ele a virou de frente para ele, levantando o queixo dela para que seus olhos se encontrassem.
— Eu vou te dar tudo, Eduarda. Mas o preço é esse. Você é minha pele, meu sangue, minha marca.
Eduarda não respondeu. Ela apenas se aninhou no peito dele, sentindo o pulsar do coração de Emanuel. Ela sabia que as marcas em sua pele desapareceriam com o tempo, mas as marcas em sua alma, gravadas pela possessividade daquele homem, seriam eternas.
Naquela noite, enquanto o sol se punha no horizonte de Angra, Eduarda entendeu que sua vida de bailarina, feita de leveza e tule, acabara no momento em que Emanuel descobrira seu segredo. Agora, ela vivia em um mundo de sombras e luzes intensas, onde o amor era medido pela profundidade das marcas e a liberdade era apenas um sonho que ela dançava sozinha, no palco de sua própria mente.
Emanuel a beijou com uma fome renovada, e Eduarda, manhosa e quebrada, entregou-se novamente. Ela era o cisne capturado, e o lago de obsidiana de Emanuel era o único lugar onde ela ainda podia nadar, mesmo que as águas fossem profundas e cheias de segredos submersos.
A viagem à praia, que deveria ser um descanso, tornara-se mais uma afirmação do poder de Emanuel. E enquanto Sara ria na sala ao lado, celebrando sua própria força, Eduarda permanecia no escuro, sendo moldada pelas mãos do homem que a amava demais para deixá-la ser qualquer outra coisa que não fosse dele.
— Amanhã — sussurrou Emanuel, antes de dormirem — eu vou te levar para ver o nascer do sol no mar. Só nós. Sem marcas, sem olhares. Só a minha voz dizendo que você nunca vai sair daqui.
Eduarda dormiu sentindo o peso daquela promessa. E em seus sonhos, ela ainda era a bailarina, mas agora, suas sapatilhas eram feitas de couro negro e suas fitas eram correntes de ouro, amarradas firmemente pelo homem que nunca a deixaria cair, mas que também nunca a deixaria voar.