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O Labirinto de Vidro e a Posse do Destino
A luz do entardecer em São Paulo refletia-se nos prédios espelhados, mas dentro do estúdio particular de Emanuel, o clima era de uma penumbra densa. Ele terminava de limpar uma máquina de tatuagem, seus movimentos precisos e mecânicos ocultando a tempestade que rugia sob sua pele. Fazia duas semanas que Eduarda havia voltado para a faculdade de História da Arte, e cada minuto que ela passava fora de seu alcance visual parecia uma eternidade de incertezas.
O estopim aconteceu naquela tarde. Emanuel decidira fazer uma surpresa e buscá-la no campus. Ao chegar, viu Eduarda na calçada, conversando com um colega de classe — um rapaz jovem, de cabelos claros, que ria de algo que ela dizia enquanto tocava levemente o braço dela para enfatizar um ponto. Eduarda, com seu jeito manhoso e doce, sorriu de volta, alheia ao vulcão que entrava em erupção dentro do carro parado a poucos metros.
Emanuel não desceu do carro. Ele apenas observou, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. A imagem de Eduarda, tão vulnerável e bonita, sendo alvo da atenção de outro homem, despertou nele um instinto possessivo que ele mal conseguia controlar. Ele se lembrou do silêncio dela durante a gravidez, da forma como ela se escondeu. A ideia de que ela pudesse encontrar em outro lugar a proteção ou o carinho que ele julgava ser exclusividade sua era insuportável.
Ao chegar em casa, o silêncio da cobertura de luxo foi quebrado pelo barulho da porta batendo com força. Sara estava na sala, retocando o batom vermelho diante de um espelho de mão enquanto Valentina brincava em um tapete felpudo.
— Que bicho te mordeu, Emanuel? — perguntou Sara, sem tirar os olhos do reflexo. — Você está com aquela cara de quem vai socar uma parede.
— Eu fui buscar a Eduarda — disse ele, a voz rouca de tensão. — Ela estava lá, Sara. Toda sorridente com um moleque qualquer da faculdade. Como se não tivesse dois bebês em casa, como se não devesse satisfação a ninguém.
Sara fechou o batom com um estalo seco e virou-se para ele, soltando uma risada curta e provocativa.
— Ah, entendi. O grande Emanuel está com ciúmes da princesinha de porcelana. Querido, ela é jovem, é bonita e, ao contrário de mim, exala aquela aura de "preciso ser salva". É óbvio que os garotos vão babar em cima dela.
— Não é piada, Sara! — ele explodiu, caminhando de um lado para o outro. — Eu não confio nela fora daqui. Ela já provou que pode esconder coisas de mim por meses. Quem me garante que ela não vai se encantar por um desses idiotas e decidir que eu sou "complicado demais" para a vida dela?
Sara levantou-se e caminhou até ele, colocando as mãos no peito do companheiro. Ela sentia o coração dele martelando.
— E o que você pretende fazer? Trancá-la em uma torre? — Sara arqueou uma sobrancelha, o olhar brilhando com uma inteligência social aguçada. — Porque, se for isso, eu aviso logo que não quero ser a carcereira.
— Eu vou trazê-la para cá — Emanuel afirmou, e a decisão pareceu se solidificar no ar no momento em que as palavras saíram de sua boca. — Definitivamente. Não quero mais ela morando sozinha com aquelas babás e os pais visitando dia sim, dia não. Quero os gêmeos aqui. Quero ela aqui. Sob o meu teto. Sob os meus olhos.
Sara ficou em silêncio por um momento, processando a proposta. Para qualquer outra mulher, a ideia de dividir a casa com a amante/prima e os filhos dela seria um pesadelo. Mas Sara era pragmática e, acima de tudo, gostava de ter o controle das situações.
— Você quer transformar essa cobertura em um harém moderno, Emanuel? — ela ironizou, mas não havia raiva em sua voz. — Olha, por mim, tudo bem. O apartamento é imenso, tem alas separadas e eu gosto da Eduarda. Ela é quieta, não me incomoda e, sinceramente, vai ser bom ter os gêmeos por perto da Valentina. Mas você já perguntou se ela quer isso?
— Ela não tem que querer, Sara. Ela precisa de proteção. E eu preciso de paz de espírito.
Emanuel não esperou. Ele saiu do apartamento e dirigiu até o prédio de Eduarda como se estivesse indo para uma guerra. Quando ela abriu a porta, ainda usando a mesma roupa da faculdade, seu rosto iluminou-se ao vê-lo, mas o sorriso murchou rapidamente ao notar a expressão dele.
— Emanuel? Aconteceu alguma coisa com os bebês? — perguntou ela, a voz trêmula de preocupação.
— Os bebês estão ótimos, Eduarda. Entre — ordenou ele, passando por ela sem pedir licença.
Ele caminhou até o centro da sala e virou-se para encará-la. Eduarda parecia tão pequena diante da fúria contida dele.
— Quem era aquele cara hoje na faculdade? — perguntou ele, direto.
