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Sombras de Veludo e Espinhos
A manhã em São Paulo nasceu tingida por um cinza metálico, mas dentro da cobertura de Emanuel, o clima era de uma opulência vibrante. O sol, quando finalmente rompeu as nuvens, refletiu-se nos detalhes dourados da decoração que Sara tanto amava. Emanuel observava a companheira, que estava sentada à mesa do café, usando um conjunto de lingerie de renda preta sob um robe de seda transparente. Ela era o retrato da confiança, uma mulher que não pedia licença para existir.
Emanuel caminhou até ela, depositando um beijo demorado em seu pescoço, sentindo o perfume doce e marcante que ela sempre usava.
— Você está especialmente radiante hoje — murmurou ele, as mãos repousando nos ombros dela.
Sara soltou uma risada anasalada, virando o rosto para encontrar os olhos dele.
— É o efeito de uma noite bem dormida, querido. E do fato de que eu sei que você vai fazer a coisa certa hoje. — Ela pegou a mão dele e a beijou, deixando a marca de seu batom vermelho na pele dele. — Comprei aquele conjunto de joias que te mostrei no catálogo. Considere um presente meu para mim mesma, por ser a mulher mais compreensiva do mundo.
— Você merece tudo o que quiser, Sara — Emanuel disse com sinceridade. Ele a mimava não apenas por culpa, mas porque a força dela era o que o mantinha nos trilhos. — Vou passar na joalheria mais tarde para garantir que a conta esteja paga. E quero que você reserve aquele spa para o fim de semana. Você precisa relaxar.
— Oh, eu vou. Mas agora — ela se levantou, ajeitando o robe com um movimento fluido e vulgarmente elegante —, você tem outra mulher para cuidar. E, Emanuel? Seja gentil. Ela não é feita de aço como eu.
Emanuel assentiu, o peso no peito retornando instantaneamente. Ele se despediu de Valentina, que dormia tranquilamente no berço, e saiu do apartamento. O trajeto até a casa de Eduarda foi feito em um silêncio absoluto dentro do carro blindado. Ele havia passado a noite remoendo a conversa do dia anterior. A raiva ainda latejava em suas têmporas, mas a voz de Sara ecoava em sua mente: "Você realmente quer destruir a mulher que você ama?".
Ao chegar ao prédio de Eduarda, ele não subiu imediatamente. Ficou alguns minutos no carro, observando a fachada simples. Ele era um homem de posses, um tatuador cujas artes valiam fortunas e cujos estúdios eram impérios. Ele poderia dar a Eduarda e aos bebês uma vida de rainha, mas ela havia escolhido o esconderijo.
Quando finalmente tocou a campainha, foi a mãe de Eduarda quem atendeu. A mulher, jovem e de aparência moderna, olhou para ele com uma mistura de reprovação e alívio.
— Ela está no quarto, Emanuel. Não dormiu nada. Por favor... não a faça chorar mais.
Ele não respondeu, apenas entrou. O apartamento parecia menor agora, talvez porque o segredo que o preenchia tivesse explodido. Ele caminhou até a porta do quarto de Eduarda e bateu de leve.
— Sou eu.
Houve um silêncio, seguido pelo som de algo se movendo. A porta se abriu lentamente. Eduarda estava com um vestido de malha leve, cor de pêssego, que evidenciava ainda mais a barriga imensa. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, e o cabelo castanho estava preso em um coque frouxo e bagunçado.
— Você voltou — sussurrou ela, recuando para deixá-lo entrar.
Emanuel entrou e fechou a porta. Ele notou que, sobre a cama, havia alguns livros de História da Arte e um par de sapatilhas de balé que pareciam não ser usadas há meses. O cheiro de lavanda, tão característico dela, o atingiu como um soco de nostalgia e desejo.
— Eu disse que voltaria — disse ele, a voz mantendo uma rigidez que ele não conseguia quebrar totalmente. — Trouxe isso para você.
