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O Despertar da Curiosidade e a Fúria do Protetor

A barriga de Sara já não podia mais ser escondida por suas roupas justas de grife. Aos quatro meses, a gestação de Ágata — o nome escolhido por Sara sob o pretexto de que a filha deveria ser "tão preciosa e marcante quanto uma joia" — trazia uma nova aura para a casa. Emanuel estava absorto. Se antes ele já era protetor, agora beirava a obsessão. Ele acompanhava cada exame, monitorava a alimentação de Sara e passava horas com a mão espalmada sobre o ventre da namorada, sentindo a vida que pulsava ali.

Eduarda, por outro lado, sentia-se flutuando em um limbo emocional. O "caso" com Emanuel, se é que podia ser chamado assim, era feito de olhares carregados, toques furtivos e promessas silenciosas. Sara sabia de tudo, incentivava e até brincava com a situação, mas o foco de Emanuel havia mudado drasticamente. Ele ainda a cercava de cuidados, mas a urgência da paternidade o tornava mais prático e menos presente nos devaneios românticos de Duda.

Naquela sexta-feira, Eduarda estava exausta. O curso de História da Arte na faculdade exigia pesquisas de campo, e quando um colega de classe comentou sobre um "evento performático de expressão corporal e subversão estética" em um casarão antigo no centro, ela não pensou duas vezes. Imaginou uma instalação artística, talvez algo vanguardista que pudesse usar em suas aulas de ballet.

— Você tem certeza que é aqui, Lucas? — perguntou Eduarda, ajeitando a alça de sua bolsa de couro enquanto olhava para a fachada discreta, iluminada por uma luz neon violeta quase imperceptível.

— Com certeza, Duda. É um coletivo. Expressão pura — respondeu o rapaz, que já entrava apressado.

Ao cruzar a porta, o som de um saxofone grave e uma batida eletrônica lenta preencheram seus ouvidos. O cheiro era uma mistura de perfume caro, tabaco adocicado e algo mais denso, carnal. Eduarda caminhou pelo corredor escuro e, ao chegar ao salão principal, sentiu o sangue fugir do rosto.

Não era uma exposição de arte. Ou talvez fosse, mas de um tipo que ela nunca vira.

No centro do palco circular, uma mulher de pernas intermináveis e movimentos felinos deslizava por uma barra de metal. Ela usava pouco mais que tiras de couro e glitter, mas a forma como se movia não era desajeitada; era uma coreografia de força e sedução que faria qualquer bailarina clássica invejar o controle muscular. Ao redor, homens e mulheres observavam em um silêncio reverente, bebendo em poltronas de veludo.

— Meu Deus... — sussurrou Eduarda, levando a mão à boca. — É uma casa de... de strip-tease.

Ela deveria ter ido embora no mesmo instante. Sua criação conservadora, seus pais modernos mas zelosos, e sua própria timidez gritavam para que ela corresse. No entanto, seus pés pareciam colados ao chão. Como professora de ballet, ela ficou hipnotizada pela técnica daquela mulher. A forma como ela invertia o corpo, a fluidez da transição entre a força bruta e a delicadeza absoluta. Era vulgar, sim, mas havia uma beleza crua ali que a atingiu como um soco no estômago.

Eduarda sentou-se em um banco alto no canto escuro, os olhos arregalados, o coração martelando. Ela viu mais um número, depois outro. Um homem musculoso subiu ao palco, movendo-se com uma sensualidade que a fez corar violentamente, mas ela não conseguia desviar o olhar. Era um mundo de sombras e desejos que ela sempre soube que existia, mas que Emanuel sempre tentou filtrar para ela.

Enquanto isso, a quilômetros dali, o celular de Emanuel vibrou sobre a mesa de jantar. Ele estava servindo uma sopa de legumes para Sara, que reclamava de azia.

— Quem é a essa hora, Manu? — perguntou Sara, pegando uma torrada.

Emanuel olhou a tela. Era uma mensagem de um de seus seguranças, um homem que ele pagava para "ficar de olho" discretamente em Eduarda, sob a desculpa de segurança urbana.

*“A senhorita Eduarda entrou no Velvet Club há quarenta minutos. Ainda não saiu.”*

Emanuel sentiu a veia em sua têmpera saltar. Ele conhecia o Velvet Club. Já tinha feito tatuagens em metade das dançarinas de lá. Era um lugar de elite, mas ainda assim, era um antro de perdição aos olhos dele.

