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O Rugido do Sangue

O sol do meio-dia na fazenda de Dona Margarida não era apenas calor, era uma presença física que pulsava sobre o pasto seco. Emanuel, apesar de ter nascido na cidade e construído seu império entre o asfalto e as luzes de neon, sentia uma conexão visceral com aquela terra. Havia algo de primitivo ali que ressoava com sua própria natureza.

Benício, no entanto, parecia ter nascido para aquele cenário. Aos dezoito meses, o menino não andava; ele avançava. Tinha os olhos escuros de Emanuel, mas carregava neles uma centelha de rebeldia que nem mesmo o pai, aos vinte e cinco anos, conseguia conter totalmente.

— Emanuel, olhe aquele menino! — gritou Sara da varanda, ajeitando os óculos escuros de grife que contrastavam com o ambiente rural. — Ele vai acabar se enfiando no meio dos porcos e eu não vou limpar essa sujeira!

Emanuel riu, observando o filho correr atrás de um pequeno bezerro que havia escapado do curral.

— Deixe o garoto, Sara. Ele precisa de um pouco de terra nas unhas. Valentina já compensa a limpeza da família inteira.

Valentina estava sentada em um banco de madeira, folheando uma revista de moda que Sara trouxera, recusando-se a colocar os pés no gramado. Eduarda, por outro lado, estava sentada na grama com Amélie, fazendo coroas de flores silvestres. A bailarina parecia uma ninfa em meio à natureza, sua pele clara brilhando sob o sol, a expressão doce e serena que Emanuel tanto lutara para preservar após o atentado.

— Benício! Não se afaste muito! — Eduarda chamou, a voz melodiosa carregada de uma preocupação instintiva.

O menino não deu ouvidos. Ele avistara algo muito mais interessante do que um bezerro. No pasto vizinho, separado por uma cerca de madeira que parecia robusta, mas que sofria com a ação do tempo, estava "General", o touro reprodutor de Dona Margarida. Um animal de quase uma tonelada de puro músculo, nervos e um temperamento que faria Emanuel parecer um monge budista.

— Emanuel... — Eduarda se levantou, a voz subindo um oitavo. — O Benício está perto demais da cerca do General.

Emanuel se endireitou, o instinto de proteção disparando como um alarme.

— Benício! Volte aqui agora! — A voz de Emanuel ecoou com a autoridade que costumava silenciar seus estúdios de tatuagem ao redor do mundo.

Mas Benício, movido por uma curiosidade temerária e pelo desejo inerente de desafiar o pai, fez exatamente o oposto. Ele encontrou um vão na cerca de madeira e, com a agilidade de quem ainda não conhece o medo, escorregou para o outro lado.

O tempo pareceu congelar.

O touro, que até então pastava calmamente, ergueu a cabeça maciça. Seus olhos pequenos e injetados de sangue fixaram-se na pequena figura humana que invadira seu território. O animal soltou um bufo que levantou poeira, batendo o casco dianteiro no solo seco.

— MEU DEUS! — Sara gritou, levantando-se da poltrona, o rosto perdendo a cor sob a maquiagem cara. — EMANUEL, FAZ ALGUMA COISA!

Eduarda soltou um grito sufocado, entregando Amélie para a sogra que acabara de sair na varanda, e correu em direção à cerca.

— Fique atrás da cerca, Eduarda! — Emanuel rugiu, já em disparada.

Ele não pensou. Não houve lógica, não houve cálculo de risco. Havia apenas o sangue de seu sangue em perigo. Emanuel saltou a cerca com uma agilidade que desafiava seu porte físico.

Benício, percebendo finalmente que o "grande boi" não era amigável, parou. Seus olhos se arregalaram. O touro baixou a cabeça, os chifres curvos e afiados apontados diretamente para o peito da criança. O animal deu o primeiro arranque.

— BENÍCIO, CORRA! — Eduarda gritava, as mãos agarradas à madeira da cerca, as lágrimas escorrendo.

Emanuel atingiu o filho no exato momento em que o touro ganhava velocidade. Ele não teve tempo de pegá-lo no colo e correr; a massa de carne e fúria estava perto demais. Emanuel jogou o corpo sobre o de Benício, rolando com o filho no chão poeirento, usando o próprio corpo como escudo.

