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As Sombras do Cuidado

O silêncio do casarão de Emanuel no Jardim Europa era pesado, interrompido apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra as imensas vidraças. O ambiente, que deveria ser de celebração pelo nascimento de Ágata há apenas três meses, estava impregnado por uma tensão elétrica. Emanuel andava de um lado para o outro no corredor, os passos pesados ecoando no mármore. Ele estava sem camisa, exibindo a vasta coleção de tatuagens que cobriam seu peito e costas, mas seus olhos, geralmente frios e calculistas, estavam injetados de preocupação e uma fúria contida.

No quarto ao lado, o choro de Maya era diferente. Não era o choro manhoso de uma criança que queria atenção; era um ganido rouco, sofrido, que partia o coração de qualquer um que ouvisse. A bebê, que Eduarda assumira como filha após o abandono definitivo da prima e um processo de adoção agilizado pelo poder de Emanuel, estava ardendo em febre há mais de dez horas.

— Onde está esse médico, porra? — rosnou Emanuel, parando diante de Sara, que estava sentada em uma poltrona de veludo no corredor, amamentando a pequena Ágata.

Sara, mesmo no puerpério, não perdera sua essência. Usava um robe de seda preta com rendas, os cabelos loiros presos em um coque alto e despojado, e o rosto, embora cansado, mantinha a expressão de quem dominava a situação. Ela olhou para o marido com uma calma que só ela conseguia impor a ele.

— Ele já passou pelo portão, Manu. Se você continuar rosnando assim, vai assustar a Ágata e a Duda. Controle-se.

— Eu não aguento ver a Eduarda daquele jeito, Sara — disse ele, a voz baixando de tom, mas ainda carregada de uma urgência possessiva. — Ela está lá dentro há horas, não come, não bebe água, só chora abraçada com a Maya. Ela está se desfazendo.

— A Duda é uma mãe agora, Emanuel. E mães sentem a dor dos filhos dobrada — Sara suspirou, ajeitando a recém-nascida no colo. — Ela é sensível, você sabe disso. O mundo dela é feito de porcelana, e essa febre da Maya é como um martelo. Vá lá dentro. Seja o chão dela, porque ela está flutuando no pânico.

Emanuel não precisou ouvir duas vezes. Ele abriu a porta do quarto de Maya com cuidado. O ambiente estava na penumbra, iluminado apenas por um abajur de luz quente. Eduarda estava sentada na beira da cama, balançando o corpo para frente e para trás, com Maya aninhada em seu peito. O rosto de Eduarda estava inchado, os cabelos castanhos colados na testa pelo suor e pelas lágrimas. Ela parecia uma visão de fragilidade absoluta, uma bailarina que perdera o ritmo e caíra no meio do palco.

— Duda — chamou ele, aproximando-se com passos lentos.

Ela levantou os olhos, e Emanuel sentiu uma fisgada violenta no peito. O olhar dela era de puro terror.

— Emanuel, ela está tão quente... eu coloco a compressa e parece que o calor volta na mesma hora. E se for algo grave? E se eu não estiver cuidando direito dela? — A voz de Eduarda era um sussurro embargado, carregado daquela insegurança que sempre a acompanhara, agora potencializada pela maternidade.

Emanuel sentou-se atrás dela, envolvendo tanto Eduarda quanto a bebê em seus braços maciços. Ele era o contraste puro: a força bruta protegendo a delicadeza extrema.

— Você é a melhor mãe que essa menina poderia ter, Eduarda. Olhe para mim — ele ordenou suavemente, forçando-a a encontrar seus olhos. — O médico está subindo. Eu não vou deixar nada acontecer com a Maya. Eu não vou deixar nada acontecer com você. Você confia em mim?

Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos por um segundo. O calor do corpo de Emanuel, o cheiro de sua pele e a firmeza de seu abraço eram as únicas coisas que a impediam de desmoronar por completo.

— Eu confio — ela murmurou. — Eu só... eu amo ela tanto, Manu. Dói.

— Eu sei que dói. Mas eu estou aqui para carregar o peso por você.

