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Entre o Brilho da Seda e o Fogo do Olhar
O sol da manhã entrava pelas janelas do estúdio de tatuagem particular de Emanuel, refletindo-se nas agulhas de aço e nos frascos de tinta colorida. O ambiente, que geralmente exalava uma aura de concentração e silêncio, estava preenchido pelo som metálico de uma caixa sendo aberta. Emanuel, com sua expressão habitual de seriedade, observava Sara, que estava sentada em sua poltrona de couro favorita.
— Abre logo, Manu! Você sabe que eu não tenho paciência para mistério — reclamou Sara, ajeitando o roupão de cetim dourado que mal cobria suas curvas. A gravidez de quatro meses lhe dava um brilho especial, mas seu temperamento continuava o mesmo: explosivo e exigente.
Emanuel retirou da caixa um conjunto de joias de ouro branco cravejado de diamantes. Era pesado, ostensivo e caro, exatamente como Sara gostava.
— Para a mãe da minha filha — disse ele, aproximando-se e colocando o colar no pescoço dela. Seus dedos grandes e calejados pelas máquinas de tatuagem contrastavam com a pele clara e macia de Sara. — E para a mulher que mantém minha cabeça no lugar, mesmo quando eu sinto que vou enlouquecer.
Sara se olhou no espelho, admirando o brilho das pedras contra seu decote generoso. Ela sorriu, virando-se para ele e selando seus lábios em um beijo possessivo.
— Você sabe como me agradar, seu ogro rico — ela sussurrou, passando as unhas perfeitas pela nuca dele. — Mas eu sei que esse presente também é um suborno. Você está tenso por causa da Duda, não está?
Emanuel suspirou, afastando-se para limpar uma bancada.
— Ela está estranha desde aquela noite no clube. Mais quieta, mas com um brilho no olho que eu não gosto. Eu sinto que ela está escondendo algo.
— Deixe a menina, Emanuel — Sara disse, admirando os brincos novos. — Ela está descobrindo que o mundo não é feito só de sapatilhas de ponta e livros de arte. Se você apertar demais, ela quebra. Ou pior, ela foge.
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara tinha razão, mas a necessidade de controle era como uma segunda pele para ele.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, Eduarda terminava de dar uma aula para suas alunas mais jovens. O som do piano ainda ecoava em sua mente, mas seus pensamentos estavam longe das notas clássicas. Ela estava sentada no chão da sala de ballet, alongando as pernas esguias, quando seu celular vibrou. Era uma mensagem de Lucas, o colega da faculdade.
*“Duda, você não vai acreditar. Hoje à noite vai ter um show especial no Velvet. Um performer internacional. O nome artístico dele é 'Dante'. Dizem que o cara é um deus grego e a performance de luzes com o corpo é algo que nenhum estudante de arte deveria perder.”*
Eduarda sentiu um frio na barriga. Ela se lembrou da fúria de Emanuel, do beijo arrebatador no carro e da sensação de ser, pela primeira vez, algo além de uma "boneca". Ela amava Emanuel, amava o jeito que ele a protegia, mas aquela proteção estava começando a parecer uma redoma de vidro que a impedia de respirar a vida real.
— Um deus grego, é? — sussurrou ela para si mesma, um sorriso travesso surgindo em seu rosto doce.
Ela não via problema nenhum. Era arte. Expressão corporal. O fato de o homem ser, nas palavras de Lucas, "um gostoso", era apenas um detalhe estético. Ela amava Emanuel, mas seus olhos ainda funcionavam. E, acima de tudo, ela queria provar para si mesma que podia ir e vir sem pedir permissão.
À noite, Eduarda preparou-se com um cuidado que raramente dedicava às saídas casuais. Escolheu um vestido de seda preta, curto o suficiente para ser moderno, mas com um caimento que ainda preservava sua delicadeza. Prendeu o cabelo em um coque alto e frouxo, deixando algumas mechas caírem sobre o rosto fino.
— Mãe, pai, vou sair com o pessoal da faculdade para uma exposição noturna — disse ela, passando pela sala.
Seus pais, jovens e sempre ocupados com seus próprios projetos de design, apenas acenaram.
— Divirta-se, querida! Use o batom que te dei, destaca seus olhos — disse a mãe, sem tirar os olhos do tablet.
