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O Eco das Brasas e o Peso do Desejo

O quarto de casal no andar superior do casarão exalava um perfume de sândalo e o calor de uma lareira que morria lentamente. Emanuel observava Sara através do espelho da penteadeira. Ela havia acabado de soltar os cabelos loiros, que caíam em ondas pesadas sobre os ombros nus. Valentina dormia profundamente em um berço de madeira ao lado da cama, um anjo alheio às tempestades emocionais dos adultos.

Sara se levantou e caminhou até ele. O robe de seda deslizou pelos seus braços, revelando as curvas que Emanuel conhecia tão bem. Ela não precisava de palavras; seu toque era um comando, uma afirmação de posse que ele nunca conseguira — ou quisera — ignorar.

— Esqueça o mundo lá fora por um momento, Emanuel — sussurrou ela, as mãos subindo pelo peito dele, sentindo a tensão nos músculos sob a camisa. — Esqueça a culpa, esqueça o silêncio da minha prima. Aqui, agora, somos apenas nós.

Emanuel a puxou para perto, selando seus lábios com uma urgência que misturava paixão e um desejo desesperado de silenciar os próprios pensamentos. Fazer amor com Sara era como entrar em um campo de batalha onde ele sempre se rendia com prazer. Era intenso, físico e visceral. Naquele momento, entre lençóis de linho e suspiros abafados, ele tentava soterrar a imagem de Eduarda e a mágoa que o consumia. Sara era seu porto seguro, a mulher que não exigia sutilezas, apenas sua presença total.

Enquanto isso, no quarto ao lado, o silêncio era opressor para Eduarda. Ela ouvia o ranger suave da cama vizinha, os sons abafados de uma intimidade que ela desejara intensamente naquela noite de meses atrás, mas que agora parecia um privilégio distante. Seu corpo doía; o peso dos gêmeos tornava qualquer posição desconfortável, e sua mente não parava de repetir as palavras duras de Emanuel.

"O ódio e o amor moram na mesma casa agora."

Ela sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. A solidão no quarto parecia maior do que as paredes podiam suportar. Precisava de ar. Precisava de vozes que não a julgassem, de histórias que não fossem a sua. Com dificuldade, ela se levantou, vestiu um robe de lã por cima do camisolão e calçou seus chinelos de veludo.

Eduarda desceu as escadas com cuidado, segurando-se no corrimão. Ao abrir a porta dos fundos, o ar gelado da madrugada a atingiu, mas o brilho alaranjado que vinha do terreiro a atraiu. A fogueira ainda estava viva, alimentada por toras grossas, e um pequeno grupo permanecia ali, imerso em uma atmosfera de mistério e camaradagem.

Sua mãe, Helena, foi a primeira a vê-la.

— Duda? O que faz acordada, minha filha? — perguntou ela, levantando-se para ajeitar uma cadeira de palha mais confortável perto do fogo. — Os meninos não te deixam dormir?

— Eles estão inquietos, mãe — mentiu Eduarda com um sorriso fraco, sentando-se e aceitando uma caneca de chá de erva-doce que uma das tias lhe ofereceu. — E o quarto estava silencioso demais.

— Pois chegou na hora certa — disse o Tio Jorge, os olhos brilhando sob as sobrancelhas espessas. — Estávamos justamente falando sobre as coisas que este chão já viu. Dizem que, antes desta fazenda ser o que é, o terreno pertencia a um antigo curandeiro que conhecia o segredo das ervas e do destino.

Eduarda se encolheu no xale, sentindo o calor do fogo no rosto.

— Ele podia prever o futuro, tio? — perguntou ela, a voz suave quase sumindo no estalar da lenha.

— Dizem que sim — respondeu Jorge, inclinando-se para frente. — Mas ele dizia que o destino é como um rio. Você pode tentar mudar o curso de um riacho, mas a água sempre encontra o caminho para o mar. Ele contava que uma vez uma jovem veio até ele, desesperada por um amor proibido. Ela queria uma poção para esquecer.

