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O Labirinto da Mansidão
O sol da manhã entrava pelas janelas amplas da maternidade, mas a claridade não parecia suavizar a tensão que pairava no quarto particular. Eduarda estava sentada na poltrona, os braços envolvendo o próprio corpo esguio como se tentasse se proteger de uma tempestade iminente. Amélie e Benício, pequenos e frágeis, mas surpreendentemente fortes, dormiam no berço acoplado, alheios ao embate silencioso que ocorria acima de suas cabeças.
Emanuel estava de pé junto à janela, de costas para ela. A silhueta larga e imponente bloqueava parte da luz. Ele não gritava mais, o que era quase pior. O silêncio dele era denso, carregado daquela racionalidade fria que ele usava para gerir seus negócios e, agora, sua família.
— As malas já foram enviadas para a mansão, Eduarda — disse ele, sem se virar. — O quarto dos bebês está pronto. Sara contratou duas enfermeiras de elite para auxiliarem você e Valentina. Não há motivo para demora.
Eduarda engoliu em seco. O coração batia acelerado contra as costelas. Ela sempre fora a "prima quietinha", a bailarina que flutuava pelo mundo sem causar ondas. Mas o medo que sentia de ser completamente engolida pela vida de Emanuel e Sara era maior, naquele momento, do que sua timidez.
— Eu não vou, Emanuel — a voz dela saiu pequena, mas firme.
Emanuel virou-se lentamente. Seus olhos, escuros e cansados pelo estresse dos últimos dias, estreitaram-se. Ele cruzou os braços sobre o peito, a postura rígida de quem não estava acostumado a ser contrariado.
— O que você disse?
— Eu vou para a casa dos meus pais — repetiu ela, as mãos tremendo levemente. — Eu preciso de tempo. Eu quero... eu quero ficar com eles até os bebês completarem quatro meses.
Emanuel soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ele caminhou até ela, cada passo ecoando como um aviso. Ele parou a poucos centímetros da poltrona, obrigando-a a olhar para cima.
— Você escondeu uma gravidez de gêmeos de mim por cinco meses, Eduarda. Você quase colocou a vida dos meus filhos em risco por causa desse seu "medo". E agora, você acha que tem o direito de ditar onde eles vão morar?
— Meus pais são jovens, eles podem me ajudar — argumentou ela, os olhos começando a lacrimejar. — Lá é o meu lugar. Eu me sinto segura lá. Na sua casa... com a Sara... é tudo muito grande, muito intenso. Eu me sinto perdida.
— Você é minha, Eduarda. E as crianças são minhas — a voz dele baixou para um tom perigoso, vibrando com uma possessividade que a fazia arrepiar. — Eu deixei passar muita coisa porque você estava em trabalho de parto, mas a minha paciência tem um limite muito curto.
Nesse momento, a porta se abriu e Sara entrou. Ela usava um conjunto de seda champanhe, saltos altíssimos e segurava uma bolsa de grife como se estivesse em uma passarela, e não em um hospital. Ela olhou para o rosto transtornado de Emanuel e para a expressão de pânico de Eduarda.
— Ainda discutindo a logística, Manu? — Sara perguntou, caminhando até o berço para observar os bebês com uma curiosidade quase clínica. — Os pequenos são a sua cara, sabia? Especialmente o menino. O que houve agora?
— Ela decidiu que vai para a casa dos pais — Emanuel rosnou, sem tirar os olhos de Eduarda. — Ela acha que pode me manter longe dos meus filhos por mais quatro meses.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. Ela se aproximou de Eduarda e, para surpresa da moça, sentou-se no braço da poltrona, colocando uma mão sobre o ombro dela. O perfume caro de Sara era inebriante e dominante.
— Quatro meses, Duda? Isso é muito tempo — Sara comentou, num tom que parecia razoável, mas que escondia a mesma determinação de Emanuel. — Você sabe que o Manu não funciona bem com distância. Ele já está quase tendo um colapso porque você omitiu a existência deles. Se você se afastar agora, ele vai derrubar a porta da casa dos seus tios.
— Eu só preciso de um tempo para entender como ser mãe... para entender como tudo isso vai funcionar entre nós três — Eduarda pediu, olhando para Sara com súplica. — Eu amo o Emanuel. Eu amo vocês. Mas eu sinto que, se eu for agora, eu vou desaparecer.
Emanuel deu um passo à frente, a fúria voltando a borbulhar.
— Você não vai desaparecer. Você vai ser cuidada. Você vai ter tudo!
