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Entre o Tule e a Tinta
São Paulo recebia o grupo de volta com o seu habitual cinza metálico, um contraste brusco com a neblina mística de Paranapiacaba. Para Emanuel, o retorno à rotina significava redobrar o estado de alerta. Se antes ele já era um homem que ocupava os espaços com uma autoridade silenciosa, a notícia da gravidez de Sara o transformara em uma força da natureza.
No apartamento luxuoso do casal, o cheiro de incenso caro e perfumes importados misturava-se ao aroma de café fresco. Sara estava jogada no sofá de couro italiano, vestindo apenas um robe de seda rosa choque que mal cobria suas coxas generosas. Ela examinava as unhas, agora pintadas de um dourado cintilante, enquanto Emanuel, ajoelhado no tapete felpudo, massageava seus pés com um creme hidratante que custava mais do que a mensalidade de muita gente.
— Mais para a esquerda, Manu... Isso, bem aí — suspirou Sara, jogando a cabeça para trás, os fios loiros platinados caindo como uma cascata sobre o encosto do sofá. — Carregar esse herdeiro está acabando com a minha circulação.
Emanuel não reclamou. Ele nunca reclamava quando o assunto era cuidar dela. Seus dedos fortes, marcados por tatuagens que contavam histórias de décadas de arte e rebeldia, moviam-se com uma delicadeza surpreendente sobre a pele de Sara.
— Você precisa descansar mais, Sara. Vou pedir para a secretária cancelar suas reuniões na loja esta semana. A administração pode rodar sem você por uns dias — disse ele, o tom de voz carregado daquela autoridade protetora que beirava o controle.
Sara abriu um olho, soltando uma risada anasalada.
— Nem pense nisso, bonitão. A loja é o meu reino. E estar grávida não me deixou inválida, só me deixou com desejo de comer lagosta e ser paparicada por você vinte e quatro horas por dia.
Emanuel subiu o olhar pelo corpo da esposa. Ele amava aquela mulher. Amava a vulgaridade consciente dela, a forma como ela não pedia desculpas por ser quem era, a segurança que ela exalava mesmo quando o mundo parecia desabar. Ela era o seu porto seguro, o fogo que o mantinha aquecido. Mas, enquanto seus dedos apertavam suavemente o tornozelo de Sara, sua mente traçava um caminho perigoso até uma imagem muito diferente: uma silhueta esguia, envolta em tule, movendo-se com a leveza de uma pluma em um estúdio de dança.
— O que foi? — perguntou Sara, sua intuição aguçada captando a mudança na energia dele. — Está pensando na nossa pequena bailarina?
Emanuel travou por um segundo, mas não mentiu. Nunca mentia para Sara.
— Fiquei pensando na reação dela no final de semana. Ela parece tão... frágil, às vezes.
— Ela é um cristal, Manu. E você está doido para ser a caixa de veludo onde ela vai morar — Sara inclinou-se para frente, tocando o rosto do marido com as unhas compridas. — Eu já te dei o sinal verde. Você é um homem de sorte, tem a loira turbinada que te entende e a castanha doce que te acalma. Só não demora muito. A Duda é lenta para entender essas coisas, ela vive no mundo da lua, ou melhor, no mundo da História da Arte.
— Eu não quero assustá-la, Sara. A Eduarda não é como você. Se eu chegar nela do jeito que cheguei em você, ela foge e se esconde em um museu — Emanuel levantou-se, beijando a testa de Sara com possessividade. — Vou focar em você agora. No bebê. O resto... eu vou arquitetar com calma.
***
Do outro lado da cidade, o ambiente era drasticamente diferente. O estúdio de ballet onde Eduarda lecionava era inundado pela luz suave do final de tarde. O som do piano clássico ainda parecia ecoar nas paredes espelhadas, embora a aula das crianças já tivesse terminado.
