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O Sacrário do Desejo e a Promessa de Branco
A luz da manhã entrava pelas janelas de vidro do estúdio de ballet, criando padrões geométricos no chão de madeira clara. Eduarda estava sozinha, o silêncio sendo quebrado apenas pelo som rítmico de sua respiração e pelo leve impacto de suas sapatilhas contra o piso. Ela dançava sem música, seguindo uma melodia interna que era, ao mesmo tempo, melancólica e urgente. Cada *plié*, cada *pirouette*, era uma tentativa de organizar o caos que sua vida havia se tornado desde que Emanuel e Sara decidiram que ela era a peça que faltava no quebra-cabeça deles.
Ela parou diante do espelho, observando seu próprio reflexo. O suor brilhava em sua pele pálida, e seus olhos castanhos pareciam maiores, mais profundos, carregados de uma exaustão que o sono não conseguia curar. A estadia na cobertura na noite anterior havia sido um erro, ela pensava. O conforto, o luxo, a sensação de ser protegida por Emanuel e acolhida por Sara eram sedutores, mas eram como uma droga que anestesiava sua verdadeira essência.
Eduarda aproximou-se do espelho e tocou o próprio rosto. Ela era uma mulher de vinte anos, estudante de História da Arte, uma bailarina que acreditava na pureza das linhas e na eternidade dos clássicos. E, acima de tudo, ela era uma moça que, desde pequena, entrava na igreja da paróquia local, observava as imagens dos santos e sonhava com o dia em que caminharia pelo corredor central, vestida de branco, sob o olhar de Deus e da comunidade, para se tornar "uma" com o homem que amava.
— O que eu estou fazendo? — sussurrou ela para o vazio da sala.
A porta do estúdio se abriu e o som de saltos altos ecoou. Sara entrou, radiante em um conjunto de linho amarelo vibrante que destacava seu bronzeado e a barriga de cinco meses. Ela carregava dois copos de café gelado e um sorriso que poderia iluminar uma cidade inteira.
— Sabia que te encontraria aqui, Duda — disse Sara, aproximando-se e estendendo um dos copos. — Você foge para o trabalho como eu fujo para o shopping. É um vício, querida.
Eduarda aceitou o café, forçando um sorriso.
— Eu precisava ensaiar, Sara. Tenho uma apresentação no final do mês.
— Você precisa é relaxar — Sara sentou-se em um banco lateral, cruzando as pernas e observando a prima com aquele olhar clínico e inteligente. — Emanuel está uma fera hoje. Ele não gosta quando você sai de mansinho antes de ele acordar. Ele sente que você está escapando pelos dedos dele.
Eduarda suspirou, sentando-se no chão, as pernas esticadas.
— Sara... eu não posso continuar com isso. Ontem à noite, na varanda... o Emanuel me beijou.
— Eu sei, ele me contou — Sara deu de ombros, sem um pingo de ciúme. — Ele estava radiante. Disse que você finalmente parou de lutar contra o que sente.
— Mas esse é o problema! — Eduarda exclamou, a voz subindo um tom. — Eu não parei de lutar. Eu apenas fraquejei. Sara, você não entende? Eu amo você, você é minha família. E eu... eu estou terrivelmente encantada pelo Emanuel. Mas eu não sou você. Eu não consigo viver nessa liberdade sem regras.
Sara inclinou a cabeça, a expressão suavizando-se.
— E o que você quer, Duda? O que é tão importante que você está disposta a abrir mão da segurança e do amor que o Emanuel pode te dar?
Eduarda olhou para as próprias mãos, os dedos finos e calejados pelo esforço da dança.
— Eu quero o sacramento, Sara. Eu quero o altar. Eu quero a igreja cheia, o véu, a promessa de exclusividade diante de algo maior que nós dois. Eu quero ser a esposa, não a... a terceira pessoa de um arranjo moderno.
Sara soltou um suspiro longo, deixando o sarcasmo de lado por um momento.
— O altar é só um pedaço de madeira, Duda. E a igreja é um prédio. O que importa é o que acontece dentro de casa, entre quatro paredes. O Emanuel é fiel, sabia? Ele é fiel aos sentimentos dele. Ele nunca mentiria para você.
— Mas ele já é casado com você! — Eduarda sentiu as lágrimas arderem. — No papel, na vida, no filho que você carrega. Para o mundo e para Deus, ele é seu. Onde eu fico nessa história? Eu serei a "outra" eterna, a prima que vive às custas da bondade de vocês?
