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O Beijo de Vidro e o Laço de Aço

A manhã na Fazenda Vale das Sombras nasceu com um frescor que parecia purificar até os pensamentos mais densos de Emanuel. O orvalho ainda brilhava na grama alta quando ele saiu para a varanda, observando a vastidão de suas terras. O silêncio era absoluto, exceto pelo som distante dos cavalos e o farfalhar das árvores, um contraste gritante com o zumbido constante das máquinas de tatuar em seus estúdios urbanos.

Emanuel sentiu um par de braços macios e conhecidos envolverem sua cintura por trás. O perfume de baunilha e notas cítricas, caro e marcante, anunciou Sara antes mesmo que ela falasse.

— Você acorda cedo demais, Manu. O sol nem terminou de subir e você já está aqui, vigiando o horizonte como se estivesse esperando uma invasão — Sara murmurou, encostando o rosto nas costas dele.

Emanuel virou-se nos braços dela, encontrando o rosto de sua esposa ainda levemente sonolento, mas já exibindo aquela confiança inabalável. Ela usava um robe de seda preta curto, que deixava pouco para a imaginação, e o cabelo loiro estava em um desalinho planejado que ele adorava.

— Velhos hábitos, Sara. Alguém precisa garantir que tudo esteja em ordem — ele respondeu, baixando a cabeça para selar os lábios nos dela em um beijo possessivo e demorado.

— Tudo está em ordem — ela disse entre os beijos, as mãos subindo pelo pescoço tatuado dele. — A Ágata está dormindo como um anjo, e a Duda... bem, a Duda é o anjo que está dormindo no quarto ao lado. Você viu como ela ficou ontem? Parecia que ia desmaiar de alívio quando você a defendeu daquelas velhas fofoqueiras.

Emanuel soltou um suspiro pesado, a lembrança da noite anterior ainda fresca.

— Eu não gosto que a pressionem. Ela não sabe se defender, Sara. Ela é feita de açúcar.

— E você é o diabético que não consegue ficar longe, não é? — Sara riu, uma risada rouca e provocadora. — Eu adoro isso em você, Manu. Esse seu lado protetor é o que me faz querer te devorar. Mas não se esqueça de quem é a sua rainha enquanto você cuida da sua princesa.

Emanuel sorriu de canto, puxando-a para mais perto, as mãos firmes em suas curvas.

— Você nunca será esquecida, Sara. Você é o meu alicerce. Sem você, eu não teria nem espaço no coração para a Eduarda.

— Bom saber — ela piscou, afastando-se apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos. — Agora, vá tomar banho. Quero um café da manhã digno de um rei, e quero que você mime sua mulher antes que as crianças acordem e tirem toda a nossa atenção.

O café da manhã foi servido na varanda, uma mesa farta com frutas, pães artesanais e sucos frescos. Emanuel fazia questão de servir Sara, colocando as melhores fatias de queijo em seu prato e garantindo que sua xícara de café nunca ficasse vazia. Ele gostava de mimá-la; era a forma como equilibrava a intensidade dela com a sua própria necessidade de controle.

Não demorou muito para que o som de passos leves e o murmúrio de vozes infantis quebrassem a bolha do casal. Eduarda apareceu na porta da varanda, vestindo um robe de algodão branco, simples e delicado, que a fazia parecer quase etérea sob a luz da manhã. Ela trazia Maya no colo, enquanto Ágata vinha logo atrás, trazida pela babá.

— Bom dia... — Eduarda disse, a voz pequena, os olhos castanhos ainda fugindo do olhar intenso de Emanuel.

— Bom dia, boneca! — Sara exclamou, levantando-se e indo até ela para dar um beijo no rosto. — Dormiu bem? A cama era confortável?

— Sim, muito. Obrigada, Sara. A Maya também descansou bastante.

Emanuel levantou-se e caminhou até Eduarda. Sua presença física era imponente, mas seus gestos eram de uma suavidade cirúrgica. Ele pegou Maya do colo de Eduarda, sentindo o peso leve da menina. Maya, ao ver o rosto familiar de Emanuel, abriu um sorriso banguela e, com a espontaneidade de quem não conhece as regras do mundo, levou a mãozinha ao rosto dele e estalou um beijo úmido na bochecha do tatuador.

— Ela está de bom humor hoje — Emanuel comentou, sentindo uma pontada de orgulho irracional no peito.

— Ela acordou assim — Eduarda sorriu, sentando-se à mesa. — Acho que o ar puro da fazenda está fazendo milagres.

Mas a paz de Emanuel começou a ser testada conforme os outros hóspedes da fazenda — o grande grupo de amigos que sempre os acompanhava — começaram a aparecer para o desjejum. Eram homens de negócios, artistas e conhecidos de longa data de Emanuel.

Maya, em seu estado de graça matinal, parecia decidida a conquistar o mundo.

— Olha só quem acordou animada! — disse Rodrigo, um dos amigos de infância de Emanuel, aproximando-se da mesa.

