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O Banquete Proibido e o Caos de Halloween
O espelho da suíte principal refletia uma imagem que, para qualquer desconhecido, pareceria o pôster de um filme de vanguarda. Emanuel terminava de ajustar os suspensórios de seu traje de couro preto, uma versão estilizada e sombria de um caçador vitoriano que acentuava sua postura imponente. Ao seu lado, Sara terminava de aplicar um batom roxo metálico, perfeitamente coordenada em sua fantasia de Rainha de Copas — versão "sexy e sem paciência", como ela mesma definira. O espartilho apertado realçava o silicone e as curvas que ela exibia com o orgulho de quem sabia que parava qualquer ambiente.
— Manu, para de conferir a bolsa térmica — Sara disse, revirando os olhos ao ver o marido checar pela terceira vez os potinhos de purê de frutas orgânicas e o suco sem açúcar. — É uma festa de Halloween na casa da minha mãe, não uma expedição ao deserto do Saara.
— Sua mãe é a rainha do excesso, Sara. Você sabe que a Dona Margarida vai entupir aquela casa de açúcar e conservantes — Emanuel rebateu, a voz grave e carregada de sua habitual cautela. — A Maya não pode sair da dieta. O cardiologista foi claro: o sódio e o açúcar refinado podem causar picos de pressão e sobrecarregar o sistema dela. Ela está estável há meses, não vou arriscar isso por causa de uma festa temática.
A porta se abriu e Eduarda entrou, trazendo as duas meninas. Eduarda estava deslumbrante em uma fantasia de fada da floresta, com asas de tule e um vestido de seda verde claro que combinava com sua aura delicada. Ágata, vestida de pequena diabinha com chifres de glitter, já tentava arrancar o rabo da própria fantasia. Maya, por sua vez, era uma pequena anjinha, com auréola de penas brancas e um olhar que emanava uma inocência quase perigosa.
— Estamos prontas — anunciou Eduarda, com um sorriso tímido. — A Maya está um pouco agitada, acho que ela sentiu a animação da Ágata.
Emanuel caminhou até Eduarda e beijou sua testa, antes de pegar Maya no colo. A menina imediatamente aninhou a cabeça no pescoço do pai.
— Você vai ficar o tempo todo perto de mim ou da Duda, ouviu bem, mocinha? — Emanuel murmurou para a filha, que apenas soltou um som agudo de satisfação.
***
A mansão da mãe de Sara estava transformada. Teias de aranha de seda, abóboras gigantes que serviam ponche e uma iluminação roxa e laranja criavam um clima de mistério luxuoso. O grupo de amigos já estava lá, todos fantasiados, e a música ecoava pelo jardim imenso.
— Emanuel! Sara! Duda! — Margarida, a sogra de Emanuel, veio ao encontro deles vestida de Malévola. — Vejam só essas crianças! Estão divinas! Venham, deixem as meninas brincarem na área kids que eu preparei.
Emanuel olhou para a "área kids" como se fosse um campo minado. Havia castelos infláveis, monitores fantasiados e, o que mais o preocupava: mesas baixas repletas de guloseimas.
— Margarida, lembre-se da dieta da Maya — Emanuel disse, num tom de aviso que faria qualquer subordinado tremer. — Nada de doces para ela. Ela tem as frutas dela na bolsa.
— Ah, Emanuel, deixe de ser tão rígido! É apenas uma noite — Margarida abanou a mão, ignorando a expressão sombria do genro.
— Não é rigidez, é saúde — ele retrucou, mas foi puxado por um grupo de amigos que queria discutir sobre a nova unidade do estúdio em Londres.
Por cerca de uma hora, o esquema de vigilância funcionou. Sara circulava como a anfitriã informal, atraindo olhares e risadas; Eduarda mantinha um olho em Ágata, que tentava morder a perna de um garçom, e Emanuel não tirava os olhos de Maya, que brincava calmamente com umas peças de montar de borracha.
