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O Peso das Correntes de Ouro
O sol da tarde batia nas janelas panorâmicas da cobertura, refletindo-se no piso de porcelanato tão limpo que parecia um espelho. No centro da sala, um cercadinho de luxo delimitava o território dos bebês, mas a dinâmica ali dentro era tudo menos infantil. Valentina, agora com oito meses, estava sentada como uma pequena rainha sobre um tapete de pele sintética. Ela vestia um conjunto de grife em tons de dourado, presente de Emanuel, e segurava um mordedor cravejado de cristais que Sara insistira em comprar.
Valentina já demonstrava a personalidade da mãe. Quando Amélie, sempre silenciosa e retraída, tentava se aproximar de um brinquedo, Valentina simplesmente o puxava para si com um olhar de desdém que parecia avançado demais para sua idade. Ela não chorava; ela exigia. E, invariavelmente, era atendida.
— Olhe para ela, Emanuel — disse Sara, saindo do closet principal com um vestido de seda vermelha que abraçava cada curva de seu corpo siliconado. — Ela tem o meu olhar. Já sabe que o mundo pertence a ela.
Emanuel, que estava revisando alguns contratos no sofá, levantou os olhos e sorriu. Era um sorriso raro, reservado apenas para Sara. Ele se levantou e caminhou até a esposa, envolvendo sua cintura com possessividade e depositando um beijo demorado em seu pescoço, ignorando completamente a presença de Eduarda, que estava sentada no chão, perto do cercadinho, dobrando algumas roupas dos gêmeos.
— Ela é perfeita, Sara. Exatamente como a mãe — Emanuel murmurou, a voz carregada de uma admiração que nunca escondia. — Comprei aquela loja de departamentos que você queria. O contrato está na mesa. É seu presente de aniversário adiantado.
Sara soltou uma risada triunfante e jogou a cabeça para trás, os cabelos loiros platinados brilhando sob a luz.
— Você me mima demais, querido. Mas eu mereço, não mereço?
— Merece tudo o que o meu dinheiro puder comprar — respondeu ele, apertando-a contra si.
Eduarda assistia à cena com o coração apertado. O contraste era doloroso. Emanuel tratava Sara como uma divindade, cobrindo-a de luxo e afeto público, enquanto para ela, Eduarda, restavam as ordens, a vigilância e os momentos de intimidade sombria e silenciosa durante a madrugada, quando ele a buscava no quarto de hóspedes como se ela fosse um segredo proibido.
Sentindo a tristeza da mãe, Benício, que estava tentando se equilibrar nas quatro patas para engatinhar, soltou um resmungo alto. O menino, também com oito meses, era a imagem esculpida de Emanuel, mas seus olhos, embora escuros, tinham a doçura melancólica de Eduarda. Ele se arrastou até a perna da mãe e se apoiou nela, levantando-se com esforço.
Emanuel se afastou de Sara e olhou para o filho. Sua expressão endureceu levemente. A relação com Benício era tensa. O bebê parecia sentir a hostilidade que o pai direcionava à Eduarda e, mesmo tão pequeno, reagia a ela.
— Ele ainda não está andando direito? — perguntou Emanuel, o tom de voz mudando de melífluo para exigente. — Valentina já fica de pé sozinha por quase um minuto.
— Ele tem o tempo dele, Emanuel — respondeu Eduarda baixinho, sem levantar o olhar. — O pediatra disse que o desenvolvimento motora dele está ótimo.
Emanuel deu um passo à frente, a presença física intimidante fazendo Eduarda encolher os ombros.
— Não quero desculpas. Quero que meus filhos sejam os melhores. Benício precisa de mais estímulo, e menos desse seu dengo excessivo, Eduarda. Você o carrega demais no colo. Está criando um menino fraco.
— Eu não o crio fraco! — Eduarda exclamou, a voz tremendo de indignação reprimida. — Eu dou a ele o amor que ele precisa.
Emanuel soltou um bufo de escárnio e estendeu a mão para pegar o filho, com a intenção de colocá-lo no andador que ficava no canto da sala.
— Venha aqui, campeão. Vamos sair desse chão.
O que aconteceu a seguir surpreendeu a todos na sala. Assim que as mãos grandes e tatuadas de Emanuel tocaram as axilas de Benício para erguê-lo, o bebê soltou um grito agudo de protesto. Mas não era um choro de dor; era de raiva. Benício empurrou as mãos do pai com uma força surpreendente para um bebê de sua idade e, com um movimento rápido, tentou morder o polegar de Emanuel.
— Mas o que é isso? — Emanuel praguejou, recolhendo a mão por puro reflexo, embora a mordida não tivesse força para ferir.
Benício não recuou. Ele se postou firmemente entre as pernas de Eduarda, agarrando a saia de algodão da mãe com as mãos pequenas, e encarou o pai. Seus olhos escuros estavam fixos nos de Emanuel, e ele soltou um rosnado baixo, uma imitação infantil, mas clara, de um desafio.