— E ele deu? — perguntou uma das primas, curiosa.

— Ele deu — continuou o tio —, mas avisou: "Você vai esquecer o rosto dele, mas o seu coração continuará batendo no ritmo do dele. E, um dia, o que foi plantado no escuro florescerá na luz".

Eduarda sentiu um calafrio. Aquela frase parecia um eco de sua própria vida. Amélie e Benício eram o que fora plantado no escuro daquela noite de embriaguez, e agora floresciam diante de todos, impossíveis de esconder.

— Histórias antigas sempre têm um fundo de verdade — comentou Helena, acariciando o ombro da filha. — Às vezes, a gente tenta esconder as coisas para não machucar os outros, mas a verdade tem vida própria. Ela respira, ela cresce.

— Como os bebês — sussurrou Eduarda, olhando para as brasas.

Lá no alto, no quarto principal, o clima era de exaustão e calmaria. Emanuel estava deitado, com Sara aninhada em seu peito. Ela já dormia, a respiração rítmica e profunda. Ele, no entanto, continuava alerta. O prazer do momento havia passado, deixando apenas o vazio que a raiva costumava preencher.

Ele se levantou sem acordá-la, vestiu uma calça e um casaco pesado. Precisava de um cigarro, ou talvez apenas de sentir o frio para ter certeza de que estava acordado. Ao sair na varanda, seus olhos foram imediatamente atraídos para o círculo de luz no terreiro.

Ele viu Eduarda.

Ela estava de perfil, a luz do fogo delineando sua silhueta redonda e a suavidade de seu rosto. Ela parecia tão frágil, tão jovem. Emanuel sentiu uma onda de proteção tão forte que o sufocou. Ele a amava com uma intensidade que o assustava, porque era um amor que exigia dele uma paciência que ele não tinha e um perdão que ele ainda não sabia como conceder.

Ele desceu as escadas silenciosamente, aproximando-se do grupo. As vozes cessaram por um momento quando sua figura alta e imponente surgiu nas sombras.

— Emanuel! — exclamou Helena. — Não consegue dormir também?

— O vento está barulhento — respondeu ele, aproximando-se e parando atrás da cadeira de Eduarda. Ele pousou a mão no encosto da cadeira, e sentiu quando ela se retesou levemente, antes de relaxar sob sua presença.

— Estávamos contando histórias de assombração e destino — disse o Tio Jorge, oferecendo um aceno com a cabeça. — Quer ouvir a última?

— Prossiga — disse Emanuel, os olhos fixos na nuca de Eduarda, onde pequenos fios de cabelo castanho escapavam do coque.

— Pois bem — retomou Jorge —, dizem que o curandeiro também falava sobre as almas ligadas. Ele dizia que, quando duas pessoas estão destinadas a compartilhar o mesmo fardo, o universo cria laços que nem a mentira, nem o tempo podem quebrar. Ele chamava isso de "O Nó de Sangue". Quando o sangue se mistura, não há mais "eu" ou "você", apenas o "nós".

Emanuel apertou a madeira da cadeira. O Nó de Sangue. Ele pensou em Valentina, dormindo lá em cima, e nos gêmeos, pulsando no ventre de Eduarda. Sara e Eduarda. Duas mulheres, três filhos, um único homem tentando manter tudo equilibrado.

— É uma história bonita, tio — disse Eduarda, a voz embargada. — Mas laços de sangue também podem ser correntes, não podem?

— Depende de quem segura a chave, minha querida — respondeu o velho, olhando significativamente para Emanuel.

O grupo começou a se desfazer aos poucos. O frio da madrugada estava se tornando cortante demais, mesmo para os mais resistentes. Helena se despediu com um beijo na testa de Eduarda e um olhar de súplica para Emanuel.

— Cuide dela, Emanuel. Ela está cansada.

— Eu vou cuidar — prometeu ele.

Quando ficaram sozinhos diante das cinzas, o silêncio era diferente do que haviam compartilhado no quarto. Era um silêncio carregado de tudo o que ainda não havia sido dito.

