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Entre Birras, Balas e Batimentos

O supermercado gourmet no bairro nobre de São Paulo era, geralmente, um ambiente de silêncio e sofisticação, mas naquela tarde de sábado, o cenário era de guerra. E Emanuel, o homem que comandava estúdios de tatuagem em três continentes e lidava com celebridades e mafiosos sem piscar, sentia que estava prestes a perder sua última reserva de paciência.

No centro do corredor de doces, a cena era digna de um espetáculo. Ágata, a filha de Sara, já demonstrava aos doze meses que herdara cem por cento da personalidade explosiva da mãe. Ela estava sentada no chão de cerâmica polida, os cachinhos loiros bagunçados, batendo as mãos pequenas e gordinhas no chão enquanto soltava gritos agudos que ecoavam pelas prateleiras de azeites importados. O motivo? Um pacote de balas de goma coloridas que ela havia avistado e decidido que era sua propriedade por direito divino.

Ao lado dela, Maya, a filha de Eduarda, não gritava, mas sua forma de protesto era igualmente eficaz para destruir o coração de Emanuel. Ela estava sentada, com as pernas esticadas, o rostinho pálido e delicado manchado por lágrimas silenciosas, os olhos castanhos expressivos fixos no mesmo pacote de balas, soltando soluços curtos e manhosos que faziam seu pequeno peito subir e descer rapidamente.

— Emanuel, pelo amor de Deus, faz alguma coisa! — exclamou Sara, ajustando os óculos escuros sobre a cabeça e ajeitando o vestido justo que realçava seu corpo impecável um ano após o parto. — A Ágata vai estourar um tímpano de alguém e eu estou começando a ficar com vergonha. E olha que eu não tenho vergonha de quase nada.

— Eu não vou dar balas para crianças de um ano, Sara. Você sabe o que o pediatra disse sobre açúcar — Emanuel respondeu, a voz firme, embora a veia em sua têmpora estivesse saltando. Ele se inclinou, tentando pegar Ágata no colo, mas a menina se jogou para trás com uma força impressionante para o seu tamanho.

— Manu... — a voz de Eduarda soou baixa e carregada de ansiedade ao lado dele. Ela estava com a mão sobre o peito, observando Maya. — O lábio dela... está ficando um pouco roxinho. Ela está muito nervosa.

O mundo de Emanuel parou por um segundo. A cardiopatia de Maya era a sombra que pairava sobre a felicidade daquela família não convencional. Qualquer estresse excessivo, qualquer esforço respiratório maior, era motivo para o alerta máximo. O controle que Emanuel tanto prezava se transformava em puro instinto de proteção quando se tratava da fragilidade de sua filha caçula.

— Chega — decretou Emanuel, a voz agora gélida, no tom que usava para fechar negócios multimilionários.

Ele se agachou rapidamente. Com um braço, ele içou Ágata, que continuou esperneando, e com o outro, pegou Maya com uma delicadeza extrema, aninhando o rosto da menina em seu pescoço.

— Sara, pegue o carrinho. Eduarda, pegue a bolsa delas. Vamos sair daqui agora.

— Mas Emanuel, a gente não comprou nem metade da lista! — reclamou Sara, embora já estivesse empurrando o carrinho com pressa, percebendo a seriedade no rosto dele.

— Eu mando um assistente vir buscar depois. Agora, saiam.

Eles atravessaram o supermercado como um pequeno furacão. Emanuel carregava as duas meninas, ignorando os olhares curiosos dos outros clientes. Ágata ainda tentava se debater, mas o aperto firme do pai a vencia. Maya, por outro lado, havia parado de chorar, mas sua respiração estava ruidosa, o que fazia o coração de Emanuel martelar contra as costelas.

Já no estacionamento, dentro da SUV blindada e espaçosa, o ar-condicionado ajudou a baixar a temperatura dos ânimos. Emanuel colocou Maya na cadeirinha, verificando o oxímetro de pulso que ele sempre carregava na mochila de emergência.