Ele estendeu uma sacola com frutas frescas, castanhas e as vitaminas que Sara havia mencionado. Eduarda olhou para a sacola e depois para ele, as lágrimas começando a brotar novamente.
— Obrigada.
— Não precisa chorar, Eduarda. Eu não vim aqui para gritar hoje — ele suspirou, sentando-se na poltrona perto da janela, observando-a. — Como você está se sentindo? Fisicamente, quero dizer.
Eduarda sentou-se na beirada da cama, as mãos acariciando o ventre de forma protetora.
— Pesada. Eles se mexem muito... principalmente à noite. Benício é o mais agitado. Amélie parece ser mais calma, mas quando ele começa, ela vai atrás.
Ouvir os nomes novamente causou um arrepio em Emanuel. Ele se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos.
— Eu ainda estou furioso com você — ele admitiu, a voz baixa e tensa. — A ideia de que você passou por tudo isso, cada ultrassom, cada mudança no seu corpo, sem me deixar participar... isso me rasga por dentro. Eu não sou um monstro, Eduarda. Eu teria cuidado de você desde o primeiro segundo.
— Eu sei que teria — ela disse, a voz trêmula. — Mas esse era o problema. Você é o homem da Sara. Vocês têm a Valentina. Eu me senti uma intrusa. Eu me senti suja por ter deixado aquilo acontecer naquela noite, mesmo que meu coração estivesse gritando que eu te amava. Eu achei que, se eu sumisse, a sua vida continuaria perfeita.
— Nada é perfeito, Eduarda! — ele exclamou, mas logo baixou o tom ao ver o susto nos olhos dela. — Minha vida com a Sara é o que é. Nós nos entendemos. Mas o que eu sinto por você... é diferente. E agora tem eles.
Ele apontou para a barriga dela. O silêncio se instalou por alguns instantes, carregado de eletricidade. Emanuel sentiu o impulso de se aproximar, mas a mágoa ainda era um muro alto.
— Posso? — perguntou ele, indicando a barriga com um gesto de cabeça.
Eduarda assentiu, timidamente. Emanuel se levantou e ajoelhou-se à frente dela. Com hesitação, ele colocou as mãos grandes e tatuadas sobre o tecido fino do vestido. A pele sob a malha estava quente. Quase imediatamente, ele sentiu um solavanco sob a palma da mão esquerda.
Um pequeno sorriso, quase involuntário, surgiu nos lábios de Emanuel.
— Esse é o Benício? — perguntou ele, a voz suavizando pela primeira vez.
— Provavelmente — Eduarda sorriu entre as lágrimas, colocando suas mãos sobre as dele. — Ele gosta de chamar atenção.
Emanuel fechou os olhos, sentindo a vida pulsando ali dentro. Eram seus filhos. Metade dele, metade daquela mulher tão frágil e doce que ele desejava proteger e punir ao mesmo tempo. Ele subiu o olhar para o rosto dela. Eduarda o olhava com uma adoração tão pura que o incomodava. Ela era manhosa, inclinando o rosto para o toque dele quando ele levou uma das mãos até sua bochecha.
— Você não vai tirá-los de mim, vai? — ela perguntou, a voz mal passando de um sopro. — Emanuel, eu morreria se você fizesse isso. Eu sei que errei, eu sei que fui covarde... mas eu os amo tanto.
Emanuel sentiu o coração apertar. A ameaça da guarda havia sido fruto da raiva cega, mas ele ainda queria que ela sentisse o peso da consequência.
— Eu quero participar de tudo a partir de agora, Eduarda. De tudo. Vou contratar uma enfermeira particular para ficar aqui com você até o parto. Vou agendar os melhores médicos. E, quando eles nascerem, eles terão o meu nome.
— E depois? — ela insistiu, buscando segurança.
— Depois... — Emanuel suspirou, afastando-se um pouco, mas ainda mantendo o contato visual. — Depois nós vamos encontrar um jeito. Sara não se opõe a nada disso. Ela quer que eu assuma minha responsabilidade. Mas a confiança entre eu e você, Eduarda... isso vai levar tempo. Você me traiu da pior forma possível: com o silêncio.
