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Entre o Sagrado e o Profano
O quarto do casal na cobertura de Emanuel exalava o perfume caro de Sara, uma mistura de baunilha intensa e notas florais que pareciam preencher cada fresta do ambiente. Emanuel estava sentado na beira da cama king-size, massageando os pés de Sara com uma paciência que poucos associariam ao homem que comandava um império de estúdios de tatuagem com mão de ferro. Sara estava recostada em uma montanha de travesseiros de seda, vestindo uma camisola de renda preta que mal escondia as curvas acentuadas pelo silicone e pela gestação de cinco meses.
— Mais para a esquerda, querido — murmurou Sara, soltando um suspiro de satisfação enquanto comia morangos com chocolate. — A Valentina está pesando hoje. Acho que ela vai ser alta como você e decidida como eu. Coitado do mundo.
Emanuel sorriu de canto, seus polegares pressionando os pontos de tensão no arco do pé da mulher.
— Se ela tiver metade da sua energia, eu vou precisar contratar seguranças particulares só para conter os pretendentes — ele comentou, a voz rouca e calma.
— Você vai ser um pai terrivelmente ciumento, Emanuel. Já até vejo a cena: você tatuando um "propriedade do papai" na testa de qualquer garoto que chegar perto — Sara riu, a risada alta e sem filtros que ele tanto amava. — Mas, falando em ciúmes e posses... como está a nossa pequena bailarina?
As mãos de Emanuel hesitaram por uma fração de segundo antes de retomarem o movimento rítmico. O nome de Eduarda sempre trazia uma mudança na pressão atmosférica do ambiente.
— Ela está... arredia, Sara. Eu a vejo na faculdade, levo flores, tento mostrar que estou ali para o que ela precisar, mas sinto que quanto mais eu me aproximo, mais ela se retrai para dentro daquela concha de linho e silêncio.
Sara se inclinou para frente, a barriga proeminente dificultando um pouco o movimento, e tocou o rosto do marido com a mão livre.
— Ela tem medo, Emanuel. A Duda foi criada com pão de ló e missa aos domingos. Os pais dela podem ser modernos, mas ela... ela é uma alma antiga. Ela quer o conto de fadas, o cavaleiro branco, o altar com flores brancas e o "até que a morte nos separe" dito diante de um padre. E você, meu amor, é um homem que já tem uma rainha e uma herdeira a caminho.
— Eu não quero substituir você, Sara. E ela sabe disso. Eu fui honesto.
— Eu sei que foi. E eu também fui — Sara deu de ombros, pegando outro morango. — Eu quero ela aqui. Quero a doçura dela equilibrando a minha acidez. Quero que a Valentina cresça vendo que o amor não precisa ser uma linha reta e estreita. Mas você vai ter que ser mais do que um protetor. Vai ter que ser o porto seguro dela, sem deixar de ser o meu.
Emanuel suspirou, levantando-se para beijar a testa de Sara antes de caminhar até a janela que dava para as luzes da cidade. Sua mente, no entanto, estava a quilômetros dali, em um estúdio de dança com piso de madeira clara e cheiro de resina.
***
No dia seguinte, o sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas da escola de ballet onde Eduarda dava aulas para crianças. O som do piano preenchia a sala enquanto ela corrigia a postura de uma menininha de seis anos. Eduarda era a imagem da delicadeza: o coque perfeito, o pescoço longo, os movimentos que pareciam flutuar acima do chão. Mas, por dentro, ela se sentia um turbilhão de estilhaços.
Quando a aula terminou e as crianças saíram saltitando, Eduarda sentou-se no chão, encostada no espelho, e abraçou os joelhos. O cansaço não era físico; era a alma que pesava. Ela fechou os olhos e, imediatamente, a imagem de Emanuel surgiu. Aquele olhar intenso, a voz que parecia vibrar dentro de seus ossos, a segurança que ele emanava. E, logo em seguida, vinha a culpa.
— Você vai acabar furando o chão de tanto suspirar, Duda.
Eduarda deu um sobressalto ao ver sua mãe, uma mulher de quarenta anos com aparência de trinta, encostada na porta. Ela usava roupas coloridas e tinha um sorriso compreensivo.
— Oi, mãe. Só estava... pensando na coreografia do final do semestre.
— Mentira — a mãe aproximou-se e sentou-se ao lado da filha, sem a menor cerimônia. — Você está pensando no Emanuel. E na Sara. E em como a sua vida virou um roteiro de filme francês nas últimas semanas.
Eduarda escondeu o rosto nas mãos, sentindo as bochechas queimarem.
— É errado, mãe. É tudo tão errado. Ele é o marido da Sara. Ela está grávida. E ele vem até mim e diz que me quer, que a Sara concorda com isso... Como eles podem ser tão... tão...