O impacto do touro não atingiu o menino, mas o animal, frustrado, não parou. Ele contornou, bufando, preparando-se para um novo ataque.

Emanuel se levantou, empurrando Benício em direção à cerca.

— Corra para a sua mãe, Benício! Agora! Não olhe para trás! — Emanuel sibilou, a voz vibrando com uma adrenalina que ele nunca sentira antes, nem mesmo quando enfrentou gangues rivais no início de sua carreira.

O menino, aterrorizado, obedeceu. Ele correu com as pernas curtas, sendo puxado para cima da cerca pelas mãos desesperadas de Eduarda e Sara no último segundo.

Agora, era apenas Emanuel e o General.

O touro raspou o chão, a cabeça baixa, os músculos do pescoço retesados. Emanuel não tinha armas. Tinha apenas suas mãos, sua força e a fúria de um pai que vira a morte rondar sua prole. Ele abriu os braços, tentando parecer maior do que era, os olhos fixos nos do animal.

— Vem, seu desgraçado... — Emanuel rosnou. — Vem em mim.

O touro investiu. Emanuel esperou até o último milésimo de segundo, esquivando-se para o lado como um toureiro, mas o animal era rápido. O chifre do General atingiu a lateral da costela de Emanuel, rasgando a camisa e a pele, arremessando-o a dois metros de distância.

— EMANUEL! — O grito de Sara e Eduarda foi um só, um lamento que cortou o ar da fazenda.

Emanuel sentiu a dor lancinante, o gosto de ferro na boca. Ele rolou, tentando se levantar. O touro já estava virando para o golpe final. Emanuel viu, pelo canto do olho, Eduarda tentando pular a cerca para ajudá-lo.

— FIQUE AÍ! — Ele gritou, cuspindo sangue. — EU DOU CONTA!

A raiva tomou o lugar da dor. Emanuel se levantou, a visão turva de ódio. Quando o touro investiu novamente, Emanuel não se esquivou. Ele avançou. Ele agarrou os chifres do animal com as mãos nuas, usando todo o peso do seu corpo, toda a força acumulada em anos de trabalho duro e lutas de rua.

A luta era desigual, uma batalha épica entre o homem e a besta. Emanuel foi arrastado, seus pés cavando sulcos na terra, mas ele não soltou. Ele torceu a cabeça do animal com uma força sobre-humana, os músculos dos seus braços tatuados saltando como cordas de aço.

— Você... não... toca... no meu... FILHO! — Emanuel rugia a cada esforço, o rosto vermelho, as veias do pescoço saltadas.

Por um momento milagroso, a vontade do homem sobrepôs-se à força do animal. Emanuel conseguiu desequilibrar o touro, forçando o focinho do General contra o chão. A besta soltou um mugido de surpresa e dor.

Foi o tempo necessário. Os seguranças de Emanuel, que haviam corrido para buscar armas tranquilizantes, chegaram à cerca. Dois disparos ecoaram. O touro vacilou, a força fugindo de seus membros. Emanuel soltou os chifres, caindo de costas na terra, o peito subindo e descendo em espasmos violentos.

O General desabou a poucos metros dele, o efeito do sedativo sendo instantâneo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som do vento e pelo choro soluçante de Eduarda.

Emanuel tentou se levantar, mas o corpo protestou. Ele sentiu mãos pequenas e delicadas tocando seu rosto, e o perfume de baunilha de Eduarda envolveu seus sentidos.

— Emanuel! Meu Deus, você está sangrando! — Ela chorava, tentando limpar o sangue do rosto dele com a barra do próprio vestido.

— O Benício... — Emanuel tossiu, a voz falhando. — Ele está bem?

— Ele está bem, querido. A Sara está com ele — Eduarda disse, beijando a testa dele repetidamente. — Você o salvou. Você lutou com um touro... você enlouqueceu?

Emanuel soltou uma risada rouca, que terminou em um gemido de dor.

— Ele é meu filho, Duda. Eu lutaria com o diabo por ele.

Sara se aproximou, carregando Benício, que estava pálido e silencioso. A loira, sempre tão preocupada com a aparência, não se importou em ajoelhar na terra com seu conjunto de seda. Ela tocou o ombro de Emanuel, os olhos marejados.

