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O Peso do Segredo e o Brilho do Palco
O apartamento de luxo em São Paulo parecia menor agora, preenchido pelo caos vibrante de duas crianças de um ano que já ditavam o ritmo da casa. Ágata, uma miniatura loira e impetuosa de Sara, corria pelo corredor com um sapato de salto da mãe em uma das mãos, gritando de alegria. Maya, por outro lado, estava sentada no tapete da sala, aninhada entre as pernas de Eduarda, folheando um livro de ilustrações com uma delicadeza que beirava o ritualístico.
— Mamãe, ó! — Maya apontou para um desenho de um cisne, olhando para Eduarda com aqueles olhos castanhos profundos e suplicantes por atenção.
— É lindo, meu amor. Um cisne, igual ao que a mamãe dança — Eduarda sussurrou, beijando o topo da cabeça da pequena.
A distinção nas nomenclaturas havia surgido naturalmente. Para as meninas, Sara era a "Mãe" — a figura de autoridade, brilho e energia. Eduarda, para Maya, era a "Mamãe" — o porto seguro, o colo macio e a doçura. Ágata, fiel à sua natureza prática e levemente desapegada, chamava Eduarda de "Tia Duda", reservando o título de mãe exclusivamente para a mulher loira que a incentivava a ser uma pequena diva.
Sara saiu do quarto, a mão repousando sobre a barriga que já começava a marcar o vestido de seda verde. Ela estava no quarto mês de gestação. Valentina era o nome escolhido, e a gravidez parecia ter dado a Sara um brilho ainda mais agressivo e radiante.
— Emanuel! — Sara gritou, ignorando a calma da sala. — Onde você colocou aquela caixa da joalheria? Eu sei que você comprou algo, eu vi a sacola no escritório!
Emanuel apareceu na porta da cozinha, com um pano de prato no ombro e um sorriso raro e relaxado. Ele caminhou até Sara, ignorando os protestos dela sobre a surpresa estragada, e entregou-lhe uma pequena caixa aveludada.
— Você não tem paciência, Sara. É um presente por aguentar a Valentina chutando sua bexiga a noite toda — disse ele, puxando-a para um beijo possessivo.
Dentro da caixa, um bracelete de ouro com três pingentes: dois diamantes pequenos e uma safira rosa. Sara deu um gritinho de satisfação, jogando os braços ao redor do pescoço dele.
— Você é um ogro adorável, Emanuel.
Eduarda assistia à cena com um sorriso forçado, sentindo uma pontada de náusea que não tinha nada a ver com ciúmes. Ela apertou Maya um pouco mais forte contra o corpo. O segredo queimava em seu ventre, uma vida nova que já contava oito semanas. Ela sabia que estava grávida há quase um mês, mas o medo a paralisava. Emanuel, em seu instinto superprotetor e controlador, transformaria sua vida em uma redoma de vidro no instante em que soubesse. Ele a proibiria de carregar Maya, de subir escadas e, o pior de tudo, a impediria de realizar o espetáculo de encerramento da companhia de ballet, o papel principal que ela conquistara com tanto suor.
— Duda, você está pálida — comentou Emanuel, afastando-se de Sara e focando seu olhar intenso na bailarina. — Tem comido direito?
— É só o cansaço dos ensaios, Manu — ela mentiu, desviando o olhar. — O espetáculo é daqui a três dias. Depois disso, eu tiro férias.
— Acho bom. Você está magra demais e carregando essa bezerra da Maya para cima e para baixo. Deixa que eu pego ela.
— Não! — Eduarda exclamou, um pouco rápido demais. — Ela está calma aqui. Não quero agitar ela.
Emanuel estreitou os olhos, a desconfiança plantada, mas o choro de Ágata, que acabara de tropeçar no próprio salto, desviou sua atenção.
Nos dois dias seguintes, o clima na casa ficou tenso. Eduarda saía cedo para o teatro e voltava exausta, escondendo os enjoos matinais no banheiro da academia. Ela se sentia culpada por esconder algo tão grandioso de Emanuel, mas a dança era sua identidade, a única coisa que era puramente dela, fora da dinâmica complexa daquela família.
Na manhã do espetáculo, Emanuel entrou no quarto de Eduarda sem bater. Ela estava sentada na beira da cama, tentando fechar o zíper de uma mala pequena, com o rosto banhado em suor frio.
— O que é isso, Eduarda? — A voz dele estava baixa, o tom que ele usava antes de uma explosão.
— Minhas coisas para o teatro, Manu. Eu vou passar o dia lá para os ensaios gerais.
Emanuel não se moveu. Ele caminhou até a cômoda e jogou um pequeno bastão plástico sobre a colcha. O teste de gravidez. Dois riscos vermelhos, inegáveis.
— Eu encontrei isso no fundo do lixo do seu banheiro privativo. Eu não sou idiota, Eduarda.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo som da respiração descompassada de Duda. Ela se levantou, as pernas tremendo.
