Voltar ao resumo

D

O Labirinto de Vidro e a Ausência do Traço

O silêncio no apartamento de Eduarda era quase ensurdecedor. Diferente da cobertura de Emanuel, onde o ar parecia vibrar com o poder dele e a exuberância de Sara, aqui tudo cheirava a lavanda e papel antigo. Ela estava sentada no chão do seu pequeno quarto, cercada por livros de História da Arte, mas seus olhos não conseguiam focar nas gravuras. A decisão fora tomada no meio da madrugada, entre soluços abafados no travesseiro: ela precisava ir embora. Não da cidade, mas da órbita deles.

Eduarda pegou o celular. Havia doze chamadas perdidas de Emanuel e uma sucessão de mensagens de Sara, alternando entre memes engraçados e perguntas preocupadas sobre o enxoval da Valentina. O coração dela doeu. Ela amava a prima, amava a energia caótica de Sara, e sentia uma atração por Emanuel que beirava o masoquismo emocional. Mas a imagem dela mesma entrando em uma igreja, o véu arrastando no chão e a promessa de exclusividade diante de um altar, era um fantasma que não a deixava em paz.

Ela não podia ser a "terceira". Não conseguia conciliar a pureza que buscava na arte e na fé com a realidade de um homem que a queria como um complemento de sua vida já estabelecida.

Com as mãos trêmulas, ela digitou uma mensagem curta para o grupo que os três compartilhavam, antes de sair dele e bloquear os números.

"Eu preciso de espaço. Por favor, não me procurem. Eu amo vocês, mas não desse jeito. Eu não consigo ser o que vocês querem."

***

Do outro lado da cidade, no escritório principal de um de seus estúdios de tatuagem, Emanuel encarou a tela do celular com uma expressão que faria seus funcionários mais valentes tremerem. Ele jogou o aparelho sobre a mesa de carvalho, o som do impacto ecoando pelas paredes decoradas com esboços originais de arte sacra e biomecânica.

— Ela foi embora — murmurou ele, a voz soando como um trovão distante.

Sara, que estava sentada em uma poltrona de couro giratória, lixando as unhas com uma indiferença que Emanuel sabia ser falsa, parou o movimento. Ela usava um vestido de leopardo justo e seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável.

— Ela bloqueou a gente, Emanuel — disse Sara, soltando um suspiro pesado. — A pequena bailarina finalmente criou espinhos. Eu te disse que ela era sensível demais para esse nosso jogo de empurra.

— Não é um jogo, Sara. Você sabe que não é — Emanuel levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, a tensão nos ombros quase rompendo o tecido de sua camisa social escura. — Eu a quero. Eu preciso dela aqui. O equilíbrio sumiu.

— Eu sei que sumiu. Eu também sinto falta dela — Sara levantou-se com certa dificuldade, a barriga de cinco meses exigindo um esforço extra. Ela caminhou até o parceiro e colocou a mão em seu peito, sentindo o coração dele galopar. — Mas a Duda é uma romântica, Emanuel. Ela quer o pacote completo. O "felizes para sempre" com bênção do padre e papel assinado.

Emanuel parou e olhou para Sara. Seus olhos observadores, geralmente tão racionais, estavam nublados por uma frustração profunda.

— Nós não somos casados, Sara. Nunca assinamos nada. O que temos é um compromisso de vida, de alma. Por que para ela um pedaço de papel vale mais do que a minha devoção?

— Porque ela é a Eduarda — Sara deu de ombros, um sorriso irônico surgindo em seus lábios pintados de vermelho vibrante. — Ela quer ser a noiva. E, sejamos honestos, você nunca me deu um anel de noivado porque eu nunca fiz questão. Eu queria o seu dinheiro, o seu corpo e o seu respeito. Eu tenho os três. Mas ela... ela quer o seu nome diante de Deus.

Emanuel afastou-se, indo até a janela que dava para a movimentada avenida. Ele era um homem rico, influente, dono de seu próprio destino. Mas ali, diante da ausência de uma menina de vinte anos que cheirava a resina de ballet, ele se sentia um amador.

— Se eu der a ela o que ela quer... se eu me casar com ela, o que acontece com você? — perguntou ele, sem se virar.

Sara soltou uma risada curta, sem humor.

— Emanuel, eu sou a mãe da sua filha. Eu sou a mulher que administra a sua vida social e que te peita quando você está sendo um idiota. Eu não ligo para títulos. Se você casar com ela na Catedral da Sé com mil convidados, eu ainda vou ser a mulher que dorme do seu lado esquerdo e que sabe exatamente onde você guarda os esboços que nunca mostra a ninguém.

Ela caminhou até ele e abraçou-o por trás, descansando a bochecha em suas costas largas.

— Eu não me sinto ameaçada pela Duda. Eu me sinto incompleta sem ela. Se a solução para trazer a nossa bailarina de volta for um altar e um vestido branco, então dê isso a ela. Eu serei a madrinha mais vulgar e siliconada que aquela igreja já viu.

