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Sombras sob o Luar e o Peso do Cuidado

A noite na chácara estava apenas começando para a maioria dos convidados, mas para Emanuel, o relógio parecia correr de forma diferente. Ele estava sentado em uma poltrona de vime na varanda principal, observando Sara, que estava esparramada em uma espreguiçadeira luxuosa ao seu lado. Ela usava um hobby de seda preta com detalhes em renda, as pernas longas e bronzeadas esticadas, enquanto saboreava uma taça de suco de uva integral — uma concessão temporária à gravidez que ela aceitava com um biquinho de insatisfação.

— Você precisa relaxar, Manu — disse Sara, a voz arrastada e confiante, enquanto ele massageava os pés dela com uma dedicação quase ritualística. — O bebê está bem, eu estou bem, e a sua pequena Duda está ali na sala rindo com as amigas. O mundo não vai acabar se você soltar os ombros por cinco minutos.

— Eu só quero garantir que tudo esteja sob controle, Sara — Emanuel respondeu, a voz grave e marcada pelo cansaço que ele raramente admitia. — Você sabe como essas viagens de grupo ficam caóticas de madrugada.

— Eu sei que você ama ter o controle — ela provocou, esticando a mão para bagunçar o cabelo dele, um gesto que só ela tinha permissão para fazer sem levar um olhar gélido. — Mas olha para mim. Eu sou uma mulher de vinte e cinco anos, grávida e perfeitamente capaz de mandar qualquer um desses idiotas para o inferno se me irritarem. E a Duda... bem, ela é o seu cristalzinho, mas ela também tem vinte anos. Deixe a menina respirar.

Emanuel não respondeu. Ele apenas beijou o topo do pé de Sara e continuou o carinho. Ele amava aquela mulher; amava a vulgaridade honesta dela, a forma como ela ocupava espaço, a segurança que ela emanava. Mas, ao desviar o olhar para a porta de vidro que dava para a sala, seus olhos encontraram Eduarda.

Eduarda estava sentada no chão, cercada por suas duas melhores amigas de infância, Bia e Lais. Ela parecia tão pequena e frágil em seu pijama de cetim azul-claro, segurando uma caneca de chocolate quente. O contraste entre as duas mulheres de sua vida era gritante: Sara era o sol do meio-dia, intensa e impossível de ignorar; Eduarda era a lua de outono, suave, mística e silenciosa. E ele, de alguma forma, precisava das duas para se sentir completo.

Dentro da sala, o clima era de conspiração.

— Vocês não estão entendendo — sussurrou Bia, inclinando-se para frente com os olhos brilhando de excitação. — O caseiro me disse que, em noites de lua cheia como hoje, a Noiva Fantasma aparece perto das ruínas da antiga capela, lá no final da trilha dos carvalhos.

— Isso é lenda urbana de interior, Bia — disse Lais, embora estivesse visivelmente interessada. — Provavelmente é só neblina ou algum bicho.

— Não é bicho nenhum! — interveio Eduarda, a voz carregada de uma curiosidade infantil e doce. — Eu li sobre isso no histórico da região quando soube que vínhamos para cá. Dizem que ela era uma jovem que nunca chegou ao altar. É tão... melancólico. Eu queria ver.

As três amigas se entreolharam. O espírito de aventura, alimentado pelo isolamento da chácara e pelo silêncio da noite, falou mais alto.

— Vamos lá — propôs Bia. — Agora. Todo mundo está distraído com a música e a bebida. A gente vai, dá uma olhada e volta antes que alguém perceba.

Eduarda hesitou por um segundo, lançando um olhar rápido para a varanda. Ela viu Emanuel concentrado em Sara, a expressão séria e protetora que ele sempre carregava. Uma parte dela queria ir até ele, sentar-se a seus pés e pedir um pouco daquela atenção que ele distribuía com tanta autoridade. Mas outra parte, a parte que queria provar que não era apenas uma "boneca de porcelana", sentiu um ímpeto de rebeldia.

— Vamos — disse Eduarda, com um sorriso tímido, mas decidido. — Mas temos que ser rápidas.

As três se esgueiraram pela porta lateral da cozinha. O ar da madrugada era gelado, e Eduarda apertou seu cardigã de lã contra o corpo. A trilha era iluminada apenas pela lua e pelas lanternas de seus celulares. O som de seus passos na grama seca parecia ensurdecedor no silêncio do campo.

Enquanto caminhavam, Eduarda sentia o coração disparado. Ela era intuitiva, e a energia daquele lugar parecia vibrar de uma forma diferente. Quando chegaram às ruínas da capela — pouco mais que paredes de pedra tomadas pela hera —, um silêncio absoluto se instalou.

