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O Labirinto de Seda e Espinhos
O sol da manhã refletia-se nos cristais do lustre da entrada da mansão, criando um jogo de luzes que parecia zombar da confusão interna de Eduarda. Hoje era o dia. O prazo de quatro meses, negociado entre lágrimas e promessas no hospital, havia expirado. A "liberdade" vigiada na casa de seus pais chegara ao fim.
Eduarda desceu do carro segurando o bebê-conforto de Amélie com uma mão, enquanto a babá, contratada por Emanuel, carregava Benício. Seus passos eram lentos, a postura de bailarina agora curvada pelo peso da incerteza. Ela olhou para a fachada imponente da casa e sentiu um aperto no peito. Sabia que, uma vez que cruzasse aquele limiar, a Eduarda que vivia para a história da arte e para os passos leves de ballet seria permanentemente moldada pelos desejos de Emanuel.
— Finalmente em casa, pequena — a voz de Emanuel ecoou pelo hall.
Ele estava parado no topo da escadaria de mármore, vestindo uma camisa de linho escura que contrastava com a pele clara e as tatuagens que subiam pelo pescoço. Ele desceu os degraus com uma agilidade predatória, ignorando a babá e indo direto para Eduarda. Ele não pegou os filhos primeiro; ele pegou o rosto dela, forçando-a a encará-lo.
— Você está atrasada dez minutos — ele murmurou, o polegar pressionando o lábio inferior dela. — Eu já estava perdendo a paciência.
— O trânsito estava ruim, Emanuel... e o Benício não parava de chorar — ela justificou-se, a voz falhando como sempre acontecia sob o olhar dele.
— Não importa. Você está aqui agora. E daqui você não sai mais sem a minha permissão.
Emanuel finalmente desviou o olhar para os bebês. Ele pegou Amélie do colo de Eduarda com uma delicadeza surpreendente para um homem de gestos tão brutos. A menina, que herdara os olhos expressivos e a pele de porcelana da mãe, apenas o observou com uma curiosidade silenciosa, sem emitir um som.
— Ela é doce como você — ele comentou, um meio sorriso surgindo. — Já o Benício...
Nesse momento, o choro estridente de Benício preencheu o ambiente. O menino era agitado, movendo braços e pernas com uma energia que parecia grande demais para seu corpo pequeno. Ele tinha o temperamento de Emanuel, impaciente e exigente.
— Benício vai nos dar trabalho — disse uma voz vinda do alto da escada.
Sara apareceu, e Eduarda sentiu um baque de intimidação. Sara estava radiante. Usava um robe de seda caríssimo, os cabelos loiros perfeitamente escovados e as unhas pintadas de um vermelho vibrante. Ela desceu os degraus com a confiança de uma rainha que recebia uma nova súdita. Atrás dela, uma babá trazia Valentina, agora com cinco meses.
— Bem-vinda ao hospício, priminha — Sara disse, aproximando-se e dando um beijo no ar perto do rosto de Eduarda. — O Manu estava insuportável hoje de manhã, contando os segundos para você chegar.
Emanuel entregou Amélie para a babá e envolveu a cintura de Sara com um braço, trazendo-a para perto. Ele beijou o ombro dela com uma intimidade possessiva.
— Eu só queria que a família estivesse completa, Sara — ele disse, o tom de voz suavizando significativamente ao falar com a esposa.
Eduarda observou a interação, sentindo uma pontada de algo que não sabia se era inveja ou alívio. Emanuel mimava Sara de uma forma quase ostensiva. Ele dava a ela joias, roupas, atenção constante e, acima de tudo, o status de sua igual. Para Eduarda, ele reservava a proteção sufocante e o controle absoluto. Eram dois tipos diferentes de amor, mas ambos pareciam ser necessários para manter o equilíbrio daquele homem complexo.
— Venha ver a Valentina, Duda — Sara chamou, pegando a filha no colo. — Veja como ela está enorme.