Eduarda estava sentada no chão de linóleo, as pernas abertas em um espacate perfeito, enquanto desamarrava as fitas de suas sapatilhas de ponta. Ao seu lado, duas de suas amigas mais próximas da faculdade e do grupo de amigos, Bia e Tati, bebiam água e comentavam sobre a viagem.
— Ai, sério, a Sara grávida vai ser um acontecimento — comentou Bia, rindo. — Imagina o chá de bebê? Vai ter glitter até no bolo.
— O Emanuel está um nojo de tão protetor — Tati completou, revirando os olhos de forma brincalhona. — Vocês viram como ele quase matou o Leo só porque ele esbarrou na Duda?
Eduarda sentiu o rosto esquentar instantaneamente. A lembrança das mãos de Emanuel segurando seus braços com tanta força, do calor que emanava dele e do olhar furioso que ele lançou ao amigo, ainda a fazia ter calafrios.
— Ele só... ele só é cuidadoso — murmurou Eduarda, a voz manhosa e baixa, enquanto guardava as sapatilhas na bolsa de lona. — O Emanuel sempre foi assim com todo mundo.
— Com todo mundo uma ova, Duda! — Bia exclamou, sentando-se de frente para ela. — Ele olha para você como se você fosse uma pintura renascentista que ele tem medo que alguém toque e estrague. E a Sara... a Sara nem liga. É a dinâmica mais bizarra e fascinante que eu já vi.
Eduarda abraçou os próprios joelhos, escondendo metade do rosto.
— Eu não sei. Eu me sinto segura perto dele. É estranho, sabe? Às vezes, quando ele está por perto, parece que o mundo lá fora para de ser tão barulhento.
— Isso tem nome, amiga — disse Tati, com um sorriso malicioso. — Chama-se "querer ser cuidada por um homão da porra". E vamos combinar, o Emanuel é o pacote completo. Rico, tatuador, gato e tem aquela pegada de "eu mando em tudo".
— Mas ele é casado! — Eduarda protestou, embora a palavra "casado" soasse pesada e desconfortável em sua boca. — E a Sara é minha amiga. Eu nunca... eu nem saberia como agir.
— O ponto não é esse, Duda — Bia interveio, mudando o tom para algo mais reflexivo. — A gente estava falando disso hoje na aula de estética. Sobre o que as mulheres buscam. Você já parou para pensar no que é, de fato, "amar" um homem como o Emanuel? Ele não é um cara comum. Ele é um homem que domina.
Eduarda franziu a testa, interessada e confusa.
— Como assim?
— Amar um homem assim exige entrega — explicou Bia. — A Sara entrega a ele a lealdade e o caos dela, e ele devolve proteção absoluta. Você, Duda... você é toda sensível, toda "manhosa", como o grupo diz. Você busca alguém que seja o seu chão. O Emanuel é o chão, o teto e as paredes. Amar um homem desses é aceitar que ele vai querer controlar cada passo seu para garantir que você não caia.
Eduarda ficou em silêncio por um longo tempo, observando a própria imagem no espelho. Ela se via pequena, delicada, com seus cabelos castanhos presos em um coque frouxo e a pele pálida. Ela sempre se sentira um pouco deslocada na energia caótica de São Paulo, sempre preferindo o silêncio dos livros e a disciplina da dança. A ideia de pertencer a alguém, de ser protegida daquela forma feroz que Emanuel demonstrara, não a assustava. Pelo contrário, trazia uma sensação de calor no peito que ela tinha medo de explorar.
— Eu acho que eu teria medo — confessou Eduarda em um sussurro. — Medo de me perder nele.
— Ou medo de descobrir que é exatamente disso que você precisa — rebateu Tati, levantando-se e pegando suas coisas. — Mas relaxa, Duda. Por enquanto, ele está focado na loira e na barriga. Mas a forma como ele te olhou naquela trilha... hum, aquilo não foi olhar de quem só quer ser seu "amigo".
