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D

O Elo de Vidro e a Dança das Sombras

A luz da manhã filtrava-se pelas enormes janelas de vidro da cobertura, iluminando o mármore frio da sala de estar. Quatro meses haviam se passado desde que a vida de Eduarda fora transmutada em uma gaiola de ouro e vigilância constante. O apartamento, embora vasto, parecia pequeno sob a presença dominante de Emanuel e a aura vibrante de Sara.

Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa, o tablet à frente exibindo gráficos de seus estúdios em Londres e Tóquio, mas seus olhos não estavam nos números. Ele observava Eduarda. Ela estava sentada em um canto do sofá, com Amélie aninhada em seu colo. A bebê era o retrato da mãe: traços finos, pele de porcelana e um temperamento tão doce e silencioso que, às vezes, Emanuel se esquecia de que ela estava ali. Amélie era um grude, recusando-se a ficar com qualquer pessoa que não fosse Eduarda, reagindo com um choro contido e tremores se fosse afastada do calor da bailarina.

Já Benício, deitado em um tapete de atividades próximo aos pés de Emanuel, era o oposto. Com quatro meses, ele já demonstrava a força e a impaciência do pai. Ele chutava, tentava rolar e emitia grunhidos altos de frustração.

— Ele vai ser um problema quando começar a andar — comentou Sara, entrando na sala com o barulho característico de seus saltos agulha.

Sara usava um robe de seda rosa choque, curto o suficiente para mostrar as pernas torneadas, e seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito. Ela se inclinou sobre Emanuel, deixando um beijo carregado de batom vermelho em sua bochecha antes de se sentar ao lado dele.

— Bom dia, querido. Bom dia, Duda. Dormiu bem ou o pequeno furacão te deu trabalho?

Eduarda levantou os olhos castanhos, ainda marcados por uma sombra de cansaço e a eterna insegurança que a acompanhava.

— Benício acordou três vezes — sussurrou ela, ajeitando Amélie. — Ele só se acalma quando mama. Parece que ele tem pressa de tudo.

Emanuel desviou o olhar do tablet para a esposa. Sua expressão, que costumava ser rígida na presença de Eduarda, suavizou-se instantaneamente para Sara. Ele estendeu a mão e acariciou a nuca da loira.

— Tenho algo para você, Sara. Está no escritório.

Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios.

— Presentes logo cedo? O que eu fiz para merecer isso?

— Você mantém esta casa em ordem — disse Emanuel, sua voz ganhando aquele tom grave e possessivo que fazia Eduarda estremecer no sofá. — E porque você é a mulher que está ao meu lado, não importa o caos.

Emanuel se levantou e caminhou até o escritório, retornando momentos depois com uma caixa de veludo negro. Ele a colocou diante de Sara. Ao abrir, a loira soltou um suspiro de satisfação. Era um colar de diamantes e esmeraldas, uma peça exclusiva que brilhava com a mesma intensidade que os olhos dela.

— É maravilhoso, Emanuel! — Sara exclamou, pegando a joia e já correndo para o espelho do corredor. — Combina perfeitamente com o vestido que comprei para a inauguração da nova loja.

Eduarda observava a cena em silêncio. Havia uma pontada de tristeza em seu peito, não por inveja do colar, mas pela clareza da hierarquia. Sara era a rainha, a parceira, a confidente. Ela, Eduarda, era a transgressora perdoada apenas pela metade, a mãe dos filhos dele que vivia sob liberdade condicional.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda, a frieza retornando ao seu olhar.

— Soube que sua apresentação é hoje à noite.

Eduarda engoliu em seco, apertando Amélie um pouco mais contra si.

— Sim. É o espetáculo de encerramento do semestre da companhia. Eu... eu ensaiei muito nos últimos meses, mesmo com os bebês.

— Você vai — afirmou Emanuel, não como um incentivo, mas como uma ordem monitorada. — Sara e eu estaremos lá. Valentina ficará com a babá, mas levaremos os gêmeos. Não quero você longe da minha vista por tanto tempo, e Benício não vai aguentar ficar sem você se a apresentação atrasar.

— Mas Emanuel, os bebês no teatro... o barulho... — Eduarda tentou argumentar, a timidez lutando contra o bom senso.