Eduarda piscou, confusa, as mãos subindo instintivamente para o pescoço.
— Cara? Ah... você fala do Lucas? É apenas um colega de grupo, Emanuel. Estávamos discutindo o seminário sobre o Renascimento. Por que você está falando assim?
— Lucas — Emanuel repetiu o nome como se fosse um insulto. — Ele parecia bem interessado no seu "seminário" enquanto tocava em você.
— Ele não estava tocando em mim de propósito, foi só um gesto... Emanuel, você está com ciúmes? — Ela deu um passo à frente, tentando buscar o olhar dele. — Eu amo você. Eu tenho dois filhos com você. Eu nem olho para outros homens.
— Isso não importa — cortou ele, a voz fria e decidida. — Eu tomei uma decisão. Você vai se mudar para a minha casa. Amanhã.
O choque no rosto de Eduarda foi imediato. Ela recuou, encostando-se no aparador.
— O quê? Para a sua casa? Emanuel, você mora com a Sara!
— Exatamente. O apartamento é grande o suficiente. Você terá sua própria suíte, o quarto dos gêmeos já está sendo montado na ala leste. Eu não quero mais você aqui, vulnerável, exposta a garotos de faculdade e a esse tipo de liberdade que você claramente não sabe gerenciar.
— Você está sendo injusto! — Eduarda exclamou, as lágrimas começando a brotar. — Eu não fiz nada errado. Eu só quero estudar, ter uma vida normal...
— Normal? — Ele riu, um som seco e sem humor. — Nada na nossa vida é normal, Eduarda. Você escondeu uma gravidez de gêmeos por sete meses. A sua definição de "normal" é perigosa para mim. Eu perdi meses da vida dos meus filhos e quase perdi você. Isso não vai acontecer de novo. Você vai para lá porque eu quero ter certeza de que você está segura. E de que você é minha.
Eduarda começou a chorar, aquele choro manhoso que sempre amolecia o coração de Emanuel, mas desta vez ele permaneceu firme. Ele se aproximou e segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele.
— Eu te amo, Eduarda. E eu amo a Sara. Eu não vou abrir mão de nenhuma das duas e não vou permitir que o mundo interfira no que eu construí. Sara concorda com isso. Ela quer você lá.
— Ela concorda? — Eduarda soluçou, confusa. — Como ela pode concordar com isso?
— Porque ela é forte o suficiente para entender que a nossa família não segue as regras dos outros. E você vai aprender a ser forte também. Ou, pelo menos, vai aprender que o seu lugar é onde eu possa te ver.
Eduarda sentiu uma mistura de medo e um alívio pecaminoso. No fundo, sua insegurança sempre a fizera desejar que Emanuel tomasse as rédeas de sua vida. A ideia de morar com ele, de acordar e saber que ele estava no quarto ao lado, era um sonho que ela nunca ousara admitir. Mas a presença de Sara a aterrorizava.
— Eu não sei se consigo, Emanuel... a Sara é tão... marcante. Eu vou me sentir um estorvo.
— Você nunca será um estorvo. Você é a mãe dos meus filhos. Agora, comece a arrumar as malas. Vou mandar uma equipe de mudança amanhã cedo.
A manhã seguinte foi um caos de caixas, berços sendo desmontados e malas sendo carregadas. Quando o comboio chegou à cobertura de Emanuel e Sara, o clima era de uma expectativa elétrica. Sara esperava na porta, usando um conjunto de seda chamativo, segurando uma taça de suco verde.
— Bem-vinda ao hospício, priminha — disse Sara, com um sorriso que era metade acolhedor e metade desafiador. — Emanuel, os carregadores estão colocando as coisas na ala leste. Eduarda, venha comigo. Vou te mostrar onde você vai ficar antes que eu mude de ideia e transforme seu quarto em um closet para sapatos.
Eduarda seguiu Sara timidamente, carregando Amélie no colo, enquanto Emanuel trazia Benício e as malas de mão. A cobertura era um labirinto de luxo, arte moderna e tecnologia. A ala destinada a Eduarda e aos gêmeos era impecável: tons pastéis, móveis de design suave e uma vista deslumbrante da cidade.
— É lindo — sussurrou Eduarda, colocando Amélie no berço novo.
— É funcional — corrigiu Sara, encostando-se na parede. — Escute aqui, Eduarda. O Emanuel teve esse surto de possessividade e eu decidi entrar na onda porque, francamente, facilita a logística. Mas vamos estabelecer regras. Eu sou a dona da casa. O Emanuel é o nosso homem. E as crianças são a prioridade. Se você tentar fazer joguinhos ou se esconder atrás desse seu jeito de mosca-morta para me enfrentar, a convivência vai ser curta. Estamos entendidas?
Eduarda engoliu em seco, olhando para a prima que exalava poder.
— Eu não quero enfrentar você, Sara. Eu só quero que meus filhos fiquem bem. E... eu quero estar perto do Emanuel.
— Ótimo. Pelo menos você é honesta sobre o que quer — Sara deu de ombros e aproximou-se, olhando para a bebê. — Ela é realmente muito fofa. Parece uma boneca de porcelana.