Valentina era uma bebê linda, mas havia algo em seu olhar que já demonstrava a personalidade da mãe. Ela não sorria para qualquer um; observava Eduarda com uma soberba infantil, como se soubesse que era a primogênita, a dona daquele território. Quando Eduarda tentou tocar sua mãozinha, a bebê virou o rosto, agarrando-se ao pescoço de Sara.
— Ela é geniosa — Sara riu, orgulhosa. — Uma verdadeira rainha.
— Vamos entrar — Emanuel ordenou, colocando a mão nas costas de Eduarda e empurrando-a suavemente para o interior da casa. — O almoço será servido em breve. Quero que você se instale no seu quarto. Ele fica ao lado do nosso.
— Ao lado? — Eduarda perguntou, parando no meio do corredor. — Eu achei que eu teria uma ala separada...
— Você achou errado — Emanuel disse, aproximando-se do ouvido dela, enquanto Sara seguia na frente com Valentina. — Eu quero ouvir você durante a noite, Eduarda. Quero saber se você está amamentando, se está dormindo, ou se está sentindo a minha falta. Você não é uma visita. Você é parte de nós agora.
O quarto de Eduarda era um sonho romântico e uma prisão de luxo. Móveis de madeira clara, tecidos finos em tons de lavanda e uma varanda que dava para o jardim de inverno. Havia uma porta de comunicação que, ela logo percebeu, levava diretamente à suíte master de Emanuel e Sara.
— Gostou? — Sara perguntou, entrando no quarto sem bater. Ela se sentou na beira da cama de Eduarda, cruzando as pernas torneadas. — Eu que escolhi a decoração. Achei que combinava com esse seu jeito de "bailarina frágil".
— É lindo, Sara. Obrigada.
— Não me agradeça. Eu fiz isso porque quero que você se sinta confortável o suficiente para não querer fugir de novo. O Manu ficou louco naqueles meses que você ficou na casa dos seus pais. Ele ia para lá, mas voltava para cá possesso porque você não se entregava totalmente.
Sara levantou-se e caminhou até Eduarda, avaliando-a de cima a baixo.
— Você emagreceu. Precisa comer mais. Emanuel gosta de ter onde pegar, e ele tem planos para você esta noite.
Eduarda sentiu o rosto queimar.
— Sara... como você consegue? Como consegue aceitar tudo isso com tanta naturalidade?
Sara deu de ombros, um sorriso cínico e seguro nos lábios.
— Eu conheço o homem com quem me casei, Duda. Emanuel é um vulcão. Ele tem energia e desejo para dez mulheres. Eu prefiro que ele tenha você, que é sangue do meu sangue e que eu posso controlar, do que uma estranha qualquer na rua. Além disso, eu gosto de você. Você traz uma calma para esta casa que eu não tenho paciência de cultivar.
— Mas e o amor dele? — Eduarda sussurrou. — Você não tem medo de que ele passe a amar mais a mim?
Sara soltou uma gargalhada alta, genuína.
— Ah, querida... Emanuel me ama com a cabeça e com o fogo. Ele ama você com o instinto e com a necessidade de proteção. São fatias diferentes de um mesmo bolo. E, acredite, eu sempre serei a dona da confeitaria.
A tarde passou em um borrão de babás organizando fraldas, o choro intermitente de Benício e a quietude observadora de Amélie. Emanuel saiu para um de seus estúdios de tatuagem, mas ligava a cada hora para saber como as coisas estavam.
Na hora do jantar, a mesa estava posta com requinte. Emanuel presidia a cabeceira, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda. Ele parecia satisfeito, observando as duas mulheres de sua vida.
— Benício finalmente dormiu? — Emanuel perguntou, servindo-se de vinho.
— Sim — Eduarda respondeu, mexendo na comida sem apetite. — Ele é muito agitado, Emanuel. A enfermeira disse que ele tem muita energia.
— Ele é um lutador. Como eu — Emanuel disse com orgulho. — E Amélie?
— Ela é um anjo — Sara interveio. — Quase não se ouve a menina. Completamente o oposto da Valentina, que já está tentando mandar nas babás.
