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Sombras no Espelho de Cristal

O casarão no Jardim Europa transbordava uma vida que, para olhos externos, beirava o caos, mas que para Emanuel era a engrenagem perfeita. O som das sapatilhas de Eduarda batendo no assoalho de madeira da sala de ensaio improvisada misturava-se aos balbucios de Ágata e Maya, que agora, aos oito meses, pareciam pequenas extensões uma da outra. Ágata, a filha de Sara, era expansiva e risonha; Maya, a filha do coração de Eduarda, era observadora e tinha um sorriso tímido que desarmava Emanuel todas as manhãs.

Emanuel estava no escritório, revisando a expansão de sua rede de estúdios para a Ásia, mas sua atenção estava voltada para o monitor das câmeras internas. Ele observava Eduarda ensinar Maya a se equilibrar, enquanto Sara, sentada em um pufe de veludo, lixava as unhas e dava palpites sobre a postura da "pequena bailarina". O clima de paz, porém, estava prestes a ser estilhaçado por uma visita que Emanuel preferia evitar: Dona Odete, a mãe de Sara.

Dona Odete era a versão de Sara sem o filtro da empatia ou o brilho da juventude. Era uma mulher que valorizava o sangue, o status e a aparência acima de tudo. Quando a campainha tocou e o som dos saltos altos de Odete ecoou pelo hall, Emanuel sentiu o maxilar travar. Ele fechou o laptop e desceu as escadas, chegando à sala exatamente no momento em que a sogra entrava, exalando um perfume francês excessivamente forte.

— Mas que bagunça é essa na sala de estar? — exclamou Odete, ignorando o cumprimento do genro. — Brinquedos espalhados, música clássica alta... Sara, minha filha, você deixou sua casa virar uma creche pública?

Sara levantou-se com um sorriso irônico, sem se abalar. Ela conhecia a mãe que tinha.

— Oi para você também, mamãe. Não é uma creche, é a nossa vida. E a música faz bem para o desenvolvimento das meninas.

Odete caminhou até o centro da sala, os olhos semicerrados ao observar Eduarda, que parara o que estava fazendo. Eduarda sentiu aquela insegurança familiar rastejar por sua espinha. Ela pegou Maya no colo, buscando proteção no contato com a bebê.

— Eduarda, não é? — Odete disse, com um tom de voz que sugeria que a presença dela ali era um erro de percurso. — Ainda aqui, cuidando dessa... criança.

Emanuel parou ao lado de Eduarda, colocando a mão firmemente em sua cintura. O gesto foi automático, uma marcação de território e proteção que fez Odete arquear as sobrancelhas.

— O nome dela é Maya, Odete — disse Emanuel, a voz fria e perigosa como uma lâmina. — E ela é minha filha, tanto quanto a Ágata.

Odete soltou uma risada seca, tirando as luvas de pelica e jogando-as sobre a mesa de centro.

— Não seja ridículo, Emanuel. Todos sabemos que essa menina não tem o seu sangue. É o fruto do erro de uma parenta distante da Eduarda. Olhe para ela... — Odete apontou para Maya, que se escondia no pescoço de Eduarda. — Ela não tem os traços da nossa família. É uma criança comum, sem linhagem. Ágata, por outro lado, é uma joia. Onde está minha neta de verdade?

Eduarda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. O comentário de Odete atingira seu ponto mais vulnerável: o medo de que Maya fosse sempre vista como uma intrusa. Ela apertou a bebê contra o peito, sentindo o corpinho quente de Maya tremer levemente, como se a criança sentisse a hostilidade no ar.

— Mamãe, chega — Sara interveio, embora seu tom ainda fosse controlado. — A Maya é da família. Eu a considero minha tanto quanto a Ágata. Se você veio aqui para destilar veneno, pode voltar para o seu apartamento agora mesmo.

— Eu só estou sendo realista, Sara! — Odete exclamou, aproximando-se de Eduarda, que recuou um passo. — Você é jovem, é bonita, tem um marido rico. Por que aceitar essa situação? Ter que dividir a atenção do Emanuel com essa... essa menina insossa e uma criança que nem deveria estar aqui? Olhe para essa bebê, Emanuel. Ela é opaca. Não tem o brilho que um herdeiro seu deveria ter. É um peso morto no seu orçamento.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som da respiração pesada de Emanuel. Ele soltou a cintura de Eduarda e deu um passo à frente, ficando a centímetros de Odete. Sua estatura imponente e a fúria que emanava de seus olhos fizeram a mulher recuar, a arrogância vacilando pela primeira vez.