— Eu não quero "tudo", Emanuel! — Eduarda se levantou, a súbita explosão de energia surpreendendo a ambos. — Eu quero paz. Eu quero o cheiro da minha casa, o meu quarto, a segurança de saber que eu não sou apenas um... um anexo da sua vida com a Sara. Eu sei que você me quer, eu sei que você gosta de mim, mas eu não sou como ela. Eu não sou forte, eu não sou decidida. Eu sou manhosa, eu sou lenta, eu preciso de calma!
O silêncio que se seguiu foi cortante. Emanuel respirava pesadamente, as narinas dilatadas. Ele queria pegá-la nos braços, colocá-la no carro à força e trancá-la na mansão onde ele pudesse vigiar cada respiração dela. O controle era sua âncora, e Eduarda estava cortando as cordas.
Sara, porém, soltou um suspiro entediado e olhou para o marido.
— Manu, olhe para ela. Ela está prestes a desmaiar. Se você forçá-la agora, ela vai ter uma depressão pós-parto e quem vai sofrer são os bebês.
Emanuel olhou para Sara, irritado pela intervenção.
— Você está defendendo isso?
— Não estou defendendo, estou sendo prática — Sara se levantou e caminhou até ele, ajustando a gola da camisa dele com movimentos lentos e provocantes. — Deixe ela ir. Mas com condições.
Emanuel franziu a testa.
— Que condições?
Sara voltou o olhar para Eduarda, um sorriso felino brincando em seus lábios.
— Você fica na casa dos seus pais, Duda. Mas o Emanuel terá livre acesso. Ele vai ter uma chave da casa. Ele vai dormir lá quando quiser. E, em troca desses quatro meses de "liberdade", você assina um compromisso de que, no primeiro dia do quinto mês, você se muda para a nossa casa sem um pio. E mais: você vai passar os finais de semana na mansão conosco, para que Valentina se acostume com os irmãos.
Eduarda olhou de Sara para Emanuel. A proposta era uma armadilha dourada. Ela teria o conforto da casa dos pais, mas Emanuel estaria lá, infiltrando-se em sua rotina, dominando seu espaço pessoal de qualquer maneira.
— E se eu não aceitar? — sussurrou Eduarda.
Emanuel deu um passo lateral, cercando-a novamente.
— Se você não aceitar, eu chamo meus advogados agora mesmo. Eu sou um homem rico, influente e o pai biológico. Você escondeu a gravidez, o que não pega bem perante um juiz se eu decidir alegar instabilidade emocional. Eu não quero tirar seus filhos, Eduarda. Eu quero você e eles juntos de mim. Mas se você me obrigar a lutar, eu luto para vencer.
O rosto de Eduarda empalideceu ainda mais. Ela sabia que ele não estava blefando. Emanuel era um protetor, mas sua proteção era uma jaula.
— Tudo bem — ela cedeu, a voz embargada. — Eu aceito.
Emanuel relaxou os ombros, mas a expressão de irritação não desapareceu completamente. Ele ainda se sentia traído pelo silêncio dela durante os meses anteriores. Ele caminhou até ela e segurou seu rosto com as duas mãos, os polegares acariciando a pele macia das bochechas dela com uma pressão que beirava o desconforto.
— Quatro meses, pequena bailarina — ele murmurou, a voz rouca. — Aproveite cada segundo. Porque depois disso, você nunca mais vai estar fora do meu alcance. Eu vou estar na sua casa hoje à noite. Quero ver você instalada e quero ver meus filhos acomodados.
— Mas eu acabei de ter alta, Emanuel... eu preciso descansar...
— Você vai descansar comigo por perto — ele sentenciou, dando-lhe um beijo casto, mas possessivo, na testa. — Sara, leve a Valentina para casa. Eu vou acompanhar a Eduarda na ambulância particular que contratei.
Sara deu de ombros, parecendo satisfeita com o resultado.
— Divirtam-se com o drama familiar. Eu tenho uma loja para gerenciar e uma bebê que sente falta da mãe. Vejo você no final de semana, Duda. Tente não chorar muito, estraga a pele.
Sara saiu do quarto com a confiança de quem sabia que, no fim, todos os fios daquela teia levavam ao mesmo lugar.
Emanuel permaneceu no quarto enquanto os enfermeiros preparavam a transferência de Eduarda e dos gêmeos. Ele não ajudava, apenas observava, como um falcão vigiando sua presa ferida. Eduarda sentia o peso do olhar dele em cada movimento que fazia.
No trajeto para a casa dos pais dela, o silêncio no veículo era interrompido apenas pelos sons baixos dos bebês. Eduarda olhava pela janela, sentindo uma melancolia profunda. Ela amava Emanuel, o jeito como ele a fazia se sentir protegida e desejada, mas a fúria dele a assustava. Ela sabia que ele não esqueceria o que ela fez. A punição dele seria lenta, manifestada em cada ordem, em cada controle sobre sua vida.