— 94% — murmurou ele, soltando um suspiro de alívio. — Está estabilizando.

Eduarda sentou-se ao lado da filha, acariciando suas mãos pequenas e frias.

— Ela só queria a bala, Manu... ela viu a Ágata fazendo birra e achou que tinha que fazer também. Ela é tão manhosa, quer tudo o que a irmã tem.

— A Ágata é uma peste — disse Sara, sentando-se no banco da frente e olhando pelo retrovisor para a própria filha, que agora chupava o dedo, exausta do show que dera. — Ela sabe exatamente onde apertar o botão do pai dela. Ela viu as balas e decidiu que o mundo ia acabar se ela não levasse.

Emanuel entrou no banco do motorista, mas não deu a partida imediatamente. Ele apoiou a testa no volante por alguns segundos, tentando recuperar o controle sobre seus próprios nervos.

— Nós não podemos ter esses episódios em público — disse ele, a voz abafada. — A Maya não pode se dar ao luxo de ter ataques de birra desse nível. O coração dela não aguenta o rebote.

— Você não pode controlar o temperamento de uma criança de um ano, Emanuel — Sara retrucou, embora seu tom fosse menos irônico e mais compreensivo. — Elas estão crescendo. Elas têm vontade própria. E elas sentem que você é o porto seguro. Elas testam você porque sabem que você vai segurar o rojão.

Eduarda olhou para Emanuel, os olhos cheios de uma doçura triste.

— Desculpe, Manu. Eu devia ter distraído ela antes. Eu me sinto tão culpada quando ela passa mal por algo tão bobo...

Emanuel virou-se para trás, estendendo a mão para tocar o rosto de Eduarda e, depois, o topo da cabeça de Maya, que já começava a cochilar.

— A culpa não é sua, Duda. É a situação. Eu só... eu fico aterrorizado toda vez que vejo o lábio dela mudar de cor. Eu sinto que estou falhando com ela.

— Você não está falhando — disse Sara, esticando o braço para apertar o ombro dele. — Você é o melhor pai que essas duas poderiam ter. Mas você precisa relaxar um pouco. Se você ficar tenso assim, elas sentem. A Ágata grita mais alto porque sente que você está prestes a explodir.

— Eu não vou dar açúcar para elas — ele repetiu, teimoso.

Sara soltou uma risada curta.

— Ninguém está dizendo para você entupir as meninas de bala, seu ogro. Mas talvez a gente precise de uma estratégia melhor do que "Emanuel decide tudo e todos obedecem".

Emanuel finalmente deu a partida no carro. O trajeto até a cobertura foi silencioso. As bebês dormiram, vencidas pelo cansaço do conflito. Ao chegarem em casa, a rotina de cuidados assumiu o controle. Eduarda levou Maya para o quarto para uma nebulização preventiva, enquanto Sara ajudava a babá a dar banho em Ágata.

Mais tarde, após as meninas estarem devidamente acomodadas em seus berços, Emanuel estava na varanda, observando as luzes da cidade. Ele sentiu a presença de Sara antes mesmo de ouvi-la. Ela se aproximou, usando um robe de seda, e abraçou sua cintura por trás.

— Onde está a Eduarda? — perguntou ele.

— Ficou deitada ao lado do berço da Maya. Ela ainda está assustada — respondeu Sara. — Ela é sensível demais, Manu. Você sabe disso. Ela absorve o medo da Maya.

Emanuel virou-se nos braços de Sara, envolvendo-a.

— E você? Como está?

— Eu estou pronta para um drink e para que você pare de olhar para o horizonte como se estivesse planejando uma guerra — Sara sorriu, puxando o rosto dele para um beijo rápido. — Elas estão bem. A birra passou. Amanhã elas vão acordar e querer outra coisa, e a gente vai lidar com isso.

— Eu quero que elas tenham uma vida normal, Sara. Mas com a Maya... o "normal" é sempre um campo minado.