No entanto, o destino — ou talvez o espírito travesso do Halloween — resolveu intervir. Um dos amigos de Emanuel, já um pouco alterado pelo ponche, tropeçou em um fio de iluminação, causando um curto-circuito que apagou metade das luzes do jardim e iniciou um pequeno princípio de incêndio em uma decoração de palha.
— O que foi isso? — gritou Sara.
— Emanuel, ajude ali! — Eduarda apontou para o fogo que começava a subir.
O instinto de proteção de Emanuel se dividiu. Ele viu a fumaça e a confusão.
— Duda, pegue as meninas! — ele ordenou, correndo para ajudar a apagar as chamas com um extintor que pegou na parede lateral.
Na confusão de cinco minutos, enquanto todos corriam para ver o que acontecia ou para ajudar, a vigilância falhou. Eduarda, carregando Ágata que chorava pelo susto, não percebeu que Maya, com a agilidade silenciosa de uma pequena anjinha, havia se esgueirado por baixo de uma toalha de mesa longa.
Maya tinha um objetivo. Ela vira, antes das luzes piscarem, um balde de abóbora laranja neon, posicionado estrategicamente em uma mesinha de canto, longe da vista principal dos adultos. O balde estava transbordando com gomas de mascar em formato de minhocas e ursinhos, cobertas por aquele açúcar ácido que brilha no escuro.
Escondida atrás de uma cortina de veludo que decorava a entrada da biblioteca, Maya sentou-se no chão. Seus olhos castanhos brilhavam com a descoberta. Com as mãos pequenas, ela mergulhou no balde. A primeira minhoca azul e vermelha foi para a boca. O sabor azedo fez seu rostinho se contrair, mas logo veio o doce, e uma explosão de dopamina infantil atingiu seu cérebro.
Ela encheu as duas mãos. Mastigava com urgência, as bochechas infladas como as de um esquilo. O açúcar azedo deixava sua língua azul, mas ela não se importava. Era o paraíso proibido.
Enquanto isso, Emanuel, com o rosto levemente sujo de fuligem, mas com o incêndio controlado, voltou para o centro do jardim.
— Cadê a Maya? — ele perguntou, a voz já subindo uma oitava.
Eduarda, pálida, olhou para os próprios braços onde apenas Ágata estava.
— Ela estava aqui, Manu... eu juro, eu segurei a mão dela, mas a Ágata começou a berrar e...
— Emanuel, ela não pode ter ido longe — Sara disse, tentando manter a calma, embora já estivesse olhando ao redor com agitação.
Emanuel não esperou. Ele começou a varrer o local com o olhar. Ele conhecia sua filha. Sabia que Maya não era de fugir para o meio da multidão; ela buscaria um refúgio. Ele viu a cortina de veludo ligeiramente deslocada perto da biblioteca.
— Maya? — ele chamou, a voz tremendo de uma mistura de fúria e pavor.
Ele puxou a cortina.
O que ele viu quase o fez cair de joelhos. Maya estava sentada no meio de uma poça de açúcar granulado. O balde de abóbora estava tombado ao lado dela, metade vazio. O rosto da menina era um mapa de cores artificiais: azul nos lábios, verde no queixo e um rastro de pó branco de açúcar nas bochechas. Ela segurava uma última minhoca de goma, olhando para o pai com uma expressão de absoluta satisfação e nenhum arrependimento.
— Meu... Deus... — Emanuel sussurrou, sentindo o mundo girar. — Ela comeu tudo. Ela comeu o balde inteiro!
— Maya! — Eduarda chegou logo atrás, tapando a boca com a mão. — Oh, meu Deus, o coração dela!
Emanuel agachou-se, pegando a menina no colo com uma rapidez que a fez soltar um pequeno soluço de surpresa. Ele verificou o pulso dela imediatamente.
