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O Reflexo da Rebeldia em Olhos de Jabuticaba

A manhã na cobertura de Emanuel tinha aquele aroma característico de café recém-passado misturado com o perfume floral suave que Eduarda sempre usava e o rastro de baunilha marcante de Sara. Era um ambiente de luxo, com móveis de design e obras de arte nas paredes, mas que, naquele momento, estava sendo testado pela energia caótica de duas crianças de dois anos.

Emanuel estava sentado à mesa de mármore, tentando revisar um contrato de expansão para sua nova galeria em Londres. Ele vestia uma camiseta preta simples que deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo pescoço, e sua expressão era de concentração absoluta. Ou, pelo menos, tentava ser.

— Maya, não suba na cadeira de balanço com o prato de mingau — advertiu Emanuel, sem desviar os olhos da tela do notebook. Sua voz era grave, o tom de autoridade natural que ele exercia sem esforço.

Maya, que herdara a aparência delicada da mãe, mas parecia estar desenvolvendo uma teimosia silenciosa e observadora, parou por um segundo. Ela olhou para o padrasto — que para ela era, em todos os sentidos, o pai — e depois para a cadeira. Com um sorriso travesso, ela deu mais um passo.

— Maya — Emanuel chamou novamente, desta vez fechando o notebook e focando toda a sua atenção na menina. — Eu falei para descer. Agora.

Eduarda saiu da cozinha com uma bandeja de frutas, observando a cena. Ela usava um conjunto de ginástica que revelava seu corpo esguio de bailarina, o cabelo castanho preso em um coque frouxo.

— Filha, ouça o papai — disse Eduarda, a voz doce e mansa, típica de sua personalidade sensível. — Você pode cair e se machucar, e o seu coraçãozinho não gosta de sustos, lembra?

A menção à cardiopatia costumava ser o freio de Maya, mas hoje a menina parecia decidida a testar os limites do império de Emanuel. Ela desceu da cadeira, mas, em vez de entregar o prato, ela o colocou no chão e começou a empurrá-lo com o pé, sujando o tapete persa caríssimo.

Emanuel levantou-se. Ele era um homem prático e reservado, mas o desrespeito às regras da casa — especialmente quando envolvia a segurança dela — o irritava profundamente.

— Já chega. Maya, você está de castigo. Vá para o sofá e fique lá até eu dizer que pode sair.

Maya inflou as bochechas, os olhos de jabuticaba brilhando com um desafio que Emanuel nunca tinha visto antes. Ela olhou para Sara, que acabara de entrar na sala usando um robe de seda rosa choque, segurando Ágata no colo. Sara, com seu silicone impecável e sua loirice vibrante, observava tudo com um sorrisinho de canto, achando a audácia da pequena fascinante.

— Ela tem garra, Manu — comentou Sara, encostando-se no batente da porta. — Olhe só para essa carinha.

— Ela tem que ter limites, Sara — Emanuel retrucou, a voz ficando mais rígida. Ele deu um passo em direção a Maya. — Maya, agora. Pro sofá.

A menina deu um passo atrás, olhou para Emanuel, olhou para as mães e, em um ato de rebeldia pura e inesperada, franziu o nariz, abriu a boca e deu uma língua bem comprida para ele, acompanhada de um som de "bleh" perfeitamente articulado.

O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.

Emanuel estacou. Ele ficou perplexo. Em seus vinte e sete anos, tendo lidado com criminosos, artistas temperamentais e negociações multimilionárias, ele nunca tinha sido "desafiado" por uma língua de fora de uma criança de dois anos. Sua expressão passou da surpresa para uma irritação genuína, as sobrancelhas se juntando em um vinco profundo.

— O que... o que foi isso? — perguntou ele, a voz baixa, quase um rosnado de incredulidade.

Ao fundo, um som escapou. Sara levou a mão à boca, mas os ombros sacudiam. Ela soltou uma risada abafada que não conseguiu conter.

— Meu Deus, Manu... a cara que você fez... — Sara tentou dizer, mas explodiu em uma gargalhada alta e vulgar, do jeito que ela era, sem filtros.