— Saia da minha casa — disse Emanuel. Não foi um grito, foi um comando sussurrado, o que era muito pior.

— Emanuel, eu sou a avó da sua filha! — protestou Odete, tentando recuperar a compostura.

— Você é uma visita indesejada que acabou de insultar minha mulher e minha filha — Emanuel retrucou, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Eu não me importo com o seu sangue ou com a sua linhagem. Nesta casa, o que vale é o que eu decido. E eu decidi que a Maya é intocável. Se você não consegue olhar para ela e ver uma criança que merece amor, você não é digna de olhar para a Ágata também.

— Você está me expulsando por causa dessa... dessa bastarda? — Odete gritou, perdendo o controle.

Emanuel não respondeu com palavras. Ele caminhou até a porta e a abriu de par em par.

— Agora, Odete. Antes que eu perca o resto da educação que a Sara insiste que eu tenha.

Sara aproximou-se da mãe, seu rosto antes irônico agora transformado em uma máscara de decepção.

— Vá embora, mãe. Você passou dos limites. A Duda é mais irmã para mim do que você jamais foi mãe. E a Maya é o doce desta casa. Se você não consegue ver isso, o problema é a sua alma que está podre.

Humilhada e bufando de raiva, Odete pegou suas coisas e saiu, batendo os saltos com força no chão. Emanuel fechou a porta com um estrondo que fez os vidros vibrarem. Ele respirou fundo, tentando dissipar a fúria que ameaçava explodir.

No centro da sala, Eduarda estava estática. As lágrimas agora desciam livremente por seu rosto. Maya, sentindo a angústia da mãe, começou a chorar, um choro baixinho e sofrido.

— Duda... — Emanuel atravessou a sala em dois passos, envolvendo as duas em um abraço esmagador. — Não ouça o que aquela mulher disse. Nada daquilo é verdade.

— Ela tem razão em uma coisa, Emanuel — soluçou Eduarda, a voz abafada contra o peito dele. — A Maya não tem o seu sangue. Eu tenho tanto medo de que, no futuro, as pessoas a tratem assim... como se ela fosse menos que a Ágata.

Emanuel afastou-se apenas o suficiente para segurar o rosto de Eduarda com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele.

— Escute bem — disse ele, com uma intensidade que a fez parar de chorar por um instante. — Sangue é apenas um detalhe biológico. O que define esta família é o meu cuidado. Eu escolhi a Maya. Eu escolhi você. E eu desafio qualquer um neste mundo a tentar dizer que ela é menos do que minha. Ela vai ter o meu sobrenome, a minha herança e, acima de tudo, a minha proteção. Se alguém olhar torto para ela, vai ter que prestar contas comigo. Entendeu?

Eduarda assentiu lentamente, sentindo a força das palavras dele agirem como um bálsamo sobre sua insegurança.

Sara aproximou-se, colocando a mão no ombro de Eduarda e fazendo um carinho na perninha de Maya.

— A minha mãe é uma dinossaura, Duda. Ela vive em um mundo que não existe mais. A Maya é perfeita. Olha esse rostinho... ela é a sua cara, mesmo não sendo de sangue. Ela tem a sua doçura. E a Ágata precisa dela. Elas são irmãs, e nós somos uma família. O resto do mundo que se exploda.

Eduarda deu um sorriso fraco, limpando o rosto com a manga da blusa de lã.

— Obrigada, Sara. Eu não sei o que seria de mim sem vocês.

— Seria uma bailarina triste e solitária — brincou Sara, tentando aliviar o clima. — Agora, chega de drama. Emanuel, você está me devendo um jantar maravilhoso por ter aguentado a minha mãe por dez minutos. E a Duda precisa de um banho de espuma e de uma massagem, porque ela está tensa como uma corda de violino.

Emanuel relaxou os ombros, o semblante suavizando ao olhar para as duas mulheres.