— O que foi? Você ficou branco — disse Sara, estreitando os olhos.

— A Eduarda. Ela está em uma casa de strip no centro — Emanuel disse, a voz saindo como um rosnado baixo enquanto ele já pegava as chaves do carro.

Sara soltou uma gargalhada alta, quase engasgando com a torrada.

— A santinha? No Velvet? — Ela riu mais ainda, vendo a fúria nos olhos de Emanuel. — Ah, Manu, relaxa! Ela deve ter se perdido ou finalmente resolveu descobrir que tem um corpo. Deixa a menina ver um pouco de pele!

— Não é engraçado, Sara! — Emanuel vestiu a jaqueta de couro com movimentos bruscos. — Aquele lugar não é para ela. Ela é ingênua, não sabe onde se meteu. Alguém pode faltar com o respeito, algum imbecil pode achar que ela está lá para...

— Para quê? Para se divertir? — Sara levantou-se, caminhando até ele e colocando a mão em seu peito, tentando conter a vibração de raiva dele. — Você é muito controlador. Se ela quer ver um show, deixa ver.

— Eu volto logo — cortou ele, beijando a testa de Sara com pressa e saindo sem olhar para trás.

O trajeto até o centro foi feito em tempo recorde. Emanuel estacionou o SUV em cima da calçada, ignorando o manobrista, e entrou no clube como um furacão. Os seguranças da porta, que o conheciam, apenas acenaram, sentindo a aura perigosa que ele emanava.

Ele varreu o salão com o olhar até encontrá-la.

Eduarda estava hipnotizada. No palco, uma dupla fazia uma performance acrobática envolta em sedas vermelhas. Ela estava com a boca entreaberta, o rosto iluminado pelos reflexos das luzes, parecendo uma criança diante de um espetáculo de mágica proibido.

Emanuel caminhou até ela, a passos pesados. Quando parou ao lado do banco, a sombra dele cobriu Eduarda, que deu um sobressalto.

— Vamos embora. Agora — disse ele, a voz carregada de uma autoridade que fez as pessoas ao redor olharem.

— Emanuel? — Ela piscou, tentando ajustar a visão. — O que você está fazendo aqui? Como soube...?

— Não importa. Levanta desse banco, Eduarda — ele ordenou, segurando o braço dela com firmeza, mas sem machucar. — Você não tem noção do perigo que corre em um lugar desses?

— Perigo? — Eduarda sentiu uma onda incomum de coragem, talvez alimentada pela música vibrante e pela atmosfera do lugar. — Ninguém me tocou, Emanuel. Eu estou apenas olhando. Você viu como aquela mulher subiu na seda? É técnica pura, é como o ballet, mas sem as regras chatas...

— Isso não é ballet! Isso é um bordel de luxo! — Emanuel sibilou, puxando-a para fora do banco. — Você foi enganada, ou é mais imprudente do que eu pensava.

— Eu não quero ir embora! — Eduarda protestou, fincando os pés no chão, algo que ela nunca fizera antes. — O próximo show vai começar e disseram que é uma performance de luzes. Emanuel, por favor, só mais dez minutos!

Emanuel parou, chocado com a resistência dela. Ele a olhou de cima a baixo. Ela parecia tão deslocada ali com seu vestido romântico e cardigã, mas havia um brilho de curiosidade pecaminosa em seus olhos que o deixou perturbado. Ele sentiu uma mistura de raiva possessiva e um desejo súbito e irracional de trancá-la em um quarto onde só ele pudesse mostrar a ela o que era desejo.

— Dez minutos? — Ele repetiu, a voz ficando perigosamente baixa. — Você quer ver mais disso? Quer ver pessoas se despindo por dinheiro? É isso que você quer, Duda?

— Eu quero ver o movimento, Emanuel! — Ela sussurrou, aproximando-se dele, o perfume floral dela lutando contra o cheiro de luxúria do ambiente. — É bonito de um jeito que eu não conhecia. Por que você sempre quer me esconder de tudo o que é intenso?

Emanuel não aguentou. Ele a pegou pela cintura, ignorando os protestos dela, e a carregou praticamente à força em direção à saída. Eduarda tentou se soltar, mas contra a força dele, ela era apenas uma pluma.