— Nós ficaremos no camarote privado, Eduarda — interrompeu ele, a voz cortante. — Não discuta. Você vai dançar, vai fazer o que sabe, e depois voltaremos todos para casa. Juntos.

Sara voltou do espelho, o colar já brilhando em seu pescoço.

— Deixe a menina dançar, Emanuel. Ela precisa descarregar essa energia de "coitadinha" no palco. E eu quero ver se ela ainda tem a leveza de antes depois de ter tido dois de uma vez.

Eduarda baixou a cabeça, o cabelo castanho escondendo seu rosto. Ela sentia o peso da expectativa dele e o escrutínio dela.

***

O Teatro Municipal estava lotado. Nos bastidores, o cheiro de pó de arroz, resina e suor preenchia o ar. Eduarda, vestida com um figurino de tule azul pálido que realçava sua pele clara e seus ombros delicados, sentia o coração martelar contra as costelas. Ela se olhou no espelho, retocando o batom suave. Seus seios, ainda pesados pela amamentação, estavam firmemente comprimidos pelo corpete do figurino, e ela sentia uma leve fisgada de desconforto.

— Duda, você está linda — disse uma das colegas de ballet. — Mas você parece que vai desmaiar.

— É só o nervosismo — mentiu ela.

A verdade era que ela sentia o olhar de Emanuel mesmo através das cortinas grossas. Ela sabia exatamente onde ele estaria: no camarote central, nas sombras, observando cada movimento dela, julgando se ela ainda era a "boneca doce" que ele desejava ou a "mentirosa" que ele ainda não perdoara totalmente.

Quando a música começou — um adágio melancólico de Chopin —, Eduarda entrou no palco. No início, seus movimentos eram hesitantes. Ela sentia o corpo pesado, a mente dividida entre os passos e a preocupação com Benício. Mas então, ela olhou para o camarote.

Lá estava ele. Emanuel estava sentado na penumbra, a postura impecável, segurando Benício, que se debatia em seu colo. Ao lado dele, Sara brilhava como uma chama loira, segurando a pequena Amélie.

Ao ver o filho inquieto no colo do pai, algo mudou em Eduarda. A dança deixou de ser técnica e tornou-se um apelo. Ela flutuava pelo palco, cada *grand jeté* parecendo um esforço para alcançar a liberdade que não possuía, cada *plié* uma submissão à gravidade de sua realidade. Ela era fluida, etérea, uma visão de pura arte que silenciou a plateia.

No camarote, a irritação de Emanuel começou a ceder lugar a algo mais perigoso: o encantamento. Ele apertou Benício contra o peito, sentindo o coração do menino bater rápido.

— Ela é boa, não é? — sussurrou Sara, observando a prima com um olhar clínico. — Tem uma fragilidade que atrai, como um passarinho ferido. Você quer curar, mas também quer ver se ela ainda consegue voar dentro da gaiola.

Emanuel não respondeu. Ele estava hipnotizado pela forma como a luz seguia Eduarda. Ele a amava. Amava de uma forma possessiva e sombria que o assustava. Ele queria Sara para governar o mundo ao seu lado, mas queria Eduarda para ser o seu refúgio, a sua pureza, a mãe de seus filhos que ele manteria protegida — e escondida — de tudo.

Subitamente, um choro alto e agudo ecoou pelo teatro, vindo do camarote. Benício havia perdido a paciência. O som rompeu a magia da música. Eduarda, no meio de uma pirueta, vacilou. Seus olhos dispararam para o camarote. O instinto materno gritou mais alto que a disciplina da bailarina.

Emanuel se levantou imediatamente, a fúria voltando ao seu rosto por ter o controle da situação quebrado pelo choro do filho. Sara tentou pegar o bebê, mas Benício gritava, o rosto ficando vermelho, os pequenos punhos cerrados.

Eduarda terminou a sequência de forma mecânica, o rosto pálido. Assim que as cortinas se fecharam para o intervalo, ela não esperou os aplausos. Ela correu para as coxias, subindo as escadas em direção ao camarote, ignorando os chamados do diretor da companhia.

Ao abrir a porta do camarote, ela encontrou um cenário de caos controlado. Sara tentava distrair Amélie, que começara a chorar por reflexo, enquanto Emanuel caminhava de um lado para o outro com Benício, que berrava a plenos pulmões.

— Me dá ele! — pediu Eduarda, ofegante, o figurino subindo e descendo com sua respiração acelerada.