Eduarda, por outro lado, sentiu o rosto esquentar de vergonha. Ela olhou para Emanuel e viu a veia em sua têmpora pulsar. Ela sabia o quanto ele valorizava o controle e o respeito, e sabia que, para ele, aquilo não era uma brincadeira. Mas, ao olhar para a filha, a imagem de Maya tentando parecer intimidadora com a língua de fora era tão absurdamente cômica que Eduarda teve que morder o lábio inferior com força para não acompanhar Sara.

— Sara, não ria! — pediu Eduarda, tentando manter a compostura enquanto sua própria voz falhava. — Emanuel, eu... Maya! Que coisa feia!

Emanuel virou-se para as duas, o rosto ficando vermelho de irritação.

— Vocês estão achando engraçado? — perguntou ele, a voz subindo de tom. — Eu estou tentando educar a menina, estou tentando impor um mínimo de ordem, e ela me dá língua? E vocês dão risada?

— Ah, Manu, relaxa! — Sara disse, aproximando-se e tentando tocar o braço dele, mas ele se esquivou. — É só uma fase. Ela está descobrindo que tem vontade própria. É hilário ver você, o grande Emanuel, sendo derrotado por uma língua de dois centímetros.

— Eu não fui derrotado! — ele exclamou, irritado. — Isso é falta de respeito. Eduarda, você não vai dizer nada?

Eduarda respirou fundo, tentando recuperar a seriedade. Ela caminhou até Maya, que ainda mantinha a postura desafiadora, embora agora parecesse um pouco assustada com a reação explosiva de Emanuel.

— Maya Maria, olhe para mim — disse Eduarda, agachando-se na frente da filha. Sua voz era mais firme agora, o tom de professora de ballet que não aceita erros de postura. — O que você fez foi muito, muito feio. O papai cuida de você, ele ama você. Você não pode tratar as pessoas assim, especialmente quem te protege. Peça desculpas agora.

Maya olhou para a mãe, depois para Emanuel, que permanecia de pé, com os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos. A menina percebeu que a atmosfera tinha mudado. O apoio risonho de Sara tinha cessado, e a seriedade de Eduarda era algo que ela temia.

— Desculpa, papai — murmurou Maya, a voz agora pequena e manhosa, os olhos começando a marejar.

Emanuel não respondeu de imediato. Ele ainda estava processando a irritação. Ele odiava perder o controle da situação, e odiava ainda mais sentir que suas duas mulheres não estavam "no mesmo time" que ele naquele momento.

— Vá para o seu quarto, Maya — disse ele, a voz fria. — Fique lá até eu ir falar com você.

A menina saiu correndo, as pequenas sandálias fazendo barulho no mármore. Eduarda levantou-se, suspirando, e olhou para Emanuel.

— Emanuel, não precisa ficar assim. Ela é uma criança.

— Ela é uma criança que está aprendendo que pode me desrespeitar e que a Sara vai rir disso — ele rebateu, voltando-se para a esposa loira. — Sara, você não ajuda.

— Ai, Manu, deixe de ser tão rígido! — Sara revirou os olhos, caminhando até o bar para pegar um copo de suco. — A vida já é séria demais. A menina é saudável, está esperta, está reagindo. Você deveria ficar feliz que ela tem personalidade, em vez de ficar agindo como se ela tivesse cometido um crime federal.

— Existe uma diferença entre personalidade e insolência — Emanuel retrucou, pegando seu notebook da mesa com força. — Eu vou para o estúdio. Preciso de silêncio e de pessoas que entendam o conceito de hierarquia.

Ele caminhou em direção à porta de saída, mas Eduarda o seguiu, segurando seu braço.

— Manu, espera. Não sai assim, bravo.

Emanuel parou, olhando para Eduarda. A doçura dela sempre era o seu ponto fraco, mas hoje a irritação era maior.

— Duda, eu faço tudo por vocês. Eu movo o mundo para que a Maya tenha os melhores médicos, para que você tenha sua escola de ballet, para que a Sara tenha a loja dela. A única coisa que eu peço em troca é que este lar seja um lugar de ordem e respeito. Se eu não tenho isso aqui, eu prefiro ficar no estúdio.

