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D

O Peso da Proteção e o Brilho do Cristal

A mudança para a mansão de Emanuel não foi apenas uma transposição de móveis e roupas; foi a fusão definitiva de três mundos distintos sob o mesmo teto de vidro e aço. A propriedade, situada no alto de uma colina com vista para as luzes da cidade, era um monumento ao sucesso de Emanuel. Para Sara, aquele era o seu palco natural, onde ela desfilava com seus saltos agulha e seus vestidos de seda, comandando os empregados com uma ironia vibrante. Para Eduarda, no entanto, a casa parecia um labirinto de superfícies frias e luxo intimidante, onde ela caminhava com cuidado, como se temesse quebrar algo apenas com a sua presença.

Emanuel, por sua vez, parecia ter encontrado uma nova forma de energia. Ele estava mais controlador do que nunca, mas era um controle tingido por uma satisfação profunda. Ele gostava de chegar em casa e encontrar o perfume forte e caro de Sara misturado ao cheiro suave de talco e lavanda que Eduarda exalava.

Naquela tarde de terça-feira, o sol entrava pelas enormes janelas da sala de estar, iluminando a poeira dourada que dançava no ar. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, com um tablet na mão, revisando os lucros de seu estúdio em Tóquio. Sara estava deitada no sofá oposto, com as pernas cruzadas, usando um conjunto de lounge em cetim champanhe que deixava muito pouco para a imaginação.

— Emanuel, querido, eu vi uma bolsa de edição limitada daquela marca francesa. Acho que a Ágata ficaria divina segurando a miniatura dela — Sara comentou, lixando as unhas perfeitamente esculpidas.

Emanuel nem sequer levantou os olhos do aparelho.

— Compre, Sara. Compre duas. Uma para você e outra para a Ágata. E veja se tem algo que a Duda goste também.

— Ah, você sabe como ela é. Duda prefere livros de arte e sapatilhas de ballet a diamantes. Mas vou tentar corrompê-la um pouco — Sara riu, uma risada que ecoou com a confiança de quem sabia que tinha o mundo aos seus pés.

Emanuel se levantou e caminhou até Sara, inclinando-se para beijá-la com uma intensidade que a fez sorrir contra seus lábios. Ele a mimava sem reservas; Sara era a sua força pública, a mulher que entendia o peso de sua ambição.

— Você merece tudo o que quiser, Sara. Nunca se esqueça disso.

A harmonia do momento foi interrompida por um grito agudo vindo da área de brinquedos, um espaço cercado por tapetes macios no canto da sala.

— É minha! Maya, solta! — A voz de Ágata, embora ainda infantil, já carregava o tom imperioso da mãe.

As duas meninas, agora com pouco mais de um ano e meio, estavam em meio a um cabo de guerra. O objeto da discórdia era uma boneca de porcelana russa, vestida em veludo azul, que Emanuel trouxera de uma viagem recente. Era, tecnicamente, um presente para Ágata, embora houvesse brinquedos idênticos espalhados por todo o tapete.

Maya, com seus olhos grandes e úmidos, puxava a boneca com força, o rosto ficando perigosamente vermelho. Ela não gritava como Ágata; ela apenas choramingava, uma persistência silenciosa e manhosa que era típica de sua personalidade.

Eduarda, que estava sentada no chão lendo um livro de História da Arte, levantou-se rapidamente, o rosto tenso.

— Maya, não. Solte a boneca da sua irmã. Ela é da Ágata, meu amor.

— Não! — Maya protestou, os lábios começando a tremer.

— Duda, deixe as meninas se resolverem — Sara comentou do sofá, sem se levantar. — Ágata precisa aprender a defender o que é dela.

— Não é questão de defesa, Sara. É questão de educação — Eduarda respondeu, a voz suave, mas firme. Ela se aproximou e tentou desvencilhar as mãos de Maya da boneca. — Maya, você tem a sua boneca de pano. Olhe, a de pano é muito mais macia. Vamos, solte.

Mas Maya não soltou. O esforço físico e a frustração emocional começaram a cobrar o preço. A respiração da menina tornou-se audível, um som sibilante que fez o sangue de Emanuel gelar instantaneamente. Ele largou o tablet e, em três passos largos, estava ao lado das crianças.

— O que está acontecendo aqui? — A voz de Emanuel trovejou, carregada daquela autoridade que não admitia réplicas.

— Elas estão brigando pela boneca, Manu. Eu estou tentando ensinar a Maya que ela não pode pegar o que não é dela — Eduarda explicou, olhando para ele em busca de apoio.

Emanuel olhou para Maya. A menina estava ofegante, uma gota de suor escorrendo pela têmpora, e o tom arroxeado sob os olhos começava a se intensificar. O medo, aquele monstro frio que Emanuel escondia sob sua fachada de tatuador rico e poderoso, cravou as garras em seu peito.

Sem hesitar, Emanuel segurou os pulsos de Ágata com firmeza, mas sem machucá-la, e forçou a menina a abrir as mãos.

— Emanuel! — Sara exclamou, sentando-se ereta no sofá, os olhos brilhando com uma mistura de surpresa e irritação.

Ele ignorou a esposa. Pegou a boneca de porcelana e a entregou diretamente nas mãos trêmulas de Maya.

— Aqui, Maya. É sua. Pode ficar com ela.

Maya abraçou a boneca instantaneamente, escondendo o rosto no veludo azul, e sua respiração começou a desacelerar conforme o choro diminuía para soluços baixos.

Ágata, por outro lado, ficou paralisada por um segundo antes de abrir a boca em um berro de indignação pura.

— Papai! Minha!

