Voltar ao resumo

D

O Rugido do Leão e a Inocência em Jogo

A cobertura de Emanuel estava mergulhada em uma agitação atípica. Sara, com sua energia inesgotável e saltos que ecoavam como sentenças de morte sobre o mármore, havia decidido organizar um "pequeno" brunch familiar para celebrar o sucesso de sua nova coleção de roupas íntimas. O apartamento exalava o perfume caro de orquídeas frescas e buffet gourmet, mas para Emanuel, o clima estava carregado de uma tensão que ele não conseguia explicar, apenas sentir.

Eduarda circulava entre os convidados com a discrição de uma sombra graciosa. Ela vestia um vestido de seda azul-claro que realçava a delicadeza de seus traços e a suavidade de seus gestos. Embora vivesse sob a proteção — e o controle — de Emanuel, ela ainda mantinha aquela aura de pureza que o encantou desde o primeiro dia. Em seus braços, Amélie, agora com quase dois anos, era a imagem da doçura, com seus cachos castanhos e olhos que pareciam janelas para um mundo onde a maldade não existia.

Do outro lado da sala, Benício, o pequeno furacão, tentava escalar o piano de cauda sob o olhar divertido de Sara e a vigilância constante de dois seguranças que Emanuel insistia em manter por perto. Valentina, a pequena rainha, sentava-se em uma poltrona de veludo, observando os primos com um ar de superioridade que herdara integralmente da mãe.

— Emanuel, querido, relaxe! — exclamou Sara, aproximando-se do marido e ajeitando a gravata dele com uma possessividade evidente. — É apenas a minha família. Meu irmão trouxe o pequeno Enzo. Eles estão ali no terraço.

Emanuel tomou um gole de seu uísque puro, os olhos escuros rastreando o ambiente.

— Eu não gosto de muita gente nesta casa, Sara. Você sabe disso. Especialmente gente que eu não posso controlar totalmente.

— Ora, pare com essa mania de ditador por um segundo — rebateu ela, rindo e dando um tapinha no rosto dele antes de se afastar para cumprimentar uma socialite.

Emanuel caminhou em direção ao terraço, buscando um pouco de ar fresco. Foi quando viu.

Eduarda havia colocado Amélie no chão, perto de um canteiro de flores ornamentais. A menina ria, tentando pegar uma borboleta de cristal que decorava o jardim suspenso. Perto dela, Enzo, o sobrinho de Sara, um menino de cerca de quatro anos, loiro e com um sorriso travesso, aproximou-se com uma flor na mão.

— Para você, Amélie — disse o menino, com a voz infantil e doce.

Amélie pegou a flor e sorriu, seus olhinhos brilhando. O que aconteceu a seguir, para qualquer pessoa normal, seria uma cena de inocência infantil pura. Enzo se inclinou e depositou um beijinho rápido na bochecha rosada de Amélie.

O copo de uísque na mão de Emanuel estalou sob a pressão de seus dedos.

O mundo pareceu parar para o tatuador. O sangue subiu à sua cabeça com uma violência que o deixou momentaneamente cego. Não era apenas um beijo; em sua mente distorcida pela posse e pela proteção extrema, era uma violação do santuário que ele construíra em volta de suas mulheres.

— O que pensa que está fazendo? — O rugido de Emanuel cortou a música ambiente e as conversas como uma lâmina afiada.

Eduarda deu um pulo, o rosto empalidecendo instantaneamente. Ela conhecia aquele tom. Era o tom que Emanuel usava antes de uma tempestade.

— Emanuel, o que foi? — perguntou ela, a voz trêmula, correndo para pegar Amélie no colo.

Emanuel avançou para o terraço com passos pesados. O pequeno Enzo, percebendo a aura de fúria que emanava do homem alto e tatuado, recuou, os olhos arregalados de medo.

— Tire esse garoto daqui agora! — ordenou Emanuel, apontando para Enzo como se ele fosse um invasor perigoso.

— Emanuel, pelo amor de Deus, é o Enzo! — Sara apareceu na porta do terraço, o rosto alternando entre a surpresa e a irritação. — Ele é uma criança! Ele só deu um beijo na bochecha da prima!

— Ninguém toca na minha filha! — Emanuel virou-se para Sara, os olhos injetados. — Ninguém beija a Amélie! Ela é pura, ela é intocável! Você perdeu o juízo ao deixar esse moleque chegar perto dela?

— Você enlouqueceu de vez? — Sara caminhou até ele, batendo com o dedo no peito dele, sem se intimidar. — É a minha família, Emanuel! É um beijo de criança! Você está agindo como um animal!

— Eu sou o dono desta casa e o pai desta menina! — gritou ele, a voz ecoando pela cobertura, fazendo os convidados na sala silenciarem em choque. — Eduarda, leve a Amélie para o quarto. Agora!

Eduarda, com lágrimas nos olhos e Amélie começando a chorar em seu pescoço pelo susto, não ousou desobedecer. Ela passou por Emanuel como uma sombra ferida, buscando o refúgio do corredor.

— Você está passando dos limites — sibilou Sara, a voz baixa agora, mas carregada de veneno. — Você está assustando todo mundo. Olhe para o Enzo, ele está chorando!

— Eu não me importo com o Enzo! — rebateu Emanuel, aproximando-se de Sara com uma postura intimidante. — Eu não quero mãos, lábios ou olhares de ninguém sobre o que é meu. Amélie não é como você, Sara. Ela não é para o mundo. Ela é minha.