Emanuel entrou no quarto, observando as duas mulheres juntas. O contraste era gritante: Sara, loira, exuberante, vulgarmente magnífica; Eduarda, castanha, delicada, suavemente encantadora. Ali, naquele espaço, ele sentia que o seu mundo estava finalmente completo.
— Tudo certo por aqui? — perguntou ele, aproximando-se e colocando um braço ao redor da cintura de cada uma.
— Sob controle, senhor feudal — ironizou Sara, mas ela se inclinou para o beijo que ele lhe deu na têmpora.
Eduarda também se aconchegou ao lado dele, sentindo o perfume de Emanuel e a segurança que a presença dele trazia.
As semanas seguintes foram um exercício de adaptação. A convivência era um equilíbrio delicado. Emanuel dividia seu tempo com uma precisão quase matemática, embora seus ciúmes em relação a Eduarda continuassem aguçados. Ele a levava e buscava na faculdade pessoalmente, e qualquer interação dela com o mundo exterior passava pelo seu crivo.
Eduarda, por sua vez, florescia sob a atenção constante. Ela gostava de ser cuidada, de ter Emanuel decidindo o que era melhor para ela. A dinâmica com Sara era mais complexa. Às vezes, as duas se uniam para reclamar do gênio difícil de Emanuel; em outras, a tensão era palpável quando ele demonstrava preferência pelo carinho manhoso de Eduarda em detrimento da energia explosiva de Sara.
Certa noite, Emanuel chegou em casa mais tarde do que o habitual. Ele encontrou as duas na sala de estar. Sara estava bebendo vinho e assistindo a um reality show de moda, enquanto Eduarda estava sentada no chão, lendo um livro de arte para Valentina e os gêmeos, que estavam espalhados por um cercadinho acolchoado.
Ele parou na entrada e apenas observou. O ressentimento pela mentira de Eduarda ainda estava lá, guardado em uma gaveta escura de sua mente, mas a visão de sua família unida era um anestésico poderoso.
— O patriarca chegou — anunciou Sara, levantando a taça.
Emanuel caminhou até Eduarda e a ajudou a se levantar, dando-lhe um beijo possessivo na frente de Sara. Depois, caminhou até Sara e a beijou com a mesma intensidade.
— Eu tomei uma decisão — disse ele, sentando-se no sofá grande. — Vamos viajar. Todos nós. Quero levar vocês para a Europa. Vou inaugurar o novo estúdio em Berlim e quero a minha família comigo.
— As três crianças, Emanuel? — Eduarda perguntou, preocupada. — Eles são tão pequenos...
— Eu já organizei tudo. Vamos em um jato particular, com as babás e toda a estrutura. Eu não vou deixar vocês aqui sozinhas.
— Você só quer ter certeza de que ninguém vai olhar para a Eduarda enquanto você estiver fora — Sara provocou, soltando uma gargalhada.
Emanuel não negou. Ele olhou para Eduarda, que baixou os olhos, corando sob o olhar dele.
— Eu quero que o mundo saiba a quem vocês pertencem — afirmou ele, a voz carregada de uma autoridade inabalável.
Naquela noite, após as crianças serem recolhidas, Emanuel ficou na varanda, observando a imensidão de São Paulo. Ele sentiu passos leves atrás de si. Era Eduarda. Ela se aproximou e abraçou sua cintura por trás, apoiando o rosto em suas costas.
— Você ainda está bravo comigo? — ela perguntou em um sussurro. — Pelo tempo que eu escondi a verdade?
Emanuel virou-se no abraço e segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele.
— Eu nunca vou esquecer o que você fez, Eduarda. A mágoa faz parte do que eu sinto por você agora, tanto quanto o amor. Mas é por isso que você está aqui. Para que eu nunca mais tenha que imaginar o que você está sentindo ou fazendo.
— Eu sou sua, Emanuel — ela disse, com uma entrega total nos olhos. — Eu sempre fui.
— Eu sei que é — ele respondeu, a voz sombria e apaixonada. — E eu vou garantir que você nunca se esqueça disso.
Ele a beijou com uma fome que misturava desejo e punição, um reflexo da complexidade de seus sentimentos. No quarto ao lado, Sara ouvia o silêncio da noite, sabendo que sua vida havia mudado para sempre. Ela não se importava em dividir o homem que amava, desde que ela continuasse sendo a rainha daquele castelo de vidro. E Emanuel, o tatuador que marcava a pele das pessoas para sempre, sabia que havia feito a sua marca mais profunda naquelas duas mulheres.
Ele havia criado o seu próprio universo, um lugar onde a vulgaridade e a delicadeza coexistiam sob o seu comando. O ciúme fora o motor, mas o amor — em suas formas mais tortuosas e intensas — era o que mantinha aquelas paredes de pé. E enquanto as luzes da cidade brilhavam lá fora, dentro da cobertura, o Nó de Sangue apertava-se cada vez mais, unindo destinos que, embora improváveis, agora eram indissociáveis.