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Sombras na Varanda e Segredos ao Luar

O sol começava a se despedir atrás das colinas que cercavam o sítio da família, pintando o céu com tons de violeta e laranja queimado. O ar do campo, fresco e carregado com o cheiro de terra úmida e eucalipto, era um alívio temporário para a tensão que Emanuel carregava nos ombros. Era o aniversário da tia de Sara e Eduarda, uma celebração que reunia o clã em uma propriedade rústica e isolada, longe do barulho incessante de São Paulo.

Emanuel observava a cena da varanda principal. Sara, deslumbrante em um vestido de tricô colado que deixava pouco para a imaginação, circulava entre os parentes com uma taça de espumante na mão, rindo alto e distribuindo comentários ácidos que faziam os tios mais velhos corarem. Ela era uma força da natureza, a dona da situação, movendo-se com a confiança de quem sabia que cada olhar na sala estava voltado para ela.

E então, havia Eduarda.

Ela estava sentada em um balanço de vime sob a sombra de uma mangueira, um pouco afastada do barulho da música. O vestido floral solto não conseguia mais esconder a curvatura acentuada de seu ventre de sete meses. Ela parecia uma pintura de Renoir, suave e melancólica. Emanuel sentiu aquela pontada familiar no peito — uma mistura de adoração pela doçura dela e uma fúria latente pelo silêncio que ela mantivera por tanto tempo.

— Você está encarando de novo — a voz de Sara surgiu ao lado dele, carregada de uma ironia divertida. Ela encostou o corpo siliconado no braço dele, exalando seu perfume caro. — Cuidado, Emanuel. Seus olhos vão acabar atravessando o vestido da coitada.

— Eu só estou garantindo que ela esteja bem — respondeu ele, a voz rouca, sem desviar o olhar. — O terreno aqui é irregular. Ela não deveria estar andando sozinha.

— Ela está grávida, não inválida — Sara deu um gole em sua bebida, observando a prima com um olhar analítico. — Mas eu entendo. Ela tem esse jeito de passarinho ferido que faz qualquer homem querer construir uma gaiola de ouro em volta. Vá lá, fale com ela. Eu vou ver se a Valentina acordou do cochilo.

Sara deu um tapinha no rosto dele e se afastou com seu caminhar rebolado, deixando-o sozinho com seus pensamentos. Emanuel desceu os degraus de madeira e caminhou pela grama até o balanço. Eduarda não o viu chegar; ela estava perdida em um livro de poesias, uma mão repousando distraidamente sobre a barriga.

— O sol está baixando. Você vai sentir frio aqui fora — disse ele, a voz firme, mas menos cortante do que nos últimos dias.

Eduarda deu um pequeno sobressalto, fechando o livro com pressa. Seus olhos castanhos, sempre tão expressivos, brilharam com uma mistura de medo e expectativa.

— Emanuel... eu não te vi chegar. O ar está tão gostoso, eu só queria um pouco de silêncio.

— O silêncio parece ser seu companheiro favorito ultimamente — comentou ele, sentando-se no banco de madeira ao lado do balanço. Ele olhou para a barriga dela, onde um movimento sutil indicava que Benício ou Amélie estavam despertando. — Como eles estão hoje?

— Agitados — ela deu um sorriso tímido, aquele sorriso manhoso que desarmava as defesas de Emanuel. — Acho que eles gostam do ar puro. Estão chutando desde que chegamos.

Emanuel estendeu a mão, mas hesitou por um segundo antes de tocá-la. A mágoa ainda era uma névoa entre eles, mas o instinto de proteção falava mais alto. Quando finalmente pousou a mão sobre o ventre de Eduarda, sentiu uma resposta imediata: um chute firme contra sua palma.

— Esse é o Benício, com certeza — Emanuel murmurou, e por um breve momento, a dureza em seu rosto desapareceu.

— Ele reconhece a sua voz — Eduarda disse em um sussurro, inclinando o corpo levemente para perto dele, buscando o calor que ele emanava. — Toda vez que você fala perto de mim, ele se aquieta ou responde assim.