Sara começou a rir, uma gargalhada vulgar e estridente que ecoou pelo apartamento.
— Meu Deus, Emanuel! O pirralho está te enfrentando! Ele está protegendo a "mamãezinha" dele do grande lobo mau. Que cena patética!
Emanuel sentiu o rosto esquentar. A humilhação de ser desafiado pelo próprio filho, diante de Sara, despertou a fúria que ele tentava manter sob controle. Ele deu mais um passo, a aura de violência contida tornando o ar pesado.
— Saia da frente, Eduarda — ordenou ele, a voz baixa e perigosa.
— Emanuel, por favor, ele é só um bebê... — Eduarda suplicou, abraçando Benício por trás.
— Eu disse para sair! — Ele a puxou pelo braço com força excessiva, afastando-a do menino.
Benício, vendo a mãe ser tratada com brutalidade, explodiu em um choro de fúria. Ele tentou avançar em direção aos pés de Emanuel, batendo com as mãozinhas nas canelas do pai, os olhos transbordando uma lealdade feroz à Eduarda.
Emanuel parou, olhando para o filho no chão. Havia algo naqueles olhos de bebê que o incomodava profundamente. Era um espelho de sua própria teimosia, de sua própria possessividade. Mas, no caso de Benício, essa força estava sendo usada contra ele.
— Ele me odeia — constatou Emanuel, a voz rouca de uma percepção amarga.
— Ele não te odeia — disse Eduarda, as lágrimas correndo livremente pelo rosto enquanto ela se ajoelhava para pegar o filho, que imediatamente se acalmou em seus braços, escondendo o rosto em seu pescoço. — Ele só sente o que você faz comigo. Ele sente a sua raiva.
Sara se aproximou, balançando os quadris, e tocou o ombro de Emanuel com suas unhas longas e pintadas de dourado.
— Deixe isso para lá, querido. É só um bebê confuso. Ele vai aprender quem manda aqui quando crescer. Por enquanto, foque no que importa. Valentina quer ir ao parque, e eu quero estrear meu carro novo.
Emanuel olhou para Sara, buscando nela o conforto da racionalidade fria que compartilhavam. Ele respirou fundo, tentando dissipar a irritação.
— Você tem razão. Eduarda, leve os gêmeos para o quarto. Não quero vê-los pelo resto da tarde. E prepare-se. À noite, teremos convidados, e eu quero você impecável, mesmo que fique apenas nos bastidores cuidando das crianças.
Eduarda apenas assentiu, levantando-se com Benício em um braço e pegando Amélie, que assistia a tudo com os olhos arregalados, no outro. Ela caminhou apressadamente para o corredor, sentindo o olhar de Emanuel queimando suas costas.
No quarto dos bebês, um ambiente em tons pastéis que parecia um mundo à parte do resto da casa, Eduarda sentou-se na poltrona de amamentação e chorou em silêncio. Benício acariciava seu rosto com a mãozinha gorda, enquanto Amélie se aninhava ao seu lado.
— Por que ele tem que ser assim, Benício? — sussurrou ela para o bebê. — Por que ele não pode simplesmente nos amar sem querer nos quebrar?
A porta se abriu silenciosamente. Não era Emanuel. Era Sara. A loira entrou no quarto com uma expressão de tédio, fechando a porta atrás de si. Ela caminhou até o berço de Valentina e ajeitou um dos brinquedos, antes de se virar para Eduarda.
— Você é muito mole, Duda — disse Sara, cruzando os braços sobre o peito siliconado. — Emanuel gosta de força. Ele me ama porque eu bato de frente com ele, porque eu exijo o meu lugar. Se você continuar agindo como uma serva sofredora, ele vai continuar te tratando como uma.
— Eu não sou você, Sara — Eduarda respondeu, a voz frágil, mas firme. — Eu não sei transformar amor em poder.
Sara deu de ombros, indiferente.
— Problema seu. Mas vou te dar um conselho: controle esse seu filho. Emanuel é um homem rico e poderoso, mas é instável quando se sente desafiado. Se Benício continuar tentando morder a mão que o alimenta, Emanuel vai acabar mandando ele para um internato na Suíça assim que ele fizer cinco anos. E você sabe que ele faz o que diz.
Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela olhou para Benício, que agora dormia exausto no seu colo.
— Ele nunca tiraria o Benício de mim.
— Ah, querida... você ainda não conhece o homem com quem dorme — Sara sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Ele tirou a sua virgindade, a sua liberdade e a sua dignidade. O que o impede de tirar o resto?
Sara saiu do quarto, o perfume forte e doce ficando para trás como um lembrete de sua presença dominante.
Horas depois, a cobertura estava cheia de pessoas influentes. O som de risadas e o tilintar de taças de cristal preenchiam o ar. Emanuel circulava entre os convidados com Sara em seu braço, o casal perfeito da alta sociedade. Ele exibia a esposa e a filha, Valentina, como troféus de seu sucesso.