— Você seria nossa — Sara disse com firmeza. — Mas eu entendo. Você é uma romântica incurável, daquelas que prefere sofrer por um ideal do que ser feliz na realidade.
Sara levantou-se e caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— O Emanuel vai vir te buscar hoje. Ele quer te levar para ver um imóvel. Um estúdio de dança novo que ele quer comprar para você. Pense bem, Duda. O mundo lá fora é frio. Aqui dentro, com a gente, você nunca mais terá frio.
***
O resto do dia foi um borrão para Eduarda. Ela tentou se concentrar nas aulas de História da Arte, mas as imagens de catedrais góticas e pinturas renascentistas apenas reforçavam seu desejo pelo sagrado. Ela via a Pietà e pensava na dor da entrega; via os afrescos de Rafael e pensava na harmonia que ela não conseguia encontrar.
Ao sair da faculdade, lá estava ele. O carro preto, a presença imponente, o olhar que parecia despir sua alma. Emanuel não disse nada, apenas abriu a porta para ela.
— Sara me disse que você está em crise — Emanuel começou, enquanto dirigia pelas ruas movimentadas. Sua voz era calma, mas havia uma tensão na mandíbula que denunciava seu estresse.
— Não é uma crise, Emanuel. É uma conclusão — Eduarda respondeu, apertando a alça da bolsa contra o peito. — Eu não pertenço a esse mundo de vocês.
— Esse mundo é o único que pode te proteger, Eduarda. Você é sensível demais, doce demais. Se eu te deixar ir, o mundo vai te quebrar em mil pedaços.
— E se eu preferir ser quebrada do que ser mantida em uma gaiola de ouro onde eu não sou a prioridade?
Emanuel freou o carro bruscamente no acostamento de uma rua arborizada e deserta. Ele se virou para ela, os olhos escuros brilhando com uma intensidade quase assustadora.
— Você acha que não é prioridade? Eduarda, eu passo metade do meu dia pensando em como te fazer sorrir. Eu comprei flores que você gosta, eu pesquisei sobre ballet, eu estou disposto a construir um império só para você ter onde dançar. A Sara te quer por perto tanto quanto eu. O que mais você precisa?
— Eu preciso do que você não pode me dar — Eduarda disse, a voz trêmula, mas decidida. — Eu preciso de um casamento, Emanuel. De um compromisso que seja reconhecido por Deus. Eu quero entrar na igreja de branco. Eu quero ser a única mulher na vida de um homem, não porque ele é possessivo, mas porque ele escolheu ser só meu, como eu seria só dele.
Emanuel soltou uma risada amarga, batendo com a mão no volante.
— A igreja. O branco. Você está disposta a jogar fora o que temos por causa de uma convenção social e religiosa?
— Não é uma convenção para mim! — ela gritou, as lágrimas finalmente caindo. — É quem eu sou! Eu cresci ouvindo que o amor é um sacrifício de exclusividade. Eu sou manhosa, Emanuel, eu sou insegura, eu preciso saber que eu sou a escolhida, não a convidada para um banquete que já estava servido.
Emanuel estendeu a mão e puxou-a para perto, forçando-a a olhar para ele. A fragilidade dela era sua maior fraqueza, e ele sentia uma vontade irracional de simplesmente levá-la para longe, para um lugar onde não houvesse igrejas, primas ou lojas de roupas.
— E se eu te der tudo o que for humanamente possível? — ele sussurrou, o rosto a centímetros do dela. — Se eu fizer uma cerimônia só nossa? Se eu te der um anel, se eu fizer uma promessa de sangue na sua pele?
— Não é a mesma coisa — Eduarda soluçou, escondendo o rosto no peito dele. O perfume dele a entorpecia, o calor de seu corpo era o seu porto seguro, mas sua mente gritava que ela estava se perdendo. — Eu olho para a Sara e vejo a Valentina. Eu vejo a vida que vocês têm. Eu sempre serei a sombra, Emanuel. A sombra loira da Sara é brilhante e vulgar, ela ocupa todo o espaço. E eu... eu sou apenas o eco.
Emanuel a abraçou com força, sentindo o corpo esguio dela tremer em seus braços. Ele era um homem de ação, de lógica, de controle. Mas ali, com Eduarda desmoronando em seu peito, ele se sentia impotente.