— Ela é uma criança, seu idiota possessivo! — Sara não recuou. — Você quer trancá-la em uma torre como fez com a Eduarda? Você quer que ela cresça com medo de um beijo de um primo?

Emanuel respirou fundo, tentando controlar o tremor em suas mãos. A fúria ainda pulsava, mas o pragmatismo de Sara sempre conseguia atingir um ponto racional, mesmo que ele se recusasse a admitir.

— Eu quero que ela seja respeitada.

— Respeitada? — Sara soltou uma risada sarcástica. — Você quer controle. Você está projetando sua obsessão pela Eduarda na menina. Mas escute bem, Emanuel: eu não vou permitir que você transforme a vida dos meus filhos em um regime militar por causa das suas paranoias.

Emanuel não respondeu. Ele se virou e saiu do terraço, passando pelos convidados constrangidos sem dizer uma palavra. Ele foi direto para o quarto de Eduarda.

Ao abrir a porta, ele a encontrou sentada na poltrona de amamentação, balançando Amélie, que já soluçava baixo. Eduarda olhou para ele com um misto de medo e mágoa.

— Você não precisava ter feito aquilo — sussurrou ela. — Você assustou os dois.

Emanuel sentou-se na beira da cama, a cabeça entre as mãos. A adrenalina estava baixando, deixando para trás um rastro de exaustão e uma possessividade que ainda ardia.

— Eu não suporto a ideia, Duda — disse ele, a voz agora rouca e baixa. — Não suporto a ideia de qualquer homem, mesmo que seja uma criança, achando que tem o direito de tocá-la. Ela é tão pequena... tão frágil.

— Ela não é frágil, Emanuel. Ela é amada — Eduarda levantou-se e caminhou até ele, colocando a mão livre sobre o ombro do homem. — Mas se você a criar nesse medo, se você reagir assim a cada gesto de carinho, você vai acabar perdendo o amor dela.

Emanuel puxou Eduarda para perto, escondendo o rosto em seu ventre, enquanto ela ainda segurava a bebê. Era uma imagem de adoração e desespero.

— Eu amo vocês demais — murmurou ele contra o tecido do vestido dela. — Às vezes, esse amor parece que vai me rasgar ao meio. Eu sinto que preciso cercar vocês de muros de aço para que o mundo não as estrague.

— O mundo não vai nos estragar se tivermos paz dentro de casa — respondeu Eduarda, acariciando o cabelo dele com uma coragem que raramente demonstrava. — Mas você precisa confiar em nós. E precisa se desculpar com a Sara e com o Enzo.

Emanuel soltou um grunhido de insatisfação.

— Com a Sara, talvez. Com o moleque, nunca.

Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo. Sara entrou, já sem os sapatos, com uma taça de champanhe na mão e uma expressão de quem não aceitaria "não" como resposta.

— Acabou o drama? — perguntou ela, sentando-se na cama ao lado deles. — Porque os convidados estão indo embora achando que você vai tatuar um alvo na testa de cada um deles.

Emanuel olhou para a esposa loira, a mulher que conhecia seus demônios melhor do que ninguém.

— Eu exagerei — admitiu ele, a contragosto.

— Exagerou? Você quase causou um incidente diplomático familiar — disse Sara, tomando um gole do champanhe. — Mas eu te conheço. Sei que essa sua fúria é o jeito torto que você tem de dizer que morreria por elas. Só que, da próxima vez, tente não assustar o meu sobrinho, ou eu mesma vou ter que te colocar no lugar.

Emanuel olhou de Sara para Eduarda. As duas mulheres de sua vida. Uma que o desafiava com fogo e outra que o acalmava com água. Ele sabia que era um homem difícil, um homem marcado pela necessidade de domínio, mas ali, naquele quarto, cercado pelo perfume delas e pelo peso da filha em seus braços, ele se sentia, pela primeira vez, vulnerável.

— Eu vou falar com o seu irmão — cedeu Emanuel, olhando para Sara.

— Ótimo. E vai comprar um brinquedo ridículo de caro para o Enzo amanhã — acrescentou ela, sorrindo com vitória.

Eduarda sorriu também, sentindo a tensão se dissipar. Ela se sentou no colo de Emanuel, com Amélie entre eles.

— Você é um leão ciumento — disse ela, beijando a bochecha dele, exatamente onde Enzo beijara a filha.

— Eu sou o leão que protege este bando — corrigiu ele, apertando as duas contra o peito. — E ninguém, absolutamente ninguém, entra neste território sem saber quem manda.

Sara revirou os olhos, mas deitou a cabeça no ombro de Emanuel, completando o círculo.

— Nós sabemos quem manda, querido. Mas às vezes, é bom lembrar que até o rei da selva precisa baixar a guarda para as suas rainhas.

A noite caiu sobre a cobertura luxuosa. O brunch terminara em um silêncio tenso, mas dentro daquele quarto, a estrutura complexa e possessiva da família de Emanuel se reorganizava. Ele ainda era o tatuador rico e poderoso que queria o mundo aos seus pés, mas ali, no calor daquelas presenças, ele era apenas um homem tentando aprender que o amor, às vezes, exige mãos abertas em vez de punhos cerrados.

Mas, enquanto observava Amélie pegar no sono, Emanuel sabia que, se outro "Enzo" aparecesse no futuro, a fera dentro dele estaria pronta para rugir novamente. Porque, para Emanuel, a inocência de Amélie e a doçura de Eduarda eram os únicos tesouros que o dinheiro não podia comprar e que ele nunca, sob hipótese alguma, permitiria que o mundo tocasse.