— Manu, eu ia te contar... eu juro que ia. Só queria passar pelo espetáculo hoje. É o meu sonho.
— O seu sonho? — Emanuel deu um passo à frente, a presença física dele preenchendo o quarto, a raiva emanando de cada tatuagem em seus braços. — Você está grávida! Você tem uma vida aqui dentro e está saltando, girando e se esforçando como se não fosse nada! Você tem noção do risco?
— Eu conversei com o médico, eu estou bem! — ela gritou, a voz falhando. — Eu só queria um momento meu, Emanuel! Você controla tudo! Se eu contasse, você me trancaria aqui, me trataria como uma inválida, assim como faz com a Sara, mas a Sara sabe revidar! Eu não sei!
A fúria de Emanuel atingiu o ápice. Ele não era um homem de violência física gratuita contra as mulheres que amava, mas seu temperamento era vulcânico. Ele chutou a mala de Eduarda, fazendo-a voar contra a parede, e segurou os ombros dela com uma força excessiva, prensando-a contra o armário.
— Você mentiu para mim! — ele rugiu, o rosto a centímetros do dela. — Você colocou meu filho em risco por causa de uma dança idiota? Você não vai a lugar nenhum hoje. Você vai ficar trancada neste quarto se for preciso, mas você não sobe naquele palco.
— Você não pode fazer isso! — Eduarda soluçava, tentando se soltar. — É a minha vida!
— A sua vida me pertence, Eduarda! Este bebê me pertence! — Ele soltou os ombros dela com um empurrão brusco, fazendo-a cair sentada na cama. — Eu cuido de você, eu protejo você, e é assim que você me retribui? Escondendo uma gravidez como se eu fosse um inimigo?
Sara apareceu na porta, segurando Ágata no quadril. Seus olhos loiros estavam arregalados, mas não havia medo neles, apenas uma análise fria da situação.
— Emanuel, solta ela. Você está passando dos limites — Sara disse, a voz firme, embora estivesse em choque com a revelação da gravidez de Duda.
— Fica fora disso, Sara! — Emanuel se virou para ela, os olhos injetados. — Ela está grávida e ia esconder até o final do espetáculo. Ela ia pular e cair naquele palco com o meu filho na barriga!
Sara olhou para Eduarda, que chorava compulsivamente, encolhida na cama. A loira sentiu uma pontada de empatia que raramente demonstrava. Ela sabia o que era ser controlada pelo excesso de zelo de Emanuel.
— Ela errou em esconder, Emanuel. Mas você está agindo como um animal — Sara entregou Ágata para a babá, que observava de longe, e entrou no quarto, fechando a porta atrás de si. — Duda, por que você não falou?
— Porque ele não me deixa respirar, Sara! — Duda gritou entre soluços. — Você é forte, você grita de volta, você faz o que quer. Eu sou a "doce Eduarda", a "manhosa". Se eu dissesse que estou grávida, eu deixaria de ser a bailarina para ser apenas um útero para ele!
Emanuel passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro como um predador enjaulado. A veia em seu pescoço pulsava.
— Você não vai dançar. Acabou — sentenciou Emanuel, pegando o celular. — Vou ligar para a companhia e dizer que você teve um colapso.
— Se você fizer isso — Eduarda disse, levantando-se com uma coragem que nunca tivera antes, a voz subitamente fria —, eu nunca mais deixo você me tocar. Eu vou para a casa dos meus pais e você nunca mais vai ver esse bebê.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel parou. Ele olhou para a jovem bailarina, a menina tímida que ele sempre protegeu, e viu nela uma determinação mortal. Ele sentiu uma onda de ódio misturada com um medo profundo de perdê-la.
— Você está me ameaçando? — Ele deu um passo em direção a ela, a mão fechada em punho ao lado do corpo, a tensão vibrando no ar.
— Estou protegendo a única coisa que ainda é minha — ela respondeu, embora seus lábios estivessem azuis de pavor.
Sara interveio, colocando-se entre os dois.
— Chega! Emanuel, sai daqui. Agora. Vai esfriar a cabeça no estúdio ou quebrar um saco de pancadas. Eu cuido dela.
— Sara, não se meta...
— Sai, Emanuel! Antes que você faça algo de que vá se arrepender pelo resto da vida! — Sara gritou, empurrando o peito dele.
Emanuel lançou um último olhar furioso para Eduarda, um olhar que prometia que aquela conversa estava longe de terminar, e saiu, batendo a porta com tanta força que um quadro na parede se deslocou.
Eduarda desabou no chão, escondendo o rosto nas mãos. Sara suspirou, sentando-se ao lado dela e puxando a cabeça da jovem para o seu ombro.
— Ele é um idiota possessivo, Duda. Mas ele tem razão em uma coisa: você foi burra em esconder.
— Eu só queria ser eu mesma por mais uma noite, Sara — soluçou Eduarda. — Depois que a barriga crescer, eu vou ser só a mãe da Maya e da Valentina... ou seja lá quem for esse bebê.
