D
O Labirinto da Inocência e o Jejum do Desejo
O relógio de parede na suíte principal marcava duas da manhã, e o silêncio da cobertura de luxo era apenas aparente. Para Emanuel, o silêncio era uma armadilha. Ele estava deitado de costas, os braços cruzados atrás da cabeça, encarando o teto trabalhado em gesso enquanto a luz da lua filtrava-se pelas cortinas de linho. Ao seu lado, o espaço que deveria ser ocupado pelo corpo macio e curvilíneo de Eduarda estava vazio.
Do quarto contíguo, o som de um choro baixo e manhoso rompeu a quietude. Emanuel fechou os olhos e soltou um suspiro pesado, carregado de uma frustração que vinha se acumulando há semanas. Não era um choro de dor ou de fome; era o chamado possessivo de Amélie.
Os gêmeos haviam completado um ano. O que deveria ser um marco de independência tornou-se, na verdade, o início de uma era de vigilância extrema. Benício era um furacão, já arriscando os primeiros passos e derrubando tudo o que via pela frente, mas era Amélie quem detinha o controle emocional da casa. A menina parecia ter um radar instalado em sua psique infantil: toda vez que Emanuel tentava ter um momento de intimidade com Eduarda, toda vez que o clima esquentava e as mãos dele buscavam a pele da mulher que ele amava com uma fome desesperada, Amélie despertava.
Emanuel levantou-se, vestindo apenas uma calça de moletom, e caminhou descalço até o quarto dos bebês. A cena que encontrou era a mesma das últimas quatro noites. Eduarda estava sentada na poltrona de amamentação, com a luz do abajur reduzida ao mínimo. Amélie estava aninhada em seu colo, os dedinhos gordinhos agarrados à gola do pijama de seda de Eduarda, enquanto Benício dormia profundamente no berço ao lado, alheio ao drama.
— Ela não dorme? — perguntou Emanuel, a voz rouca e áspera pela falta de paciência.
Eduarda deu um sobressalto, olhando para a porta com aqueles olhos castanhos e expressivos que sempre pareciam pedir desculpas.
— Ela teve um pesadelo, eu acho — sussurrou Eduarda, balançando-se levemente. — Toda vez que eu tento colocá-la no berço, ela acorda e começa a soluçar. Ela está muito manhosinha hoje, Emanuel.
— Ela está "manhosinha" há um mês, Eduarda — ele rebateu, entrando no quarto e parando diante delas. Sua presença física, alta e tatuada, parecia grande demais para aquele ambiente de tons pastéis. — E você está cedendo a cada capricho. Ela tem um ano, não quatro meses. Ela precisa aprender a dormir sozinha.
— Eu não consigo deixá-la chorar — disse ela, a voz trêmula, apertando a bebê contra o peito. — Você sabe como eu sou. Meu coração aperta.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer. O desejo por Eduarda era uma pressão constante em seu baixo ventre, uma necessidade de reafirmar sua posse sobre ela, especialmente agora que a rotina parecia tê-lo colocado em segundo plano. Ele amava os filhos com uma intensidade primitiva, mas sentia que estava perdendo a mulher para a maternidade.
— Venha para o quarto — ordenou ele, tentando manter o tom baixo. — Deixe-a no berço. Se ela chorar, a babá eletrônica nos avisa e eu venho aqui. Mas eu preciso de você, Eduarda. Agora.
Eduarda olhou para a filha, que parecia ter pegado no sono, e depois para o homem à sua frente. O olhar de Emanuel era predatório, carregado de uma urgência que a fazia estremecer. Ela se levantou com um cuidado infinito, depositando Amélie sobre o colchão macio. A bebê soltou um suspiro, mas permaneceu imóvel.
— Tudo bem — murmurou Eduarda, saindo do quarto na ponta dos pés, seguida por Emanuel.
Assim que a porta do quarto principal se fechou, Emanuel não perdeu tempo. Ele a prensou contra a madeira da porta, as mãos grandes segurando o rosto dela com uma firmeza que beirava a agressividade, mas que Eduarda recebia com uma entrega total.
— Eu não aguento mais dividir você — rosnou ele, atacando o pescoço dela com beijos ávidos. — Parece que eu tenho que pedir licença para tocar na minha própria mulher.
— Eu também sinto sua falta — disse ela, arfando, as mãos subindo pelos ombros largos dele. — É só que eles demandam tanto de mim...
— Eles demandam porque você permite — Emanuel interrompeu, sua mão descendo pela curva do quadril dela, puxando-a para mais perto, sentindo a ereção latejar contra o ventre de Eduarda. — Esta noite, você é só minha. Esqueça que eles existem por uma hora.
