D
O Preço da Proteção e o Sabor do Sangue
A viagem de volta da fazenda para a cidade foi mergulhada em um silêncio denso, interrompido apenas pelo som rítmico dos pneus no asfalto e pelos suspiros pesados de Emanuel. O carro de luxo, blindado e silencioso, parecia uma bolha isolada do caos que acabara de explodir na casa dos avós. No banco do passageiro, Sara mantinha uma mão possessiva sobre a coxa de Emanuel, enquanto a outra segurava um lenço umedecido que ela pressionava, de vez em quando, no supercílio cortado do namorado.
No banco de trás, Eduarda era a imagem da desolação. Encolhida contra a porta, ela abraçava os próprios joelhos, o vestido de linho agora amassado e manchado por uma pequena gota de sangue que respingara de Emanuel durante a briga. Ela não conseguia parar de tremer.
— Duda, para de tremer — Sara disse, sem olhar para trás, a voz tingida de uma impaciência que, no fundo, era sua forma de demonstrar cuidado. — Já passou. Aquele bando de dinossauros ficou para trás. O Emanuel apanhou, mas está vivo. E você está segura.
— Meu pai... ele nunca vai me perdoar — Eduarda sussurrou, a voz quase inaudível. — Ele disse que eu estou morta para ele.
Emanuel apertou o volante, sentindo a dor nas costelas protestar a cada movimento.
— Ele estava de cabeça quente, Duda — Emanuel interveio, a voz rouca. — Mas não importa o que ele sinta agora. O que importa é que a Maya tem um pai. Eu sou o pai dela. Entendeu? Para todos os efeitos, para o mundo, para o cartório e para a sua família, aquela criança é minha.
Eduarda olhou pelo retrovisor, encontrando os olhos escuros e determinados de Emanuel. Havia algo neles que a assustava e a confortava ao mesmo tempo. Não era apenas proteção; era uma posse silenciosa. Ela não sabia que ele a amava daquela forma, mas sentia que o peso da responsabilidade que ele chamara para si era absoluto.
Enquanto isso, na fazenda, o clima era de guerra civil.
Helena, a mãe de Eduarda, geralmente uma mulher submissa e silenciosa diante do gênio forte do marido, estava de pé no meio da sala, com os olhos faiscando de uma raiva que ninguém conhecia. Seu marido, Ricardo, andava de um lado para o outro, esfregando os nós dos dedos inchados.
— Como você pôde? — Helena disparou, a voz trêmula de indignação. — Como você pôde bater nele daquele jeito e expulsar nossa filha de casa?
— Ele a desonrou, Helena! — Ricardo gritou, parando e apontando para a porta. — Ele é nosso sobrinho! Ele tem uma mulher grávida e engravidou a Eduarda pelas costas de todo mundo! Ele é um monstro, um depravado! E ela... ela é uma decepção.
— Ela é sua filha! — Helena deu um passo à frente, enfrentando o homem que era quase o dobro do seu tamanho. — Ela tem vinte anos, Ricardo! Ela estava apavorada, chorando, e a única coisa que você fez foi usar os punhos. Você não perguntou como ela estava, não perguntou se ela precisava de ajuda. Você a jogou nos braços do Emanuel!
— Eu fiz o que um homem de honra faz!
— Honra? — Ela riu, um som amargo. — Você não tem honra, você tem orgulho ferido. Se a Eduarda se perder agora, a culpa é sua. Se ela se tornar apenas "a outra" do Emanuel, a culpa é sua por ter fechado a porta na cara dela quando ela mais precisava de um pai.
Ricardo vacilou por um segundo. A imagem de Eduarda, encolhida e soluçando enquanto Sara a levava embora, passou por sua mente como um flash doloroso. Ele amava a filha, mas a traição de Emanuel era um golpe que ele não sabia como processar.
— Eu vou atrás dela — Helena declarou, pegando sua bolsa. — E se você tentar me impedir, Ricardo, eu juro que não volto para esta casa.