Eduarda saiu, sentindo-se como uma espiã em território inimigo. Quando chegou ao Velvet Club, o ambiente estava ainda mais carregado do que na primeira vez. Ela se sentou em uma mesa mais afastada, pedindo um coquetel de frutas, tentando passar despercebida.
— Você veio! — Lucas apareceu, sentando-se ao lado dela. — Prepare-se, Duda. O Dante não é só um stripper, ele é um atleta.
As luzes se apagaram e um feixe de luz azul neon focou no centro do palco. Quando a música, um rock industrial pesado e sensual, começou a tocar, o homem surgiu.
Eduarda sentiu o ar faltar. Dante era alto, com músculos definidos que pareciam esculpidos em mármore sob a luz intensa. Ele usava apenas uma calça de couro justa e pinturas corporais que brilhavam no escuro. Seus movimentos eram precisos, uma mistura de capoeira, dança contemporânea e algo puramente carnal.
— Meu Deus... — Eduarda murmurou, inclinando-se para frente. — Ele é... ele é muito gostoso, Lucas. Olha a linha daquela musculatura das costas quando ele faz o movimento de tração. É pura anatomia renascentista!
— Eu te disse — riu Lucas. — A arte é boa, não é?
— É incrível — disse ela, com a voz manhosa e maravilhada. — A forma como ele usa a luz para destacar as sombras do corpo... Emanuel me mataria se me visse olhando assim, mas é impossível desviar o olho. É um espetáculo visual.
Eduarda estava tão absorta na performance, comentando sobre a estética do movimento e a beleza do performer, que não percebeu a movimentação na entrada do clube.
Emanuel não precisava de segurança para saber onde ela estava naquela noite. Ele conhecia o ciclo de silêncio de Eduarda. Quando ela ficava "manhosa" demais, era porque estava escondendo uma travessura. Ele havia ligado para a casa dela, e a resposta da mãe sobre a "exposição noturna" foi o gatilho.
Ele entrou no clube como uma sombra silenciosa e mortal. Não houve gritos desta vez. Ele apenas caminhou até a mesa onde ela estava, parando exatamente atrás de Eduarda enquanto ela dizia:
— ... e o abdômen dele, Lucas? Parece que foi desenhado por Michelangelo. Que homem gostoso, sério.
— Fico feliz que a aula de anatomia esteja sendo proveitosa, Eduarda.
A voz de Emanuel, gélida e carregada de uma fúria que ele tentava desesperadamente controlar, fez Eduarda pular da cadeira. Lucas, reconhecendo o tatuador e o perigo que ele representava, levantou-se imediatamente.
— Cara, a gente só está olhando a arte... — começou Lucas.
— Fora — disse Emanuel, sem tirar os olhos de Eduarda.
Lucas não hesitou e desapareceu na multidão. Eduarda ficou ali, pequena, com o rosto corado de vergonha e adrenalina, olhando para o homem que ela amava e que agora parecia querer quebrar o mundo ao meio.
— Emanuel, eu...
— No carro. Agora — ele interrompeu, a voz vibrando de tensão.
Ele não a pegou pelo braço desta vez. Ele apenas caminhou na frente, uma presença tão imponente que abria caminho na multidão. Eduarda o seguiu, sentindo-se como uma criança pega em uma travessura, mas também com uma pontada de irritação pela interrupção.
Assim que entraram no carro, Emanuel não deu a partida. Ele ficou segurando o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.
— "Gostoso", Eduarda? — ele repetiu, a palavra soando amarga em sua boca. — Você mentiu para os seus pais, mentiu para mim por omissão e veio para este lugar de novo para chamar outro homem de gostoso?
— Eu não menti, Emanuel! — Eduarda disse, sua voz saindo fina e manhosa, buscando o apoio emocional dele mesmo naquela situação. — É uma performance artística! O corpo humano é arte. Você, melhor do que ninguém, deveria saber disso. Você tatua corpos o dia todo!
— Eu tatuo corpos, eu não fico babando por strippers em clubes noturnos! — ele rugiu, virando-se para ela. — Você tem ideia do quanto isso me desrespeita? Do quanto me dói ver você buscando esse tipo de... de estímulo fora de nós?
