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D

O Peso da Doçura e o Caos do Cuidado

A luz da manhã entrava de forma agressiva pelas janelas do apartamento de Eduarda, iluminando a poeira que dançava no ar e o cenário de absoluto desespero que se instalara na pequena sala. Eduarda, com o cabelo castanho desgrenhado e as olheiras profundas de quem não dormia há horas, balançava freneticamente um pequeno embrulho de mantas cor-de-rosa.

— Por favor, Maya... por favor, meu anjo, só um pouquinho de silêncio — implorou Eduarda, a voz embargada e manhosa, quase tão infantil quanto o choro da bebê em seus braços.

Maya, uma bebê de apenas quatro meses, tinha os mesmos traços delicados da família, mas uma capacidade pulmonar impressionante. Ela era doce e manhosa quando dormia, mas agora, faminta e confusa, era um pequeno vulcão de carência. A prima de Eduarda, em um surto de irresponsabilidade que beirava o crime, havia aparecido na noite anterior, deixado a criança, uma bolsa de fraldas quase vazia e um bilhete rabiscado dizendo que "precisava se encontrar". Depois disso, sumiu. Desligou o celular. Desapareceu no mundo.

Eduarda estava sozinha. Seus pais, sempre modernos e ocupados com suas próprias agendas sociais e viagens, estavam em um retiro de ioga no interior e não atendiam às chamadas. Ela sentia que ia desmoronar. O mundo da História da Arte e do ballet não a preparara para a realidade visceral de uma fralda suja e um choro que não cessava.

O celular de Eduarda tocou sobre a mesa de centro. Ela atendeu sem olhar o visor, equilibrando Maya no ombro.

— Alô? — a voz dela saiu como um sussurro quebrado.

— Duda? O que está acontecendo? Por que você não foi à faculdade hoje? — A voz de Emanuel era como um trovão de estabilidade do outro lado da linha. Ele tinha um rastreador mental para a rotina dela, e qualquer desvio o deixava em alerta máximo.

— Emanuel... — Ao ouvir o nome dele, a barreira de Eduarda cedeu. Ela começou a chorar junto com a bebê. — Eu não sei o que fazer. A minha prima... ela largou a Maya aqui. Ela sumiu. Eu estou sozinha e ela não para de chorar, e eu não tenho leite, e eu não sei se ela está com febre...

— Respire, Eduarda. Fique onde você está. Não saia desse apartamento. Estou chegando em dez minutos.

Emanuel não esperou resposta. Ele desligou o telefone e, no mesmo instante, levantou-se da cadeira de couro de seu escritório. Ele não pediu licença, apenas sinalizou para o seu segurança que o carro deveria estar na porta em sessenta segundos.

Enquanto cruzava a cidade em tempo recorde, Emanuel ligou para casa.

— Sara, preciso de você — disse ele, assim que ela atendeu.

— Nossa, que urgência deliciosa, Manu. O que foi? O bebê chutou aqui e eu...

— Não é isso. É a Eduarda. A prima maluca dela abandonou uma bebê de quatro meses no colo dela. Ela está em pânico, Sara. Estou indo para lá agora.

Houve um breve silêncio do outro lado. Sara, em sua loja de roupas de luxo, parou de analisar um cabide de seda. Diferente de qualquer outra mulher, ela não sentiu ciúmes. Ela sentiu uma mistura de proteção e uma curiosidade instintiva.

— Coitada da Duda... ela é tão sensível, deve estar achando que o mundo acabou. Manu, escute: eu vou mandar a minha secretária comprar o melhor leite artificial, mamadeiras esterilizadas, roupas e um estoque de fraldas. Vou mandar entregar direto no apartamento dela. E eu estou indo para lá também. Aquela menina não sabe nem fritar um ovo, imagine cuidar de um recém-nascido.

— Obrigado, Sara. Você é incrível — Emanuel disse, genuíno.

— Eu sei que sou. Agora vá cuidar da nossa pequena bailarina antes que ela tenha um colapso nervoso.

Quando Emanuel chegou ao prédio de Eduarda, ele não esperou o porteiro anunciar. Ele tinha a chave reserva que os pais dela lhe deram há um ano, em uma ocasião em que Eduarda ficara trancada para fora. Ele entrou no apartamento e a cena que encontrou apertou seu coração de uma forma que ele não esperava.

Eduarda estava sentada no chão, encostada no sofá, com a cabeça baixa e a bebê Maya agora em um silêncio exausto em seu colo. O ambiente cheirava a talco e desespero.

— Duda — chamou ele, suavemente.

