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O Peso da Proteção e o Brilho de Safira
O sol da manhã entrava pelas janelas do duplex, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, um lugar que se tornara seu refúgio particular. Maya, agora com pouco mais de um ano, estava aninhada em seu colo, o rostinho castanho escondido na curva do pescoço da "mamãe". Duda sentia o peso reconfortante da enteada, mas também sentia o peso novo e duplo em seu próprio ventre.
A notícia dos gêmeos, Amélie e Benício, caíra como uma bomba de alegria e ansiedade sobre a família. Se com uma gravidez Emanuel já se tornara um guarda-costas implacável, com dois bebês a caminho, ele beirava a paranoia.
— Eduarda, o que eu falei sobre esse esforço? — A voz de Emanuel ecoou, firme e carregada de uma irritação que ele tentava, sem sucesso, mascarar como preocupação.
Ele entrou no quarto com passos pesados, os braços tatuados cruzados sobre o peito largo. O olhar dele caiu imediatamente sobre Maya, que dormitava no colo de Duda.
— Manu, é só a Maya. Ela precisa de mim — Eduarda respondeu em um sussurro, apertando a pequena contra o corpo.
— Não é "só a Maya", Duda. São dois bebês aí dentro. Você está no segundo trimestre, sua coluna já está sofrendo e você não tem estrutura física para carregar uma criança de dez quilos enquanto gera outras duas — Emanuel caminhou até ela, estendendo os braços para pegar a filha. — Dá ela aqui. Agora.
— Não! — Duda se encolheu na poltrona, um lampejo de resistência brilhando em seus olhos normalmente suaves. — Ela sentiu cólica a noite toda. Ela só se acalma comigo. Eu não sou uma inválida, Emanuel.
— Você é teimosa, isso sim — ele retrucou, a voz subindo um tom, o que fez Maya se mexer, inquieta. — Eu não vou discutir isso. Você quer colocar a gravidez em risco por causa de um capricho?
— Não é capricho, é amor! — Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, a sensibilidade à flor da pele devido aos hormônios. — Você quer me tirar tudo? Já me tirou o ballet, agora quer me tirar o contato com a minha menina?
Antes que Emanuel pudesse responder com uma de suas sentenças lógicas e frias, o som de saltos altos batendo no assoalho de madeira anunciou a chegada da terceira ponta daquele triângulo. Sara entrou no quarto usando um roupão de seda vermelha, com Ágata pela mão. A menina loira já estava vestida com um vestido de festa bufante, parecendo uma boneca de porcelana com a atitude de uma general.
— Pelo amor de Deus, vocês dois parecem dois adolescentes brigando por um brinquedo — Sara disse, encostando-se no batente da porta e lixando uma unha perfeitamente esculpida. — Emanuel, solta o osso. A Duda é feita de açúcar, mas não derrete tão fácil. E Duda, querida, ele tem um ponto. Se você travar a coluna, quem vai ter que aguentar o mau humor dele sou eu, e eu tenho mais o que fazer, como cuidar da minha própria barriga.
Sara também estava grávida, carregando Valentina, mas sua gestação parecia apenas um acessório de luxo que ela exibia com orgulho, sem deixar que isso diminuísse seu ritmo frenético na administração da loja ou nas discussões da casa.
— Não se meta, Sara — Emanuel rosnou, sem desviar os olhos de Eduarda.
— Eu me meto porque hoje é o aniversário da sua tia Berenice — Sara rebateu, arqueando a sobrancelha loira. — E se vocês dois continuarem com essa cara de enterro, ela vai passar a festa inteira perguntando se o "tatuador rico" finalmente enlouqueceu vivendo com duas mulheres. Vamos logo. Ágata já está pronta para ofuscar todas as primas invejosas daquela família.
Emanuel bufou, passando a mão pelo rosto. Ele odiava eventos familiares, especialmente os da ala mais tradicional de sua família, que olhavam para seu arranjo doméstico com uma mistura de horror e fascínio mórbido.
— Cinco minutos, Eduarda — Emanuel sentenciou, apontando para ela. — Coloque a Maya no chão. Se eu te vir carregando ela no colo durante a festa, nós vamos embora na mesma hora. Entendido?
Eduarda não respondeu. Apenas esperou que ele saísse do quarto para beijar a testa de Maya.
— Ele só está com medo, pequena — sussurrou ela, embora seu coração ainda batesse acelerado pela imposição dele.
A festa de 80 anos da tia Berenice acontecia em um casarão antigo no Jardim Europa. O ambiente era o oposto do mundo de Emanuel: lustres de cristal, prataria polida e conversas em tons baixos sobre investimentos e linhagens.