As amigas saíram, deixando Eduarda sozinha no estúdio. Ela se levantou e caminhou até a barra de ballet, apoiando as mãos ali. Fez um movimento simples, um *plié*, sentindo os músculos das pernas trabalharem. Sua mente, no entanto, não estava na técnica. Estava no cheiro de Emanuel. No jeito que ele a chamava de "Duda" com uma voz que parecia um abraço.
***
Enquanto isso, no estúdio central de tatuagem de Emanuel, o clima era de tensão produtiva. O lugar era uma obra de arte industrial, com paredes de tijolos aparentes, iluminação focada e o som constante das máquinas de tatuar. Emanuel estava em seu escritório envidraçado, revisando relatórios financeiros de suas filiais em Londres e Tóquio.
Ele estava furioso. Um de seus fornecedores de tintas exclusivas havia atrasado uma remessa importante, e Emanuel não tolerava ineficiência.
— Eu não quero saber de desculpas, Marcos — rosnou ele ao telefone, a voz fria e cortante. — Se o material não estiver aqui até amanhã, eu cancelo o contrato e processo a transportadora. Eu pago para ter o melhor, e o melhor inclui pontualidade. Estamos entendidos?
Ele desligou o celular e o jogou sobre a mesa de mogno. Respirou fundo, tentando acalmar o latejar em suas têmporas. A porta do escritório se abriu e um de seus tatuadores mais antigos entrou, trazendo uma pasta.
— Chefe, os desenhos para a convenção de Berlim estão prontos. Quer revisar?
— Deixe na mesa. Vou olhar depois — Emanuel respondeu, sem olhar para cima.
Ele abriu uma gaveta da mesa e tirou um pequeno caderno de esboços pessoal. Não havia desenhos de tatuagens ali. Havia esboços de mãos, de pés em ponta, de perfis delicados. Havia desenhos de Eduarda.
Emanuel passou os dedos sobre o papel, traçando o contorno do rosto dela que ele desenhara de memória. A fúria que sentia pelos negócios parecia dissipar-se ao olhar para aqueles traços. Sara era sua realidade, sua parceira de vida, a mulher que carregava seu sangue. Eduarda era sua poesia, a parte dele que ele mantinha guardada em uma redoma de vidro, com medo de que o mundo bruto em que ele vivia pudesse trincá-la.
Ele sabia que Sara estava certa. Ele não conseguiria manter aquela divisão por muito tempo. O desejo de ter Eduarda sob sua asa, de providenciar para ela tudo o que ela precisasse, de vê-la dançar apenas para ele, estava se tornando uma obsessão silenciosa.
Seu telefone vibrou. Era uma mensagem de Sara.
*"Passei na loja da Duda agora (mentira, passei na frente da faculdade dela e a vi saindo). Ela estava com um livro enorme e parecia cansada. Por que você não manda um daqueles seus carros buscá-la e levá-la para jantar? Eu vou sair com as meninas da administração hoje, a noite é sua, garanhão. P.S: Comprei aquele hidratante que você gosta. Esteja em casa à meia-noite."*
Emanuel deu um sorriso de canto. Sara era impossível. Ela estava jogando o jogo por ele, empurrando-o para o abismo que ele tanto desejava.
Ele pegou o interfone da mesa.
— Ricardo? Prepare o carro preto. Vou sair em dez minutos. E ligue para o "L'Atelier", reserve a mesa do fundo. A mais discreta.
Emanuel vestiu seu paletó de corte impecável sobre a camiseta preta, escondendo as tatuagens nos braços, mas deixando a aura de poder intacta. Ele não ia "abrir o jogo" ainda. Eduarda era como um pássaro arisco; ele precisava construir o ninho primeiro, mostrar a ela que o céu sob sua proteção era muito mais seguro do que o mundo lá fora.
Ele saiu do estúdio com passos decididos. O controle era sua ferramenta de trabalho, mas quando se tratava de Eduarda, ele estava começando a entender que o controle seria apenas o meio para chegar à entrega total. E ele não pararia até ter as duas mulheres que amava exatamente onde ele queria: ao seu lado, sob seus cuidados, formando o mundo perfeito que ele estava determinado a construir.