Ele a pegou no colo, levando-a para a cama imensa. O clima estava denso, a eletricidade entre os dois era quase palpável. Emanuel começou a desabotoar o pijama dela, seus olhos fixos nos seios médios e macios que ele tanto adorava. Eduarda fechou os olhos, deixando-se levar pela onda de desejo que ele sempre conseguia despertar nela.
Mas, no exato momento em que Emanuel se posicionou entre as pernas dela, o som agudo e persistente veio através do monitor no criado-mudo.
— UÉÉÉÉÉÉÉÉ!
Emanuel congelou. Ele encostou a testa no ombro de Eduarda, soltando um palavrão entre dentes.
— Ignora — disse ele, a voz carregada de frustração. — Ela vai parar.
— Emanuel, ela está gritando... — Eduarda tentou se sentar, mas ele a manteve no lugar.
— Ela não está morrendo, Eduarda. Ela está apenas chamando. Deixe-a chorar por cinco minutos.
O choro aumentou de volume. Não era mais apenas Amélie; agora Benício, acordado pelo escândalo da irmã, juntara-se ao coro. O som de dois bebês chorando a plenos pulmões era o antídoto perfeito para qualquer clima erótico.
— Eu não consigo — disse Eduarda, empurrando o peito de Emanuel com delicadeza, mas firmeza. — Eles vão acordar a Valentina. A Sara vai ficar furiosa. Eu preciso ir lá.
Emanuel rolou para o lado, caindo de costas no colchão, a respiração pesada. Ele ouviu os passos rápidos de Eduarda saindo do quarto e a porta se abrindo no corredor. A frustração era tanta que ele sentia vontade de quebrar algo.
— Que inferno! — exclamou ele para as paredes vazias.
Ele se levantou e caminhou até a cozinha da cobertura, precisando de algo para acalmar os nervos. Para sua surpresa, encontrou Sara sentada na bancada de mármore, vestindo um robe de seda rosa choque, bebendo uma taça de vinho branco gelado e comendo uma fatia de pizza fria.
— Noite difícil, garanhão? — perguntou Sara, com um sorriso irônico e perfeitamente pintado de batom.
— Aqueles dois não dão trégua — respondeu Emanuel, pegando uma garrafa de água na geladeira. — A Amélie parece que faz de propósito.
— E faz — Sara deu uma risada curta e vulgar. — Ela é filha sua, Emanuel. Ela sabe exatamente como marcar território. E a Eduarda é mole demais. Se você quer ter sua mulher de volta, vai ter que ser mais esperto que uma criança de um ano.
— Eu estou sem paciência, Sara. Eu trabalho o dia todo, sustento essa estrutura toda, e quando chego em casa, me sinto um estranho no ninho.
Sara desceu da bancada, caminhando até ele com seu jeito provocador. Ela tocou o braço tatuado dele, os olhos brilhando com uma malícia inteligente.
— A Eduarda é uma mãe maravilhosa, mas ela se anula. Você sabe disso. Ela é manhosa, quer agradar a todos. E a Amélie percebeu que, se chorar, tem a atenção total da mãe. Você quer resolver isso? Mande a Eduarda para um spa no fim de semana. Sozinha. Deixe os gêmeos aqui comigo e com as babás.
— Você ficaria com os três? — Emanuel arqueou uma sobrancelha, duvidoso.
— Querido, eu administro lojas e funcionários difíceis. Três bebês são fichinha perto de uma vendedora com TPM — Sara deu um gole no vinho. — Mas eu cobro caro. Quero aquela bolsa da nova coleção que chega amanhã na Oscar Freire.
— Fechado — disse Emanuel, sentindo uma ponta de esperança.
Ele voltou para o quarto dos bebês. Eduarda estava agora com Benício em um braço e Amélie no outro, caminhando de um lado para o outro no quarto escuro. Ela parecia exausta, os ombros caídos, o cabelo castanho desarrumado.
— Deixe-os comigo — disse Emanuel, aproximando-se e pegando Benício do colo dela.
— Mas eles não vão parar... — começou ela.
— Vão sim. Vá para o nosso quarto, tome um banho quente e tente dormir. Eu cuido disso.
— Emanuel, você está sem paciência, não quero que você se irrite com eles...
— Eu sou o pai deles, Eduarda. Eu sei o que estou fazendo — ele disse, com uma autoridade que não admitia réplicas. — Vá agora.
Eduarda hesitou, mas a exaustão falou mais alto. Ela entregou Amélie a ele e saiu do quarto. Emanuel colocou Benício no berço e deu-lhe um brinquedo macio. O menino, sentindo a mão firme do pai, resmungou um pouco e se aninhou. Com Amélie, o desafio era maior. Ela olhava para Emanuel com os olhos arregalados, as lágrimas ainda molhando os cílios.