Emanuel retirou a mão, sentindo o peso da responsabilidade esmagá-lo novamente. Ele a amava. Ele amava o jeito como ela se apoiava nele, a fragilidade que o fazia sentir-se o homem mais forte do mundo. Mas o ressentimento de ter perdido os meses anteriores ainda era uma ferida aberta.

— Não tente me ganhar com isso, Eduarda — ele disse, levantando-se. — As coisas ainda não estão bem entre nós.

— Eu sei — ela baixou os olhos, a voz embargada. — Eu só... eu só queria que você soubesse que eles sentem a sua falta tanto quanto eu.

A noite caiu rapidamente, trazendo consigo o frio típico da serra e um breu que as luzes da varanda mal conseguiam dissipar. Após o jantar, a maioria dos convidados se recolheu para a sala de estar, mas um grupo menor, liderado pelos primos mais velhos e alguns tios, reuniu-se em torno de uma fogueira improvisada no pátio dos fundos.

Eduarda, envolta em um xale de lã grossa, estava sentada em uma cadeira de balanço, com os olhos brilhando de antecipação. Emanuel, postado atrás dela como uma sombra protetora, observava a cena. Ele sabia que Eduarda tinha um fascínio infantil e profundo por histórias de terror e lendas locais. Era um contraste estranho: a bailarina delicada que se encantava com contos de fantasmas e maldições.

— Contem a da "Mulher da Estrada Velha" — pediu um dos primos, atiçando as brasas com um graveto.

— Ah, essa é clássica — começou o Tio Jorge, um homem de voz cavernosa que adorava um drama. — Dizem que, nas noites de lua nova, como a de hoje, uma mulher com um vestido branco rasgado aparece na curva do rio, logo ali atrás do pomar. Ela não fala. Ela apenas aponta para a água fria, chamando aqueles que estão perdidos na escuridão.

Eduarda se encolheu um pouco mais no xale, mas não desviou os olhos do tio. Emanuel sentiu a mão dela tatear para trás, procurando a dele. Ele a segurou, sentindo os dedos dela gelados e trêmulos.

— Ela está com medo — Sara comentou, surgindo das sombras com uma manta nos ombros. Ela se sentou no braço da cadeira de Emanuel, passando a mão pelo cabelo dele de forma possessiva, mas sem malícia contra a prima. — Você sempre foi assim, Duda. Morre de medo, mas não consegue parar de ouvir.

— É que as histórias parecem tão... reais aqui — Eduarda justificou, a voz pequena. — O vento nas árvores parece que está sussurrando nomes.

— É apenas o vento, pequena bailarina — Emanuel disse, apertando a mão dela com firmeza. — Nada vai te tocar enquanto eu estiver aqui.

A conversa continuou, mergulhando em relatos de luzes misteriosas na mata e antigos moradores que nunca deixaram suas casas, mesmo após a morte. O ambiente estava carregado. O estalar da lenha na fogueira soava como tiros no silêncio da noite rural.

— Tem uma história — começou o Tio Jorge, baixando ainda mais a voz — sobre este próprio sítio. Dizem que o antigo dono, um homem amargurado que perdeu a família em uma enchente, ainda caminha pelos corredores da casa principal quando o relógio marca meia-noite. Ele procura pelos filhos que nunca viu crescer.

Emanuel sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o clima. As palavras do tio ecoaram sua própria situação. Ele também quase perdera o direito de ver seus filhos crescerem. O silêncio de Eduarda quase o transformara naquele homem amargurado da história.

Ele olhou para baixo e viu que Eduarda o encarava. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, uma compreensão silenciosa de que a história havia tocado em uma ferida comum.

— Eu nunca faria isso com você por maldade, Emanuel — ela sussurrou, tão baixo que apenas ele podia ouvir, enquanto os outros riam de uma piada nervosa sobre o fantasma. — Eu só queria proteger o que tínhamos. O medo me cegou.

— O medo é um conselheiro terrível, Eduarda — ele respondeu, a voz gélida. — Ele quase destruiu tudo.

A festa começou a se dispersar conforme a madrugada avançava. Sara, bocejando, levantou-se.

— Vou levar a Valentina para o quarto. Ela está começando a ficar inquieta. Você vem, Emanuel?