— Eu vou comprar uma igual para você, Ágata. Ou dez iguais. Mas agora, a boneca é da Maya — Emanuel disse, a voz rígida, enquanto se levantava e encarava as duas mulheres.

Eduarda estava pasma. Ela se aproximou de Emanuel, tocando seu braço tatuado com as pontas dos dedos.

— Manu, você não pode fazer isso. A boneca é da Ágata. Você está mimando a Maya de um jeito que vai prejudicá-la. Ela precisa aprender a ouvir "não". Ela já tem bonecas demais, o quarto dela está lotado!

Emanuel virou-se para ela, os olhos escuros e faiscantes de uma irritação que beirava a explosão.

— Você viu como ela estava ficando, Eduarda? Você viu a cor do rosto dela?

— Ela estava apenas fazendo birra, Emanuel! — Eduarda rebateu, a voz subindo um tom, algo raro para ela. — Se você der tudo o que ela quer só porque tem medo que ela passe mal, ela nunca vai aprender a lidar com as emoções. Você está transformando ela em uma criança frágil!

— Ela É frágil! — Emanuel gritou, fazendo o silêncio cair sobre a sala, interrompido apenas pelo choro de Ágata ao fundo, que agora era consolada por uma Sara visivelmente incomodada. — Ela tem um buraco no coração, Eduarda! Um buraco que eu não posso consertar com as minhas mãos, não importa quanto dinheiro eu tenha!

Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Eduarda, a postura controladora e protetora emanando dele como uma onda de calor.

— Enquanto ela estiver sob o meu teto, eu farei o que for necessário para manter a segurança dela. Se isso significa dar a ela cada brinquedo desta casa para que ela não se exalte, é exatamente isso que eu vou fazer. Eu não vou arriscar a vida da minha filha por causa de uma lição de moral sobre compartilhar brinquedos.

Eduarda recuou, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. A sensibilidade dela sempre foi seu ponto forte e fraco ao mesmo tempo, e a dureza de Emanuel a atingia como um golpe físico.

— Ela é minha filha também, Emanuel. E eu quero que ela cresça sendo uma pessoa boa, não alguém que acha que o mundo deve se curvar a ela porque está doente.

— Então cuide para que ela não se exalte! — ele retorquiu, a voz agora mais baixa, mas ainda carregada de veneno. — Porque se você não consegue controlar a situação antes que ela se torne um risco médico, eu assumirei o controle. Eu sou o homem desta casa, Eduarda. Eu decido o que é melhor para a segurança das minhas filhas.

Sara, que assistia a tudo com uma expressão calculista, levantou-se e caminhou até o grupo. Ela pegou Ágata no colo, que ainda soluçava, e olhou de Emanuel para Eduarda.

— Já chega, os dois. Emanuel, você está sendo um ogro. Duda, você sabe que ele só está apavorado.

Sara aproximou-se de Emanuel e colocou a mão livre em seu peito, sentindo o batimento acelerado dele sob a camiseta de algodão caro.

— Querido, você vai ter um infarto antes da menina se você continuar assim. Dê a boneca para a Maya, compre o shopping inteiro para a Ágata, eu não me importo. Mas não desconte a sua frustração na Duda. Ela só quer ser uma boa mãe.

Emanuel fechou os olhos e respirou fundo, tentando recuperar a lógica que sempre fora seu norte. Ele sentiu a mão de Sara em seu peito e a presença silenciosa e magoada de Eduarda ao seu lado. O estresse de manter aquele equilíbrio — entre o amor por duas mulheres tão diferentes e a saúde frágil de uma criança — parecia estar prestes a esmagá-lo.

— Eu só... — Emanuel começou, a voz falhando por um breve segundo antes de se recompor. — Eu não posso perder ela, Duda. Entenda isso. Cada vez que ela fica roxa, eu sinto que o meu mundo está desmoronando.

Eduarda, vendo a vulnerabilidade por trás da armadura de controle dele, suavizou a expressão. Ela se aproximou e abraçou a cintura dele, escondendo o rosto em seu ombro.

— Eu sei, Manu. Eu também tenho medo. Mas nós precisamos ser uma equipe. Você não pode simplesmente passar por cima de mim.

Emanuel envolveu Eduarda com um braço e, com o outro, puxou Sara para perto. Ali, no centro da sala luxuosa, os três formavam um círculo fechado.

— Eu vou comprar a boneca, Duda — ele sussurrou no topo da cabeça dela. — Mas você tem que me ajudar a não enlouquecer.

— E eu vou precisar de um colar de diamantes para compensar o estresse dessa tarde — Sara acrescentou, quebrando a tensão com sua vulgaridade charmosa e um sorriso provocador. — Afinal, se a Maya ganha bonecas, a mamãe aqui ganha joias. É a regra da casa, não é, Emanuel?

Emanuel soltou uma risada seca, sentindo a tensão finalmente se esvair.

— É a regra da casa, Sara.

Ele olhou para o chão, onde Maya agora brincava pacificamente com a boneca de porcelana, alheia à tempestade que acabara de causar. Ágata, no colo de Sara, já se interessava pelos brincos brilhantes da mãe, tendo esquecido a boneca tão rápido quanto a desejava.

Naquela noite, Emanuel ficou observando as duas meninas dormirem em seus berços idênticos no quarto compartilhado. Ele sabia que Eduarda tinha razão sobre os limites, mas também sabia que Sara tinha razão sobre o seu medo. Ele era um homem que vivia entre o controle absoluto e o caos emocional, e enquanto tivesse aquelas duas mulheres para equilibrar sua vida, ele continuaria a traçar o destino daquela família, uma decisão — ou uma boneca — por vez.

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