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Heranças de Sangue e Solo
O sol da manhã refletia-se na lataria negra do comboio de SUVs blindados que cortava a estrada rumo ao interior. O silêncio dentro do veículo principal era preenchido apenas pelo som suave de uma canção de ninar que saía do tablet de Valentina. Aos dezoito meses, a filha de Sara e Emanuel já demonstrava que o luxo não era apenas um acessório, mas parte de sua essência. Sentada em sua cadeirinha de couro personalizada, ela observava a paisagem com uma expressão de tédio precoce, os cabelos loiros perfeitamente alinhados sob um laço de fita de gorgorão.
— Ela está achando que estamos indo para um lugar abaixo do nível dela, Emanuel — comentou Sara, retocando o batom vermelho enquanto se olhava no espelho do quebra-sol. — Mal sabe ela que a vovó tem mais quilates escondidos naquele casarão do que eu tenho na minha loja inteira.
Emanuel, ao volante, soltou um riso curto, mas seus olhos permaneciam atentos à estrada e, ocasionalmente, ao retrovisor. No banco de trás, ao lado de Valentina, Eduarda tentava conter o pequeno furacão chamado Benício. O menino, agora com um ano completo, era a força bruta da natureza. Ele chutava o assento da frente, tentava se livrar do cinto de segurança e emitia gritos de guerra que faziam Amélie, aninhada no colo de Eduarda, dar pequenos pulos de susto.
— Benício, querido, por favor... — Eduarda sussurrou, a voz ainda carregada daquela doçura que nem o trauma do atentado conseguira apagar. — Olhe o passarinho lá fora, veja!
— Não adianta, Duda — disse Emanuel, sua voz agora mais quente quando se dirigia a ela, um contraste gritante com a frieza de meses atrás. — Ele tem o meu sangue. Ele quer o controle do carro, não quer ver passarinhos.
Benício parou por um segundo ao ouvir a voz do pai, olhando para a nuca de Emanuel com uma admiração feroz. Os três bebês amavam o pai de formas distintas: Valentina o via como o provedor de seus caprichos; Amélie, a bebê doce e sensível, via nele seu porto seguro contra o barulho do mundo; e Benício o via como o oponente que ele desejava um dia superar.
A viagem para a casa da mãe de Emanuel, Dona Margarida, era um marco. Era a primeira vez que Emanuel apresentava sua estrutura familiar completa à matriarca, uma mulher de tradições rígidas, mas que adorava o filho acima de tudo.
Quando os carros finalmente entraram pelos portões de ferro forjado da fazenda, o cenário mudou para um verde exuberante e construções de pedra colonial. Emanuel estacionou e, antes mesmo que os seguranças pudessem abrir as portas, ele já estava do lado de fora. Ele abriu a porta traseira e pegou Amélie no colo, sentindo a pequena se aninhar imediatamente em seu pescoço.
— Chegamos, pequena — murmurou ele.
Eduarda desceu logo em seguida, ajudando Benício, que praticamente saltou do carro, correndo em direção aos canteiros de flores com uma energia inesgotável. Sara desceu por último, ajustando os óculos escuros de grife e olhando para a fachada da casa com um sorriso de satisfação.
— Vamos ver como a "Rainha Mãe" vai reagir à nossa pequena dinastia — disse Sara, caminhando até Emanuel e entrelaçando seu braço no dele, sem se importar com o fato de ele estar segurando Amélie.
Dona Margarida já os esperava na varanda. Era uma mulher de sessenta anos, elegante em sua simplicidade, com olhos que liam a alma das pessoas com a mesma facilidade com que Emanuel lia a pele de seus clientes.
— Emanuel, meu filho — disse ela, abraçando-o e beijando as bochechas de Amélie. — E esta deve ser a pequena Amélie. Que doçura.
— E esta é a Sara, mãe. Você se lembra dela das fotos. E a Valentina — Emanuel apresentou, enquanto a menina loira se aproximava da avó e estendia a mão com uma formalidade quase cômica.
— Encantada, vovó — disse Valentina, com a dicção perfeita que Sara tanto treinara.
Margarida sorriu, mas seus olhos logo se voltaram para Eduarda, que permanecia um passo atrás, segurando a mão de um Benício inquieto.
— E você deve ser a Eduarda — disse a matriarca, aproximando-se. — Emanuel me contou muito sobre você. Especialmente depois do... incidente.
Eduarda sentiu o rosto esquentar. A cicatriz no seu peito, oculta sob o vestido de linho claro, pareceu latejar por um segundo.
— É um prazer conhecê-la, senhora — respondeu Eduarda timidamente.
— Deixe disso, me chame de Margarida. E este pequeno selvagem só pode ser o Benício.
— Ele é um pouco... intenso — justificou Eduarda, enquanto Benício tentava escalar uma das colunas da varanda.
— Ele é um homem — sentenciou Margarida com um brilho de aprovação nos olhos. — Homens desta família não pedem licença para existir.
O almoço foi servido em uma mesa longa de madeira maciça. A dinâmica era fascinante. Sara dominava a conversa, falando sobre suas novas lojas e os planos de expansão internacional de Emanuel. Ela agia como a primeira-dama, a administradora dos bens e da imagem da família. Valentina, ao seu lado, comia com uma etiqueta impecável, recusando-se a usar o babador de plástico que a empregada oferecera.
