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Entre o Abrigo e a Tempestade

A semana que se seguiu ao anúncio na fazenda foi um borrão de náuseas matinais e um silêncio ensurdecedor no apartamento de Eduarda. Embora Emanuel tivesse deixado claro que cuidaria dela, a timidez inerente da bailarina a impedia de realmente estender a mão e pedir ajuda. Ela se sentia uma intrusa em uma história que já estava escrita. Emanuel e Sara eram um casal consolidado, poderosos, magnéticos. O que restava para ela? Ser um projeto de caridade?

Eduarda estava na barra da sala de ballet, tentando demonstrar um *plié* para suas alunas, quando a primeira pontada aguda a atingiu. Não foi uma dor comum. Foi um puxão violento, um aviso frio que subiu por sua espinha e a fez perder o fôlego. Ela se apoiou na madeira fria, o rosto empalidecendo instantaneamente.

— Professora Duda? Você está bem? — perguntou uma das pequenas alunas, os olhos arregalados de preocupação.

— Sim, meu bem... — Eduarda sussurrou, a voz trêmula. — Só... continuem o exercício. Eu já volto.

Ela se arrastou até o vestiário. No banheiro, o pavor se materializou em uma pequena mancha vermelha. O pânico a paralisou. Sozinha, sem querer incomodar os pais — que estavam em uma vernissage naquela noite — e com medo de ligar para Emanuel e parecer "manhosa" demais, ela chamou um aplicativo de transporte e foi para o hospital mais próximo.

As horas no pronto-socorro foram uma tortura. O cheiro de antisséptico, o barulho das macas e a solidão de uma sala de espera fria a faziam sentir-se minúscula. Quando o médico finalmente a chamou e informou que era um descolamento ovular leve, causado por estresse e fadiga, e que ela precisaria de repouso absoluto, Eduarda desabou em choro. Um choro silencioso, de quem não tinha um ombro para se apoiar.

Ela não sabia, entretanto, que Emanuel tinha olhos e ouvidos em todos os lugares. Ou, mais especificamente, que ele tinha o hábito de rastrear o celular dela "por segurança".

Emanuel estava no seu estúdio principal, terminando de tatuar as costas de um cliente, quando a notificação de que o celular de Eduarda estava em um hospital há mais de três horas brilhou na tela de seu tablet. Ele sentiu o sangue ferver. A racionalidade que ele tanto prezava foi substituída por uma fúria protetora que ele mal conseguia conter.

— Acabamos por hoje — disse ele ao cliente, a voz gélida, enquanto já limpava as agulhas.

— Mas falta o sombreamento, Manu...

— Outro dia. Minha assistente remarca. Saia.

Dez minutos depois, Emanuel estava em seu carro, dirigindo como um louco pelas ruas de São Paulo. Ele ligou para Sara no viva-voz.

— A Eduarda está no hospital. Sozinha.

— O quê? — A voz de Sara, geralmente carregada de deboche, ficou séria instantaneamente. — Como assim sozinha, Emanuel? Por que aquela menina não ligou para a gente?

— Porque ela é teimosa e acha que é um estorvo — rosnou Emanuel, apertando o volante. — Eu estou chegando lá.

— Me encontra lá. Vou pegar umas coisas na loja e vou direto. Manu, se acontecer algo com ela ou com aquele bebê, eu juro que mato o infeliz que a abandonou primeiro, e depois dou uma surra nela por ser tão boba.

Emanuel desligou. Ao entrar no hospital, sua presença era impossível de ignorar. Alto, com a mandíbula travada e a aura de quem poderia comprar o prédio inteiro se fosse contrariado, ele atravessou a recepção.

— Eduarda Cavalcante. Onde ela está? — perguntou ele à secretária, com um tom que não admitia atrasos.

Quando ele finalmente entrou no quarto da observação, encontrou Eduarda deitada, com os olhos vermelhos e inchados, segurando um copo de água com as mãos trêmulas. A visão dela naquela cama, tão frágil e desamparada, quebrou algo dentro do peito de Emanuel.

— Você ficou louca? — A voz dele ecoou no quarto pequeno.

Eduarda deu um pulo, quase derrubando a água.

— Manu? Como você...

— Como eu soube? Eu sempre sei, Eduarda! — Ele caminhou até a beira da cama, a respiração pesada. — Você quase perde o bebê, vem para um hospital público de madrugada e não me liga? Você tem noção do que poderia ter acontecido?

— Eu não queria incomodar... — ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Você tem a Sara, tem o seu filho, tem seus estúdios... Eu sou só uma amiga, Manu. Eu não queria ser um peso.