Quando chegaram à casa dos pais de Eduarda, a recepção foi calorosa, mas tensa. Os pais dela, modernos e compreensivos, tentavam mediar a situação, mas a presença de Emanuel era avassaladora. Ele inspecionou o quarto onde Eduarda ficaria, exigiu a troca do colchão por um que ele considerava melhor para a coluna dela e instalou um sistema de monitoramento de última geração no berço dos gêmeos, conectado diretamente ao seu celular.
— Emanuel, não precisa de tudo isso... — o pai de Eduarda tentou intervir.
— Precisa sim, Jorge — Emanuel respondeu, o tom finalizando qualquer discussão. — São meus filhos. E a Eduarda tem uma tendência a não me contar as coisas. Eu preciso ver com meus próprios olhos.
Ao cair da noite, após os bebês serem alimentados e finalmente dormirem, Eduarda estava exausta. Ela se deitou na cama de sua infância, sentindo o cheiro familiar do amaciante que sua mãe usava. Por um momento, ela se sentiu segura.
Mas então, a porta do quarto se abriu. Emanuel entrou, já sem o paletó, com as mangas da camisa social dobradas, revelando as tatuagens intrincadas que subiam por seus antebraços. Ele trancou a porta atrás de si.
— O que você está fazendo? — ela perguntou, sentando-se rapidamente. — Meus pais estão no corredor ao lado.
— Eu disse que ia dormir aqui — ele respondeu de forma simples, começando a desabotoar a camisa. — Eu não vou perder mais nenhum momento. E nós temos muito o que conversar sobre a sua desobediência.
Eduarda encolheu-se sob o lençol.
— Eu já pedi desculpas, Emanuel. Eu tive medo.
Ele sentou-se na beira da cama, o peso de seu corpo fazendo o colchão inclinar em sua direção. Ele a puxou para perto, ignorando a leve resistência dela, e a acomodou entre suas pernas, as costas dela contra o peito dele.
— O medo não é desculpa para mentir para mim — ele sussurrou perto do ouvido dela, o hálito quente causando arrepios. — Você me fez sofrer, Eduarda. Você me privou de ver a barriga crescer, de sentir os chutes deles. Você acha que quatro meses aqui vão apagar isso?
— Não... eu sei que não.
— Ótimo. Então entenda uma coisa: esses quatro meses não são umas férias de mim. São o período de transição. Eu vou ser o seu pesadelo e o seu sonho todas as noites. Você vai aprender que, mesmo nesta casa, quem manda em você sou eu.
Ele a virou para que ela o encarasse. Os olhos de Eduarda estavam úmidos, a expressão manhosa e vulnerável que sempre o desarmava estava lá, mas desta vez ele não cedeu. Ele segurou o nuca dela com firmeza.
— Você me ama, não ama? — ele perguntou, a voz carregada de uma intensidade sombria.
— Amo... — ela confessou, a voz falhando.
— Então prove. Pelos próximos quatro meses, você vai ser a mulher que eu quero que você seja. Sem segredos. Sem fugas. E quando o tempo acabar, você vai caminhar para a minha casa por vontade própria, ou eu mesmo venho te buscar pelos cabelos. Entendido?
Eduarda assentiu, incapaz de lutar contra a força gravitacional que ele exercia sobre ela. Ela se inclinou e escondeu o rosto no pescoço dele, buscando o conforto que só o seu carrasco parecia capaz de oferecer.
Emanuel a abraçou com força, fechando os olhos. Ele ainda estava furioso, a raiva vibrando sob sua pele como uma corrente elétrica. Mas, por enquanto, ele a tinha ali. Frágil, pequena e submissa.
Lá fora, a vida continuava, mas dentro daquele quarto, o destino de Eduarda estava selado. Ela queria tempo, e ele lhe deu. Mas o preço do tempo seria a entrega total de sua alma. E Emanuel, com sua paciência de tatuador, estava disposto a marcar cada centímetro dela até que não restasse nada que não pertencesse a ele e a Sara.
— Durma agora, pequena — ele ordenou, deitando-se com ela e puxando a coberta. — Amanhã o dia será longo. E eu estarei aqui quando você acordar. E em todos os dias depois deste.
Eduarda fechou os olhos, as lágrimas finalmente secando. Ela estava em casa, mas pela primeira vez, sentia que as paredes estavam se fechando. O amor de Emanuel era um castelo e uma masmorra, e ela acabara de entregar as chaves.