Assim que chegaram ao carro, ele a colocou no banco do passageiro e bateu a porta, dando a volta e entrando no lado do motorista. O silêncio dentro do veículo era denso, interrompido apenas pela respiração pesada de Emanuel.

— Você perdeu o juízo? — Ele explodiu, socando o volante. — Se eu não tivesse chegado, o que viria depois? Você ia subir no palco para testar a "técnica" deles?

— Você está sendo ridículo! — Eduarda gritou de volta, surpreendendo a si mesma. — Eu não sou sua propriedade, Emanuel! Você passa o dia inteiro cuidando da Sara e da Ágata, e eu entendo, eu juro que entendo! Mas quando você aparece, é só para me dar ordens ou me tratar como se eu fosse de vidro!

Emanuel virou o rosto para ela, os olhos escuros brilhando na penumbra do carro.

— Eu te trato como se fosse de vidro porque você é a única coisa limpa que eu tenho, Eduarda! — Ele se inclinou sobre ela, prendendo-a contra o banco. — Aquele lugar... aquelas pessoas... elas olham para você e veem uma presa. Eu olho para você e vejo algo que eu preciso proteger até de mim mesmo.

— E se eu não quiser ser protegida hoje? — Ela desafiou, a voz manhosamente provocadora, os olhos fixos nos dele.

Emanuel sentiu o controle escorregar por entre os dedos. A resistência de Eduarda, misturada à atmosfera carregada do clube que ainda parecia impregnada nela, quebrou a última barreira de sua racionalidade. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares pressionando as bochechas macias.

— Você não sabe o que está dizendo — ele murmurou, a voz rouca.

— Eu sei o que eu vi — ela respondeu, o olhar descendo para os lábios dele. — Eu vi desejo, Emanuel. E eu vi que não tem nada de errado em querer sentir isso.

Emanuel a beijou. Não foi o beijo cuidadoso e protetor de sempre. Foi um beijo faminto, possessivo, carregado da fúria que ele sentira ao imaginá-la naquele clube e do desejo que ele vinha reprimindo para não assustá-la. Eduarda soltou um pequeno gemido de surpresa, mas logo suas mãos subiram para o pescoço dele, puxando-o para mais perto, entregando-se àquela intensidade que ela tanto buscava.

Ele se afastou apenas alguns centímetros, a testa colada na dela.

— Nunca mais — ele disse, a respiração curta. — Nunca mais entre em um lugar daqueles sem mim. Se você quer ver "movimento", se você quer ver "intensidade", você vem a mim. Entendeu?

Eduarda assentiu, o coração disparado, sentindo-se finalmente vista, não como uma boneca, mas como uma mulher que despertava nele um caos que nem mesmo o nascimento de sua filha poderia aplacar.

— Ótimo — Emanuel disse, ligando o carro com violência. — Agora vou te levar para casa. E amanhã, vamos ter uma conversa muito séria com a Sara sobre como você anda frequentando lugares impróprios.

Eduarda encostou a cabeça no banco, um sorriso pequeno e secreto surgindo em seus lábios. Ela sabia que Emanuel estava furioso, mas também sabia que, pela primeira vez, ela tinha conseguido rachar a armadura de controle dele. E, no fundo, ela mal podia esperar para ver o que mais havia por trás daquelas luzes neon e dos sentimentos proibidos que Emanuel tentava, sem sucesso, dominar.

Quando chegaram à casa dos pais de Eduarda, ele não saiu do carro. Apenas esperou que ela entrasse em segurança. Antes de ela fechar a porta do veículo, ele a chamou.

— Duda?

Ela se virou.

— O show de luzes... — Ele hesitou, o olhar suavizando por um breve momento. — Eu posso te levar para ver algo parecido em um teatro de verdade na semana que vem. Sem strippers.

Eduarda riu, uma risada doce e cristalina.

— Eu adoraria, Emanuel. Mas confessa... a técnica daquela moça na barra era incrível, não era?

Emanuel fechou a expressão novamente, mas não conseguiu evitar um leve repuxar no canto da boca antes de acelerar o carro e sumir na noite, deixando Eduarda com o coração em chamas e a certeza de que sua vida de bailarina tímida tinha acabado de ganhar uma coreografia muito mais complexa e perigosa.