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Sombras Entre os Pinheiros
O ar da montanha, que deveria ser um refúgio de paz para o final da gravidez de Sara e Eduarda, tornou-se subitamente gélido e sinistro. O sítio da família de Emanuel, cercado por uma mata fechada de pinheiros e vegetação densa, parecia ter engolido o som das risadas das crianças.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos. Emanuel estava nos fundos, preparando a lenha para a lareira. Sara e Eduarda descansavam na varanda, trocando confidências sobre os chutes cada vez mais vigorosos de Valentina e dos gêmeos, Amélie e Benício. Ágata e Maya brincavam a poucos metros dali, sob a sombra de um carvalho centenário. Ágata, com sua energia inesgotável, liderava uma "caçada ao tesouro", enquanto Maya a seguia, tropeçando nos próprios pés, mas confiando cegamente na irmã loira.
— Ágata? Maya? — A voz de Eduarda soou primeiro, suave, mas carregada de uma súbita premonição.
O silêncio que retornou foi absoluto. Apenas o vento assobiando entre as copas das árvores.
— Ágata, chega de brincadeira! — Sara gritou, levantando-se com dificuldade, a mão espalmada sobre a barriga de sete meses. — Apareçam agora ou eu vou jogar todas as bonecas novas no lixo!
Nenhuma resposta. Nem um riso abafado, nem o som de galhos secos quebrando.
— Emanuel! — O grito de Eduarda foi um lamento agudo que rasgou a tarde.
Emanuel apareceu correndo, o machado ainda na mão, o rosto pálido sob as tatuagens. Em cinco minutos, a busca frenética ao redor da casa confirmou o pior: o portão lateral que dava para a trilha da reserva estava encostado. As meninas haviam entrado na floresta.
— Eu vou matá-las... eu vou morrer... — Sara começou a hiperventilar, o rosto perdendo a cor. — Ágata não tem senso de perigo, Emanuel! Ela acha que o mundo é um playground! E a Maya... a Maya vai entrar em pânico, ela vai congelar!
— Calem a boca e fiquem aqui! — Emanuel rugiu, embora seus próprios olhos traíssem o terror. — Eu vou entrar. Chamem os caseiros, liguem para os bombeiros, façam qualquer coisa, mas não saiam desta varanda!
Ele desapareceu entre as árvores, gritando os nomes das filhas, a voz sumindo na vastidão verde.
Duas horas se passaram. O crepúsculo começou a tingir o céu de um roxo doentio. Dentro da casa, o clima era de puro desespero. Eduarda estava encolhida no sofá, abraçada às próprias pernas, balançando-se freneticamente. Os gêmeos, sentindo o cortisol e o pavor da mãe, chutavam de forma dolorosa, como se tentassem escapar daquela angústia.
— Elas são tão pequenas, Sara... — Eduarda soluçava, a voz sumindo. — A Maya tem medo do escuro. Ela deve estar chamando por mim. Ela não consegue andar muito tempo sem se cansar.
Sara, que andava de um lado para o outro como uma leoa enjaulada, parou bruscamente. Uma dor aguda, como uma faca em brasa, atravessou seu baixo ventre. Ela soltou um gemido e se apoiou na mesa de jantar, derrubando um vaso de flores.
— Sara? — Eduarda levantou-se, cambaleando. — O que foi?
— Valentina... — Sara arquejou, o suor frio brotando instantaneamente em sua testa. — Duda, está doendo. Está doendo muito.
Eduarda esqueceu sua própria fraqueza. Ela correu até a outra mulher, sentindo uma pontada aguda em sua própria barriga — um protesto de Amélie e Benício diante do estresse insuportável.
— Respira, Sara! Não pode ser agora, é muito cedo! — Eduarda tentou guiá-la até o sofá, mas Sara desabou de joelhos, as mãos cravadas no tapete.
