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O Sol, a Areia e o Ciúme de Boneca
O sol de meio-dia sobre a praia particular da enseada refletia intensamente no mar azul-turquesa, criando um cenário que parecia um cartão-postal de luxo. Emanuel, sentado sob uma tenda de lona branca que bloqueava os raios UV mais agressivos, observava o horizonte com seus óculos escuros, mas sua atenção não estava nas ondas. Estava nas duas mulheres e nas duas bebês a poucos metros dele.
Sara era um espetáculo à parte. Usando um biquíni de tiras minúsculas, cor neon, que realçava cada curva acentuada pelo silicone e sua pele perfeitamente bronzeada, ela espalhava protetor solar com movimentos deliberados e chamativos. Ela não se importava com os olhares dos poucos amigos que circulavam por ali; ela sabia que era o centro das atenções e se alimentava disso.
Ao lado dela, Eduarda era o oposto. Vestia um maiô de peça única, clássico, em tom azul-bebê que combinava com sua pele clara e delicada. Ela usava um chapéu de palha de abas largas e parecia constantemente preocupada em checar o oxímetro de pulso de Maya, que estava guardado na bolsa térmica.
No centro do tapete de praia estendido na areia, a paz estava prestes a ser quebrada. Ágata, com o braço ainda engessado, mas já muito mais ativa, segurava firmemente uma boneca de pano artesanal, um presente caro que Emanuel trouxera de sua última viagem à Europa. Maya, sentada à frente dela, observava o brinquedo com olhos grandes e uma determinação silenciosa.
— Ela vai tentar pegar — comentou Sara, ajeitando os óculos de sol e dando um gole em sua água de coco gelada. — A sua filha tem um instinto de posse que, vou te falar, Duda... parece que aprendeu com o Manu.
Eduarda sorriu amarelo, limpando o suor da testa de Maya.
— Ela tem muitas bonecas no cesto, Sara. Eu trouxe três para a praia justamente para não ter briga.
Mas Maya não queria as três bonecas do cesto. Ela queria a boneca de Ágata. Em um movimento rápido e surpreendentemente forte para um bebê com cardiopatia, Maya avançou e agarrou a perna da boneca.
— Não! — gritou Ágata, ou pelo menos tentou expressar seu protesto com um balbucio agudo e irritado, puxando o brinquedo de volta com o braço bom.
Maya não soltou. Ela fechou a expressão, as bochechas ficando levemente rosadas pelo esforço, e deu um puxão seco. Ágata, desequilibrada pelo gesso, tombou para o lado na areia, começando a chorar imediatamente, mais por frustração do que por dor.
— Maya! — Eduarda interveio rapidamente, pegando a filha pelos braços. — Solta, meu amor. Essa é da Ágata. Olha aqui as suas, olha a sua coelhinha!
Maya, porém, ignorou a coelhinha oferecida. Ela apertou a boneca de Ágata contra o peito e soltou um choro protestante, um som manhoso e insistente que ecoou pela praia.
Emanuel levantou-se da cadeira em um segundo. O instinto de proteção por Ágata era automático, mas ao ver o rosto de Eduarda se contrair em preocupação e ver Maya fazendo esforço, seu coração se dividiu.
— O que houve aqui? — perguntou ele, aproximando-se e ficando de cócoras entre as duas.
— Guerra de território, Manu — disse Sara, rindo enquanto se sentava para observar a cena. — A pequena pirata da Duda resolveu que o tesouro da Ágata agora pertence a ela.
Eduarda estava visivelmente envergonhada. Ela tentava, sem sucesso, abrir os dedinhos de Maya para recuperar o brinquedo.
— Maya, escuta a mamãe — disse Eduarda, com a voz doce, mas firme. — Você não pode pegar o que é dos outros. Você tem muitas bonecas, olha só. Ser egoísta não é bonito.
Maya apenas chorava mais alto, escondendo o rosto no ombro de Eduarda, mas mantendo a boneca de Ágata presa sob o braço como se sua vida dependesse daquilo. Ágata, vendo que o pai estava perto, esticou o braço gessado para ele, pedindo colo e justiça.
— Vem cá, pequena — Emanuel pegou Ágata no colo, beijando o topo de sua cabeça. Ele olhou para Eduarda, que parecia à beira das lágrimas. — Duda, relaxa. É só um brinquedo.
— Não é só um brinquedo, Emanuel — Eduarda respondeu, a voz trêmula. — Eu não quero que ela cresça achando que pode ter tudo o que quer só porque chora. E ela tem que aprender a respeitar o espaço da Ágata.