Emanuel fechou os olhos. A ideia era absurda. Um homem com duas mulheres, casando-se com uma enquanto vivia com a outra e esperava um filho. Mas ele sabia que, no mundo em que viviam, as regras eram feitas para serem quebradas por quem tinha poder suficiente para sustentar a quebra.

***

Uma semana se passou. Eduarda tentou se afundar na rotina. Ela dava aulas de ballet para as crianças de manhã, assistia às aulas de História da Arte à tarde e passava as noites estudando o Renascimento. Mas em cada pintura de Rafael, ela via o rosto de Emanuel. Em cada Vênus de Botticelli, ela via a exuberância de Sara.

Ela estava saindo da faculdade, protegendo-se da garoa fina com um lenço de seda, quando viu o vulto familiar. Não era o carro de luxo de Emanuel. Era o próprio, parado sob um poste de luz, vestindo apenas um suéter preto e calças escuras, parecendo mais vulnerável do que ela jamais o vira.

Eduarda tentou desviar o caminho, mas suas pernas de bailarina, sempre tão obedientes, traíram-na e pararam.

— Você não pode fugir para sempre, Eduarda — disse ele. A voz dele não tinha o tom de comando habitual; estava carregada de uma súplica silenciosa.

— Eu não estou fugindo, Emanuel. Estou me encontrando — ela respondeu, a voz fraca, segurando as lágrimas. — Por favor, vá embora. Vá cuidar da Sara e da Valentina.

Emanuel caminhou até ela, parando a uma distância respeitável, algo incomum para sua natureza possessiva.

— A Sara sente sua falta. A Valentina sente sua falta — ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço. — E eu... eu não consigo dormir. Eu olho para o espaço vazio na minha vida e percebo que não importa quanta tinta eu coloque na pele das pessoas, nada preenche o buraco que você deixou.

— Emanuel, nós já passamos por isso — Eduarda abraçou os próprios braços, tremendo. — Eu não posso ser a sua amante. Eu não posso viver na sombra da Sara. Eu quero o branco. Eu quero o sagrado.

Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos.

— Eu sei. Eu andei pensando, Eduarda. Pensando muito.

— E?

— E se eu te desse o branco? — ele perguntou, os olhos fixos nos dela. — E se eu te desse o altar?

Eduarda parou de tremer, o choque paralisando seus sentidos.

— Do que você está falando? Você e a Sara...

— Eu e a Sara nunca casamos, Duda — ele interrompeu, a voz firme agora. — Nós temos uma união, um compromisso. Mas não há papéis. Não há alianças. Ela não quer isso. Ela nunca quis o peso da tradição.

— Mas ela é sua mulher! Ela está grávida!

— E ela continuará sendo minha mulher. E a Valentina continuará sendo minha prioridade — Emanuel aproximou-se finalmente, segurando o rosto de Eduarda entre as mãos grandes e calejadas. — Mas se para ter você, se para te proteger e te amar como você merece, eu precisar te levar ao altar, eu farei isso. Eu me caso com você, Eduarda. Diante de quem você quiser.

Eduarda sentiu o mundo girar. A proposta era uma loucura completa. Era uma heresia aos olhos da sociedade e da igreja que ela tanto respeitava. Um homem casando-se com uma mulher enquanto mantinha outra em casa.

— Isso é loucura, Emanuel. A Sara... ela nunca aceitaria.

— Foi ideia dela, pequena — Emanuel sorriu de forma triste. — Ela quer você de volta tanto quanto eu. Ela disse que seria a sua madrinha. Ela quer que você seja a esposa "oficial", se isso for o que te traz paz.

— Esposa oficial? — Eduarda soltou uma risada nervosa, as lágrimas caindo sem controle. — E ela? O que ela seria?

— Ela seria a Sara. A mãe da minha filha. A mulher que divide a minha vida. E você seria a minha esposa. A mulher que divide a minha alma e o meu nome — ele encostou a testa na dela. — Eu quero as duas. Eu não posso escolher, Eduarda, porque escolher seria arrancar um pedaço de quem eu sou. Mas eu posso te dar o lugar que você exige.

Eduarda fechou os olhos, sentindo o conflito rasgar seu peito. De um lado, o sonho do vestido branco, do compromisso solene, da segurança de ser "a esposa". Do outro, a realidade de que ela estaria entrando em um arranjo onde o coração do seu marido nunca seria inteiramente dela.

— Eu não sei se consigo — sussurrou ela.

— Apenas venha jantar conosco amanhã — Emanuel pediu, beijando-lhe a testa. — Sem pressões. A Sara preparou algo que você gosta. Vamos conversar como adultos. Se depois disso você ainda quiser fugir, eu juro... eu juro que te deixo ir.

Eduarda olhou para ele, vendo a tensão acumulada, o estresse de quem estava tentando segurar dois mundos diferentes nas mãos. Ela era manhosa, era insegura, mas também era profundamente intuitiva. Ela via o amor ali. Um amor distorcido, talvez, mas real.

— Tudo bem — ela anuiu. — Eu vou.

***

No dia seguinte, a casa de campo da família de Sara foi o cenário escolhido para o reencontro. Emanuel queria um lugar neutro, longe da pressão da cidade. O sol estava se pondo, tingindo o céu de tons de laranja e violeta, quando Eduarda estacionou seu carro pequeno.