Maya, no colo de Emanuel, virou o pescoço, viu Rodrigo e, imediatamente, esticou os bracinhos, fazendo um biquinho e soltando um beijo estalado no ar na direção do rapaz.

Emanuel sentiu o maxilar travar.

— Ela faz isso com todo mundo? — ele perguntou, a voz subindo um tom de frieza que fez Rodrigo hesitar.

— Ela é simpática, Emanuel — Eduarda explicou, um pouco sem jeito. — Ela gosta de gente.

— Ela é um bebê, Manu! — Sara soltou uma gargalhada, observando a expressão de ciúmes do marido. — Deixe a menina ser charmosa.

— Ela não precisa ser charmosa com o Rodrigo — Emanuel resmungou, ajeitando a menina no colo de forma que ela ficasse de costas para os outros homens.

Mas Maya era persistente. Sempre que um novo amigo se aproximava para cumprimentar o grupo, ela dava um jeito de espiar por cima do ombro de Emanuel. Bastava um "Oi, Maya" ou um sorriso para que a pequena soltasse um beijo, acompanhado de um tchauzinho com a mão.

— Ei, princesa! — chamou Marcos, o fotógrafo do grupo, apontando a câmera para ela.

*Smack.* Outro beijo.

Emanuel respirou fundo, os olhos escuros fixos em Marcos com uma intensidade que faria a maioria dos homens recuar.

— Marcos, se você não quer que eu quebre essa lente, pare de incentivar a menina — Emanuel disse, embora houvesse um traço de ironia que suavizava a ameaça, todos sabiam que ele não estava totalmente brincando.

— Você vai ter problemas quando ela fizer quinze anos, Manu — brincou Marcos, recuando rindo.

— Ela não vai fazer quinze anos. Vou mantê-la em um convento até os trinta — Emanuel rebateu, fazendo Sara explodir em risadas.

Eduarda observava a cena com o coração aquecido. Ver Emanuel, aquele homem que o mundo conhecia como um bilionário frio e um artista implacável, disputando a atenção e os beijos de sua filha era algo que ela nunca imaginou vivenciar. O pai biológico de Maya nunca sequer a segurou no colo; Emanuel, por outro lado, parecia disposto a lutar contra o mundo por um beijo dela.

Após o café, o grupo decidiu fazer uma caminhada até a cachoeira da propriedade. Sara, sempre prática, decidiu que ficaria na sede da fazenda com Ágata, aproveitando o spa que Emanuel mandara instalar.

— Vá você com a Duda e a Maya, Manu — Sara disse, ajeitando os óculos escuros de grife. — A Ágata precisa de um cochilo longo e eu preciso de uma massagem. Duda precisa sair um pouco desse quarto e respirar.

Emanuel olhou para Eduarda, que parecia hesitante.

— Você quer ir, Duda? O caminho é fácil, eu levo a Maya no canguru.

— Eu adoraria — ela confessou, a voz suave. — Só tenho medo que a trilha seja muito cansativa para ela.

— Eu cuido disso. Não vou deixar nada acontecer — ele garantiu, e Eduarda soube que ele falava sério.

A caminhada pela trilha foi lenta e silenciosa. Emanuel carregava Maya no peito, a menina observando tudo com olhos curiosos, enquanto ele mantinha uma mão firme nas costas de Eduarda nos trechos mais irregulares do terreno.

— Você está muito quieta — ele comentou, quando pararam perto de um riacho para descansar.

— Estou apenas... pensando — Eduarda respondeu, sentando-se em uma pedra lisa. — Em como a minha vida mudou nos últimos meses. Antes, eu me sentia tão pequena, Emanuel. Como se eu e a Maya fôssemos um fardo que ninguém queria carregar.

Emanuel ajoelhou-se na frente dela, a expressão séria.

— Você nunca foi um fardo. O homem que te deixou foi um covarde que não merecia nem a sombra da mulher que você é.

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela estendeu a mão e tocou a pele tatuada do braço dele.

— Por que você faz isso, Emanuel? Por que cuida tanto de nós? A Sara... ela é maravilhosa, ela é sua esposa. Eu não quero causar problemas entre vocês.

Emanuel segurou a mão dela, levando-a aos lábios.

— A Sara não é apenas minha esposa, Duda. Ela é minha cúmplice. Ela vê o que eu vejo. Ela sabe que eu preciso de você para ser completo. Eu não sou um homem de metades. Eu quero tudo. E o meu "tudo" inclui você e a Maya tanto quanto inclui ela e a Ágata.

— Mas e o que as pessoas vão dizer? — Eduarda perguntou, a insegurança de bailarina tímida aflorando. — O nosso grupo de amigos, meus pais...

— Deixe que digam o que quiserem — ele disse, a voz firme como aço. — Eu tenho dinheiro e poder o suficiente para silenciar qualquer um que tente te machucar. E a Sara tem língua o suficiente para colocar qualquer um no lugar. Você só precisa confiar em mim.