Eduarda permanecia na cozinha ou nos quartos, garantindo que os gêmeos estivessem alimentados e trocados. Ela evitava o salão principal, mas Emanuel fazia questão de que ela aparecesse ocasionalmente para buscar algo, apenas para que ele pudesse sentir o poder de tê-la ali, sob suas ordens, enquanto a sociedade acreditava que ela era apenas uma "prima distante que ajudava com as crianças".
Perto da meia-noite, Emanuel entrou na cozinha para buscar uma garrafa de champanhe reserva. Ele encontrou Eduarda de costas, lavando uma das mamadeiras. A luz suave da cozinha realçava a linha delicada de seu pescoço e a curva de seus quadris sob o vestido simples.
A raiva da tarde havia se transformado em um desejo possessivo e urgente. Ele caminhou até ela e a abraçou por trás, enterrando o rosto em seu cabelo castanho.
— Você foi bem hoje — ele murmurou, a voz rouca pelo álcool e pela luxúria. — Manteve os gêmeos quietos.
Eduarda tentou se afastar, mas ele a apertou mais forte.
— Emanuel, os convidados... a Sara...
— A Sara está se divertindo com os sócios — disse ele, virando Eduarda para que ela ficasse de frente para ele. — E você sabe que ela não se importa. Ela quer que eu seja feliz, Duda. E você faz parte da minha felicidade.
Ele a beijou com uma intensidade que beirava a violência, reivindicando seu espaço como se estivesse tatuando sua vontade na alma dela. Eduarda, apesar de toda a dor e humilhação, sentiu o corpo traí-la, respondendo ao toque do homem que era seu carrasco e seu único porto seguro.
Mas, no andar de cima, no monitor de babá eletrônica que Emanuel carregava no bolso, um som interrompeu o momento. Não era um choro. Era o som de Benício batendo as mãos contra as grades do berço, um barulho rítmico e insistente.
Emanuel se afastou, olhando para o dispositivo.
— Aquele garoto de novo — rosnou ele.
— Deixe-o, Emanuel. Ele só está acordado — Eduarda implorou, vendo o brilho de irritação voltar aos olhos dele.
— Não. Ele precisa aprender a respeitar o silêncio desta casa.
Emanuel saiu da cozinha com passos pesados. Eduarda correu atrás dele, o coração na boca. Quando chegaram ao quarto, Benício estava de pé no berço, olhando fixamente para a porta. Assim que viu o pai, o bebê não recuou. Ele soltou um grito de desafio, um som alto e claro que parecia dizer que ele não tinha medo.
Emanuel parou diante do berço, as mãos fechadas em punho. Ele olhou para o filho pequeno, e por um momento, houve um duelo de vontades entre o homem de vinte e cinco anos e o bebê de oito meses.
— Você tem fogo, garoto — Emanuel disse, a voz num sussurro gélido. — Mas eu sou o dono do incêndio.
Ele se virou para Eduarda, que estava parada na porta, trêmula.
— Amanhã, vou contratar um preceptor militar para acompanhar o desenvolvimento dele. Ele vai aprender disciplina antes mesmo de aprender a falar "papai".
— Ele é um bebê, Emanuel! — Eduarda gritou, a voz embargada.
— Ele é um homem em formação — corrigiu Emanuel, caminhando até ela e segurando seu rosto com força. — E eu não vou permitir que ele cresça sendo o seu escudo. Você é minha, Eduarda. E se ele tentar se colocar entre nós, ele vai perder.
Emanuel saiu do quarto, batendo a porta. Eduarda correu para o berço e pegou Benício nos braços, apertando-o contra o peito. O menino parou de gritar e começou a fazer pequenos sons de conforto, acariciando o braço da mãe onde a marca dos dedos de Emanuel ainda estava vermelha.
Naquela noite, Eduarda entendeu que a guerra em sua casa não era apenas entre ela e Sara, ou entre ela e Emanuel. Uma nova frente de batalha havia se aberto. Benício, o fruto daquela noite de amor e medo, estava crescendo para ser o único homem capaz de enfrentar Emanuel. E Eduarda temia pelo dia em que o filho não seria mais apenas um bebê com mordidas inofensivas, mas um homem com o mesmo sangue implacável do pai correndo nas veias.
Enquanto isso, no quarto principal, Sara ria enquanto Emanuel lhe contava sobre o "incidente" com o filho. Ela não via perigo, apenas entretenimento. Para Sara, a vida era um palco, e ela era a estrela principal. Eduarda e os gêmeos eram apenas os figurantes que tornavam a trama mais interessante.
Mas no silêncio do quarto dos bebês, Eduarda olhou para a pulseira de ouro em seu pulso e sentiu que, a cada dia, o ouro parecia mais pesado, e as correntes, mais curtas.