— Ela é um bebê, Duda — Sara interveio, levantando-se e caminhando até elas. O balançar de seus quadris chamava a atenção, mas sua expressão era de genuína diversão. — E, honestamente, a Ágata tem brinquedos demais. Se a Maya quer tanto essa boneca, deixa ela ficar. Eu compro outra para a Ágata amanhã, uma maior e mais cara.
— Não é assim que se educa, Sara! — Eduarda exclamou, surpreendendo a todos com a pequena explosão. — A Maya tem um problema de saúde, sim, mas eu não quero que ela seja uma criança mimada que não entende limites. Ela precisa entender que o mundo não gira em torno dela.
Emanuel observou Eduarda. Ele amava aquela integridade dela, aquela doçura que tentava ser firme. Mas ele também via o cansaço nos olhos da bailarina. Ele sabia que Eduarda passava as noites em claro monitorando a respiração de Maya, e ver a filha brigar por um brinquedo parecia ser a gota d'água para o seu estresse emocional.
— Duda — Emanuel chamou suavemente, colocando a mão livre no ombro dela. — Você está certa sobre os limites. Mas olhe para ela. Ela está cansada, o calor está forte. Não vamos transformar isso em um trauma de infância hoje.
— Ela tem que soltar, Emanuel — insistiu Eduarda, tentando novamente tirar a boneca.
Maya soltou um grito agudo, e o rosto da bebê começou a ganhar um tom arroxeado ao redor dos lábios — o sinal que sempre aterrorizava Eduarda.
— Chega! — Emanuel ordenou, sua voz de comando ecoando. — Eduarda, pare de puxar. Sara, pegue a Ágata.
A troca foi rápida. Sara pegou a filha, que já estava se distraindo com os óculos de sol da mãe, e Emanuel envolveu Eduarda e Maya em um abraço coletivo.
— Calma, Maya... respira, pequena — Emanuel sussurrou no ouvido da bebê, ignorando a boneca por um momento. — Duda, olhe para mim. Respire também.
Eduarda afundou o rosto no peito de Emanuel, sentindo o cheiro de mar e do perfume caro dele. Ela relaxou os braços, e Maya, sentindo a mudança de energia, parou de gritar, embora continuasse soluçando, ainda segurando a boneca com força.
— Eu só... eu me sinto tão culpada — sussurrou Eduarda contra a camisa de linho dele. — Sinto que não estou ensinando nada direito. Meus pais dizem que eu sou mole demais com ela, e agora ela faz isso com a Ágata...
— Seus pais são modernos demais para entender a complexidade de criar uma criança como a Maya — Emanuel disse com firmeza. — E você não é mole. Você é a mãe dela. Você sabe o que ela aguenta.
Sara, que assistia à cena com um sorriso de lado, aproximou-se e tocou o braço de Eduarda.
— Escuta aqui, boneca. A Maya é uma lutadora. Ela quer a boneca porque ela tem vontade de viver, de ter coisas, de ser forte. E a Ágata? A Ágata vai aprender a compartilhar. Manu, dá a boneca da Ágata para a Maya de vez. Eu dou a minha palavra que a Ágata nem vai lembrar disso daqui a cinco minutos se eu der um picolé de fruta para ela.
— Sara, você não pode simplesmente comprar a paz — Eduarda tentou argumentar, mas já estava sorrindo fracamente.
— Ah, posso sim! — Sara piscou. — Dinheiro serve para isso, e o Manu tem pilhas dele. E eu também. Se a Maya quer a boneca, a boneca é dela. Considera um presente antecipado de "mesversário" da tia Sara.
Emanuel olhou para Sara, agradecido pela intervenção que tirava o peso dos ombros de Eduarda. Ele então se voltou para Maya.
— Maya, olhe para o tio Manu.
A bebê olhou, os olhos úmidos e grandes.
— A boneca agora é sua. Mas você vai dar um beijo na Ágata para pedir desculpas por ter puxado, está bem?
Como se entendesse o acordo, Maya inclinou-se para frente no colo de Eduarda. Sara aproximou Ágata, e as duas bebês encostaram as bochechas em um gesto que parecia um beijo desajeitado. Ágata, vendo que agora a atenção estava voltada para o picolé que o pai mencionara, nem ligou mais para o brinquedo de pano.
— Viu? — disse Emanuel, puxando Eduarda para mais perto dele enquanto caminhavam de volta para as espreguiçadeiras. — Problema resolvido.
— Você mima as três, Emanuel — Eduarda disse, limpando as últimas lágrimas. — A Sara, a Ágata e agora a Maya.