— Ela está acelerada. Muito acelerada — ele disse, o pânico começando a vazar por seus poros. — Sara, ligue para o Dr. Arnaldo! Agora! Eduarda, pegue a bolsa de emergência no carro!
— Calma, Manu! — Sara disse, aproximando-se e olhando para a filha. Ela não pôde evitar; a visão de Maya com a língua azul e as asas de anjo tortas era, no mínimo, cômica. — Olha para ela, Emanuel. Ela não está passando mal. Ela está... eufórica.
— Ela comeu açúcar refinado, corante azul número dois e ácido cítrico, Sara! — Emanuel gritou, o rosto vermelho. — Ela tem uma cardiopatia congênita! Isso é veneno para ela!
Maya, sentindo a tensão do pai, resolveu que era o momento de mostrar que estava bem. Ela soltou uma risadinha alta, esticou a mãozinha suja de azul e tocou o nariz de Emanuel, deixando uma mancha colorida ali.
— Papa! — ela exclamou, com uma energia que raramente demonstrava.
— Ela está tendo um pico de glicose — Emanuel diagnosticou, já caminhando em direção à saída, ignorando os convidados que paravam para olhar. — Vamos para o hospital. Agora.
***
A sala de espera da clínica particular era o oposto da festa. Silenciosa, branca e fria. Emanuel andava de um lado para o outro, ainda fantasiado de caçador vitoriano, mas agora parecendo um louco varrido. Sara estava sentada, balançando o salto alto, enquanto Eduarda tentava acalmar Ágata, que decidira que também queria balas azuis.
O Dr. Arnaldo, um homem calmo que já estava acostumado com os surtos de Emanuel, saiu da sala de observação com um leve sorriso no rosto.
— Emanuel, por favor, sente-se. Você vai ter um infarto antes da sua filha.
— Como ela está? — Eduarda e Emanuel perguntaram em uníssono.
— Ela está ótima — o médico riu. — O batimento subiu um pouco, claro, efeito do açúcar e da agitação. Mas não houve nenhuma arritmia preocupante. Fizemos um eletro e os níveis de sódio estão sob controle. Ela só vai ficar... bem acordada pelas próximas seis horas.
Emanuel soltou o ar que parecia estar prendendo há uma hora. Ele se sentou pesadamente ao lado de Sara.
— Eu quase morri, Arnaldo. Eu vi aquele balde vazio e vi o enterro da minha filha na minha frente.
— Eu sei, Emanuel. Você é um pai zeloso. Mas a Maya é mais forte do que você acredita. O coração dela está reagindo bem ao crescimento. Claro, não repitam o "banquete de gomas", mas hoje... bom, hoje ela apenas teve uma experiência de criança normal.
Quando eles entraram no quarto para buscar Maya, encontraram a menina sentada na maca. Ela ainda tinha vestígios de azul nos lábios, mas o que mais chamava a atenção era sua disposição. Ela tentava pegar o estetoscópio da enfermeira e balançava as perninhas com vigor.
— Olha só — disse Sara, cruzando os braços e olhando para o marido. — A "anjinha" é uma rebelde infiltrada. Ela esperou o primeiro vacilo do papai controlador para se acabar no doce.
Emanuel aproximou-se da maca. Ele pegou Maya no colo, sentindo o cheiro de tutti-frutti que emanava da pele dela. A raiva e o pânico haviam desaparecido, restando apenas um alívio avassalador que o deixava fisicamente exausto.
— Você me deu um susto, pequena — ele sussurrou, encostando a testa na dela. — Nunca mais faça isso.
Maya deu um tapinha no ombro dele e soltou um bocejo que terminou em uma risadinha.
— Papa... azu! — ela disse, apontando para a própria língua.
— É, azul. Você está parecendo um Smurf — Emanuel sorriu, finalmente relaxando os músculos da face.
Eduarda aproximou-se e abraçou os dois.
