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Raízes de Tinta e Terra
O sol ainda nem havia vencido a linha do horizonte quando Emanuel começou a carregar a imensa caminhonete preta. O ar da manhã em São Paulo era úmido e carregado, mas ele buscava algo diferente. Precisava do cheiro de terra molhada, do silêncio que só o sítio da família, no interior, conseguia proporcionar. Seus estúdios de tatuagem estavam em mãos firmes com seus gerentes, e suas finanças eram sólidas o suficiente para que ele se permitisse desaparecer por alguns dias. Na verdade, não era um desejo; era uma necessidade de sobrevivência mental.
— Emanuel, você tem certeza de que cabe mais essa mala? — A voz de Eduarda soou pequena e hesitante atrás dele.
Ela segurava uma bolsa térmica e a cadeirinha de Maya, que já estava devidamente acomodada e, milagrosamente, dormindo. Duda vestia um vestido de algodão leve e um cardigã bege, os cabelos castanhos presos em uma trança lateral frouxa. Ela parecia uma camponesa saída de um quadro de Monet, em total contraste com a energia que descia pelo elevador naquele exato momento.
— Se não couber, a gente amarra no teto! — Sara exclamou, surgindo com óculos escuros gigantes, mesmo sendo cinco da manhã, e Ágata no colo.
A bebê loira estava agitada, vestindo um conjunto de moletom rosa choque com pequenos detalhes em dourado. Sara, por sua vez, usava calças justas de couro sintético e botas de salto que definitivamente não eram apropriadas para o campo.
— Sara, a gente vai para um sítio, não para a semana de moda de Milão — Emanuel comentou, fechando o porta-malas com um baque surdo e limpando o suor da testa com as costas da mão tatuada.
— Querido, o meu estilo não tira férias. E a Ágata precisa manter os padrões, não é, boneca? — Sara deu um beijo barulhento na bochecha da filha, que soltou uma risadinha estridente, acordando Maya no processo.
O choro de Maya começou baixo, um lamento sensível que fez Eduarda entrar em ação imediatamente, balançando a cadeirinha com delicadeza.
— Ótimo começo — resmungou Emanuel, mas no fundo, um sorriso de canto de boca apareceu. Ele abriu a porta para as duas mulheres. — Entrem logo. São três horas de estrada e eu quero chegar antes do sol ficar insuportável.
A viagem foi uma sinfonia de contrastes. De um lado, Sara cantava músicas pop que tocavam no rádio, tentando ensinar Ágata a bater palmas no ritmo. Do outro, Eduarda lia em voz baixa para Maya, ou simplesmente apontava as vacas e as árvores que passavam pela janela, falando com aquela voz de veludo que parecia hipnotizar a bebê. Emanuel dirigia em silêncio, sentindo a tensão dos ombros diminuir a cada quilômetro que o afastava do asfalto da capital.
Quando finalmente atravessaram a porteira de madeira que exibia o nome da família de Emanuel entalhado, a paisagem mudou. O sítio era uma propriedade vasta, com uma casa colonial bem preservada, cercada por varandas largas e redes preguiçosas. O cheiro de café fresco já vinha da cozinha, onde os caseiros preparavam a recepção.
— Ar puro! — Sara desceu do carro, fazendo uma pose dramática e inspirando profundamente. — É bom, mas sinto falta do cheiro de perfume caro e poluição.
— Deixa de ser boba, Sara — Eduarda disse, descendo com Maya nos braços. A bebê arregalou os olhos castanhos, observando o movimento das folhas das árvores. — Olha, Maya, o verde... é tudo tão calmo aqui.
Emanuel começou a descarregar as malas, mas parou por um momento apenas para observar a cena. Sara já estava colocando Ágata no chão, sobre a grama aparada. A bebê loira não hesitou; engatinhou com determinação em direção a uma flor amarela, sem medo da textura da terra ou dos pequenos insetos. Já Maya, no colo de Duda, escondia o rosto no pescoço da madrasta, assustada com o som de um pássaro mais barulhento.
— Ela vai se acostumar, Duda — Emanuel disse, aproximando-se e beijando o topo da cabeça de Eduarda, e depois a testa de Maya. — O tempo aqui corre diferente.
— Eu só não quero que ela fique assustada — murmurou Eduarda, apertando a pequena contra si.
— Ela não está assustada, Duda, ela está sendo... ela mesma — Sara interveio, aproximando-se com Ágata, que agora tentava comer uma folha. — Ágata, tira isso da boca! Isso não é orgânico de boutique, é mato!
Emanuel riu alto, uma risada rara que ecoou pelo vale.
— Vamos entrar. Vou levar as malas para os quartos.