— Ali! — Lais apontou, a voz falhando em um sussurro.

Entre as árvores, uma silhueta branca e fluida parecia flutuar. Era uma névoa densa, mas que, sob a luz prateada, ganhava a forma de um vestido longo e um véu que se arrastava pelo chão. Não havia som, apenas a visão etérea que parecia observar o horizonte.

— Meu Deus... — Eduarda murmurou, sentindo um calafrio que não era de frio. Ela não sentiu medo, sentiu uma profunda tristeza vinda daquela imagem. — Ela é linda.

As três ficaram paradas, hipnotizadas, por longos minutos. O fenômeno durou pouco; assim que uma nuvem cobriu a lua, a silhueta se desfez em névoa comum. Elas começaram a rir, uma risada nervosa e eufórica, típica de quem acaba de presenciar algo proibido e mágico.

— Nós vimos! Nós realmente vimos! — Bia pulava, abraçando as amigas.

— Temos que voltar antes que o Emanuel perceba que eu não estou na sala — disse Eduarda, a realidade voltando a pesar em seus ombros.

O caminho de volta foi feito entre sussurros animados e tropeços na escuridão. No entanto, quando cruzaram o portão que dava acesso ao jardim principal da casa, a euforia morreu instantaneamente.

Parado no meio do caminho, com os braços cruzados sobre o peito largo e uma expressão que poderia congelar o próprio inferno, estava Emanuel. Ele não usava mais o semblante relaxado de minutos atrás. Ele parecia uma estátua de granito, a mandíbula travada e os olhos escuros faiscando de uma fúria contida.

Ao lado dele, Sara estava encostada em uma pilastra, lixando uma unha com indiferença, mas observando a cena com um sorriso de canto que dizia: "Eu avisei que ele ia surtar".

— Onde vocês estavam? — A voz de Emanuel era baixa, o que a tornava ainda mais ameaçadora.

Bia e Lais recuaram um passo, mas Eduarda, talvez ainda sob o efeito da adrenalina da "noiva", permaneceu onde estava.

— Nós fomos ver a capela, Emanuel. Foi incrível, nós vimos a...

— Vocês saíram no meio da madrugada, em uma propriedade que não conhecem, sem avisar ninguém? — Ele deu um passo à frente, ignorando as outras duas e focando toda a sua intensidade em Eduarda. — Você tem noção do que poderia ter acontecido? Alguém poderia ter se machucado, ou coisa pior.

— Emanuel, foi só uma caminhada — Eduarda tentou dizer, sua voz soando mais manhosa do que ela pretendia, uma reação instintiva à pressão dele. — Estávamos em três.

— Não me interessa se estavam em dez! — Ele explodiu, o tom de voz subindo, o que fez Eduarda encolher os ombros. — Eu sou responsável por esse grupo. Eu sou responsável por você! Você é distraída, Eduarda. Poderia ter caído em um buraco, uma cobra poderia ter te picado...

— Chega, Manu — Sara interveio, caminhando até eles com seu jeito balançante. Ela parou ao lado de Emanuel e colocou a mão em seu braço, não para acalmá-lo, mas para marcar território de forma sutil. — Você está assustando as meninas. Elas só foram ver o fantasma. Deixa de ser um ogro controlador.

Emanuel respirou fundo, tentando recuperar a compostura, mas seus olhos não saíam de Eduarda. O fato de ela estar ali, com as bochechas coradas pelo frio e os olhos brilhando de uma excitação que ele não havia providenciado, o irritava profundamente. Ele queria que ela estivesse segura sob sua asa, não se aventurando na escuridão por conta própria.

— Bia, Lais, para dentro. Agora — ordenou Emanuel. As duas não esperaram um segundo convite e correram para a casa.

Eduarda fez menção de segui-las, mas a mão de Emanuel envolveu seu pulso. Não foi um aperto doloroso, mas era firme, possessivo.

— Você fica. Precisamos conversar — disse ele.

Sara deu uma risadinha e deu um tapinha no ombro de Emanuel.

— Vou subir para o nosso quarto, amor. Não demore muito, o bebê quer dormir... e eu também. Tchau, Dudinha, da próxima vez me convida, eu adoro uma fofoca sobrenatural.

Sara entrou, deixando os dois sozinhos sob a luz fria do poste de jardim.

— Você está sendo injusto — disse Eduarda, a voz trêmula. Ela tentou puxar o pulso, mas ele não soltou. — Eu não sou uma criança, Emanuel. Eu tenho vinte anos. Eu faço faculdade, eu dou aulas, eu pego ônibus sozinha na cidade... Por que você está agindo como se eu tivesse fugido do jardim de infância?