Sara estava na varanda, usando um vestido de seda azul que realçava seus olhos. Ao ver Eduarda, ela não esperou. Correu — dentro do possível para uma grávida — e envolveu a prima em um abraço apertado, perfumado com aquele perfume doce e vulgar que Eduarda, para sua própria surpresa, sentira falta.

— Sua bobinha! — exclamou Sara, afastando-se para olhar o rosto de Eduarda. — Você quase me matou de tédio esta semana. O Emanuel parecia um urso com dor de dente.

— Sara, eu... me desculpe.

— Esqueça isso. Vamos entrar. Temos muito o que planejar — Sara piscou, puxando-a para dentro.

Emanuel estava na sala, servindo vinho. Ele observou as duas mulheres juntas: a loira exuberante e a morena delicada. O contraste era perfeito. A força e a suavidade. O fogo e a água.

— Sente-se, Eduarda — disse Emanuel, indicando a poltrona.

O jantar foi silencioso no início, mas Sara logo quebrou o gelo, falando sobre as novas vitrines da loja e como ela queria que Eduarda ajudasse a escolher as cores para a seção infantil.

— Duda — Emanuel começou, deixando o talher de lado —, eu falei sério sobre o que disse ontem. Eu pesquisei. Podemos fazer um casamento civil e uma cerimônia religiosa em uma capela privada. Eu conheço pessoas.

Eduarda olhou para Sara, esperando ver algum sinal de dor ou ressentimento. Mas Sara estava apenas comendo seu risoto, observando a cena com uma curiosidade quase científica.

— Você não se importa, Sara? — perguntou Eduarda, a voz falhando. — De ele me dar o nome dele? De ele fazer os votos para mim?

Sara parou de comer e olhou seriamente para a prima.

— Duda, meu amor, o Emanuel já é meu de todas as formas que importam. Um papel não vai mudar o fato de que ele me ama e que vamos ter a Valentina. Mas eu vejo como você sofre. Eu vejo que você precisa dessa validação para se sentir segura. E eu amo o Emanuel o suficiente para querer que ele tenha a mulher que ele deseja ao lado dele, sem que ela se sinta uma pecadora.

— Mas e a exclusividade? — perguntou Eduarda, a insegurança gritando.

— A exclusividade é uma ilusão dos fracos, Eduarda — Emanuel interveio, sua voz ganhando aquela rigidez de comando. — A lealdade é o que importa. Eu serei leal a você. Eu serei seu marido. Eu cuidarei de você, te protegerei e te darei o altar que você sonha. E, em troca, você aceitará que a Sara faz parte de mim.

Eduarda olhou para as mãos, depois para o teto da casa de campo onde tudo começara. Ela era uma bailarina. Sua vida era sobre equilíbrio. E ali, naquele momento, ela percebeu que o equilíbrio não precisava ser uma linha reta. Podia ser um triângulo.

— Eu quero o branco — ela disse, a voz ganhando uma firmeza inesperada. — Eu quero o véu. E eu quero que meus pais estejam lá.

— Eles estarão — Emanuel prometeu. — Seus pais são modernos, eles entendem que o amor tem muitas formas.

— E eu quero ser a professora de ballet da Valentina — Eduarda acrescentou, olhando para a barriga de Sara.

Sara sorriu, os olhos brilhando.

— Isso nunca esteve em discussão, querida. Você vai ensinar a ela a ter a elegância que eu nunca tive.

Emanuel levantou-se, contornou a mesa e parou atrás de Eduarda, colocando as mãos em seus ombros. O peso era reconfortante.

— Então temos um acordo? — perguntou ele.

Eduarda inclinou a cabeça para trás, encontrando o olhar dele.

— Temos um acordo, Emanuel. Mas se você me magoar...

— Eu não vou — ele interrompeu, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dela. — Eu tenho controle sobre muitas coisas, Eduarda. Mas o que eu sinto por vocês duas é a única coisa que eu me permito não controlar.

Naquela noite, Eduarda não fugiu. Ela ficou na casa de campo. E enquanto observava Emanuel e Sara conversando na varanda sobre berços e ações da bolsa, ela sentiu que, talvez, o seu vestido branco não seria manchado pela presença de outra mulher. Talvez, o branco fosse apenas a tela onde eles três pintariam uma história que ninguém mais entenderia, mas que seria deles.

O altar estava sendo construído. Não de pedra ou madeira, mas de concessões e desejos. E Eduarda, a bailarina tímida, finalmente parou de tentar dançar sozinha. Ela aceitou a mão que lhe foi estendida, sabendo que a coreografia seria complexa, mas que a música, finalmente, parecia estar em harmonia.

Emanuel observou as duas, sentindo a tensão em seu peito finalmente ceder. Ele tinha o que queria. O controle fora restabelecido, mas de uma forma nova. Ele era o eixo central de duas vidas distintas que agora se fundiam em uma só. E enquanto a lua subia sobre a casa de campo, ele soube que, não importava o que o mundo dissesse, dentro daquelas paredes, ele era o senhor de um império construído sobre o mais volátil e sagrado dos sentimentos.