— Se algo acontecer com as meninas... se eu perder a Valentina por causa desse susto... — Sara chorava, uma imagem de vulnerabilidade que ela nunca permitia que ninguém visse. — Eu não vou aguentar, Duda. Eu não sou tão forte quanto pareço.
— Você é a mulher mais forte que eu conheço — Eduarda disse, sentando-se no chão ao lado dela, ignorando a dor latente em seu próprio ventre. — Escuta, os gêmeos estão agitados, eu sinto eles chutando como se estivessem em guerra. Mas nós temos que manter a calma por eles. Pela Ágata. Pela Maya.
Eduarda pegou a mão de Sara e a colocou sobre sua própria barriga, enquanto Sara colocava a mão sobre a de Eduarda. Ali, no chão da sala, as duas mães tentavam criar um círculo de proteção através do toque, mesmo enquanto o mundo lá fora desmoronava.
Enquanto isso, na escuridão da floresta, Emanuel estava prestes a enlouquecer. Ele encontrou um pedaço do laço rosa de Ágata preso em um arbusto de espinhos. O pânico o cegava. Ele imaginava predadores, buracos, o frio da noite que começava a cair.
— ÁGATA! MAYA! — Ele berrou, a voz já rouca.
Um choro baixo, quase um sussurro, veio da direção de uma pequena ravina. Emanuel desceu a encosta, escorregando na terra úmida, rasgando as roupas e a pele. No fundo da vala, ele as viu.
Ágata estava sentada no chão, com as costas contra uma pedra. Maya estava deitada no colo da irmã, chorando silenciosamente, tremendo de frio. Ágata, a pequena diva, a miniatura de Sara, tinha os braços ao redor da irmã mais nova. Ela não chorava. Tinha o queixo erguido e os olhos arregalados, vigiando a escuridão.
— Papai! — O grito de Ágata foi de puro alívio, mas ela não soltou Maya. — A Maya caiu e não quis mais andar. Eu disse que você vinha. Eu disse!
Emanuel caiu de joelhos ao lado delas, puxando as duas para um abraço tão apertado que Maya soltou um ganido de surpresa. Ele chorou. O homem de gelo, o tatuador que enfrentava gangues e negócios bilionários sem piscar, soluçou como uma criança no ombro das filhas.
— Nunca mais... nunca mais façam isso — ele murmurava, beijando o topo da cabeça de cada uma.
Quando Emanuel finalmente emergiu da trilha, carregando uma menina em cada braço, a cena que encontrou na sala foi de um drama diferente.
Sara estava deitada no sofá, com o rosto pálido, sendo assistida pelo caseiro que tentava medir sua pressão. Eduarda estava sentada no chão, com a cabeça encostada nos joelhos de Sara, ambas em um estado de exaustão catatônica.
— Elas estão aqui! — O grito de Emanuel ecoou pela casa.
O efeito foi instantâneo. Eduarda levantou-se com um salto que a fez gemer de dor, mas correu em direção a eles. Sara tentou se levantar, mas uma nova contração a fez cair de volta, soltando um grito de agonia.
— Sara! — Emanuel colocou as meninas no chão e correu para a loira.
— Tira... tira a mão de mim, seu idiota! — Sara gritou, mesmo com lágrimas nos olhos, recuperando um pouco de sua agressividade defensiva. — Onde elas estavam? Ágata, venha aqui agora!
Ágata, percebendo o estado da mãe, correu para ela. Maya, por sua vez, lançou-se nos braços de Eduarda, escondendo o rosto no peito da bailarina.
— Mamãe... escuro... frio... — Maya soluçava, o corpo ainda tremendo.
— Já passou, meu anjo. A mamãe está aqui. Os bebês também estão aqui — Eduarda a ninava, sentindo Amélie e Benício finalmente se acalmarem conforme seus próprios batimentos cardíacos desaceleravam.
Emanuel ajoelhou-se ao lado de Sara, que segurava Ágata com uma mão e a barriga com a outra.