— Você é um idiota, Emanuel. Um idiota corajoso e vulgar — disse ela, a voz trêmula. — Nunca mais faça isso com o meu coração.

Emanuel olhou para Benício. O menino estendeu a mãozinha gorda e tocou a ferida no lado do pai.

— Papai... dói? — sussurrou o menino, os olhos cheios de uma compreensão nova e assustadora.

— Dói um pouco, campeão — disse Emanuel, segurando a mão do filho. — Mas o papai é mais forte que o boi. Não se esqueça disso.

Emanuel foi levado para dentro da casa, onde Dona Margarida, com a calma de quem já vira de tudo, começou a limpar seus ferimentos. A ferida na costela era profunda, mas não atingira órgãos vitais. O hematoma no ombro ficaria roxo por semanas, mas ele estava vivo.

À noite, a fazenda estava mergulhada em uma paz tensa. Emanuel estava deitado na cama de casal do quarto principal, o tronco enfaixado. Sara estava sentada ao seu lado, lixando as unhas com uma indiferença fingida, enquanto Eduarda estava sentada na beira da cama, trocando a compressa de água fria em sua testa.

— Sabe o que é mais engraçado? — começou Sara, sem desviar os olhos das unhas. — O Benício não sai do lado da cerca agora. Ele fica lá, olhando para o General sedado, e diz que quando crescer vai ter chifres maiores que os dele.

Emanuel sorriu, fechando os olhos.

— Ele vai ser pior do que eu, Sara. Prepare o seu estoque de calmantes.

Eduarda acariciou o cabelo dele, os dedos leves como pétalas.

— Ele te viu lutar por ele, Emanuel. Ele viu que você é o herói dele. Mas ele também viu o medo nos nossos olhos. Acho que ele aprendeu a lição.

— Eu não quero que ele tenha medo — disse Emanuel, abrindo os olhos e olhando para as duas mulheres que preenchiam sua vida. — Quero que ele saiba que nesta família, nós não recuamos. Nós protegemos o que é nosso, não importa o preço.

Sara se inclinou e beijou os lábios de Emanuel, um beijo possessivo e quente.

— Você foi um animal hoje, Emanuel. E eu confesso que... foi excitante. De um jeito muito distorcido, claro.

— Você é doente, Sara — Eduarda riu, balançando a cabeça.

— E você ama isso, Duda — rebateu a loira, piscando.

Emanuel estendeu as mãos, pegando uma mão de cada mulher.

— Eu quase perdi tudo hoje — ele disse, a voz ficando séria. — Quando vi aquele touro indo em direção ao Benício, percebi que todo o meu dinheiro, todos os meus estúdios, nada disso vale um fio de cabelo dele. Ou de vocês.

Eduarda deitou a cabeça no peito dele, tomando cuidado com os curativos.

— Nós estamos aqui, Emanuel. Nós sempre estaremos aqui.

Naquela noite, Benício dormiu no meio dos pais e de Eduarda, um privilégio raro. O menino segurava o dedo indicador de Emanuel com força, como se temesse que o pai pudesse desaparecer. Amélie e Valentina dormiam nos berços próximos, a paz finalmente restaurada.

Emanuel olhou para o teto, sentindo a dor no corpo e o calor das pessoas que amava. Ele sabia que o mundo lá fora continuaria sendo perigoso, que haveria outros "touros" em seu caminho, fossem eles rivais de negócios ou fantasmas do passado. Mas enquanto ele tivesse a força para lutar e o amor daquelas duas mulheres para curá-lo, ele sabia que seu império estava seguro.

A marca daquela luta não seria apenas a cicatriz em suas costelas, mas a mudança definitiva na forma como ele via a si mesmo. Ele não era apenas o mestre, o controlador ou o amante. Ele era o protetor. E naquela fazenda isolada do mundo, sob o luar de Minas, Emanuel finalmente entendeu que o verdadeiro poder não vinha do quanto você podia dominar os outros, mas do quanto você estava disposto a sangrar por eles.

— Amanhã — murmurou Emanuel, quase pegando no sono —, eu vou ensinar o Benício a montar um cavalo de verdade. Nada de pôneis.

— Nem pensar! — disseram Sara e Eduarda em coro.

Emanuel sorriu, fechando os olhos. A vida era uma batalha contínua, e ele não a teria de nenhuma outra forma.