Eduarda baixou a cabeça, deixando os cabelos caírem sobre o rosto.
— Eu farei qualquer coisa para que você confie em mim de novo. Qualquer coisa.
Emanuel se levantou, limpando o joelho da calça. A dualidade em seu peito era exaustiva. Ele queria pegá-la no colo, levá-la para sua casa e garantir que ela nunca mais tivesse medo, mas também queria deixá-la ali, para que ela sentisse a falta que ele fez durante esses meses.
— Eu vou falar com seus pais — disse ele, caminhando em direção à porta. — Vou organizar a parte financeira e médica hoje mesmo. Amanhã, venho buscar você para irmos a um obstetra que eu confio. Quero ver meus filhos em uma tela, Eduarda. Quero ouvir os corações deles.
— Emanuel? — ela o chamou quando ele já estava com a mão na maçaneta.
Ele parou, mas não se virou.
— Eu te amo. Eu nunca parei de te amar, nem por um segundo. Foi por isso que eu escondi. Eu não queria que você me olhasse com ódio.
— O problema, Eduarda — ele disse, a voz rouca —, é que o ódio e o amor moram na mesma casa agora. E eu não sei qual deles vai abrir a porta amanhã.
Ele saiu do quarto sem olhar para trás, deixando-a sozinha com o peso de suas palavras. Na sala, ele teve uma conversa rápida e pragmática com os pais dela. Ele não era um homem de pedir, era um homem de dar ordens, e deixou claro que a partir daquele momento, ele assumiria o controle de toda a gestação.
Ao sair do prédio, o ar fresco de São Paulo pareceu insuficiente. Ele entrou no carro e ligou para Sara.
— Como ela está? — a voz da loira soou do outro lado da linha, acompanhada pelo som de Valentina balbuciando ao fundo.
— Destruída emocionalmente. E grávida de sete meses de gêmeos que não param de chutar — Emanuel respondeu, encostando a cabeça no banco de couro. — Eu senti eles, Sara.
— É uma sensação louca, não é? — Sara deu uma risada leve. — Traga comida japonesa para o jantar, Emanuel. E não se esqueça do meu vinho caro. Você vai precisar estar bem alimentado e relaxado, porque se você acha que lidar com uma mulher é difícil, imagine lidar com duas, três crianças e uma loira vulgar como eu exigindo sua atenção.
— Eu dou conta, Sara. Eu sempre dou conta.
— Eu sei que dá, meu amor. Por isso eu te escolhi.
Ele desligou o telefone e encarou o volante. Emanuel sabia que sua vida havia se tornado um labirinto complexo. De um lado, Sara: a realidade, o prazer, a força bruta e a parceria sem segredos. Do outro, Eduarda: o sonho, a delicadeza, a culpa e a fragilidade que o despertava para um instinto protetor quase primitivo.
Ele ligou o carro e arrancou. Tinha muito o que planejar. Amélie e Benício chegariam em breve a um mundo que já estava de cabeça para baixo, e Emanuel faria questão de ser o centro de gravidade de todos eles, mesmo que seu próprio coração estivesse em guerra. A raiva por ter sido privado da gestação ainda queimava, mas o toque da mão de Eduarda sobre a dele, enquanto os bebês chutavam, havia plantado uma semente de algo que ele ainda não estava pronto para chamar de perdão, mas que já começava a florescer como uma necessidade incontrolável de tê-la por perto.
Ele passaria na joalheria para Sara, como prometido. Mimaria a mulher que aceitava sua complexidade com um sorriso cínico. Mas, pela primeira vez, ele também passaria em uma loja de enxoval de bebês. Ele queria ver roupas pequenas, sapatos minúsculos e imaginar Amélie e Benício neles.
O controle estava de volta às suas mãos, ou pelo menos era o que ele tentava convencer a si mesmo enquanto dirigia pelas ruas movimentadas, um homem dividido entre dois amores e três filhos, tentando encontrar a harmonia em meio ao caos que ele mesmo ajudara a criar.