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Entre o Ventre e o Vale

O sol da manhã na fazenda da família de Emanuel não era apenas luz; era um abraço quente que cheirava a terra úmida, café fresco e liberdade. Cinco meses haviam se passado desde a noite em que o destino de três vidas se entrelaçou de forma definitiva. Cinco meses em que a cobertura nos Jardins deixou de ser um santuário de design minimalista para se tornar um território de cuidados, vitaminas pré-natais e uma convivência que desafiava qualquer lógica social.

Emanuel, agora mais do que nunca, parecia um general vigiando suas fronteiras. Ele estava parado na varanda da casa principal da fazenda, observando a paisagem com os braços cruzados. Seus olhos, no entanto, não estavam na beleza das montanhas, mas sim nas duas figuras que caminhavam lentamente pelo jardim.

Sara, com sua barriga de cinco meses já bem proeminente e orgulhosamente exibida sob um vestido de tricô justo e decotado, caminhava com a confiança de uma rainha. Ela não havia perdido um grama de sua vulgaridade magnética; o silicone agora era acompanhado por curvas de maternidade que a deixavam ainda mais exuberante. Ela esperava Ágata, a herdeira direta do império de Emanuel, e fazia questão que o mundo soubesse disso.

Ao lado dela, Eduarda era o oposto. A barriga de Maya, embora do mesmo tempo, parecia mais discreta sob o vestido floral solto e romântico. Eduarda havia florescido. A palidez doente daquela noite no hospital dera lugar a um brilho suave, e a timidez, embora ainda presente, fora acolhida pela proteção feroz de Emanuel e pela amizade ruidosa de Sara.

— Você vai fazer um buraco no chão se continuar andando de um lado para o outro — disse Dona Helena, a mãe de Emanuel, aproximando-se com uma bandeja de suco. — Elas estão bem, meu filho. Deixe as meninas respirarem.

Emanuel soltou um suspiro pesado, sem descruzar os braços.

— O ar da fazenda é bom, mas o terreno é irregular, mãe. A Eduarda ainda tem episódios de pressão baixa e a Sara... bom, a Sara acha que é invencível.

— E você acha que é o dono do mundo — Helena sorriu, entregando um copo ao filho. — Eu admito que, no começo, quando você chegou com as duas... eu e seu pai ficamos em choque. Mas ver como você cuida delas, e como elas se apoiam... Emanuel, você criou algo muito peculiar, mas é visível que há amor aí.

— Eu não poderia viver de outra forma — confessou Emanuel, a voz rouca. — Eu tentei escolher, mas é impossível. A Sara é meu sangue, minha força. A Eduarda é minha paz, minha alma. E agora, com as meninas a caminho... eu sinto que se uma delas tropeçar, eu caio junto.

Dona Helena observou as noras — pois era assim que ela as tratava, independentemente de convenções legais.

— Pois saiba que hoje eu vou tirar as duas da sua vista por umas horas. Vou levá-las para uma caminhada leve até a casa da Vó Benta.

Emanuel quase engasgou com o suco. O rosto dele ficou vermelho em segundos.

— A parteira? Mãe, a casa dela fica no fim da trilha do riacho. São quase dois quilômetros de mata! Você enlouqueceu? A Sara está de salto, mesmo grávida, e a Eduarda é... é a Eduarda!

— A Sara já trocou o salto por botas de trilha que eu emprestei, e a Eduarda precisa fortalecer essas pernas de bailarina — Helena disse com autoridade. — Vó Benta quer abençoar os ventres e preparar um chá de ervas que ajuda na elasticidade. É tradição da família. Você não vai impedir.

— Eu vou junto — decretou Emanuel, já se movimentando.

— Não, você não vai — Helena o barrou com a mão no peito. — É um momento de mulheres. Vá cavalgar com seu pai e suas tias. Deixe-nos em paz.

Emanuel viu as três mulheres se afastarem em direção à trilha. Ele sentiu uma pontada de pânico, uma perda de controle que o fazia querer gritar. Ele queria estar lá para segurar a mão de Eduarda se ela sentisse tontura; queria estar lá para repreender Sara se ela decidisse pular um tronco caído. Mas o olhar de sua mãe era final.

***

A trilha era ladeada por árvores centenárias e o som do riacho correndo ao longe. O ar era puro, e o esforço leve fazia o sangue circular.

— Manu deve estar tendo uma síncope agora — comentou Sara, rindo enquanto usava um cajado improvisado para se equilibrar. — Ele provavelmente está monitorando nossos batimentos cardíacos por satélite neste exato momento.