— Você deveria estar na cama — disse Emanuel, a voz mais suave do que ele pretendia.

— Eu não conseguia respirar lá dentro — confessou Eduarda, levantando-se com dificuldade. Emanuel instintivamente a segurou pelos braços para dar equilíbrio. — As histórias... elas me fazem sentir que não sou a única a cometer erros por causa do destino.

— O destino não te obrigou a ficar em silêncio por sete meses, Eduarda. Isso foi uma escolha sua.

— Eu sei — ela sussurrou, encostando a testa no peito dele, aproveitando o calor do casaco. — Mas agora eu estou aqui. Eu não vou mais fugir.

Emanuel a envolveu em um abraço desajeitado por causa da barriga proeminente. Ele sentiu um dos bebês chutar contra seu estômago, um lembrete vivo de que o tempo das discussões estava acabando e o tempo da vida estava chegando.

— Amanhã voltaremos para São Paulo — disse ele, o tom de comando retornando. — Vou organizar tudo. Você vai morar em um lugar mais perto de mim e da Sara. Não quero você sozinha em um apartamento pequeno quando eles nascerem.

— Emanuel, eu não quero ser um estorvo na sua vida com ela...

— Você não é um estorvo, Eduarda. Você é a mãe dos meus filhos. E, que Deus me ajude, você é a mulher que eu não consigo tirar do meu sistema.

Ele a afastou um pouco para olhar em seus olhos. A doçura de Eduarda era um bálsamo para sua alma endurecida, mas a traição da omissão ainda era um espinho.

— Sara aceita isso? — perguntou ela, temerosa.

— Sara é mais prática do que você e eu juntos — Emanuel deu um meio sorriso amargo. — Ela diz que, se eu tenho coração para as duas, ela não vai ser quem vai diminuir o espaço. Mas ela exige lealdade. E eu exijo verdade. Nunca mais minta para mim, Eduarda. Nunca.

— Eu prometo — disse ela, as lágrimas voltando a cair. — Eu prometo pela vida da Amélie e do Benício.

Emanuel a guiou de volta para o casarão. Enquanto subiam as escadas, ele sentiu o peso daquela nova configuração familiar. Ele amava Sara pela sua força, pela sua vulgaridade assumida que o desafiava, pela sua risada que preenchia os espaços vazios. E amava Eduarda pela sua fragilidade, pela sua inteligência sensível, pelo modo como ela o fazia querer ser um homem melhor, mais protetor.

Ao chegarem à porta do quarto de Eduarda, ele parou.

— Durma agora. O sol não vai demorar a nascer.

— Emanuel? — ela o chamou antes que ele se afastasse. — Obrigada por não ter ido embora.

— Eu nunca poderia ir embora de onde meu coração está dividido — respondeu ele, antes de entrar no quarto onde Sara o esperava.

Emanuel deitou-se ao lado de Sara, mas seus olhos permaneceram abertos, fixos no teto. As histórias do Tio Jorge ainda ecoavam em sua mente. O Nó de Sangue havia sido atado. O que fora plantado no escuro estava prestes a ver a luz do dia, e ele teria que ser a fundação que sustentaria aquele edifício complexo e frágil.

Lá fora, as brasas da fogueira finalmente se apagaram, deixando apenas o rastro de fumaça que subia em direção às estrelas. O destino, como o rio da história, havia seguido seu curso. E Emanuel, o homem que tentava controlar tudo com lógica e punhos cerrados, finalmente compreendeu que algumas correntes não eram feitas para serem quebradas, mas para serem carregadas com honra.

A manhã chegaria em poucas horas, e com ela, o início de uma nova realidade. Uma realidade onde Amélie e Benício seriam o centro de um mundo onde o amor não era simples, onde a vulgaridade e a delicadeza caminhavam de mãos dadas, e onde um homem teria que aprender que perdoar era o único caminho para não se tornar um fantasma em sua própria história.