Ela levantou os olhos. Estavam vermelhos, inchados, e sua pele parecia ainda mais pálida sob a luz da manhã.

— Emanuel... você veio — ela sussurrou, estendendo a mão livre para ele como uma criança perdida busca o pai.

Emanuel caminhou até ela e, ignorando qualquer protocolo, sentou-se no chão ao seu lado. Ele envolveu os ombros dela com um braço forte e, com a outra mão, tocou a cabecinha da bebê.

— Eu sempre venho, você sabe disso — disse ele, a voz baixa e firme, o tom de proteção que ele reservava apenas para as suas mulheres. — Deixe-me ver ela.

Com uma destreza que Eduarda não imaginava que um homem tão rústico e tatuado pudesse ter, ele pegou Maya nos braços. A bebê abriu os olhos, observou o rosto sério e os traços marcantes de Emanuel, e, milagrosamente, soltou um pequeno suspiro e agarrou o dedo dele com sua mãozinha minúscula.

— Ela é linda — murmurou Emanuel, sentindo uma onda estranha de ternura. — Parece com você quando era pequena. Manhosa.

— Eu não sou manhosa — Eduarda protestou, encostando a cabeça no ombro dele, sentindo o cheiro de perfume caro e tabaco que sempre o acompanhava.

— É sim. E é por isso que eu estou aqui. Para cuidar das duas.

Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo controlado. Sara entrou, usando um vestido justo de oncinha, saltos agulha e óculos escuros sobre a cabeça loira. Atrás dela, dois entregadores carregavam caixas e mais caixas de suprimentos.

— Chegou a cavalaria! — anunciou Sara, tirando os óculos e olhando para a cena no chão. — Olhem só para vocês dois. Parece uma propaganda de família de comercial de margarina, se não fosse pelo fato de o Manu parecer um segurança de boate e a Duda estar parecendo uma sobrevivente de naufrágio.

Eduarda tentou se levantar, envergonhada, mas Sara fez um gesto para que ela ficasse onde estava.

— Nem se mexa, querida. Eu já organizei tudo. O leite está chegando, as roupas também. Manu, tire essa cara de quem vai matar alguém e vá ajudar os rapazes com as caixas. Eu assumo a Duda.

Emanuel obedeceu, mas não antes de dar um aperto encorajador no ombro de Eduarda. Sara se aproximou, sentando-se no sofá acima de Eduarda e passando a mão pelos cabelos castanhos da menina.

— Que bagunça, hein, Duda? Aquela sua prima sempre foi uma piranha desmiolada. Mas não se preocupe. Você não está sozinha nessa.

— Sara, eu não posso ficar com ela... eu tenho faculdade, tenho as aulas de ballet... e se ela não voltar? — Eduarda começou a chorar de novo.

— Se ela não voltar, a gente resolve. O Manu tem advogados que fazem milagres, e eu tenho disposição para montar o quarto mais incrível que essa cidade já viu — Sara sorriu, uma expressão de pura confiança. — E pense pelo lado positivo: a nossa Ágata vai ter uma irmãzinha para brincar daqui a alguns meses.

Eduarda parou de chorar, processando as palavras de Sara.

— Ágata? É o nome da bebê de vocês?

— É sim. Ágata. Forte, brilhante e cara, como a mãe — Sara riu, acariciando a própria barriga de um mês, que ainda não aparecia sob o tecido do vestido. — E agora, vamos dar um jeito nesse seu rosto. Manu! Traga a bebê para cá. Vou mostrar para a Eduarda como se faz um bico de mamadeira sem entrar ar.

O restante do dia foi um borrão de atividade. Emanuel assumiu o controle logístico, instalando um berço portátil que Sara mandara comprar e organizando o estoque de fraldas. Ele agia com uma eficiência mecânica, mas seus olhos nunca deixavam de seguir Eduarda enquanto ela aprendia, sob a tutela barulhenta e prática de Sara, a cuidar de Maya.

Ao cair da tarde, Maya finalmente dormia profundamente no berço novo. Sara estava na cozinha, pedindo um jantar sofisticado por aplicativo, enquanto Emanuel e Eduarda ficaram na sala, em um silêncio carregado de significados não ditos.

Eduarda estava exausta, sentada no sofá com as pernas encolhidas. Emanuel sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas sua presença preenchia todo o espaço.

— Emanuel — ela começou, a voz bem baixinha. — Por que você faz tudo isso por mim?

Ele virou o rosto para ela. A luz do crepúsculo destacava as tatuagens em seu pescoço e a seriedade em seus olhos escuros.