Eduarda soltou uma risadinha doce, segurando a barra do vestido para não tropeçar em uma raiz.

— Ele é muito protetor, Sara. Às vezes eu me sinto uma boneca de porcelana. Mas... é bom saber que alguém se importa tanto.

— Ele se importa porque é um maníaco por controle, Duda — Sara piscou para ela. — Mas ele ama a gente. Do jeito torto e possessivo dele, ele ama. E olhe para você, está muito melhor do que aquela menina assustada que o "arquiteto de araque" abandonou.

Eduarda parou por um momento, tocando a barriga onde Maya se mexia.

— Eu ainda tenho medo, às vezes. De como vai ser quando elas nascerem. Duas bebês na mesma casa, com pais que não seguem o padrão...

Helena, que ia à frente, parou e se voltou para as duas.

— Padrões são para pessoas que não têm coragem de criar a própria felicidade, Eduarda. Meu filho é um homem difícil, mas ele é leal. E vocês duas encontraram uma na outra uma rede de apoio que a maioria das mulheres não tem. Ágata e Maya serão irmãs de alma.

— E eu vou ensinar a Maya a ser menos tímida — provocou Sara, dando um tapinha carinhoso no ombro de Eduarda. — E você ensina a Ágata a ter um pouco dessa sua classe de bailarina, porque se ela puxar a mim, vai nascer querendo mandar em tudo e em todos.

Elas continuaram a caminhada até que uma pequena cabana de madeira, coberta por trepadeiras de flores roxas, surgiu no horizonte. Era a casa de Vó Benta, uma mulher cuja idade ninguém sabia ao certo, mas cujas mãos haviam trazido ao mundo quase todos os nascidos naquela região.

A recepção foi calorosa. Vó Benta, com sua pele curtida pelo sol e olhos que pareciam ler pensamentos, fez com que as duas se sentassem em bancos de madeira na varanda. Ela trouxe uma bacia com água morna e ervas aromáticas.

— Duas vidas, um só destino — murmurou a velha, passando as mãos molhadas sobre a barriga de Sara e depois sobre a de Eduarda. — Uma traz o fogo, a outra traz a água. Mas as duas precisam de terra firme para crescer.

Eduarda sentiu um arrepio percorrer seu corpo. O toque da parteira era elétrico, mas calmante.

— Elas vão ficar bem, Vó? — perguntou Eduarda, a voz pequena.

— Vão ser fortes como as pedras deste rio — disse a velha. — Mas escutem: o homem que as guarda está sofrendo de amor e medo. Não o deixem endurecer demais. O coração dele é o alicerce de vocês, mas o alicerce também precisa de fôlego.

***

Enquanto isso, na sede da fazenda, Emanuel não conseguia se concentrar em nada. Ele tentou ver os cavalos com o pai, mas sua mente estava na trilha. Ele olhava para o relógio a cada cinco minutos.

— Emanuel, sente-se — ordenou o pai, um homem de poucas palavras, mas de presença marcante. — Suas tias estão preparando o almoço. Elas conhecem o caminho.

— Elas estão grávidas, pai! Cinco meses! É a fase em que tudo pode mudar — Emanuel andava de um lado para o outro na sala de estar. — E se uma cobra aparecer? E se a Sara decidir que pode correr na descida?

— Você está projetando sua ansiedade nelas — disse o pai. — Você sempre foi assim. Quando começou a tatuar, ficava noites sem dormir revisando os desenhos. Agora, você está tentando "desenhar" a vida delas para que não haja erro. Mas a vida não é uma tatuagem, meu filho. Ela desbota, ela muda, ela dói de formas que você não pode controlar.

Emanuel parou, olhando para as próprias mãos marcadas pela tinta.

— Eu só não quero que elas sofram. A Eduarda já passou por muito com aquele canalha. E a Sara... a Sara é minha vida desde que éramos adolescentes. Se algo acontecer com elas, eu não saberei quem sou.

— Você saberá — disse o pai. — Mas por enquanto, confie na força delas. Elas são mais resistentes do que você pensa.

Finalmente, após o que pareceram décadas para Emanuel, as vozes femininas surgiram no início da alameda de árvores. Ele não esperou. Correu em direção a elas, o coração batendo na garganta.

Ele viu as três caminhando calmamente. Sara vinha rindo de algo que Helena dizia, e Eduarda trazia um pequeno buquê de flores silvestres nas mãos.

— Graças a Deus! — Emanuel exclamou, chegando perto delas e, sem cerimônia, pegando Eduarda pela cintura para verificar seu equilíbrio e depois puxando Sara para um beijo rápido e possessivo. — Vocês estão loucas? Três horas na mata!

