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O Labirinto de Laços e Birras
O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da cobertura, iluminando o caos doméstico que contrastava com a decoração minimalista e luxuosa. Dois anos haviam se passado, e o que antes era um arranjo experimental e carregado de incertezas, agora era a fundação sólida da vida de Emanuel. Aos vinte e sete anos, o tatuador e empresário exalava uma aura de estabilidade que poucos teriam previsto. Ele estava no auge de sua carreira, mas seu maior triunfo não estava nos estúdios espalhados pelo mundo, e sim naquela sala.
— Ágata, devolva o tablet da sua irmã agora! — A voz de Emanuel soou firme, mas carregada daquela paciência exausta que só um pai de duas crianças de dois anos conhece.
Ágata, a cópia fiel de Sara com seus cabelos loiros agora compridos e olhos astutos, apertou o dispositivo contra o peito e soltou um guincho de negação.
— Não! É meu! — gritou a pequena, batendo o pé no chão com uma determinação que claramente herdara da mãe.
Do outro lado do tapete felpudo, Maya — que crescera cercada de cuidados e agora exibia uma saúde estável, embora ainda fosse monitorada de perto devido à sua cardiopatia — começou a soluçar. Ela não era de gritar; sua sensibilidade, herdada de Eduarda, a fazia reagir aos conflitos com lágrimas silenciosas e um biquinho trêmulo que partia o coração de Emanuel em mil pedaços.
— Ela pegou, papai... — Maya murmurou, as lágrimas escorrendo pelo rosto suave.
Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos. Ele estava sentado no sofá, observando a cena enquanto tentava terminar alguns orçamentos no notebook. Eduarda apareceu no topo da escada, vestindo um collant de ballet preto sob uma saia de tule rosa pálido, pronta para sair para dar suas aulas. Seu rosto, sempre doce e delicado, contorceu-se em preocupação ao ver a cena.
— O que houve dessa vez? — perguntou Eduarda, descendo os degraus e indo direto para o lado de Maya, pegando-a no colo e aninhando-a.
— A Ágata resolveu que o conceito de propriedade privada só se aplica a ela hoje — Emanuel respondeu, levantando-se e caminhando até a filha loira. — Ágata, eu não vou pedir de novo. Devolva para a Maya.
— Não quero! — Ágata rebateu, e antes que Emanuel pudesse reagir, ela jogou o tablet no chão. O som do impacto no tapete foi abafado, mas o gesto de rebeldia foi claro.
— Ágata! — Sara surgiu da cozinha, segurando uma caneca de café e vestindo um robe de seda esmeralda que realçava suas curvas e a exuberância de sempre. — Que comportamento é esse? Você quer ir para o cantinho do pensamento antes do café?
A menina olhou para a mãe e, percebendo que o reforço chegara e que Sara não estava para brincadeiras, finalmente cedeu, cruzando os braços e fazendo um bico enorme.
— Elas estão impossíveis hoje — comentou Eduarda, limpando o rosto de Maya. — Acho que sentiram que vamos sair.
— É o preço de termos criado duas pequenas ditadoras — Sara riu, aproximando-se de Emanuel e depositando um beijo rápido e sonoro em seus lábios. — Bom dia, meu amor. Bom dia, Duda.
— Bom dia — Eduarda respondeu com um sorriso tímido.
A dinâmica entre eles havia se tornado natural, um fluxo contínuo de afeto e logística compartilhada. Emanuel e Eduarda agora namoravam oficialmente, uma união que Sara não apenas abençoara, mas incentivara com sua energia pragmática e desprovida de ciúmes tradicionais. Para o mundo exterior, eles eram um mistério ou um escândalo; para os três, eram um porto seguro. Emanuel era o eixo, o protetor que mantinha as duas mulheres e as duas filhas sob sua guarda ferrenha e amorosa.
— Eu levo a Maya para a fonoaudióloga hoje — disse Emanuel, pegando a menina do colo de Eduarda. — E a Sara leva a Ágata para a natação. Assim a gente evita que elas se matem antes do almoço.
— Ótima ideia — concordou Sara, dando um tapa leve no ombro de Emanuel. — A Ágata está precisando gastar essa energia de trator que ela puxou de você.
— De mim? — Emanuel arqueou uma sobrancelha. — Ela tem o seu temperamento, Sara. Eu sou o ápice da calma e da lógica.
Sara soltou uma gargalhada alta, que ecoou pela cobertura luxuosa.
— Claro, Manu. Por isso você quase quebrou a mesa do restaurante semana passada porque o garçom demorou a trazer o suco da Maya. Você é a própria serenidade.