— Porque na cidade eu não estou vendo! — rebateu ele, aproximando-se tanto que ela podia sentir o calor que emanava de seu corpo e o cheiro de tabaco e menta que sempre o acompanhava. — Aqui, eu estou vendo. E eu não suporto a ideia de que algo aconteça com você e eu não esteja lá para impedir. Você não entende que a sua segurança é a minha paz?

— Mas isso não é paz, Emanuel! Isso é sufocante! — Eduarda sentiu as lágrimas de frustração arderem em seus olhos. — Você me olha como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Eu queria ver a noiva fantasma, eu queria me divertir com as minhas amigas. Eu não fiz nada de errado.

Emanuel observou uma lágrima solitária escorrer pelo rosto dela. Sua raiva, que era alimentada pelo medo, começou a se transformar em outra coisa. Ele soltou o pulso dela, mas apenas para levar a mão ao seu rosto, limpando a lágrima com o polegar áspero de tatuador.

— Você é tão teimosa quanto é delicada — sussurrou ele, a voz perdendo a dureza e ganhando uma nota de possessividade sombria. — Você não entende, não é? O mundo lá fora é sujo, Eduarda. E você... você é a única coisa que eu conheço que ainda parece intocada por ele. Eu quero manter assim.

— Você não pode me guardar em uma caixa — ela respondeu, embora tenha se inclinado inconscientemente para o toque dele, buscando o conforto que ele sempre oferecia depois de uma bronca. — A Sara não aceitaria ser guardada em uma caixa. Por que você tenta fazer isso comigo?

— Porque a Sara é um furacão, ela se vira sozinha — disse ele, com sinceridade. — Mas você... você me desperta um instinto que eu não consigo controlar. Eu quero te proteger de tudo, inclusive de você mesma.

Eduarda olhou para ele, sentindo a confusão emocional que sempre a dominava quando estava perto dele. Ela amava o cuidado dele, amava como ele a fazia se sentir a pessoa mais importante do mundo, mas a raiva dele a assustava. Era um amor que parecia vir com correntes, mesmo que fossem correntes de ouro.

— Eu só queria que você confiasse em mim — ela murmurou, desviando o olhar.

Emanuel suspirou, o estresse acumulado dos últimos dias pesando em seus ombros. Ele a puxou para um abraço, envolvendo-a completamente em seus braços fortes. Eduarda hesitou por um segundo, mas logo enterrou o rosto no peito dele, sentindo as batidas fortes do coração do homem que, ela agora sabia, queria ser seu dono tanto quanto queria ser seu protetor.

— Eu confio em você, Duda — disse ele contra o cabelo dela. — Eu só não confio no resto do mundo. Agora, entre. Está gelado e você está tremendo. Se você ficar doente, eu vou ter que cuidar de você o fim de semana inteiro e a Sara vai ficar com ciúmes da atenção extra.

Eduarda deu uma risadinha fraca, o clima de tensão se dissipando, mas não desaparecendo totalmente. Ela se afastou e caminhou em direção à casa, sentindo o olhar de Emanuel queimando em suas costas a cada passo.

Emanuel ficou parado ali por um longo tempo depois que ela entrou. Ele olhou para as ruínas da capela ao longe, onde a névoa ainda pairava. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: sucesso, dinheiro, uma mulher vibrante esperando por ele na cama com seu filho no ventre, e uma menina doce que ele estava lentamente trazendo para o seu mundo particular.

Mas, enquanto caminhava de volta para o quarto, ele sentiu uma pontada de ansiedade. Ele sabia que o equilíbrio que Sara propunha — de ter as duas, de viverem aquela configuração incomum — era frágil. E a pequena rebeldia de Eduarda naquela noite era um lembrete de que, por mais que ele quisesse controlar cada traço daquela história, a vida, assim como o fantasma que as meninas foram buscar, tinha uma maneira própria de escapar por entre seus dedos.

Ao entrar no quarto, Sara já estava deitada, a luz do abajur iluminando seu rosto sereno.

— Ela está bem? — perguntou Sara, sem abrir os olhos.

— Está — respondeu Emanuel, despindo-se e deitando-se ao lado dela.

— Você é um idiota possessivo, sabia? — Sara se virou para ele, passando a perna por cima das dele e colando o corpo siliconado ao dele. — Mas é por isso que eu te amo. Só tente não quebrar a menina antes da hora. Temos muito o que viver com ela ainda.

Emanuel puxou Sara para perto, beijando-a com intensidade, tentando afastar a imagem de Eduarda na escuridão. Mas, ao fechar os olhos, ele ainda conseguia ver o brilho nos olhos castanhos da bailarina — um brilho de liberdade que ele, em sua necessidade de proteção, faria de tudo para manter sob seu olhar vigilante.