— Ah, lá vem o Capitão Gancho — Sara revirou os olhos, mas se aninhou no braço dele. — Relaxa, Manu. A Vó Benta disse que estamos ótimas. E a Ágata deu um chute tão forte quando a velha cantou que eu acho que ela vai ser jogadora de futebol.

Emanuel ignorou a brincadeira de Sara e voltou sua atenção para Eduarda. Ele notou que ela estava um pouco corada e com algumas mechas de cabelo castanho soltas do coque.

— E você, pequena? Está sentindo alguma dor? Alguma tontura? — Ele tocou o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com sua postura rígida.

— Eu estou bem, Manu. De verdade — Eduarda sorriu, e havia uma serenidade nova em seu olhar. — A trilha foi linda. A Maya gostou do som da água. Ela ficou quietinha, só ouvindo.

Emanuel suspirou, a tensão finalmente deixando seus ombros. Ele envolveu as duas, uma em cada braço, e começou a guiá-las de volta para a casa.

— Nunca mais — ele murmurou. — Da próxima vez, eu levo vocês de quadriciclo ou construo uma estrada.

— Você é impossível — riu Helena, seguindo-os de perto.

O almoço na fazenda foi uma celebração barulhenta. As tias de Emanuel não paravam de servir comida, comentando sobre como as barrigas estavam bonitas. O grupo de amigos, que também estava hospedado na propriedade, juntou-se a eles na grande mesa de madeira sob o alpendre.

— Então, é oficial? — perguntou um dos amigos, levantando uma taça de vinho. — Ágata e Maya?

— Oficial — respondeu Emanuel, sentado entre as duas mulheres. — E pobre do homem que tentar chegar perto delas no futuro.

— Coitadas das meninas — brincou Sara, servindo-se de mais salada. — Com um pai que tem estúdios no mundo todo e manda em metade da cidade, elas vão precisar de terapia antes dos dez anos.

— Elas vão ter tudo — corrigiu Emanuel, sua voz assumindo aquele tom de autoridade rica e inabalável. — Educação, segurança e amor. E ninguém vai ousar questionar a família delas.

Eduarda olhou para Sara por cima do prato. Havia uma cumplicidade silenciosa ali. Elas sabiam que a vida que levavam era um escândalo para muitos, mas naquele momento, cercadas pela família de Emanuel, sentiam-se protegidas.

Mais tarde, quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de laranja e violeta, Emanuel levou as duas para um banco isolado perto do lago. O silêncio da fazenda era quebrado apenas pelo coaxar dos sapos e pelo vento nas árvores.

Ele se sentou no meio, com Sara encostada em seu ombro esquerdo e Eduarda no direito.

— Eu contei para o meu pai hoje — disse Emanuel, a voz baixa — que eu não sei quem eu seria sem vocês.

Sara, que raramente ficava séria, acariciou a mão dele que estava sobre sua barriga.

— Você seria apenas um tatuador rico e mal-humorado, Manu. A gente dá cor para o seu mundo cinza.

Eduarda inclinou a cabeça, sentindo o cheiro de Emanuel — uma mistura de tabaco caro, tinta de tatuagem e o sabonete de sândalo que ele usava.

— Você nos salvou, Manu. De formas diferentes, mas salvou.

— Eu só cuidei do que é meu — ele respondeu, fechando os olhos e aproveitando o peso das duas contra ele.

Naquele momento, na quietude da fazenda, Emanuel sentiu que, apesar de todo o seu medo de perder o controle, ele havia alcançado o equilíbrio perfeito. Ele tinha a força e a doçura, o fogo e a paz. E enquanto Ágata e Maya cresciam dentro daquelas duas mulheres tão distintas, ele sabia que sua maior obra de arte não estava gravada na pele de ninguém, mas sim na vida complexa e profunda que eles haviam construído juntos.

A gravidez de cinco meses era apenas o começo. O mundo lá fora ainda teria muito a dizer, as críticas viriam, e os desafios de criar duas crianças em uma dinâmica de poliamor não convencional seriam imensos. Mas, olhando para o reflexo da lua que começava a aparecer no lago, Emanuel soube que, enquanto ele fosse o muro, nada derrubaria seu castelo.

— Vamos entrar — disse ele, levantando-se e oferecendo as mãos para ambas. — O sereno está caindo, e eu não quero ninguém resfriada.

— Sim, senhor, general — zombou Sara, mas aceitou a mão dele com um sorriso apaixonado.

Eduarda apenas sorriu, segurando a mão de Emanuel com força, sentindo que, independentemente do que o futuro reservasse, ela nunca mais caminharia sozinha.

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