A tarde no sítio foi o reflexo perfeito daquela dinâmica familiar incomum. Emanuel decidiu que era hora de apresentar as filhas à terra. Ele estendeu uma manta grande debaixo de uma mangueira centenária.
Sara sentou-se com as pernas cruzadas, retocando o batom enquanto observava o horizonte. Eduarda sentou-se ao lado dela, descalça, sentindo a grama entre os dedos dos pés.
— Você devia tirar essas botas, Sara — sugeriu Eduarda, com um sorriso tímido. — A sensação da terra é maravilhosa. Ajuda a descarregar a energia.
— E carregar o quê? Fungos? — Sara brincou, mas acabou cedendo. Tirou as botas de salto e esticou as pernas, revelando unhas perfeitamente feitas em um tom de vermelho vibrante. — É... não é de todo ruim. Mas se uma formiga me picar, eu volto para o carro agora mesmo.
Emanuel trouxe as meninas. Ágata foi colocada diretamente na grama, fora da manta. Ela imediatamente começou a explorar, arrancando pedaços de relva e olhando para o pai com um olhar desafiador, como se dissesse: "Veja o que eu posso destruir".
— Essa menina é você purinha, Sara — Emanuel comentou, sentando-se no meio das duas mulheres. — Não tem medo de nada.
— Ela tem personalidade, Emanuel. Vai ser dona de metade de São Paulo antes dos vinte anos — Sara respondeu com orgulho óbvio.
Enquanto isso, Maya permanecia sentada no centro da manta, imóvel. Ela olhava para a grama com desconfiança, as mãozinhas fechadas. Quando Eduarda tentou incentivá-la a tocar o chão, a bebê começou a chorar, um choro sentido, como se o mundo fosse um lugar perigoso demais.
— Ah, lá vamos nós de novo — suspirou Sara, revirando os olhos, embora houvesse um traço de preocupação escondido em seu tom. — É só grama, Maya. Não morde.
Eduarda pegou Maya no colo instantaneamente, ninando-a.
— Ela só precisa de tempo, Sara. O mundo é muito grande para ela agora.
— O mundo é grande para todo mundo, Duda. A diferença é como você encara — Sara retrucou, mas ao ver a expressão de dor no rosto de Eduarda, ela suavizou o tom. — Dá ela aqui.
Surpreendentemente, Sara pegou Maya dos braços de Eduarda. A bebê, acostumada com a firmeza e o cheiro mais forte do perfume de Sara, parou de chorar por um segundo, confusa.
— Escuta aqui, sua manhosinha — Sara disse, olhando nos olhos da filha. — Você tem o meu sangue. E o sangue do seu pai, que é um brutamontes tatuado. Você não pode ter medo de um jardim. Olha a sua irmã, ela já está quase chegando no curral.
Maya olhou para Ágata, que agora estava sentada perto de um arbusto, rindo de uma borboleta. Por um momento, a sensibilidade de Maya encontrou a coragem provocadora de Sara. A bebê esticou a mãozinha e tocou o braço tatuado de Emanuel, que estava por perto.
— Isso mesmo, pequena — Emanuel incentivou, a voz baixa e encorajadora. — É só a natureza.
Eduarda observava a cena com o coração aquecido. Ela amava como Sara, apesar da dureza aparente, tentava do seu jeito bruto empurrar Maya para fora da concha. E amava como Emanuel era o alicerce que permitia que todas elas fossem exatamente quem eram.
— Sabe, Manu — Eduarda disse, encostando a cabeça no ombro dele —, eu estava com medo de vir para cá. Achei que as diferenças entre as meninas ficariam ainda mais óbvias no meio do nada.
— E ficaram — Emanuel respondeu, observando Ágata tentar escalar o seu joelho enquanto Sara ainda segurava Maya. — Mas isso não é ruim. O sítio aceita tudo. A árvore que dá sombra e a flor que só quer ser bonita. O rio que corre e a pedra que fica parada.
Sara soltou uma risada sarcástica, mas sem veneno.
— Agora o tatuador virou poeta de almanaque? O ar do campo está fazendo mal para o seu cérebro, querido.
Emanuel puxou Sara pela cintura, trazendo-a para perto, enquanto Eduarda se aninhava do outro lado. Ali, sob a sombra da mangueira, o tempo parecia ter parado.
— Eu só estou dizendo que aqui a gente não precisa fingir nada — Emanuel continuou. — Eu não preciso ser o empresário de sucesso, você não precisa ser a dona da loja perfeita e a Duda não precisa se preocupar com as críticas da faculdade. E as meninas... elas podem ser apenas bebês.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi preenchido pelo som dos grilos começando a cantar e pelo balanço das folhas. Ágata acabou dormindo esparramada sobre as pernas de Emanuel, exausta de sua exploração. Maya, sentindo-se segura no colo de Sara e com a proximidade de Eduarda, finalmente relaxou e começou a brincar com os dedos da mãe.