Emanuel segurou os pulsos dela, afastando as mãos do rosto dela com uma força que era, ao mesmo tempo, possessiva e cuidadosa. Ele se inclinou, forçando-a a olhar em seus olhos.

— Escuta bem o que eu vou te dizer, porque não vou repetir. Você não é "só uma amiga". Você é minha. Eu decidi isso na fazenda e eu não volto atrás nas minhas decisões. Se você está carregando um filho e o pai sumiu, esse filho é problema meu agora. Você é problema meu.

— Manu, você está sendo agressivo... — ela sussurrou, embora o calor das mãos dele a fizesse se sentir segura pela primeira vez em horas.

— Eu estou sendo prático! — ele rebateu, tentando controlar o tom de voz. — Você não tem condições de ficar sozinha. Seus pais são ótimos, mas vivem viajando ou em eventos. Você precisa de vigilância.

Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo. Sara entrou, usando um casaco de pele sintética sobre um vestido de seda, exalando um perfume que cortou o cheiro de hospital. Ela ignorou as regras de silêncio e foi direto para o outro lado da cama.

— Minha nossa, olha o estado dessa criança! — Sara exclamou, tocando a testa de Eduarda. — Você está branca como um papel, Duda! O que o médico disse?

— Descolamento... repouso absoluto — respondeu Eduarda, sentindo-se sobrecarregada pela presença do casal.

Sara olhou para Emanuel. Uma troca de olhares rápida, mas cheia de significado. Eles se conheciam há anos; Sara sabia exatamente o que passava na cabeça de Emanuel. Ela sabia que o desejo dele por Eduarda não era apenas carnal, era uma necessidade de posse e cuidado que ele não conseguia explicar. E ela, em sua confiança inabalável, não se importava. Ela gostava de Eduarda. Gostava da doçura que equilibrava sua própria acidez.

— Bom — disse Sara, cruzando os braços, fazendo o silicone se destacar sob o decote —, o veredito é simples. Você vai para casa com a gente.

Eduarda arregalou os olhos.

— O quê? Não! Eu não posso...

— Pode e vai — Emanuel interrompeu, o tom finalizador de quem decide o destino de uma nação. — Eu tenho uma suíte de hóspedes que é maior que o seu apartamento. Tem empregados, tem comida na hora certa, e eu vou estar lá para garantir que você não saia da cama nem para pegar um controle remoto.

— Mas e os meus pais? E a faculdade? — Eduarda tentou protestar.

— Eu falo com seus pais. Eles me respeitam, vão entender que você está em boas mãos. E a faculdade... você tranca ou faz online. Eu não quero você subindo escadas ou fazendo piruetas até que esse bebê esteja seguro — Emanuel disse, já pegando o celular para organizar a transferência para um hospital particular de elite.

— Manu, isso é loucura — Eduarda murmurou, embora seu coração estivesse acelerado. — O que as pessoas vão dizer? Você mora com a Sara. Ela está grávida de você. E eu vou estar lá... grávida de outro?

Sara soltou uma risada sonora, sentando-se na beira da cama e pegando a mão de Eduarda.

— Duda, meu amor, olhe para mim. Você acha que eu ligo para o que as pessoas dizem? Eu sou loira, siliconada e falo palavrão em jantar de gala. O Emanuel é um tatuador que ganha milhões desenhando na pele dos outros. Nós somos o caos. Você é a única coisa organizada que vai entrar naquela casa.

— Mas Sara... você não tem ciúmes? — A pergunta de Eduarda saiu quase como um sopro.

Sara sorriu, um sorriso que não era de deboche, mas de uma compreensão profunda.

— O Manu tem um coração enorme, embora ele tente esconder atrás dessa cara de bravo. Ele quer você. E ele me quer. Se ele tiver as duas, ele fica calmo. Se ele ficar calmo, eu fico feliz. Além disso... — ela piscou — ... vai ser divertido ter alguém para dividir as reclamações sobre o quanto ele é mandão.

Emanuel observava as duas. A imagem era perfeita. A exuberância de Sara e a delicadeza de Eduarda. O fogo e a água. E ele, o centro de gravidade que manteria tudo em órbita.

— Vou assinar a papelada da alta — disse Emanuel, sua voz agora mais suave, mas ainda firme. — Sara, ajude ela a se vestir. O carro da clínica particular chega em dez minutos. Amanhã cedo, faremos a mudança definitiva.

— Emanuel, eu não concordei com isso! — Eduarda tentou uma última resistência.

Ele se aproximou dela, ignorando a presença de Sara, e inclinou-se até que seus lábios estivessem a centímetros do ouvido de Eduarda.

— Você não precisa concordar, pequena. Você só precisa descansar. Eu cuido do resto. Eu sempre cuido de tudo.