Nesse momento, Maya, que estava quase dormindo no canguru, despertou com o som de um pássaro e, vendo o rosto de Emanuel tão perto do de Eduarda, soltou um gritinho de alegria e deu um beijo na ponta do nariz de Emanuel.

Ele soltou um riso baixo, a tensão se dissipando.

— Viu? Até ela concorda.

— Ela só quer beijar todo mundo, Emanuel — Eduarda brincou, tentando disfarçar a emoção.

— Não — ele corrigiu, aproximando-se do rosto dela até que suas respirações se misturassem. — Ela sabe quem pertence a quem.

Emanuel não a beijou nos lábios, não ali, no meio da trilha. Ele sabia que Eduarda precisava de tempo, de paciência, de ser conquistada centímetro por centímetro. Ele apenas encostou a testa na dela, sentindo a paz que só ela emanava.

Ao retornarem para a sede da fazenda, o clima era de celebração. O grupo de amigos estava reunido ao redor da piscina, e o churrasco já estava sendo preparado. Sara, radiante em um biquíni dourado e uma saída de praia transparente, acenou para eles.

— Finalmente! Achei que tivessem se perdido na floresta — ela gritou, segurando uma taça de champanhe.

Emanuel entregou Maya para Eduarda e caminhou até a esposa, dando-lhe um tapa leve e possessivo no quadril antes de beijá-la na frente de todos.

— A trilha estava ótima, Sara. Mas a Maya tentou distribuir beijos para os macacos no caminho.

— Essa menina vai ser o seu fim, Manu! — Sara riu, puxando Eduarda para o círculo de cadeiras de sol. — Venha aqui, Duda. Experimente esse drink, é sem álcool, mas é delicioso. E me conte tudo o que esse ogro te disse no caminho.

Eduarda sentou-se, sentindo-se estranhamente em casa. Ela olhou para Emanuel, que agora conversava com alguns sócios, mas mantinha o olhar constantemente voltado para onde ela e Sara estavam. Ele era o centro gravitacional daquele universo, e ela, por mais que ainda tivesse medo, estava começando a gostar da órbita em que se encontrava.

Mais tarde, quando a lua já estava alta e a maioria dos amigos já havia se recolhido ou estava bêbada demais para notar qualquer coisa, Emanuel encontrou as duas mulheres na sala de estar do casarão. Ágata e Maya dormiam em berços próximos um do outro no berçário vigiado.

Sara estava deitada no sofá, com a cabeça no colo de Eduarda, que acariciava os cabelos loiros da outra com uma delicadeza quase hipnótica.

— Você viu como a Maya olhou para o garçom hoje à noite? — Sara perguntou, fechando os olhos sob o carinho de Eduarda. — Ela quase se jogou do colo do Manu para dar um beijo no rapaz.

— Eu achei que o Emanuel fosse ter um enfarto — Eduarda riu baixo. — Ele ficou vermelho de raiva.

— Ele é um idiota possessivo — Sara disse, sorrindo. — Mas é o nosso idiota.

Emanuel parou na entrada da sala, observando a cena. A luz suave dos abajures criava sombras longas, e o quadro diante dele era a definição de sua felicidade.

— O que vocês duas estão cochichando sobre mim? — ele perguntou, aproximando-se.

— Sobre como você é um pai ciumento e um marido impossível — Sara respondeu, abrindo um olho e estendendo a mão para ele.

Emanuel sentou-se na beirada do sofá, pegando a mão de Sara e, com a outra, tocando o rosto de Eduarda.

— Eu só protejo o que é meu. E o que é nosso.

Eduarda olhou para ele, e desta vez não desviou o olhar.

— Emanuel... a Maya tem consulta na semana que vem. Para o acompanhamento da cardiopatia.

— Eu vou com você — ele disse imediatamente. — Já agendei com o melhor especialista do país para uma segunda opinião. Não quero que você se preocupe com nada, Duda.

— Eu não estou acostumada com isso — ela confessou, a voz embargada. — Com alguém cuidando dos detalhes.

— Acostume-se — Sara disse, sentando-se e segurando a mão de Eduarda também. — Nesta família, ninguém carrega o peso sozinha. O Manu cuida da logística, eu cuido do moral da tropa, e você... você cuida de manter a gente humano.

Eduarda sorriu, e pela primeira vez, sentiu que o gesso no braço de Ágata, o coração frágil de Maya e a complexidade daquele relacionamento não eram obstáculos, mas sim os fios que teciam uma tapeçaria nova e resistente.

Emanuel puxou as duas para um abraço, sentindo o perfume de ambas, o calor de seus corpos e a certeza de que, na Fazenda Vale das Sombras, ele havia finalmente construído o santuário que sua alma sempre buscou. Ali, entre a vulgaridade solar de Sara e a timidez lunar de Eduarda, ele era, finalmente, um homem completo.

E se Maya continuasse distribuindo beijos por aí, bem... ele teria apenas que se certificar de que todos soubessem exatamente a quem ela pertencia. Porque, no mundo de Emanuel, o amor era a única lei que não permitia contestações.

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