Emanuel olhou para Eduarda. Ela parecia exausta, mas seus olhos ainda varriam a escuridão além da fogueira, como se esperasse ver algo emergindo das sombras.

— Vá indo, Sara. Vou garantir que a Eduarda entre em segurança e tome o chá que a mãe dela preparou.

Sara deu de ombros, indiferente.

— Não demore. O frio está ficando insuportável.

Quando ficaram a sós perto das brasas moribundas, o silêncio entre Emanuel e Eduarda tornou-se denso. O som dos grilos era a única trilha sonora.

— Você gosta mesmo dessas histórias, não é? — Emanuel perguntou, ajudando-a a se levantar com cuidado.

— Elas me lembram que há coisas no mundo que não podemos controlar — disse ela, apoiando-se pesadamente no braço dele. — Às vezes, a vida real é mais assustadora que qualquer fantasma, Emanuel. Perder você... perder a chance de ser uma família... esse é o meu maior pesadelo.

Emanuel parou no meio do caminho para a casa, forçando-a a parar também. Ele a segurou pelos ombros, olhando-a nos olhos sob a luz pálida da lua.

— Você não me perdeu. Mas você me machucou de um jeito que nenhuma dessas histórias assombradas conseguiria. Você me privou da verdade. Eu olho para você e vejo a mulher que eu amo, a mãe dos meus filhos... mas também vejo a pessoa que me escondeu a vida.

Eduarda começou a chorar, um choro silencioso e manho, escondendo o rosto no peito dele.

— Me perdoa... por favor, me perdoa. Eu não aguento mais esse muro entre nós.

Emanuel suspirou, envolvendo-a em um abraço protetor, apesar da raiva que ainda queimava em algum lugar profundo. Ele sentiu o volume da barriga dela contra seu corpo, a evidência física de sua ligação eterna.

— Eu não sei se consigo perdoar agora — ele admitiu, beijando o topo da cabeça dela. — Mas eu não vou a lugar nenhum. Eu vou cuidar de você, Amélie e Benício. Mesmo que eu tenha que lutar contra os meus próprios fantasmas para isso.

Eles caminharam lentamente em direção à casa. Na varanda, antes de entrarem, Eduarda parou e olhou para a mata escura uma última vez.

— Você ouviu isso? — ela perguntou, a voz trêmula.

— O quê?

— Um sussurro. Parecia... parecia um agradecimento.

Emanuel olhou para a escuridão, vendo apenas o balançar das árvores.

— É a sua imaginação, Eduarda. Ou talvez seja apenas o passado ficando para trás.

Ele a guiou para dentro, fechando a porta pesada de madeira e trancando o mundo exterior. Mas, enquanto subia as escadas, Emanuel não pôde deixar de pensar que, naquela noite de histórias assombradas, o maior monstro não estava na mata, mas no silêncio que eles ainda precisavam aprender a quebrar completamente.

No quarto, Sara já dormia com Valentina ao seu lado. Emanuel acomodou Eduarda em seu próprio quarto, garantindo que ela estivesse confortável. Antes de sair, ele sentiu a mão dela segurar a sua.

— Fica aqui? Só até eu pegar no sono? — ela pediu, com aquele olhar de súplica que ele nunca conseguia ignorar.

Emanuel sentou-se na beirada da cama, segurando a mão da mulher que era sua paz e seu tormento. O amor que sentia por Sara era sólido, construído na base da verdade crua e da paixão exuberante. O amor por Eduarda era como aquelas histórias de fantasmas: algo que habitava as sombras, que o assombrava e o encantava, uma força delicada que ele não conseguia explicar, mas da qual não conseguia fugir.

Ele ficou ali, no escuro, ouvindo a respiração dela se acalmar, enquanto os segredos daquela noite se assentavam como cinzas de uma fogueira que, embora estivesse se apagando, ainda guardava brasas quentes o suficiente para queimar quem ousasse tocá-las sem cuidado. A jornada para a redenção seria longa, mas ali, no silêncio do sítio, Emanuel compreendeu que, fantasmas ou não, ele lutaria contra qualquer sombra para manter suas duas vidas, e seus três filhos, sob sua proteção.