— Porque eu não suporto a ideia de você estar em perigo, Duda. Ou triste. Ou sobrecarregada.

— Mas você tem a Sara... e agora a Ágata. Eu sou só... a Duda.

Emanuel inclinou-se para frente, diminuindo o espaço entre eles. Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Eduarda, o polegar acariciando a pele macia de sua bochecha.

— Você nunca foi "só" a Duda para mim. Você é a parte do meu mundo que eu preciso proteger para continuar sendo quem eu sou. A Sara entende isso. Ela sabe que o que eu sinto por você não tira nada do que eu sinto por ela. São amores diferentes, mas igualmente necessários.

Eduarda arregalou os olhos, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir.

— Você... você sente algo por mim? Além de amizade?

Emanuel soltou um suspiro pesado, a fúria e a tensão que ele carregava o dia todo parecendo se transformar em uma honestidade crua.

— Eu sou encantado por você, Eduarda. Pela sua doçura, pelo seu jeito de ver o mundo. Eu quero cuidar de você, da mesma forma que cuido da Sara. Eu quero as duas.

Eduarda ficou sem fala. Em qualquer outra situação, ela se sentiria escandalizada. Mas ali, com o calor da mão dele em seu rosto e a segurança que ele lhe proporcionara durante todo aquele dia de caos, a confissão dele soou como uma âncora.

— A Sara... ela sabe disso? — perguntou Eduarda, a voz trêmula.

— Ela sabe. E ela quer que você faça parte da nossa vida. Ela quer que sejamos nós três, cuidando um do outro. E agora, cuidando da Ágata e, se for o caso, da Maya também.

Nesse momento, Sara apareceu na porta da sala, segurando duas taças de água (já que ambas as mulheres não podiam beber álcool). Ela tinha um sorriso cúmplice no rosto.

— O Manu já abriu o jogo, não é? Ele é péssimo com sutilezas quando está estressado.

Eduarda olhou para Sara, esperando encontrar julgamento ou raiva, mas encontrou apenas acolhimento.

— Sara, eu... eu não sei o que dizer.

— Não diga nada agora, Duda. Você está exausta, tem uma bebê de outra pessoa no seu quarto e a sua cabeça deve estar girando — Sara aproximou-se e entregou a taça para ela. — Apenas saiba que você tem um lar com a gente. Se quiser ficar aqui, a gente ajuda. Se quiser ir para a nossa casa, o quarto de hóspedes já está sendo transformado em uma suíte para você e para a Maya. O Manu não vai descansar enquanto não tiver todas as suas "crias" debaixo do mesmo teto.

Emanuel levantou-se, sua postura recuperando a rigidez de controle.

— Vou buscar o jantar lá embaixo. Sara, fique com ela.

Ele saiu, deixando as duas mulheres sozinhas. Eduarda olhou para Sara, sentindo-se pequena e, ao mesmo tempo, incrivelmente importante.

— Você realmente não se importa, Sara? De dividir ele comigo?

Sara deu de ombros, sentando-se com elegância na poltrona à frente.

— Querida, o Emanuel tem amor e dinheiro de sobra para dez mulheres. Mas ele só tem olhos para nós duas. Eu sou o fogo que impulsiona ele, e você é a paz que ele precisa para não queimar o mundo todo. Juntas, a gente faz dele um homem completo. E, sinceramente? Eu adoro a sua companhia. Você é fofa, e eu vou adorar te vestir com roupas que não pareçam ter saído de um convento.

Eduarda soltou uma risada fraca, a primeira do dia.

— Eu não sei se consigo ser essa pessoa, Sara.

— Você já é essa pessoa, Duda. Só precisa de alguém que te proteja enquanto você descobre isso. E o Manu... bem, ele nasceu para proteger.

A noite caiu sobre São Paulo, mas dentro daquele apartamento, o caos começava a dar lugar a uma nova ordem. Uma ordem complexa, fora dos padrões, marcada pela vulgaridade vibrante de Sara, pela doçura frágil de Eduarda e pela fúria protetora de Emanuel. Entre berços improvisados, confissões sussurradas e o peso de uma responsabilidade inesperada, o trio começava a desenhar os contornos de uma família que ninguém mais entenderia, mas que, para eles, era a única forma possível de felicidade.

Emanuel, ao voltar com o jantar, observou as duas conversando da porta da sala. Ele sentiu uma satisfação profunda. Ele tinha o controle, ele tinha o amor e, agora, ele tinha um plano. Ninguém tocaria nelas. Ninguém machucaria suas mulheres ou seus bebês. Ele era o muro, e elas eram o tesouro que ele guardaria com a própria vida.