Ele deixou um beijo casto, mas carregado de promessa, na têmpora dela antes de sair do quarto.

No caminho para a cobertura de Emanuel, o silêncio no carro era preenchido apenas pela música suave no rádio. Eduarda estava no banco de trás, com a cabeça encostada no ombro de Sara, que mexia no celular escolhendo decorações para o "quarto das grávidas", como ela já estava chamando.

Ao chegarem na luxuosa cobertura nos Jardins, Emanuel pegou Eduarda no colo. Ela era tão leve que ele sentiu uma pontada de irritação por não ter agido antes.

— Eu posso andar, Manu... — ela protestou, corando violentamente.

— Repouso absoluto significa pés fora do chão — ele retrucou, subindo o elevador privativo.

Ele a levou direto para a suíte que havia sido preparada em tempo recorde por sua governanta, após um telefonema ríspido. O quarto era em tons de creme e azul pálido, com janelas imensas que mostravam as luzes de São Paulo.

— Este é o seu lugar agora — disse ele, colocando-a cuidadosamente sobre os lençóis de algodão egípcio.

Sara entrou logo atrás, jogando a bolsa em uma poltrona.

— Vou pedir para prepararem uma sopa. E depois, vamos dormir. Amanhã o circo começa, porque eu pretendo levar você para fazer compras de enxoval assim que o médico liberar as caminhadas curtas.

Eduarda olhou para os dois. Emanuel parado ao pé da cama, com os braços cruzados, observando-a como um tesouro que ele finalmente tinha trancado em seu cofre. Sara, ao seu lado, já planejando o futuro com uma animação contagiante.

— Por que vocês estão fazendo isso por mim? — Eduarda perguntou, as lágrimas ameaçando voltar.

Emanuel deu um passo à frente e sentou-se na borda da cama. Ele pegou a mão dela e, em seguida, estendeu a outra para Sara, que prontamente a segurou.

— Porque o mundo é um lugar cruel para pessoas como você, Eduarda — disse ele, a voz profunda. — E eu decidi que, no meu mundo, você estará segura. Eu amo a Sara com cada fibra do meu ser. E eu descobri que tenho espaço suficiente para amar você também, do meu jeito.

— E eu — completou Sara, com um brilho malicioso nos olhos — gosto de ter o que eu quero. E eu quero que a nossa família seja assim. Diferente, intensa e nossa.

Eduarda fechou os olhos, sentindo o peso da exaustão e, pela primeira vez, uma estranha sensação de pertencimento. Ela ainda estava com medo, ainda se sentia insegura sobre o bebê e sobre o futuro, mas quando Emanuel puxou o cobertor sobre ela e Sara apagou a luz principal, deixando apenas o abajur suave aceso, ela soube que não havia mais volta.

Ela estava no centro do furacão chamado Emanuel. E, estranhamente, era o lugar mais seguro onde já estivera.

Emanuel ficou no quarto até que a respiração de Eduarda se tornasse lenta e pesada, sinal de que ela havia adormecido. Sara já tinha ido para o quarto principal, esperando por ele. Ele se levantou, caminhou até a janela e olhou para a cidade.

Ele tinha duas mulheres grávidas sob seu teto. Uma que ele amava com a paixão de um homem que encontrou sua igual em força e fogo. Outra que ele desejava proteger com a obsessão de quem encontrou algo precioso e frágil.

— Eu vou ter tudo — sussurrou ele para a escuridão.

Ele sabia que o grupo de amigos falaria. Sabia que os pais de Eduarda poderiam criar problemas. Sabia que a dinâmica entre Sara e Eduarda seria um desafio constante para seu controle. Mas Emanuel nunca recuava. Ele era o mestre das agulhas, o homem que transformava dor em arte. E ele transformaria aquele caos em sua própria versão de perfeição.

Ao entrar em seu quarto, Sara o esperava na cama, lendo uma revista de moda. Ela olhou para ele e sorriu.

— Ela dormiu?

— Sim. Está exausta.

— Você é um homem ambicioso, Emanuel — disse ela, fechando a revista. — Ter duas grávidas em casa... você vai ficar louco em seis meses.

Ele se aproximou, tirando a camisa e revelando as tatuagens que contavam a história de sua ascensão.

— Eu já sou louco, Sara. Você sabe disso.

— Eu sei — ela riu, puxando-o pelo pescoço. — E é por isso que eu te amo. Só vê se não esquece quem manda nesta casa quando as luzes se apagam.

Emanuel a beijou com a intensidade de sempre, mas sua mente, por um breve segundo, voltou para o quarto ao lado, onde a bailarina de pele doce descansava. O quebra-cabeça estava completo. Pela primeira vez, Emanuel sentiu que o controle era absoluto.

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