— Eu cuido disso — disse ele, pegando Maya do colo de Eduarda. — Vou levar a Maya para o quarto e ficar com ela e a Ágata um pouco. Duda, vá descansar. É uma ordem.

Eduarda riu, o jeito manhoso retornando aos poucos.

— Você adora dar ordens, não é?

— Só quando é para o seu bem — ele rebateu, dando um beijo na testa dela e outro no topo da cabeça de Maya.

Enquanto Eduarda subia as escadas, Emanuel ficou na sala com Sara. A loira cruzou os braços, observando o marido com um olhar analítico.

— Você quase avançou no pescoço dela, Manu.

— Ela ofendeu a Maya, Sara. E destruiu a confiança da Eduarda em segundos. Eu não tolero isso.

— Eu sei. E é por isso que eu te amo — Sara aproximou-se, abraçando-o pelo pescoço. — Mas você sabe que a Duda vai precisar de mais do que palavras agora. Aquilo tocou na ferida dela.

Emanuel suspirou, olhando para a bebê em seu colo, que agora brincava com a corrente de ouro em seu pescoço.

— Eu vou dar a ela o que ela precisa, Sara. Vou oficializar tudo. Quero que os papéis da Maya saiam o mais rápido possível. Quero que ela seja legalmente minha filha diante de qualquer juiz deste país.

— Isso vai deixá-la mais calma — concordou Sara. — E quanto a nós? A minha mãe não vai parar por aqui. Ela vai tentar envenenar a cabeça da sociedade, dos nossos amigos...

— Deixe que tentem — Emanuel disse, a fúria retornando de forma fria e controlada. — Eu sou o Emanuel. Eu construí um império do nada. Se alguém quiser testar a minha paciência usando as minhas mulheres ou as minhas filhas como alvo, vai descobrir por que eu sou o homem mais temido e respeitado do meu meio. Eu não jogo para perder, Sara. E nesta família, ninguém fica para trás.

Sara sorriu, satisfeita. Ela sabia que Emanuel era um homem de palavra.

Mais tarde, naquela noite, o casarão estava mergulhado em um silêncio reconfortante. As bebês dormiam em seus respectivos berços, monitoradas por babás eletrônicas e pelo cuidado constante de Emanuel. No quarto principal, Sara já dormia, exausta pelas demandas da loja e da maternidade.

Emanuel, no entanto, estava no quarto de Eduarda. Ela estava sentada na varanda, observando as luzes de São Paulo, envolta em um xale de seda. Ele aproximou-se por trás, envolvendo-a em seus braços e apoiando o queixo em seu ombro.

— Ainda pensando no que ela disse? — perguntou ele.

— É difícil esquecer, Manu. Eu olho para a Maya e só vejo perfeição. Mas o mundo... o mundo é cruel.

— O mundo é o que nós fazemos dele, Duda — Emanuel virou-a para si, a luz da lua refletindo nos olhos sensíveis da bailarina. — Você passou a vida toda se escondendo, sendo tímida, buscando proteção. Agora, você é a proteção da Maya. E eu sou a sua. Não há espaço para medo aqui.

Ele a beijou, um beijo lento e profundo, que carregava uma promessa de eternidade. Eduarda entregou-se ao toque dele, sentindo-se, pela primeira vez desde a visita de Odete, plenamente segura. Ela sabia que a vida deles era fora dos padrões, que muitos os julgariam, mas ali, nos braços de Emanuel, com o apoio incondicional de Sara, ela entendia que o amor não precisava de explicações, apenas de coragem.

— Eu te amo, Emanuel — sussurrou ela contra os lábios dele.

— Eu sei — respondeu ele, com sua arrogância protetora habitual. — E é por isso que eu nunca vou deixar o mundo te machucar.

Emanuel ficou ali, segurando Eduarda enquanto a noite avançava. Ele era o tatuador que marcava a pele, o empresário que dominava o mercado, o homem que amava duas mulheres com a mesma intensidade feroz. Mas, acima de tudo, ele era o guardião daquele refúgio. Odete podia ter tentado plantar a semente da discórdia, mas ela só conseguira fortalecer os laços daquela tríade. A Maya era uma deles. A Eduarda era sua alma. E Emanuel garantiria que as sombras do passado jamais apagassem o brilho do futuro que ele estava construindo para todos eles.