— Ela é forte, Manu. Ela tem o seu sangue e a doçura da Duda. E ela tem a Ágata para puxar ela para frente, e a mim para ensinar ela a não aceitar "não" como resposta — Sara piscou. — Nós somos uma família estranha, mas funcionamos.

Eduarda apareceu na porta da varanda, parecendo pequena e exausta. Emanuel estendeu o braço livre, chamando-a para o círculo. Ela se encaixou entre os dois, suspirando de alívio ao sentir o calor deles.

— Ela está dormindo profundamente — sussurrou Eduarda. — A saturação está em 98%.

— Viu? — disse Sara. — Tudo sob controle.

Emanuel beijou o topo da cabeça de Eduarda e a testa de Sara. Ali, entre as duas mulheres que amava, ele sentia que podia enfrentar qualquer birra, qualquer diagnóstico médico, qualquer julgamento do mundo.

— Amanhã — começou Emanuel, o tom controlador suavizado pelo cansaço — eu vou comprar aquele balanço acolchoado que a fisioterapeuta sugeriu para a Maya. E para a Ágata...

— Para a Ágata você compra um saco de boxe — interrompeu Sara, rindo. — Porque aquela ali vai dar trabalho.

— Eu estava pensando em um conjunto de blocos de montar — disse Emanuel, um leve sorriso finalmente aparecendo em seu rosto. — Algo que ela não possa engolir e que não tenha açúcar.

— Você é tão previsível — murmurou Eduarda, encostando a cabeça no peito dele.

— Eu sou prático — corrigiu ele.

— Você é nosso — finalizou Sara.

Naquela noite, o luxuoso apartamento nos Jardins estava em paz. O susto no supermercado tornou-se apenas mais uma história na cronologia daquela família que desafiava as regras. Emanuel, o homem de ferro, o tatuador rico e poderoso, finalmente fechou os olhos, sabendo que, embora não pudesse controlar os batimentos cardíacos de Maya ou o temperamento de Ágata, ele sempre estaria lá para ser o chão onde elas pisariam e o teto que as protegeria da chuva.

E se no dia seguinte elas quisessem balas novamente, ele provavelmente diria não outras dez vezes. Mas, talvez, apenas talvez, ele permitisse que Sara comprasse um brinquedo novo para distraí-las, aprendendo, pouco a pouco, que o amor nem sempre se traduz em controle absoluto, mas na capacidade de abraçar o caos.

— Manu? — Eduarda chamou baixinho, já quase pegando no sono entre os dois.

— Oi, pequena.

— Promete que não vai ficar bravo se a Maya quiser ser bailarina como eu? O médico disse que ela pode, se for no ritmo dela.

Emanuel ficou em silêncio por um longo tempo, imaginando sua pequena Maya, com seu coração remendado, girando em um palco.

— Se for o que ela quiser — disse ele, a voz carregada de uma emoção que raramente mostrava —, eu construo um teatro só para ela.

Sara soltou uma risadinha.

— E para a Ágata?

— Para a Ágata, eu compro a companhia de ballet inteira, porque ela com certeza vai querer ser a diretora.

Eles riram baixo, a harmonia restabelecida. O medo ainda estava lá, a cardiopatia ainda era uma realidade, e as birras voltariam com força total na manhã seguinte. Mas ali, no silêncio da noite paulistana, Emanuel tinha tudo o que precisava. Ele tinha suas duas mulheres, suas duas filhas e a certeza de que, não importa o quão vulgar, tímida ou complicada a vida pudesse ser, eles eram uma unidade inquebrável.

— Agora, durmam — ordenou Emanuel, retomando seu papel de protetor. — Amanhã temos um dia longo. E eu pretendo passar no shopping para ver aquele balanço.

— E as balas? — provocou Sara, fechando os olhos.

— Nem pensar — respondeu ele, embora, no fundo, soubesse que sua resistência estava diminuindo a cada dia que aquelas quatro mulheres dominavam seu mundo.

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