— Você nunca vai ser "só" nada, sua tonta — Sara disse, limpando uma lágrima do rosto de Duda com o polegar. — Mas escuta... se você quer dançar hoje, você vai. Eu vou com você. Vou ficar nos bastidores com o médico da companhia de prontidão. E se você sentir uma pontada, eu mesma te tiro do palco pelos cabelos.
Eduarda olhou para Sara, surpresa.
— Você faria isso? Depois de tudo?
— Eu quero ver a cara do Emanuel quando ele perceber que não manda em tudo nesta casa — Sara deu um sorriso malicioso, o brilho competitivo voltando aos olhos. — E, além disso, a Valentina precisa ver que a tia Duda é uma estrela, para ela já nascer sabendo que mulheres nesta família não aceitam coleira.
Horas depois, as luzes do teatro se apagaram. Emanuel estava sentado na primeira fila, o rosto uma máscara de mármore sombrio. Ele não havia ligado para a companhia, não por bondade, mas porque Sara o ameaçara de não deixá-lo entrar em casa se ele estragasse a carreira de Eduarda. Ele estava ali, com os punhos cerrados, o coração martelando contra as costelas, pronto para pular no palco ao menor sinal de perigo.
Quando Eduarda entrou, ela parecia flutuar. O figurino branco e prata escondia qualquer vestígio da gravidez incipiente. Ela dançou com uma entrega que Emanuel nunca tinha visto. Havia dor em seus movimentos, mas também uma libertação feroz. Ela não era apenas a menina doce que ele abraçava à noite; ela era uma força da natureza.
Nos bastidores, Sara segurava Maya no colo. A bebê estava hipnotizada pela luz e pela música, apontando para o palco e murmurando "Mamãe, mamãe". Ágata, ao lado, tentava imitar os passos de dança, rodopiando e caindo, rindo de si mesma.
Quando o espetáculo terminou e os aplausos irromperam, Eduarda permaneceu no centro do palco, ofegante, as lágrimas escorrendo livremente. Ela olhou diretamente para Emanuel. Ele se levantou, mas não aplaudiu. Seus olhos encontraram os dela em um duelo silencioso de vontade e posse.
No camarim, o confronto final aconteceu. Eduarda ainda estava com a maquiagem pesada quando Emanuel entrou, fechando a porta atrás de si. Sara e as meninas estavam do lado de fora.
— Você foi magnífica — ele disse, a voz rouca, sem qualquer traço de elogio, apenas a constatação de um fato que o torturava.
— Obrigada — ela respondeu, limpando o rosto.
— Mas nunca mais — ele caminhou até ela, prendendo-a entre a penteadeira e seu corpo. — Nunca mais esconda nada de mim, Eduarda. Eu quase enlouqueci hoje pensando que algo poderia acontecer com você. Com vocês dois.
— Você precisa aprender que eu não sou sua propriedade, Manu. Nem eu, nem a Sara, nem as meninas.
Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.
— Eu não sei amar de outro jeito. Eu protejo o que é meu. E você é minha, Eduarda. De corpo, alma e agora, com mais um pedaço de mim dentro de você.
Ele a beijou com uma intensidade que misturava punição e adoração. Eduarda cedeu, como sempre fazia, mas algo havia mudado. Ela provara a si mesma que podia enfrentar a tempestade.
A porta se abriu e Sara entrou, carregando o caos habitual.
— Chega de drama grego, vocês dois. Temos um bebê para celebrar e uma Valentina para terminar de chocar — Sara disse, entregando Maya para Eduarda. — E Emanuel, você vai pagar um jantar caríssimo para nós três. E nada de comida de hospital para a Duda, ela merece um banquete.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, loira, desafiadora e grávida de sua terceira filha. Eduarda, doce, resiliente e carregando o quarto fruto de seu amor complexo. Ele suspirou, sentindo o peso da responsabilidade e a exaustão da raiva.
— Vamos para casa — ele disse, pegando Ágata no colo e estendendo a mão para Eduarda.
Enquanto caminhavam para a saída do teatro, cercados por flashes e admiradores, a família improvável atraía olhares. O tatuador rico e perigoso, a administradora vulgar e deslumbrante, e a bailarina sensível e etérea. Três adultos, duas bebês e duas vidas a caminho.
O amor deles não era calmo, não era simples e, certamente, não era saudável segundo os padrões do mundo. Era um campo de batalha de egos, desejos e protecionismo. Mas, enquanto Emanuel sentia a mão de Eduarda apertar a sua e ouvia o riso sarcástico de Sara ao seu lado, ele sabia que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no universo.
A gravidez de Eduarda, agora revelada, seria um novo capítulo de restrições e brigas, mas também de uma nova profundidade. Maya teria um irmão ou irmã, e Valentina teria uma companheira de berço. As raízes daquela família, regadas com tinta de tatuagem, suor de palco e o perfume caro de Sara, estavam se tornando profundas demais para serem arrancadas por qualquer tempestade.