— Eu não uso plástico — Valentina declarou, olhando para a mãe em busca de apoio.
— Isso mesmo, querida. Tecido apenas — confirmou Sara, piscando para Emanuel.
Do outro lado da mesa, o caos era diferente. Benício tentava pegar a comida com as mãos, rindo alto cada vez que Emanuel o repreendia com um olhar severo que escondia um orgulho imenso. Amélie, no colo de Eduarda, comia pequenos pedaços de fruta, ocasionalmente esticando a mão para tocar o braço de Emanuel, garantindo que ele ainda estava ali.
— Emanuel me disse que você voltou a dar aulas de ballet, Eduarda — comentou Margarida, observando a moça.
— Sim, senhora. Apenas algumas horas por semana. Os bebês exigem muito, mas a dança... ela me mantém inteira.
— Ela é a melhor professora da cidade — Emanuel interveio, sua voz firme. — Eu fiz questão de que ela tivesse o estúdio próprio dela. Ninguém mais dita as regras para a Duda.
Sara deu um gole em seu vinho, observando a troca de olhares entre Emanuel e Eduarda. Ela não sentia ciúmes; sentia poder. Ela sabia que Emanuel precisava daquela doçura para não se perder em sua própria escuridão, e sabia que ela mesma era a estrutura que mantinha tudo de pé.
— É uma configuração curiosa a de vocês — disse Margarida, direta como sempre. — Mas vejo que meus netos são felizes. E isso é o que importa para uma velha como eu.
Após o almoço, Emanuel levou Benício para ver os cavalos. O menino gritava de alegria ao ser colocado à frente do pai na sela de um garanhão negro. Eduarda e Sara ficaram na varanda com as meninas e Margarida.
— Você parece preocupada, Eduarda — notou a matriarca.
— Eu só... às vezes tenho medo de que tudo isso seja um sonho — confessou Eduarda, olhando para Emanuel e o filho ao longe. — Ou que o passado volte para nos cobrar o preço dessa felicidade.
Sara soltou um riso seco.
— O passado já tentou, Duda. Ele levou um tiro e sobreviveu. Agora, o passado sabe que, se tentar de novo, eu e o Emanuel vamos caçá-lo até o inferno.
Margarida assentiu, parecendo aprovar a agressividade de Sara.
— Você é forte, Sara. Mas você, Eduarda, tem a força da água. Ela parece frágil, mas é ela quem molda a pedra com o tempo. Emanuel precisa de ambas.
Mais tarde, quando o sol começava a se pôr, Emanuel encontrou Eduarda perto do estábulo. Ela observava o horizonte, o vento balançando seu vestido. Ele se aproximou por trás e a abraçou, as mãos grandes encontrando o ventre dela, onde uma nova vida, ainda desconhecida por todos, começava a dar seus primeiros sinais.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz baixa.
— Estou. Sua mãe é... especial. Ela me faz sentir que pertenço aqui.
— Você pertence, Eduarda. Você é o meu coração. Sara é a minha mente, mas você é o que me faz humano.
— E a Valentina? — ela perguntou com um sorriso. — Ela já está lá dentro explicando para sua mãe por que as cortinas da sala deveriam ser de seda francesa.
Emanuel riu, encostando a testa na de Eduarda.
— Ela é uma miniatura da Sara. Vai governar um país um dia, ou pelo menos um império de moda. E o Benício...
— O Benício vai ser o seu maior desafio — completou ela.
— Ele já é. Mas eu prefiro um filho que me enfrente do que um que tenha medo de mim. Eu quero que eles cresçam sabendo que esta família é inquebrável.
Eles voltaram para a casa principal, onde Sara os esperava na porta, com Valentina no colo e Amélie segurando sua mão.
— Vamos, pombinhos. As crianças precisam de banho e eu preciso de um martini que não seja feito com água da fazenda — reclamou Sara, embora houvesse um brilho de contentamento em seus olhos.
Emanuel pegou Benício, que estava coberto de terra e cheirando a cavalo, e o jogou sobre o ombro.
— Vamos para casa — disse ele.
Enquanto os carros se afastavam da fazenda, Emanuel olhou pelo retrovisor. Ele viu suas duas mulheres: Sara, a loira siliconada e vulgar que ele amava por sua audácia e lealdade inabalável; e Eduarda, a bailarina sensível que ele amava por sua resiliência e pureza. Viu seus três filhos, cada um carregando uma parte de sua alma complexa.
O caminho fora pavimentado com segredos, sangue e controle, mas ali, naquela estrada, Emanuel sentia que finalmente tinha tudo o que queria. Ele não precisava escolher. Ele tinha o fogo e a água. Ele tinha o império e o refúgio. E, acima de tudo, ele tinha a certeza de que, sob o seu teto, ninguém jamais ousaria quebrar o silêncio que ele agora protegia com a própria vida.
Benício adormeceu chutando a porta do carro, Valentina reclamou do ar-condicionado, e Amélie sorriu para o reflexo do pai no vidro. A vida era caótica, vulgar e complicada, mas para Emanuel, era a única vida que valia a pena ser vivida. E enquanto ele segurava o volante, sabia que o próximo capítulo de sua história seria escrito não com tinta de tatuagem, mas com o futuro daqueles que carregavam seu nome.