Quando o grupo entrou, o silêncio se espalhou por alguns segundos. Emanuel, de terno preto sob medida que não conseguia esconder as tatuagens que subiam pelo pescoço; Sara, deslumbrante em um vestido dourado justo que gritava "vulgaridade cara" para os padrões daquela elite; e Eduarda, em um vestido azul-sereno, fluido, segurando a mão de Maya com uma ternura que contrastava com a imponidade dos outros dois.
— Mantenha a postura, Duda — Sara sussurrou, aproximando-se da bailarina. — Aquela velha ali no canto, de colar de pérolas, está tentando contar quantos bebês temos no total. Sorria como se você fosse a dona do banco.
— Eu só quero sentar, Sara — Eduarda confessou, sentindo o peso de Amélie e Benício puxando seu ventre para baixo.
— Emanuel, olhe para a sua tia — Sara cutucou o braço do homem. — Ela está vindo para cá. Prepare o seu melhor sorriso de "eu sou rico e não ligo para a sua opinião".
Tia Berenice aproximou-se, uma mulher de olhar afiado e sorriso treinado.
— Emanuel, querido. Que bom que veio. E trouxe... suas companheiras.
— Tia — Emanuel cumprimentou com um aceno rígido. — Esta é Sara, mãe da Ágata e da Valentina que está a caminho. E esta é Eduarda, que cuida da nossa Maya e espera o Benício e a Amélie.
A menção direta aos nomes e à situação fez a tia piscar, desconcertada pela falta de eufemismos de Emanuel.
— Sim, sim... muito produtivo, eu diria — a velha comentou, olhando para as barrigas proeminentes das duas mulheres. — Mas diga-me, Eduarda, não é muito exaustivo? Uma menina tão delicada carregando o peso de... bem, de tudo isso?
— O amor não pesa, dona Berenice — Eduarda respondeu com uma doçura que carregava uma ponta de aço. — E eu tenho o Manu e a Sara para dividir o fardo.
Sara deu um sorriso satisfeito, orgulhosa da resposta da "manhosa".
A festa prosseguiu sob olhares curiosos. Emanuel não saía do lado de Eduarda, agindo como um satélite de proteção. Ele vigiava cada passo dela, cada copo de água que ela bebia.
— Manu, eu vou levar a Maya para ver os peixes no laguinho do jardim — Eduarda disse, levantando-se da mesa onde estavam.
— Eu levo ela — Emanuel prontamente se levantou.
— Não. Você está conversando com seu primo sobre os novos estúdios em Londres. Eu consigo caminhar dez metros, Emanuel.
— Duda... — o tom de aviso dele era claro.
— Eu não vou carregar ela, prometo. Só vou dar a mão — mentiu ela, já se afastando antes que ele pudesse protestar.
No jardim, longe dos olhares julgadores e da pressão de Emanuel, Eduarda respirou fundo. O ar da noite estava fresco. Maya corria entre os canteiros de flores, rindo.
— Olha, mamãe! Pêxe! — A bebê apontou para a água iluminada.
Mas o terreno era irregular. Maya, em sua empolgação, tropeçou em uma raiz de árvore e caiu, soltando um choro agudo de susto e dor. O instinto de Eduarda foi imediato. Esquecendo as promessas, as dores nas costas e as ameaças de Emanuel, ela se inclinou e pegou a filha nos braços, trazendo-a para o colo com um movimento fluido de bailarina.
— Calma, meu amor. A mamãe está aqui. Já passou...
Ela caminhou de um lado para o outro, ninando a pequena, sentindo a pressão dos gêmeos contra suas costelas, mas ignorando-a em favor do conforto da filha.
— O que você pensa que está fazendo? — A voz de Emanuel veio das sombras, fria e cortante como uma navalha.
Eduarda se virou, encontrando-o parado sob a luz de um poste de jardim. Ele parecia uma estátua de fúria.
— Ela caiu, Emanuel! — Eduarda defendeu-se, sem soltar a bebê. — Ela estava chorando. O que você queria que eu fizesse? Que ficasse olhando?
— Eu queria que você me chamasse! — Ele caminhou até ela, a distância diminuindo perigosamente. — Você está sendo negligente com os bebês que carrega, Eduarda! Você é frágil, entenda isso de uma vez!
— Eu não sou frágil! — ela gritou de volta, as lágrimas finalmente caindo. — Eu sou a mãe dela também! Você não pode me proibir de exercer o meu afeto. Você acha que me protege, mas você me sufoca, Emanuel! Você me trata como se eu fosse um dos seus desenhos que você tem medo que a tinta borre!