— Pragmáticos? — a mãe sugeriu. — Duda, o mundo não é mais dividido entre o preto e o branco. A Sara sempre foi intensa, ela nunca seguiu regras. E o Emanuel... bem, dá para ver nos olhos daquele homem que ele moveria montanhas por quem ele ama. E ele parece ter decidido que você faz parte desse grupo.
— Mas eu sonhei com outra coisa, mãe — a voz de Eduarda saiu pequena, manhosa, carregada daquela insegurança que a definia. — Eu queria entrar na igreja de branco. Queria o compromisso exclusivo, o sacramento. Como eu posso ter isso com um homem que já pertence a outra? Eu me sinto uma intrusa, uma... uma pecadora.
— O amor nunca é pecado, querida. O que dói é a expectativa que a gente cria sobre como ele deve ser entregue.
Eduarda não respondeu. Ela se levantou, pegou sua bolsa e saiu do estúdio. Precisava de ar. Mas, ao chegar à calçada, o ar pareceu faltar novamente. O carro preto e discreto de Emanuel estava parado ali. Ele estava encostado na porta, usando um terno cinza escuro que realçava sua postura de comando.
Ao vê-la, a expressão séria dele suavizou-se instantaneamente.
— Eduarda.
— Você não deveria estar aqui, Emanuel. A Sara precisa de você.
— A Sara está dormindo, e eu deixei tudo organizado para ela — ele deu um passo à frente, e Eduarda, por instinto, recuou um centímetro, mas parou ao sentir a intensidade do olhar dele. — Eu vim porque você não atendeu minhas mensagens. Eu me preocupo.
— Você se preocupa demais — ela sussurrou, desviando o olhar para os próprios pés. — Emanuel, eu não consigo fazer isso. Eu não sou como vocês. Eu não sou moderna, eu não sou forte. Eu olho para você e vejo tudo o que eu sempre quis, mas olho para a situação e vejo tudo o que eu sempre temi.
Emanuel aproximou-se, desta vez ignorando o recuo dela. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza surpreendente para alguém tão grande, tocou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.
— O que você teme, pequena?
— O julgamento. A falta de um lugar só meu. O fato de que eu nunca vou poder ser sua esposa diante de Deus — as lágrimas finalmente transbordaram. — Eu sou uma bailarina, Emanuel. Eu vivo de equilíbrio. E você está me pedindo para viver no caos.
Emanuel sentiu uma pontada no peito. O instinto de proteção rugiu dentro dele, a vontade de pegá-la no colo e escondê-la do mundo.
— Eu não posso te dar um casamento na igreja, Eduarda. Eu não posso mentir para você. Mas eu posso te dar um lar. Posso te dar o meu nome de outras formas, posso te dar a minha lealdade eterna. A Sara não é sua rival, ela é sua aliada. Ela te ama tanto quanto eu, de um jeito diferente, mas genuíno.
— Ela me incentiva a ficar com o marido dela — Eduarda soltou uma risada nervosa e triste. — Isso é loucura.
— É amor, Duda. Um amor que não cabe em caixas — ele acariciou a bochecha dela com o polegar. — Venha jantar conosco hoje. Sem pressões. Apenas venha. A Sara comprou algumas coisas para o enxoval da Valentina e quer te mostrar. Ela sente sua falta.
Eduarda hesitou. A proximidade física de Emanuel era como um ímã. O calor que emanava dele, o cheiro de perfume amadeirado e tinta, a promessa de segurança... era tentador demais para sua natureza sensível e carente de proteção.
— Tudo bem — ela cedeu, a voz fraca. — Eu vou. Mas só por causa da Sara.
Emanuel sorriu, um sorriso raro e vitorioso.
— Eu aceito essa desculpa. Por enquanto.
***
O jantar no apartamento foi uma experiência surreal para Eduarda. Sara estava em seu estado mais exuberante, usando um vestido justo cor de rosa choque, exibindo a barriga com orgulho e falando incessantemente sobre as novas coleções de sua loja. Emanuel, por outro lado, era o pilar de calma, servindo o vinho para Sara (apenas um gole, sob protestos dela) e suco para Eduarda, sempre atento a cada movimento da bailarina.
— Duda, você precisa ver esse sapatinho! — Sara exclamou, puxando uma caixa de veludo. — É de uma marca francesa. Imagina a Valentina usando isso com um daqueles vestidinhos de babado que você gosta.
Eduarda pegou o sapatinho minúsculo, sentindo uma ternura inevitável.
— É lindo, Sara. Ela vai parecer uma boneca.