— E você — ele acrescentou, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse. — Eu mimo você mais do que todas, porque você é a que mais resiste.
O grupo de amigos, que observava a dinâmica de longe, comentava em voz baixa. Todos percebiam a forma como Emanuel se dividia entre a exuberância de Sara e a fragilidade de Eduarda, e como Sara parecia não apenas aceitar, mas orquestrar aquela união.
Mais tarde, enquanto as crianças dormiam em berços portáteis sob a sombra da varanda da casa de praia, os três adultos ficaram em silêncio, observando o mar.
— Manu — chamou Sara, quebrando o silêncio enquanto lixava uma unha. — A loja vai precisar de uma nova campanha de fotos para a coleção de verão. Eu estava pensando... a Duda ficaria perfeita como modelo da linha "Soft".
Eduarda quase engasgou com o suco.
— Eu? Sara, eu não sou modelo. Eu sou professora de ballet. Eu morro de vergonha.
— Exatamente por isso! — Sara exclamou, animada. — Essa sua aura de "não me toque", essa doçura tímida... é exatamente o que a coleção pede. O Manu pode fazer as fotos. Ele é um artista, sabe capturar ângulos que ninguém mais vê.
Emanuel olhou para Eduarda, imaginando-a sob as lentes de sua câmera, capturando a luz que emanava dela.
— Seria um prazer, Duda. E você ganharia um cachê excelente. Poderia ajudar com os tratamentos da Maya sem precisar pedir nada aos seus pais.
Eduarda hesitou. A ideia de se expor a aterrorizava, mas a ideia de independência financeira e de estar perto de Emanuel e Sara de uma forma "profissional" era atraente.
— Eu... eu vou pensar.
— Não pense muito — Sara disse, levantando-se e dando um beijo no ombro de Eduarda antes de se inclinar para o ouvido dela. — O Manu está louco para te ver sob o foco dele, boneca. E eu estou louca para ver o resultado.
Sara saiu em direção à piscina, deixando Emanuel e Eduarda sozinhos na varanda. O som das ondas parecia compassado com a respiração deles.
— Ela fala sério, não fala? — perguntou Eduarda.
— A Sara sempre fala sério quando o assunto é a nossa felicidade, Duda. Ela sabe que eu quero você por perto. E ela gosta da sua companhia. Ela não te vê como uma rival, ela te vê como... parte do que nos faz bem.
Eduarda olhou para as mãos, onde Maya ainda segurava a boneca de Ágata, mesmo dormindo.
— Às vezes eu sinto que estou vivendo um sonho estranho, Emanuel. Um homem rico e poderoso, uma mulher linda e vibrante... e eu, no meio de tudo isso, com uma filha doente. Por que eu?
Emanuel aproximou-se, sentando-se no braço da poltrona dela. Ele pegou a mão de Eduarda e a entrelaçou na sua, as tatuagens escuras contrastando com a pele alva dela.
— Porque você é a única que não nos olha pelo que temos, mas pelo que somos. A Sara me desafia, ela me mantém vivo. Mas você... você me dá paz, Eduarda. Você é o lugar para onde eu quero voltar quando o mundo lá fora fica barulhento demais.
— E a Maya? — perguntou ela, em um sussurro.
— A Maya é minha — ele respondeu com uma convicção que não deixava margem para dúvidas. — Não de sangue, talvez. Mas de alma. Eu vou garantir que ela tenha as melhores bonecas, os melhores médicos e o melhor futuro. E vou garantir que ela aprenda que não precisa chorar para ter o que quer, porque eu já estarei lá para dar a ela antes mesmo que ela peça.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, fechando os olhos. O conflito da boneca parecia pequeno agora, diante da magnitude do que estava sendo construído entre eles.
Naquela tarde, a praia não foi apenas um lugar de lazer, mas o palco de uma consolidação. Entre um brinquedo disputado e um picolé de fruta, a família de Emanuel — composta por duas mulheres, duas filhas e um amor que desafiava as definições tradicionais — encontrou seu ritmo.
Sara, da piscina, observava os dois na varanda e sorria. Ela sabia que a vulgaridade que os outros lhe atribuíam era apenas uma armadura, e que sua verdadeira inteligência estava em saber que, para manter o homem que amava, ela precisava expandir o coração dele, não restringi-lo.
E Emanuel, sentindo o peso leve de Eduarda contra si, soube que a próxima tatuagem que faria não seria na pele de um cliente, mas um compromisso invisível e eterno gravado em sua própria vida: ele protegeria aquele equilíbrio frágil, custasse o que custasse, contra quem quer que ousasse questionar a beleza daquela união singular.