— Eu não vou desistir de você — ele afirmou, a voz vibrando contra o topo da cabeça dela. — Você pode sonhar com o seu vestido branco e com o seu altar, mas enquanto você não encontra esse seu fantasma de perfeição, você é minha. Eu vou te mostrar que o amor real, o amor que aceita o imperfeito, é muito mais forte do que qualquer dogma.
— Você está sendo cruel — ela murmurou.
— Estou sendo realista — ele corrigiu, afastando-a apenas o suficiente para olhar em seus olhos. — Vamos para casa. A Sara preparou um jantar especial. Ela quer discutir os detalhes da loja nova, e ela quer a sua opinião sobre a decoração da vitrine.
Eduarda limpou as lágrimas, sentindo-se exausta. A fuga parecia impossível quando o predador era tão gentil e a cúmplice era sua própria prima.
***
O jantar foi, como sempre, uma exibição da dinâmica peculiar do casal. Sara falava sobre tecidos e tendências, enquanto Emanuel observava Eduarda com uma possessividade silenciosa. Eduarda tentava participar, mas sua mente estava longe, na pequena capela perto da casa de seus pais, onde ela costumava rezar quando era criança.
— Duda, você está no mundo da lua — Sara disse, rindo enquanto servia uma porção de risoto. — Aposto que está pensando no tal casamento na igreja que você mencionou para o Emanuel.
Eduarda congelou, o garfo a meio caminho da boca.
— Ele te contou?
— Ele me conta tudo, querida. Não temos segredos — Sara piscou, ajeitando o decote generoso. — E quer saber? Eu acho fofo. É vintage. É retrô. Mas, Duda, pense bem... você prefere um homem que te dê um papel assinado e depois te traia com a secretária, ou um homem como o Emanuel, que te dá o mundo e tem a aprovação da própria esposa para te amar?
— Não é sobre traição, Sara. É sobre... dignidade. Sobre ter um lugar legítimo.
— E o que é mais legítimo do que ser amada por nós? — Sara inclinou-se para frente, a expressão subitamente séria. — Nós somos sua família, Duda. Nós somos as pessoas que realmente conhecem você. O mundo lá fora só quer te usar. Aqui, você é rainha. Ou princesa, se preferir o título mais delicado.
Emanuel colocou a mão sobre a de Eduarda na mesa. O toque era quente, firme, uma âncora que ela não sabia se queria soltar.
— Fique conosco este fim de semana na casa de campo de novo — ele sugeriu. — Sem festas, sem parentes. Apenas nós três. Vamos conversar, sem pressões. Eu quero que você veja como a vida pode ser simples se você parar de lutar contra o que o seu coração já aceitou.
Eduarda olhou de um para o outro. Sara, com sua beleza vulgar e sua confiança inabalável; Emanuel, com sua força bruta e seu cuidado meticuloso. Eles eram um redemoinho que a puxava para o fundo, mas o fundo era tão quente, tão seguro.
— Eu vou — ela disse, finalmente. — Mas eu não prometo nada. Eu ainda quero o meu branco, Emanuel. Eu ainda quero o meu altar.
Emanuel sorriu, um brilho de triunfo cruzando seus olhos.
— O branco pode esperar, Eduarda. Por enquanto, aceite as cores que nós temos para te oferecer.
Naquela noite, Eduarda não conseguiu dormir. Ela caminhou até a varanda e olhou para o céu escuro da cidade. Em sua mente, ela via a si mesma caminhando pelo corredor da igreja, mas o rosto do noivo estava sempre em sombras. E, no fundo da igreja, sentada no último banco, estava Sara, sorrindo e segurando a mão de Emanuel.
Ela percebeu, com um aperto no coração, que talvez o seu sonho de infância estivesse sendo manchado pela realidade da carne. Ela queria o sagrado, mas o profano tinha o rosto de Emanuel e a voz de Sara. E, enquanto ela tentava fugir, seus pés de bailarina a levavam, cada vez mais, para o centro daquele palco onde ela nunca seria a única estrela, mas onde ela nunca, jamais, estaria sozinha.
A batalha entre a fé em um ideal e a fome de ser amada estava apenas começando, e Eduarda, manhosa e sensível, sabia que sua resistência era como o tule de suas saias: bonito, delicado, mas incapaz de suportar o peso de um homem que decidiu que ela seria dele, a qualquer custo.