— Eu vou fazer um jantar especial hoje — anunciou Emanuel. — Comida de fogão a lenha.
— Se tiver vinho caro para acompanhar, eu aceito — Sara disse, fechando os olhos e aproveitando o sol poente.
— Eu ajudo na cozinha — Eduarda ofereceu. — Minha mãe me ensinou uma receita de doce de abóbora que é perfeita.
— Doce de abóbora? — Sara fez uma careta. — Isso é tão... interiorano. Eu vou amar odiar isso.
Emanuel sorriu, sentindo-se completo. Ele sabia que, ao voltarem para a cidade, os conflitos voltariam. Sara voltaria a criticar a sensibilidade de Eduarda e Maya; Eduarda voltaria a se sentir insegura diante da exuberância de Sara; e ele voltaria a ter que mediar as explosões de ego e emoção. Mas ali, naquele momento, eles eram apenas uma família. Incomum, barulhenta, fora dos padrões, mas profundamente ligada.
A noite caiu sobre o sítio, trazendo um céu estrelado que a poluição de São Paulo jamais permitiria ver. Após o jantar, eles se reuniram na varanda. Emanuel estava em uma das redes com Ágata, que sonhava agitada, movendo as mãozinhas como se ainda estivesse caçando borboletas.
Eduarda estava na outra rede, balançando Maya com um movimento rítmico e hipnótico. Sara, sentada em uma cadeira de balanço de vime, bebia uma taça de vinho, observando as três pessoas mais importantes de sua vida.
— Sabe, Emanuel — Sara disse, a voz mais baixa, quase sumindo na noite —, às vezes eu olho para a Maya e sinto um aperto.
Emanuel virou a cabeça para olhá-la.
— Por quê?
— Porque ela é tão doce... tão vulnerável. Eu passei a vida inteira construindo essa armadura, essa imagem de mulher que ninguém pisa. E aí eu vejo essa coisinha que chora porque um pássaro cantou mais alto. Eu tenho medo que o mundo a destrua.
Eduarda parou de balançar a rede e olhou para Sara. Pela primeira vez, ela viu o medo genuíno por trás da máscara de confiança da loira.
— Ela não vai ser destruída, Sara — Eduarda disse com convicção. — Porque ela tem você para ensinar a ela como lutar, e tem a mim para ensinar a ela que não há problema em sentir. Ela vai ter o melhor dos dois mundos.
Sara ficou em silêncio por um longo tempo, apenas girando o vinho na taça. Ela olhou para Eduarda, depois para a filha nos braços dela.
— É... talvez você tenha razão, bailarina. Mas se ela crescer e quiser usar sapatilhas de cetim o dia todo, eu vou ter que intervir com um bom par de saltos agulha.
Emanuel riu, sentindo a tensão final deixar seu corpo.
— Eu acho que ela vai acabar usando botas de trilha e chutando a canela de quem se atrever a machucar a irmã dela — ele previu. — E a Ágata vai ser a que planeja o ataque.
— Com certeza — concordou Sara, sorrindo.
A paz do sítio era um bálsamo. Emanuel sabia que a vida que ele escolhera — ou que o escolhera — era um desafio constante. Amar duas mulheres tão distintas exigia uma elasticidade emocional que poucos homens possuíam. Eduarda era sua alma, o lugar onde ele descansava. Sara era seu sangue, o fogo que o mantinha em movimento.
Ele olhou para as mãos, cobertas de tatuagens que contavam histórias de dor, superação e arte. Mas as marcas mais profundas não estavam na pele. Estavam ali, naquelas quatro pessoas que compartilhavam aquele espaço sagrado com ele.
— Amanhã vamos ao rio — Emanuel decidiu. — Quero ver a Ágata tentar pegar um peixe com as mãos e a Maya descobrir que a água também pode ser um abraço.
— Eu não vou entrar em rio nenhum com peixes desconhecidos — Sara protestou, mas já estava planejando qual biquíni combinaria mais com o cenário campestre.
— Você vai sim — disse Eduarda, rindo. — Eu te dou a mão.
— E eu seguro as bebês — completou Emanuel.
Naquela noite, o sono veio fácil para todos. No coração do interior, longe das luzes da cidade e dos julgamentos alheios, Emanuel, Eduarda e Sara entenderam que a verdadeira força daquela família não residia na semelhança, mas na coragem de serem diferentes juntos. E enquanto as meninas dormiam, cada uma refletindo um pedaço daquelas personalidades complexas, o sítio da família de Emanuel guardava o segredo de um amor que, contra todas as probabilidades, funcionava perfeitamente.