A porta se abriu e o Dr. Arnaldo, o pediatra particular da família, entrou acompanhado por Sara, que já havia deixado Ágata no berço sob a supervisão da babá. O médico iniciou o exame rapidamente, enquanto Emanuel permanecia como uma estátua de proteção atrás de Eduarda, as mãos pousadas em seus ombros, sentindo cada tremor da moça.

— É uma infecção viral comum, mas a febre alta em bebês dessa idade sempre assusta — explicou o médico, guardando o estetoscópio. — Vou administrar um antitérmico mais forte e precisamos manter a hidratação. Ela vai ficar bem, Eduarda. Só precisa de repouso e de você.

Eduarda soltou um suspiro longo, os ombros finalmente relaxando sob as mãos de Emanuel. Sara se aproximou, colocando a mão na testa de Maya e depois na de Eduarda.

— Viu só, sua chorona? — disse Sara, com um sorriso provocador que escondia sua própria preocupação. — A pequena Maya é forte como o pai dela... bem, o pai que o destino deu a ela. Agora, você vai entregar essa bebê para o Emanuel, vai tomar um banho e comer alguma coisa.

— Eu não quero sair de perto dela, Sara — protestou Eduarda, apertando a bebê.

— Não foi um pedido, Duda — Emanuel interveio, a voz assumindo aquele tom de comando que não admitia réplicas, mas que, para Eduarda, soava como um acalanto. — Eu cuido dela agora. Você precisa estar bem para quando ela acordar melhor. Vá com a Sara.

Eduarda olhou para os dois — o homem que ela amava com uma devoção silenciosa e a mulher loira e exuberante que se tornara sua maior aliada e amiga. Sem dizer mais nada, ela entregou Maya para Emanuel. O tatuador segurou a menina com uma facilidade impressionante, aninhando o corpo pequeno contra seu peito tatuado.

Sara passou o braço pela cintura de Eduarda, guiando-a para fora do quarto.

— Vamos, boneca de porcelana. Vou te dar um dos meus chás importados e você vai descansar meia hora. O Manu não vai tirar o olho dela. Você sabe que ele é pior que cão de guarda.

Quando as duas saíram, Emanuel ficou sozinho com Maya. Ele caminhou até a janela, observando a chuva. A bebê soltou um gemido baixinho e se acomodou melhor em seu braço. Emanuel sentiu uma onda de fúria passar por ele — fúria contra a prima de Eduarda que abandonara aquela criança, fúria contra qualquer coisa que pudesse ameaçar a paz daquele lar incomum que eles haviam construído.

Ele era um homem prático. Resolvia problemas com dinheiro, influência ou força. Mas ali, segurando a vida frágil de Maya, ele entendia que sua maior missão era manter o equilíbrio entre aquelas duas mulheres. Sara, com seu silicone, sua vulgaridade consciente e sua inteligência administrativa, era o pilar que mantinha a estrutura em pé. Eduarda, com sua história da arte, seu ballet e sua sensibilidade à flor da pele, era a alma que dava cor àquela estrutura.

Algum tempo depois, Maya finalmente dormiu um sono tranquilo, a febre cedendo sob o efeito do remédio. Emanuel a colocou no berço e ficou ali, observando-a. A porta se abriu silenciosamente e Sara entrou, trazendo um copo de uísque para ele.

— A Duda apagou — sussurrou Sara, entregando o copo. — Dei um calmante leve para ela. Ela estava no limite.

Emanuel deu um gole longo no uísque, sentindo o líquido queimar a garganta.

— Obrigado por cuidar dela, Sara.

— Eu cuido do que é nosso, Manu — ela disse, aproximando-se e abraçando-o pela cintura, encostando a cabeça em suas costas. — Eu te disse em Paranapiacaba, não disse? Que ela era o que faltava. Olhe para nós agora. Duas filhas, duas mulheres e um homem que acha que manda em tudo, mas que é escravo dessas quatro paredes.

Emanuel sorriu, virando-se para abraçá-la.

— Eu não sou escravo de nada, Sara. Eu sou o dono disso tudo.