Eduarda sentiu as lágrimas subirem. Ela se aproximou dele no banco do carro, tentando tocar seu braço, mas ele se esquivou.
— Não é fora de nós, Manu... — ela sussurrou, usando o apelido carinhoso que só ela e Sara usavam. — Eu amo você. Eu amo o seu corpo, eu amo o jeito que você cuida de mim. Mas eu sou uma estudante de arte. Eu não posso fechar meus olhos para a beleza do mundo só porque você tem medo que eu vá embora.
— Eu não tenho medo que você vá embora, Eduarda. Eu tenho pavor de que você se perca — ele disse, a voz subitamente cansada. — Você é doce demais para esse ambiente. Você olha para aquele cara e vê Michelangelo. Aqueles homens lá dentro olham para você e veem algo que eles querem estragar.
— Mas você está aqui para me proteger, não está? — ela perguntou, aproximando-se de novo, desta vez conseguindo segurar a mão dele e levá-la ao seu rosto. — Você sempre me protege.
Emanuel fechou os olhos, sentindo a maciez da pele dela. A raiva estava lá, mas o amor e a necessidade de tê-la sob seu controle eram maiores.
— Você me deixa louco, Duda. Completamente louco.
— Vamos para casa? — ela pediu, manhosa, esfregando o rosto na palma da mão dele. — Eu quero que você me mostre a sua arte. Só para mim.
Emanuel suspirou, ligando o motor. Ele sabia que precisava ser firme, mas o jeito que Eduarda se apoiava nele, buscando sua aprovação mesmo depois de desafiá-lo, desarmava suas defesas lógicas.
Quando chegaram à cobertura de Emanuel, Sara estava acordada, comendo uma fatia de bolo de chocolate na cozinha. Ela olhou para os dois — Emanuel furioso e Eduarda com cara de choro e desejo — e soltou um riso curto.
— Vejo que a "exposição de arte" foi animada — provocou Sara, limpando o canto da boca. — E então, Dudinha? O tal Dante é tudo o que dizem?
Eduarda corou, olhando para Emanuel, que fechou a cara ainda mais.
— Ele é... esteticamente interessante, Sara — respondeu Eduarda timidamente.
— Esteticamente interessante é o meu punho na cara dele — resmungou Emanuel, passando por elas e indo direto para o escritório.
Sara caminhou até Eduarda e deu um tapinha em seu ombro.
— Bem-vinda ao mundo real, querida. Você deu um susto nele, e ele precisava disso. Mas agora, vá lá e acalme o seu homem. Ele comprou diamantes para mim hoje, mas o que ele quer de você é algo que dinheiro nenhum compra.
Eduarda assentiu, sentindo o peso daquela dinâmica. Ela amava aquela estranha família que estavam formando. Amava a vulgaridade protetora de Sara e a possessividade rígida de Emanuel.
Ela caminhou até o escritório e abriu a porta sem bater. Emanuel estava sentado atrás da mesa, com a cabeça entre as mãos. Eduarda aproximou-se silenciosamente e sentou-se no colo dele, passando os braços pelo seu pescoço.
— Eu sou sua, Emanuel — ela sussurrou no ouvido dele. — Só sua. Mas não me proíba de ver a beleza das coisas. Confia em mim.
Emanuel a apertou contra si, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Eu confio em você, Duda. Eu só não confio em ninguém que chegue a menos de um metro de você.
Naquela noite, entre as paredes luxuosas da cobertura, o tatuador e a bailarina encontraram seu próprio equilíbrio. Emanuel percebeu que, para ter Eduarda, ele teria que aceitar que ela estava crescendo e que sua curiosidade seria sempre um desafio ao seu controle. E Eduarda entendeu que, por mais que admirasse a "arte" de outros homens, o único lugar onde ela se sentia verdadeiramente segura e completa era nos braços do homem que daria a vida para mantê-la em seu mundo de tintas e sombras.
Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara sorria, sentindo a pequena Ágata chutar em seu ventre. Ela sabia que a felicidade de Emanuel dependia daquele equilíbrio delicado entre a força dela e a doçura de Eduarda. E ela faria de tudo para que aquela chapa de amor e proteção nunca se quebrasse, não importava quantos "Dantes" aparecessem pelo caminho.