Emanuel sorriu, estendendo a mão para cobrir a de Eduarda sobre a mesa.
— Você está tensa, pequena. O que foi?
— É tudo muito novo... eu sinto que estou invadindo a vida de vocês.
— Você não está invadindo — Emanuel disse, o tom de voz tornando-se firme. — Você está ocupando o lugar que eu reservei para você desde aquela primeira festa na casa dos seus pais. Eu te avisei, Eduarda. Eu sempre consigo o que eu quero.
Após o jantar, Sara despediu-se com um olhar cúmplice para Emanuel e subiu para o quarto. Emanuel levou Eduarda para a biblioteca, um cômodo forrado de livros e com cheiro de couro e tabaco caro. Ele a sentou em seu colo na poltrona de couro.
— Você ainda está com medo de mim? — ele perguntou, afastando o cabelo castanho do pescoço dela.
— Você ficou tão bravo no hospital... eu achei que você nunca fosse me perdoar.
— Eu ainda não esqueci, Eduarda — ele disse, a voz baixando para um tom sombrio. — A confiança é algo que você vai ter que reconstruir. Mas a minha raiva... ela se transformou em outra coisa. Uma necessidade de garantir que você nunca mais sinta que pode se esconder de mim.
Ele a beijou, um beijo que começou punitivo e terminou em uma urgência desesperada. Eduarda se entregou, como sempre fazia. Ela era o reflexo da lua para o sol dele; não tinha luz própria na presença dele, apenas refletia a intensidade que ele emanava.
— Eu quero que você volte para a faculdade de História da Arte no próximo semestre — ele disse contra os lábios dela. — E quero que volte a praticar ballet na sala de ensaios que mandei montar no terceiro andar.
— Você montou uma sala de ballet? — ela perguntou, os olhos brilhando pela primeira vez.
— Sim. Quero ver você dançar para mim todas as noites. Quero ver sua leveza, enquanto eu cuido de todo o resto. Você só precisa ser minha, Eduarda. Só isso.
Horas depois, Eduarda estava em seu novo quarto, deitada sob os lençóis de seda. A porta de comunicação se abriu silenciosamente. Não era Emanuel. Era Sara, usando uma camisola curta de renda preta.
— Ele adormeceu — Sara sussurrou, sentando-se na beira da cama de Eduarda. — O dia foi longo para ele também.
— Sara? O que você está fazendo aqui?
— Vim ver se você estava bem. E te dar um conselho — Sara inclinou-se, a expressão subitamente séria. — Não tente ser eu, Duda. E não tente competir comigo. Se você aceitar que é a suavidade desta casa, e eu sou a força, nós três seremos muito felizes. Emanuel precisa de nós duas para ser o homem que ele é. Se uma de nós faltar, ele desmorona. E se ele desmorona, ele destrói tudo ao redor.
Eduarda olhou para a prima, percebendo que, por trás da vulgaridade aparente e do jeito chamativo, Sara era uma estrategista brilhante. Ela amava Emanuel o suficiente para dividir o fardo de sua personalidade obsessiva.
— Eu só quero ser uma boa mãe para a Amélie e para o Benício — Eduarda disse baixinho.
— E você será. E eu serei a tia que vai ensinar a Amélie a se defender e a Benício a conseguir o que quer — Sara sorriu, levantando-se. — Boa noite, priminha. Bem-vinda à família. Realmente.
Quando Sara saiu, Eduarda ficou olhando para o teto. Ela ouviu o som abafado de um dos bebês chorando no berçário e, logo em seguida, o som de passos firmes no corredor. Era Emanuel, indo verificar seus filhos.
Ela fechou os olhos, sentindo-se pequena e protegida, mas também permanentemente marcada. Ela era a bailarina de Emanuel, vivendo em uma caixa de música de ouro, onde a melodia era composta por ele e a coreografia era supervisionada por Sara. Era um amor distorcido, um labirinto de seda e espinhos, mas, enquanto ouvia o silêncio da casa luxuosa, Eduarda soube que não havia mais volta. Ela pertencia àquele mundo. Ela pertencia a ele.