— É o que você gosta de pensar, meu amor — ela riu baixinho, beijando o peito dele. — Mas a verdade é que, se a Duda chora, você perde o chão. E se eu me irritar, você perde o rumo.

— Talvez — admitiu ele, puxando-a para mais perto. — Mas enquanto vocês estiverem sob o meu teto, ninguém encosta um dedo em nenhuma de vocês.

— Eu sei. Por isso eu te incentivo tanto com ela. A Duda precisa dessa sua obsessão, Manu. Ela precisa de alguém que segure o mundo para ela não cair. E eu... bem, eu gosto de ver você se desdobrando para nos fazer felizes. É um espetáculo e tanto.

Emanuel a beijou com paixão, um beijo que carregava a gratidão pela compreensão dela e o desejo que nunca esfriava.

— Vá deitar, Sara. Eu vou ficar aqui mais um pouco. Quero ter certeza de que a febre não vai voltar.

— Não demore. Ágata vai acordar cedo para mamar e eu quero você do meu lado.

Sara saiu com um rebolado suave, deixando o quarto impregnado com seu perfume doce e marcante. Emanuel voltou sua atenção para Maya, mas sua mente viajou para o quarto ao lado, onde Eduarda dormia. Ele sentia uma necessidade quase física de ir até lá, de cobri-la, de verificar se ela estava respirando bem.

Ele esperou mais uma hora. Quando teve certeza de que Maya estava estável, ele saiu do quarto e caminhou até a suíte de hóspedes que agora era permanentemente de Eduarda. O quarto era decorado com tons pastéis, sapatilhas de ballet penduradas em um canto e quadros de exposições que ela frequentava.

Eduarda estava mergulhada em um sono profundo, o rosto sereno agora que a tempestade passara. Emanuel sentou-se na beira da cama, observando-a. Ele estendeu a mão e tocou levemente o cabelo dela, um gesto de uma ternura que ele raramente mostrava ao mundo.

— Você é minha, Duda — sussurrou ele, a voz rouca. — Você, a Maya, a Sara e a Ágata. Eu construí esse império para vocês. E eu vou quebrar qualquer um que tente tirar essa paz de vocês.

Eduarda se mexeu no sono, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios, como se, mesmo inconsciente, ela sentisse a presença protetora dele. Ela buscou a mão de Emanuel e a apertou contra o rosto, soltando um suspiro satisfeito.

Emanuel ficou ali por um longo tempo, preso naquela pequena demonstração de afeto. Ele era um homem de fúria e controle, um tatuador que marcava a pele das pessoas com agulhas e tinta, mas ali, naquele quarto silencioso, ele era apenas um homem rendido pela doçura de uma bailarina e pela força de uma loira que o conhecia melhor do que ele mesmo.

A febre de Maya passara, mas a febre que Emanuel sentia por aquelas duas mulheres só aumentava. Ele sabia que o mundo lá fora jamais entenderia a dinâmica deles. O grupo de amigos ainda olhava com curiosidade, os pais de Eduarda, modernos e distantes, não faziam ideia da profundidade daquele arranjo. Mas para Emanuel, nada disso importava.

Ele se levantou, deu um beijo na testa de Eduarda e saiu do quarto. Ao passar pelo corredor, ele viu o berço de Ágata através da porta entreaberta do quarto principal e Maya dormindo em seu próprio quartinho. Ele sentiu uma satisfação absoluta.

Ele era o mestre daquela casa, o protetor daquelas vidas. E enquanto ele respirasse, a neblina de incertezas que cercava Eduarda e o fogo impulsivo de Sara encontrariam nele o equilíbrio perfeito. A jornada deles estava apenas começando, e se a doença de Maya fora um teste, Emanuel provara que era o escudo inquebrável que elas precisavam.

Ele entrou em seu quarto, onde Sara já o esperava, e fechou a porta. O mundo lá fora podia continuar frio e chuvoso, mas dentro daquelas paredes, o calor de um amor complexo e absoluto queimava com uma intensidade que nada seria capaz de apagar.