— Você tem isso aqui — Eduarda disse, aproximando-se e colando o corpo ao dele, buscando a proximidade física que sempre a acalmava. — Nós te respeitamos. Eu te respeito mais do que qualquer pessoa. Só... não leve isso para o lado pessoal. Ela te ama. Ela só queria ver o que acontecia.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão nos ombros diminuir levemente sob o toque de Eduarda, mas o olhar que ele lançou para Sara ainda era de reprovação.

— A Sara precisa parar de incentivar as rebeldias delas. A Ágata já é difícil o suficiente, se a Maya começar a seguir o exemplo da Sara de ignorar regras, eu vou enlouquecer.

— Ei! — protestou Sara lá da cozinha. — Eu ouvi isso! E eu não ignoro regras, eu apenas crio as minhas próprias.

Emanuel não respondeu. Ele beijou a testa de Eduarda, um gesto rápido e contido, e saiu do apartamento sem olhar para trás.

O silêncio que ficou na cobertura era diferente agora. Eduarda olhou para Sara, que deu de ombros, embora parecesse um pouco menos divertida.

— Ele é um chato quando quer, não é? — comentou Sara, sentando-se no sofá.

— Ele só está estressado, Sara. E você não ajudou rindo daquela forma. Ele leva a sério o papel de pai. Ele sente que, se a Maya não o respeitar, ele falhou com ela.

— Ele nunca falha — Sara disse, a voz ficando subitamente séria. — O Manu é a rocha dessa casa. Mas às vezes a rocha precisa de um pouco de musgo para não ficar tão dura. A Maya é o musgo dele.

Eduarda sorriu fraco e subiu para o quarto da filha. Encontrou Maya sentada no meio da cama, abraçada ao seu urso de pelúcia, com o olhar perdido na janela.

— Você sabe que o papai ficou muito triste, não sabe? — perguntou Eduarda, sentando-se ao lado dela.

— O papai tá bravo? — perguntou Maya, a voz trêmula.

— Ele está chateado. Ele trabalha muito para que você tenha tudo, Maya. Ele te protege. Dar língua é uma coisa que magoa as pessoas que a gente ama.

Maya baixou a cabeça, as lágrimas finalmente caindo.

— Eu não queria magoar o papai.

— Eu sei. Mas agora você vai ter que esperar ele voltar para pedir desculpas de verdade. E nada de línguas de fora, entendeu?

Enquanto isso, no estúdio de tatuagem, Emanuel tentava se concentrar em um desenho de uma fênix, mas a imagem da língua de Maya não saía de sua cabeça. Ele estava irritado, sim, mas, no fundo de sua mente lógica, uma pequena parte dele começava a ver o lado cômico da situação. Ele, o homem que controlava impérios, tinha sido desarmado por uma criaturinha de oitenta centímetros.

Ele pegou o celular e viu uma mensagem de Sara: *"O 'ogro' já se acalmou? A pequena está aqui chorando arrependida. E, para constar, eu só ri porque você fica muito gato quando está indignado. Venha para casa jantar. A Duda está fazendo aquela lasanha que você gosta."*

Emanuel soltou um suspiro longo, um meio sorriso finalmente aparecendo em seu rosto. Ele olhou para a foto de bloqueio do seu celular: Sara, Eduarda, Ágata e Maya, todas juntas em um piquenique na fazenda. Era uma confusão, era fora dos padrões, era exaustivo às vezes, mas era o seu mundo.

Ele guardou os materiais e pegou as chaves do carro. No caminho de volta, parou em uma floricultura e comprou um buquê de rosas brancas para Eduarda e um arranjo de orquídeas exóticas para Sara. E, em uma loja de conveniência, comprou um pequeno pacote de adesivos de estrelas que Maya tanto gostava.

Quando ele entrou na cobertura, o cheiro da lasanha já tomava conta do ar. Eduarda veio recebê-lo, o olhar ansioso.

— Você voltou cedo — disse ela, pegando as rosas. — São lindas, Manu. Obrigada.

— Eu não queria passar a noite irritado com as mulheres que eu amo — ele respondeu, puxando-a para um beijo calmo.

Sara apareceu na sala, pegando as orquídeas com um sorriso vitorioso.

— Sabia que você não aguentaria ficar longe da gente. O buquê é lindo, mas eu ainda acho que você me deve um jantar fora por ter sido tão rabugento.