Eduarda riu baixinho, ajeitando a bolsa de ballet no ombro. Ela se aproximou de Emanuel e deu-lhe um beijo suave no rosto, depois fez o mesmo com Sara.
— Tenham um bom dia. Maya, comporte-se com o papai, está bem?
— Tá, mamãe — respondeu a pequena, já mais calma no abraço seguro de Emanuel.
Quando Eduarda saiu, o apartamento ficou momentaneamente mais silencioso. Emanuel sentou-se à mesa com Maya, enquanto Sara tentava convencer Ágata a comer suas frutas. O tatuador observava as duas mulheres de sua vida — uma presente fisicamente, a outra já a caminho de seus sonhos — e sentia uma satisfação profunda. Ele tinha tudo o que queria. A riqueza, o sucesso e, acima de tudo, o controle sobre o bem-estar de seu clã.
— Manu — chamou Sara, sentando-se à frente dele após conseguir acalmar Ágata. — A Duda está preocupada com a apresentação de ballet do final do mês. Ela acha que os pais dela vão levar algum "amigo" novo e que isso vai criar um clima estranho com você.
Emanuel sentiu o maxilar travar levemente. Os pais de Eduarda eram jovens, modernos e, na opinião de Emanuel, um tanto irresponsáveis com a sensibilidade da filha.
— Eles podem levar quem quiserem, desde que não tentem agir como se fossem a figura paterna da Maya. Já deixamos isso claro no aniversário dela.
— Você é muito territorialista — Sara comentou, bebendo seu café. — Mas eu gosto disso. Só tente não causar um espetáculo na frente das crianças. A Duda fica nervosa.
— Eu vou me comportar, Sara. Contanto que ninguém cruze a linha.
— E qual é a linha hoje, papai urso? — brincou ela, inclinando-se para frente, revelando o decote generoso que Emanuel conhecia tão bem.
— A linha é o respeito pela nossa família. Do jeito que ela é.
Mais tarde, após deixar Maya na clínica, Emanuel caminhou por um parque próximo, esperando o horário de buscá-la. Ele pensava na evolução de Eduarda. A bailarina tímida que ele conhecera na faculdade agora era uma mulher que, embora ainda sensível e manhosa nos seus braços, comandava salas de aula com graça e autoridade. O namoro deles era feito de sussurros, de proteção extrema e de uma conexão emocional que equilibrava a paixão carnal e explosiva que ele mantinha com Sara.
Seu celular vibrou. Era uma mensagem de Eduarda: *"Maya esqueceu o boneco favorito no meu carro. Ela vai ficar triste na consulta. Você consegue distraí-la?"*
Emanuel sorriu. Ele sabia exatamente o que fazer. Ele entrou em uma loja de brinquedos de luxo no caminho e comprou não um, mas dois bonecos idênticos. Um para Maya e um para Ágata. Ele aprendera que, naquela casa, a paz custava o dobro, mas ele tinha recursos ilimitados para garanti-la.
Ao buscar Maya, encontrou-a sentada na sala de espera, olhando para as próprias mãos. Quando ela o viu, seus olhos brilharam.
— Papai!
Aquele som nunca perdia o impacto. Emanuel a pegou no colo, sentindo a fragilidade do seu peito, onde a cicatriz da cirurgia feita há um ano era um lembrete constante de quão perto ele estivera de perdê-la. Por isso, ele era tão protetor. Por isso, ele não admitia falhas.
— Olha o que eu trouxe, princesa. Um amigo novo para você. E tem um igualzinho para a Ágata em casa, para vocês não brigarem mais.
Maya abraçou o brinquedo, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel.
— Te amo, papai.
— Eu também te amo, pequena.
Ao voltarem para casa, o ambiente estava mais calmo. Sara estava na sala, revisando planilhas de sua loja de roupas, enquanto Ágata brincava no cercadinho. Quando viram Emanuel e Maya entrarem, a energia mudou.
— Presentes! — exclamou Sara, vendo as sacolas. — Manu, você vai estragar essas meninas.
— Eu só estou garantindo a ordem pública — ele rebateu, entregando o brinquedo para Ágata, que soltou um grito de alegria e, surpreendentemente, correu até Maya para abraçá-la.
— Desculpa, Maya — disse Ágata, em seu vocabulário de dois anos.
— Tá bem, Ágata — respondeu a outra, retribuindo o abraço desajeitado.
Emanuel e Sara trocaram um olhar de alívio. Momentos de paz entre as duas eram raros e preciosos.