— Vamos para casa? Eu acho que todos nós precisamos de um banho e de dez horas de sono.
— Eu preciso de um uísque — corrigiu Sara. — E de tirar esse espartilho. Manu, você vai carregar a "diabinha" loira e eu levo a "anjinha azul".
***
De volta à cobertura, o caos do Halloween deu lugar à rotina silenciosa da madrugada. Ágata dormiu assim que tocou o berço, mas Maya, fiel à previsão do médico, estava a todo vapor.
Emanuel acabou sentado no tapete do quarto das meninas, com Maya engatinhando ao redor dele como se estivesse em uma pista de corrida. Eduarda e Sara estavam sentadas na poltrona de amamentação, observando a cena.
— Sabe o que é mais engraçado? — Sara comentou, bebendo um copo de água. — Você passou meses proibindo até o cheiro de açúcar, e a primeira coisa que ela faz quando tem chance é comer um balde inteiro de gomas azedas. Ela tem o meu sangue, Emanuel. Ela gosta do que é proibido.
— E ela tem a minha sorte — completou Eduarda, sorrindo para a filha. — Porque, apesar do susto, ela provou que o coraçãozinho dela aguenta um pouco de aventura.
Emanuel observou Maya parar de engatinhar por um segundo, olhar para uma pelúcia e dar um grito de alegria antes de voltar a se movimentar. Ele percebeu que, por mais que tentasse criar um ambiente de vidro, a vida acontecia nos vãos do seu controle.
— Eu ainda vou instalar câmeras com sensores de movimento em todas as mesas de doces das próximas festas — Emanuel declarou, embora houvesse um tom de brincadeira em sua voz.
— Você não tem jeito — riu Eduarda.
— Ele é um protetor nato, Duda — Sara disse, levantando-se e caminhando até Emanuel. Ela sentou-se no colo dele, ignorando o fato de estarem no chão. — Mas admita, Manu. Ver ela com a língua azul foi um pouco engraçado.
Emanuel olhou para Maya, que agora tentava escalar o berço com uma energia renovada, e soltou uma risada curta, a primeira da noite que não era carregada de tensão.
— Foi aterrorizante. Mas... vendo agora... ela parecia bem satisfeita com o crime que cometeu.
Ele puxou Eduarda para perto também, formando um pequeno círculo no chão do quarto. Ali, entre as duas mulheres que eram seu pilar e as duas filhas que eram seu mundo, Emanuel permitiu-se, pela primeira vez, não ser o mestre do controle.
— Amanhã, dieta rigorosa — ele avisou, tentando retomar a postura.
— Amanhã — concordou Eduarda, beijando o rosto dele.
— Mas hoje — Sara sussurrou no ouvido dele — a gente celebra que a nossa anjinha azul sobreviveu ao primeiro Halloween.
Maya finalmente começou a dar sinais de cansaço, sentando-se no tapete e esfregando os olhos com as mãos gordinhas. Emanuel a pegou, sentindo o corpo da filha relaxar contra o seu peito. Ele a colocou no berço, cobrindo-a com o cobertor de nuvens.
— Boa noite, pequena rebelde — ele murmurou.
Ao sair do quarto e fechar a porta, Emanuel olhou para Sara e Eduarda. Ele sabia que o caminho ainda teria muitos sustos, muitas birras e muitos desafios médicos. Mas, enquanto caminhavam juntos pelo corredor da cobertura luxuosa, ele sentiu que o coração de Maya não era o único que estava forte. O dele, cercado por elas, era capaz de suportar qualquer susto, desde que, no final da noite, a língua azul fosse o único problema a ser resolvido.
O Halloween de gomas azedinhas entraria para a história da família como o dia em que Emanuel descobriu que, às vezes, o controle precisa dar lugar ao acaso, e que o amor, em sua forma mais pura, é o melhor remédio para qualquer cardiopatia — e para qualquer síncope de um pai preocupado.