Emanuel parou, o peito subindo e descendo com força. Ele viu o tremor nas mãos dela, viu o suor na testa e, acima de tudo, viu o amor feroz com que ela segurava Maya. O silêncio se arrastou, tenso, até que Sara apareceu, segurando uma taça de champanhe (que provavelmente era apenas suco, dada a vigilância de Emanuel sobre ela também).
— Se vocês continuarem gritando no jardim, a tia Berenice vai ter um enfarte, o que seria ótimo para a herança, mas péssimo para o clima da festa — Sara comentou, sua voz cortando a tensão. — Emanuel, chega. Ela já pegou a menina. O mundo não acabou. Benício e Amélie estão bem.
— Ela não me escuta, Sara — Emanuel disse, a voz subitamente cansada, a raiva dando lugar a uma exaustão emocional profunda. — Eu só quero que todos fiquem vivos. É pedir muito?
— É pedir muito quando você tenta controlar o batimento cardíaco delas — Sara caminhou até Eduarda e, com uma delicadeza rara, pegou Maya do colo dela. — Vem aqui, manhosinha número dois. A mamãe Duda precisa descansar um pouco, ou o papai ogro vai ter um colapso nervoso no meio das begônias.
Eduarda soltou a bebê, sentindo o corpo protestar pelo esforço súbito. Emanuel deu um passo à frente e, desta vez, não foi para repreender. Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Desculpe — ele murmurou, a voz abafada. — Eu fico cego quando acho que posso perder vocês. A minha vida inteira foi sobre ter o controle, Duda. Se eu perco o controle sobre a segurança de vocês, eu não sou nada.
Eduarda relaxou nos braços dele, sentindo o calor das tatuagens dele através do tecido fino do terno.
— Você não precisa carregar o mundo sozinho, Manu. Nós somos uma família. A Sara é forte por nós dois, eu sou sensível por nós três, e você... você é o nosso chão. Mas deixe a gente caminhar sobre ele, está bem?
Emanuel se afastou um pouco, olhando para o rosto dela, marcado pelo choro mas iluminado pela lua.
— Está bem. Mas se você sentir uma dor, qualquer dor...
— Eu te aviso. Eu prometo — ela sorriu, um sorriso doce que sempre desarmava as defesas mais rígidas dele.
Sara, observando a cena enquanto Ágata puxava a barra de seu vestido dourado, soltou um suspiro teatral.
— Ótimo. Agora que a paz mundial foi restaurada, podemos voltar para dentro e comer aquele bolo de nozes que custou uma fortuna? Estou faminta e a Valentina está exigindo açúcar.
Eles voltaram para o salão juntos. Emanuel com a mão espalmada nas costas de Eduarda, um toque leve, mas constante, de suporte. Sara à frente, liderando o caminho com a confiança de uma rainha, carregando Maya e Ágata como se fossem acessórios de sua própria grandeza.
Naquela noite, na mansão da tia Berenice, a família de Emanuel provou mais uma vez que não se encaixava em molduras. Eles eram um quadro em constante pintura, feito de cores contrastantes que, de alguma forma, criavam uma harmonia única.
Quando chegaram em casa, horas depois, o silêncio finalmente reinou. Emanuel ajudou Eduarda a se despir, tratando-a com uma reverência quase religiosa. Ele ajoelhou-se diante dela e beijou a barriga saliente, onde Benício e Amélie chutavam suavemente.
— Eles vão ser teimosos como você — Emanuel comentou, sorrindo contra a pele dela.
— E fortes como a Sara — Eduarda completou, acariciando os cabelos dele.
No quarto ao lado, Sara já estava jogada na cama, com as pernas para cima, reclamando do inchaço nos tornozelos, mas com um sorriso satisfeito no rosto. Ela sabia que, apesar das brigas e do controle sufocante de Emanuel, eles haviam construído algo indestrutível.
A sensibilidade de Eduarda era a cola, a força de Sara era a parede, e o amor controlador de Emanuel era o teto. Juntos, eles eram um lar. Um lar onde o colo de uma mãe nunca seria negado a um filho, não importa quantos outros estivessem a caminho, e onde um tatuador endurecido pela vida aprendia, dia após dia, que amar também significa deixar ir um pouco as rédeas.
Enquanto a lua subia no céu de São Paulo, o duplex mergulhava no sono. Quatro crianças — duas nos braços e duas no ventre — e três adultos que, contra toda a lógica do mundo, haviam encontrado a perfeição no meio do seu próprio caos.