— A Duda chega em uma hora — disse Sara, levantando-se e indo até Emanuel, passando os braços pelo pescoço dele. — O que você acha de pedirmos aquele jantar tailandês que ela gosta? Ela vai chegar exausta.
— Já pedi — Emanuel respondeu, puxando Sara para perto pela cintura. — E pedi o seu vinho favorito também.
— Você é eficiente demais, sabia? — Sara sussurrou, roçando o nariz no dele. — Às vezes eu esqueço que você é um artista torturado, porque você age como um CEO de multinacional.
— Eu sou o que vocês precisam que eu seja, Sara.
Quando Eduarda finalmente chegou, a cena que encontrou foi a de um lar em harmonia. Emanuel estava no chão, brincando com as duas meninas e os novos bonecos, enquanto Sara organizava a mesa do jantar, falando animadamente sobre as vendas da semana.
Eduarda parou na porta, observando. Ela ainda tinha momentos de insegurança, momentos em que se perguntava se realmente merecia aquela vida, aquele homem que a tratava como uma joia rara e aquela mulher que a acolhera sem reservas.
Emanuel sentiu a presença dela e levantou o olhar.
— Oi, pequena. Como foi a aula?
— Cansativa — ela disse, aproximando-se e deixando-se envolver pelo braço de Emanuel, que a puxou para sentar ao seu lado no tapete. — Mas ver vocês assim... faz tudo valer a pena.
— A comida está chegando — anunciou Sara, vindo até eles e sentando-se do outro lado de Emanuel. — E as meninas estão oficialmente em trégua. Pelo menos pelos próximos dez minutos.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, loira, vibrante, com seu batom forte e sua presença que dominava o ambiente. Eduarda, castanha, suave, com sua pele macia e seu olhar que buscava proteção. Ele estendeu as mãos, segurando uma de cada.
— Eu amo vocês — ele disse, com uma gravidade que silenciou as brincadeiras das crianças por um momento. — Amo o que construímos aqui.
— Nós também te amamos, Manu — disse Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele.
— É, você é um chato possessivo, mas a gente não saberia o que fazer sem você — completou Sara, com seu tom irônico habitual, mas com os olhos brilhando de uma emoção genuína.
O jantar foi repleto de conversas cruzadas, risadas e as inevitáveis tentativas das bebês de comerem a comida dos adultos. Emanuel observava cada detalhe: o modo como Eduarda cortava a comida de Maya com cuidado excessivo, o modo como Sara incentivava Ágata a ser independente, o modo como as duas mulheres se olhavam com cumplicidade.
Após o jantar, com as crianças finalmente banhadas e colocadas na cama — um processo que exigiu o esforço conjunto dos três para evitar novas brigas —, o silêncio finalmente reinou na cobertura.
Eles estavam na varanda, observando a cidade. Emanuel estava no centro, com Sara e Eduarda aninhadas contra ele.
— Manu — começou Eduarda, a voz baixa e manhosa — eu estava pensando na viagem de férias. Meus pais querem que a gente vá para a casa de praia deles, mas eu tenho medo de ser muita gente, muita confusão para a Maya.
— Nós vamos para a minha ilha — Emanuel decidiu, sem hesitação. — Lá temos controle total. O médico da Maya pode ficar de sobreaviso no continente, e teremos privacidade.
— Viu, Duda? — Sara riu. — O rei já decidiu. E, honestamente, prefiro a ilha do Manu do que o agito dos seus pais. Quero poder usar meus biquínis novos sem ter que ouvir sermão de ninguém.
Eduarda riu, sentindo o peso da preocupação sumir. Com Emanuel, as decisões eram sempre rápidas e focadas na segurança delas.
— Obrigada, Emanuel. Por tudo.
Ele beijou o topo da cabeça de Eduarda e depois a testa de Sara.
— Eu faria qualquer coisa para manter esse mundo do jeito que ele é.
Enquanto a noite avançava, Emanuel sentia a respiração das duas mulheres sincronizar-se com a sua. Ele sabia que o caminho que escolheram não era fácil. Haveria mais brigas entre as meninas, mais olhares tortos da sociedade e mais momentos de insegurança de Eduarda. Mas, enquanto ele tivesse a força de Sara e a doçura de Eduarda, ele teria o equilíbrio perfeito.
Ele era o tatuador que marcava a pele dos outros, mas eram aquelas duas mulheres e aquelas duas crianças que haviam marcado sua alma de forma permanente. E ele, Emanuel, protegeria aquelas marcas com cada fibra de seu ser, garantindo que, naquele labirinto de laços e afetos, ninguém jamais se sentisse perdido.