— Veremos — disse Emanuel, caminhando em direção ao corredor dos quartos.

Ele entrou no quarto de Maya. A menina estava sentada na cama, brincando silenciosamente com seus blocos de montar. Quando viu Emanuel, ela parou imediatamente e ficou de pé.

— Papai...

Emanuel caminhou até ela e sentou-se na beirada da cama.

— Você tem algo para me dizer, Maya?

— Desculpa, papai. Eu não vou mais dar língua. Eu prometo.

Emanuel a puxou para o colo, sentindo o cheiro de xampu de bebê. A irritação tinha evaporado completamente, substituída por aquele instinto protetor avassalador que o definia.

— Tudo bem, pequena. Mas lembre-se: eu sou o seu pai. Eu estou aqui para te ensinar o caminho certo. Se você não me ouvir, quem você vai ouvir?

Maya o abraçou apertado, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Eu te amo, papai.

— Eu também te amo, sua rebelde — ele sussurrou, entregando a ela o pacote de adesivos.

Naquela noite, o jantar foi mais calmo. Emanuel, sentado entre Sara e Eduarda, observava as duas mulheres conversarem sobre a nova coleção da loja e a próxima apresentação de ballet. Ele sentia a mão de Eduarda sobre sua coxa, um toque de apoio e carinho, e o pé de Sara roçando sua perna por baixo da mesa, um convite silencioso e provocador.

— Manu — chamou Sara, limpando o canto da boca com o guardanapo de linho. — A Ágata me perguntou hoje se ela também podia dar língua quando estivesse brava.

Emanuel quase engasgou com o vinho.

— E o que você respondeu, Sara? — perguntou ele, o olhar ficando sério novamente.

— Eu disse que, se ela fizesse isso, o pai dela ia se transformar em um lobisomem e confiscar todos os brinquedos dela por um mês.

Eduarda riu, e Emanuel não conseguiu evitar um sorriso.

— Uma resposta adequada, finalmente — comentou ele.

— Viu? Eu sei ser educativa quando eu quero — Sara piscou para ele.

Após o jantar, com as crianças devidamente dormindo, os três se retiraram para a suíte principal. A cama king-size parecia o único lugar no mundo onde todas as tensões se resolviam. Emanuel deitou-se no meio, como sempre, o pilar entre as duas forças que moviam sua vida.

Eduarda aninhou-se em seu braço esquerdo, buscando o calor e a segurança que só ele provia. Sara deitou-se sobre o peito dele, uma perna jogada sobre as dele, a mão traçando as linhas das tatuagens em seu abdômen.

— Você sabe que a gente te ama, não sabe, Manu? — sussurrou Eduarda, a voz já pesada pelo sono. — Mesmo quando a gente ri das suas crises de controle.

— Eu sei — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — E eu amo vocês. Mesmo quando vocês tentam me enlouquecer.

— Tentar? — Sara levantou a cabeça, um brilho travesso nos olhos sob a luz fraca do abajur. — Querido, nós já conseguimos. Você é completamente louco por nós. E é por isso que você nunca vai embora.

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. Ele sabia que ela tinha razão. Sua vida era um equilíbrio frágil entre a doçura e a provocação, entre a ordem que ele tentava impor e o caos maravilhoso que elas traziam.

— Eu não iria a lugar nenhum — confessou ele, fechando os olhos enquanto sentia as mãos das duas mulheres sobre ele.

A cobertura mergulhou no silêncio da noite paulistana. Lá fora, o mundo podia ser hostil e cheio de regras que Emanuel precisava seguir para manter seu império. Mas ali dentro, entre o perfume de Eduarda e o fogo de Sara, ele era apenas um homem tentando ser o melhor pai e o melhor parceiro possível. E, mesmo que houvesse mais línguas de fora, mais birras e mais risadas fora de hora, ele sabia que não trocaria aquele labirinto de afetos por nenhuma paz solitária no mundo.

Porque, no fim das contas, a maior marca que Emanuel já tinha feito não era em tinta na pele de ninguém, mas a construção daquela família improvável, onde o amor era a única regra que ninguém ousava desobedecer.

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