— Escute aqui, mocinha — murmurou Emanuel, sentando-se na poltrona com ela. — Você é a luz dos meus olhos, mas a sua mãe precisa descansar. E o seu pai precisa da sua mãe. Se você não dormir agora, eu vou levar você para o quarto da Sara, e você sabe que ela não tem a mesma paciência que a Eduarda.
Amélie pareceu entender o tom de advertência. Ela soltou um pequeno soluço, agarrou o dedo polegar de Emanuel e, após alguns minutos de balanço firme e silencioso, finalmente cedeu ao sono.
Emanuel a colocou no berço com a precisão de um cirurgião. Ele ficou observando os dois por alguns minutos. A raiva havia dissipado, substituída por aquele amor protetor e possessivo que o definia. Eram seus filhos. Sua carne. Sua continuação. Mas ele ainda era um homem, e um homem com necessidades que estavam sendo negligenciadas.
Quando ele voltou para a suíte principal, Eduarda estava saindo do banheiro, envolta em uma toalha branca. A pele dela estava levemente rosada pelo vapor, e o cheiro de lavanda preenchia o ar. Emanuel sentiu o desejo retornar com força redobrada.
— Eles dormiram? — perguntou ela, a voz um sussurro tímido.
— Dormiram — Emanuel caminhou até ela, fechando a distância. — E agora, sem interrupções.
Ele a puxou para um beijo profundo, as mãos deslizando pela toalha até que o tecido caísse no chão. Eduarda soltou um suspiro de alívio e desejo, entregando-se ao toque dele. Mas, enquanto ele a levava para a cama, o pensamento de que Amélie poderia acordar a qualquer momento pairava como uma sombra.
— Emanuel... e se eles...
— Esqueça os bebês, Eduarda — disse ele, a voz rouca, subindo por cima dela. — Esqueça o mundo. Se a Amélie chorar, a Sara vai cuidar. Esta noite, eu não sou o pai deles. Eu sou o seu homem. E eu senti falta da minha mulher.
Eduarda envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para baixo.
— Eu também senti sua falta. Senti tanta falta de ser apenas eu e você.
O encontro foi urgente, quase desesperado. Emanuel agia com uma posse que beirava o domínio, explorando cada curva de Eduarda como se estivesse mapeando um território que lhe pertencia por direito. Eduarda respondia com sua doçura habitual, mas havia uma nova intensidade em seus movimentos, uma sede de conexão que a rotina materna havia abafado.
No auge do prazer, Emanuel enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o coração de Eduarda bater contra o seu. Naquele momento, o ressentimento pela gravidez escondida, a raiva pelas noites perdidas e o estresse da vida dupla pareciam irrelevantes. Havia apenas a pele, o suor e a certeza de que, apesar de todo o caos, ele havia construído algo indestrutível.
Depois, enquanto descansavam abraçados, o silêncio finalmente era real.
— Você falou sério sobre a Sara cuidar deles? — perguntou Eduarda, a voz sonolenta.
— Falei. E falei sério sobre o spa. Você vai passar o fim de semana fora, Eduarda. Precisa se lembrar de quem você é além de mãe.
— Eu não sei se consigo ficar longe deles tanto tempo...
— Você consegue — Emanuel disse, beijando a testa dela. — E você vai. Porque eu quero que, quando você voltar, seus olhos brilhem para mim, e não apenas para os berços.
Eduarda sorriu, aninhando-se no peito tatuado dele.
— Você é muito mandão, sabia?
— Alguém tem que manter a ordem neste labirinto — respondeu ele, fechando os olhos.
Lá fora, a madrugada de São Paulo continuava seu curso. No quarto ao lado, Amélie e Benício dormiam, finalmente vencidos pelo cansaço. E na sala, Sara terminava sua pizza, sorrindo ao pensar na bolsa nova que ganharia.
Emanuel finalmente adormeceu, com a mão repousada protetoramente sobre o ventre de Eduarda. Ele sabia que a paz era temporária, que o amanhecer traria novos choros, novas fraldas e novos desafios. Mas, naquela noite, ele havia vencido a batalha contra a inocência dos filhos para retomar o território do seu desejo. O Nó de Sangue continuava apertado, mas, pelo menos por algumas horas, ele não era uma corrente, e sim o laço que o mantinha ancorado à única realidade que realmente importava: a de que ele era o centro daquele universo complexo, e não permitiria que nada, nem mesmo o amor mais puro, o afastasse das mulheres que possuíam sua alma.