— A Valentina... como ela está? — ele perguntou, a voz trêmula.
— Ela está brava, Emanuel. Teve contrações de treinamento, ou talvez o início de algo pior — Sara disse, fechando os olhos e respirando fundo. — O médico disse pelo telefone que eu preciso de repouso absoluto até o final. Se eu me estressar assim de novo, ela nasce antes da hora.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Eduarda parecia exausta, com as mãos protegendo os gêmeos, e Sara estava no limite de suas forças físicas.
— Eu vou cuidar de tudo — Emanuel prometeu, a voz carregada de uma determinação sombria. — Ninguém sai desta casa. Ninguém chega perto daquela floresta.
— Você não pode controlar a floresta, Manu — Eduarda disse suavemente, aproximando-se com Maya ainda no colo e sentando-se ao lado deles. — Mas você pode nos abraçar agora.
Eles formaram um amontoado humano no chão da sala. Emanuel envolveu Sara e Eduarda com seus braços largos. Ágata e Maya, agora seguras, começaram a relaxar no meio dos pais.
— Eu tive tanto medo — Sara confessou, a voz sumindo pela primeira vez. — Eu vi a minha vida inteira passando, e a Valentina... eu senti como se ela estivesse tentando sair para procurar a irmã.
— Ela é uma Sara, afinal — Emanuel tentou brincar, mas sua voz falhou.
— E a Maya... — Eduarda beijou a bochecha da enteada. — Ela foi corajosa, não foi, Ágata?
— Ela chorou muito — Ágata respondeu, recuperando sua arrogância de mini diva. — Mas eu segurei a mão dela. Eu disse que se algum bicho aparecesse, eu dava um chute nele com meu sapato novo.
A risada que escapou de Emanuel foi de puro alívio.
Naquela noite, ninguém dormiu em quartos separados. Emanuel arrastou colchões para a sala de estar, diante da lareira. Ele ficou de vigília, observando as quatro mulheres de sua vida e os três bebês que ainda chutavam nos ventres.
Eduarda acordou no meio da noite com uma pressão estranha. Ela olhou para o lado e viu Sara acordada, observando o fogo.
— Duda? — Sara sussurrou.
— Oi.
— Obrigada. Por não me deixar entrar em pânico total lá fora.
Eduarda sorriu, a luz das chamas refletindo em seus olhos doces.
— Nós somos uma equipe, Sara. Você cuida da Valentina e da Ágata, e eu cuido da Maya e dos gêmeos. E o Manu... bem, o Manu cuida para que a gente não se mate no processo.
Sara deu um sorriso de canto, aquele jeito irônico que era sua marca registrada.
— É. Mas se a Valentina nascer loira e brava como eu, e os seus gêmeos forem manhosos como você, o Emanuel vai precisar de um hospício, não de um sítio.
— Ele já vive em um — Eduarda brincou.
Emanuel, que fingia dormir, abriu um dos olhos e sorriu na escuridão. O susto na floresta havia deixado cicatrizes de medo, mas também havia solidificado algo que nenhuma convenção social poderia explicar.
Ele tinha duas mulheres que eram o oposto uma da outra, filhas que eram espelhos de suas almas distintas e três novas vidas a caminho. O risco de perder tudo naquela tarde o fizera entender que sua riqueza não estava nos estúdios ou nas contas bancárias. Estava naquela sala, no cheiro de pinheiro que ainda impregnava as roupas das meninas e na respiração sincronizada das duas mães.
A floresta lá fora permanecia escura e perigosa, mas ali dentro, protegidos pelo fogo e pelo amor possessivo de um homem marcado pela vida, eles eram invencíveis. Sara fechou os olhos, sentindo Valentina se acalmar. Eduarda relaxou, sentindo os gêmeos finalmente dormirem. E Emanuel continuou vigiando, o guardião de um caos que ele não trocaria por nada no mundo.