— Ela vai ser uma rainha — Sara corrigiu, piscando para Emanuel. — Com dois súditos devotos como nós, e uma tia-mãe tão doce como você, ela vai ter o mundo aos pés.
Eduarda sentiu o peso daquelas palavras. "Tia-mãe". A estrutura que eles estavam propondo era tão sólida na cabeça deles, mas tão frágil na dela.
Após o jantar, Sara alegou cansaço — uma manobra óbvia, pensou Eduarda — e retirou-se para o quarto, deixando os dois sozinhos na varanda que dava para o horizonte iluminado de São Paulo.
A noite estava fresca. Eduarda abraçou os próprios braços, sentindo um calafrio. Emanuel, percebendo, retirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela. O peso do tecido e o calor residual do corpo dele a envolveram como um abraço.
— Você ainda está fugindo, não está? — ele perguntou, parando ao lado dela, as mãos apoiadas no parapeito de vidro.
— Eu não sei como não fugir, Emanuel. Eu olho para vocês e vejo uma vida pronta. Eu sinto que, se eu entrar, vou ser apenas um apêndice. Uma distração.
Emanuel virou-se para ela, a expressão endurecida pela seriedade.
— Nunca mais diga isso. Você não é uma distração. Você é a peça que faltava para o quadro fazer sentido. Eu sou um homem prático, Eduarda. Eu construí tudo o que tenho com lógica e esforço. Mas quando eu te vi naquela casa de campo, com aquela sapatilha na mão e aquele olhar de quem vê cores onde eu só vejo cinza... eu soube que minha lógica tinha falhado.
Ele deu um passo para mais perto, invadindo o espaço pessoal dela. Eduarda não recuou desta vez. Ela estava cansada de fugir.
— Eu tenho medo de me perder em você — ela confessou, a voz embargada. — Você é tão forte, tão controlador... e eu sou tão... eu.
— Então se perca — ele sussurrou, inclinando a cabeça. — Eu te encontro todas as vezes. Eu prometo.
Emanuel selou a promessa com um beijo. Não foi um beijo agressivo ou possessivo, como Eduarda temia que fosse o toque de um homem como ele. Foi um beijo lento, exploratório, carregado de uma doçura que contrastava com sua aparência bruta. Ele a tratava como se ela fosse feita de cristal soprado, uma raridade que exigia todo o cuidado do mundo.
Eduarda soltou um suspiro contra os lábios dele, suas mãos subindo hesitantes para tocar os ombros largos de Emanuel. Por um momento, as dúvidas sobre a igreja, o sacramento e o julgamento da sociedade desapareceram. Havia apenas o calor, a segurança e a sensação de que, talvez, o caos não fosse tão ruim se fosse vivido nos braços dele.
Quando se afastaram, Emanuel encostou a testa na dela.
— Fique aqui esta noite. No quarto de hóspedes. Só para eu saber que você está segura.
— Emanuel...
— Por favor, Duda. A Sara também quer. Ela gosta de saber que você está por perto.
Eduarda olhou para dentro do apartamento, para a vida luxuosa e complexa que a convidava a entrar. Ela pensou em seus pais, em suas aulas de história da arte, em sua vida simples e linear. E depois olhou para Emanuel, o homem que parecia carregar o peso do mundo nos ombros, mas que agora a olhava com uma vulnerabilidade que só ela parecia despertar.
— Tudo bem — ela anuiu. — Eu fico.
Naquela noite, Eduarda deitou-se em lençóis de fios egípcios, ouvindo o silêncio do apartamento de luxo. Ela sabia que a batalha interna estava longe de terminar. O desejo de um casamento tradicional ainda ardia em seu peito como uma promessa não cumprida, uma ferida de sua criação católica e romântica. Mas, ao fechar os olhos, ela ainda sentia o toque de Emanuel em sua pele.
Enquanto isso, no quarto principal, Sara estava aninhada no peito de Emanuel.
— Ela ficou, não ficou? — Sara perguntou, a voz sonolenta.
— Ficou — Emanuel respondeu, acariciando os cabelos loiros da esposa enquanto olhava para a porta, como se pudesse ver através das paredes até onde Eduarda estava.
— Eu te disse — Sara sorriu, fechando os olhos. — Ninguém resiste a você por muito tempo, meu amor. E ninguém resiste à promessa de ser amada por nós dois.
Emanuel não disse nada. Ele apenas apertou Sara contra si, sentindo o movimento leve de Valentina em seu ventre, enquanto sua mente traçava planos para conquistar, centímetro a centímetro, o coração da bailarina que temia o amor, mas que já estava irremediavelmente presa em sua teia. O equilíbrio era precário, o caminho era tortuoso, mas Emanuel era um mestre em desenhar destinos na pele e na alma. E ele não pretendia deixar Eduarda escapar.