Emanuel entregou o menino bruscamente.

— Ele é igual a você, Eduarda. Não sabe se comportar quando as coisas não saem do jeito dele.

Eduarda ignorou o insulto. Ela se sentou em uma cadeira de canto, desabotoando a parte superior do figurino com mãos trêmulas, sem se importar com a presença de Sara ou dos seguranças na porta. Assim que Benício sentiu o contato da pele da mãe e o cheiro do leite, seu choro cessou instantaneamente. Ele se agarrou a ela, sugando com uma urgência faminta.

O silêncio que se seguiu foi denso. Eduarda cobriu o seio com um lenço de seda, os olhos baixos, a maquiagem de palco começando a borrar com o suor.

— Você arruinou o final do primeiro ato — disse Emanuel, sua voz baixa e vibrante de uma irritação contida. Ele se aproximou dela, ficando de pé, projetando sua sombra sobre a mulher e o filho. — Todos viram você vacilar.

— Ele precisava de mim, Emanuel — ela respondeu, com uma coragem súbita que vinha da maternidade. — Eu sou a mãe dele. Você pode me trancar naquela cobertura, pode me vigiar o dia todo, mas não pode mudar o fato de que ele só se acalma comigo.

Sara soltou uma risada curta, ajeitando o colar de esmeraldas.

— Ora, a gatinha tem garras. Cuidado, Emanuel, ou ela vai acabar achando que tem voz nesta família.

Emanuel segurou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhar para ele. Seus dedos, marcados por tatuagens que contavam histórias de rebeldia e sucesso, contrastavam com a pele macia dela.

— Você tem razão, Eduarda. Você é a mãe. E é por isso que você nunca mais vai esconder nada de mim. Porque, se o fizer, eu garanto que a próxima vez que você subir em um palco, será a última.

Ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela, de modo que apenas ela pudesse ouvir, enquanto Sara observava com um sorriso divertido.

— Eu te amo, Duda. Amo tanto que dói. Mas a minha dor é o que vai manter você na linha. Agora, termine de amamentar o meu filho. Nós vamos para casa. A festa acabou.

Eduarda sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela olhou para Amélie, que agora dormia no colo de Sara, e para Benício, que mamava tranquilamente em seu peito. Ela estava no centro de um furacão, amada por um homem que a via como uma propriedade preciosa e protegida por uma mulher que a via como um acessório necessário.

— Eu vou trocar de roupa — disse ela, a voz sumindo.

— Não — ordenou Emanuel, seus olhos escaneando o corpo dela no figurino justo. — Você vai assim. Quero que todos no trajeto até o carro vejam o que é meu. A bailarina e a mãe. Minha e da Sara.

Sara se levantou, pegando sua bolsa de grife.

— Vamos, querido. Valentina deve estar sentindo falta do barulho. E eu quero estrear esse colar em um jantar de verdade, não em um teatro cheio de gente suada.

Eles saíram do camarote como uma unidade estranha e poderosa. Emanuel na frente, exalando autoridade; Sara ao seu lado, a personificação do luxo e da confiança; e Eduarda atrás, segurando Benício contra o peito, ainda vestida de tule e sonhos quebrados, caminhando para a segurança sufocante da vida que outros haviam desenhado para ela.

Naquela noite, enquanto os bebês dormiam em seus berços de design na cobertura luxuosa, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na cama, escovando os cabelos castanhos. Ele não disse nada. Apenas se aproximou e tirou da gaveta uma pequena pulseira de ouro, fina e delicada, com dois pingentes: um menino e uma menina.

Ele a prendeu no pulso dela com uma firmeza que era quase um aviso.

— Um presente, Eduarda. Para você não esquecer a quem pertence o seu tempo.

— Obrigada, Emanuel — sussurrou ela, sentindo o metal frio contra a pele.

— Não me agradeça — disse ele, beijando-lhe a testa com uma ternura que a confundia. — Apenas não me traia de novo. Porque a próxima joia que eu colocar em você pode não ser tão fácil de tirar.

Ele saiu, fechando a porta atrás de si, deixando Eduarda na penumbra, dividida entre o amor que sentia por aquele homem complicado e o medo do futuro que a aguardava nos braços dele e sob o olhar vigilante de Sara. A dança continuava, mas agora, a música era ditada apenas por Emanuel.