Enquanto Helena saía, o telefone de Ricardo tocou. Era o irmão dele, o pai de Emanuel. A conversa foi curta e violenta. Do outro lado da linha, o pai de Emanuel não estava menos furioso.
— O seu filho é um animal, Afonso! — Ricardo esbravejou. — Ele destruiu a minha família!
— E o seu soco quase quebrou a mandíbula do meu filho! — Afonso rebateu, a voz carregada de uma autoridade fria. — O Emanuel é um homem adulto, dono do próprio nariz e de metade da cidade. Eu não passo a mão na cabeça dele, mas não vou permitir que você o trate como um moleque de rua. Se ele cometeu esse erro, ele vai pagar, mas ele vai pagar como um homem, não como um saco de pancadas.
Afonso desligou e imediatamente ligou para o filho. Emanuel atendeu no viva-voz, já chegando ao seu apartamento triplex na capital.
— Emanuel? — A voz do pai era um trovão.
— Oi, pai.
— Eu espero que você tenha uma explicação muito boa para essa loucura. Duas mulheres? Duas primas? Você perdeu o juízo ou a vergonha?
Emanuel estacionou o carro e olhou para Sara, que sorria de lado, achando graça da situação. Depois olhou para Eduarda, que parecia querer desaparecer no banco de couro.
— Eu não tenho explicações, pai. Eu tenho responsabilidades. A Eduarda está comigo, a Sara está comigo. Eu vou cuidar das duas e das minhas filhas. Se o senhor ou o tio Ricardo não conseguem aceitar isso, o problema é de vocês. Eu não preciso do dinheiro da família e não preciso da aprovação de ninguém.
— Você é um arrogante — Afonso disse, mas havia um tom de derrota na voz. Ele conhecia o filho. Emanuel era controlador, prático e, quando decidia algo, era impossível demovê-lo. — Você vai transformar a vida dessas meninas em um inferno social.
— Pelo contrário, pai — Emanuel disse, com um brilho de satisfação nos olhos que ninguém podia ver. — Eu vou dar a elas tudo o que o mundo tentar tirar.
Ele desligou o telefone.
— Uau — Sara exclamou, saindo do carro e ajeitando o cabelo loiro platinado. — O "Emanuel Protetor" é quase mais sexy que o "Emanuel Tatuador". Vamos subir, estou morrendo de fome e a Ágata quer lasanha.
Emanuel ajudou Eduarda a sair do carro. Ela ainda parecia em choque. Ele a segurou pelos ombros, forçando-a a olhar para ele.
— Duda, olha para mim.
Ela levantou o rosto, os olhos castanhos marejados.
— Eu sinto muito por tudo isso — ela sussurrou. — Pela briga, pelo seu rosto...
Emanuel deu um sorriso de canto, apesar da dor.
— Não sinta. Foi o melhor soco que eu já levei na vida.
— Por que você diz isso?
— Porque agora ninguém mais pode tirar você de mim. Você é oficialmente minha, Duda. E a Maya também.
Eduarda sentiu um calafrio. Ela não entendia a complexidade do que Emanuel sentia. Para ela, era um ato de heroísmo extremo. Para ele, era a conclusão de um plano emocional que ele vinha alimentando em silêncio. Ele sempre a quis, mas a pureza dela e o laço familiar eram barreiras. Agora, a mentira da gravidez tinha derrubado todas as cercas. Ele era o salvador, o pai, o porto seguro.
O apartamento de Emanuel era um monumento à modernidade e ao luxo. Sara, com sua formação em administração que ela fingia não usar, já começou a organizar a vida de Eduarda em questão de minutos.
— Você vai ficar na suíte de hóspedes, aquela com vista para o parque — Sara instruiu, enquanto jogava a bolsa de grife no sofá. — Amanhã vou levar você na minha loja. Você precisa de roupas de grávida que não pareçam sacos de batata. Aqueles seus vestidos de camponesa não vão servir em um mês.
— Sara, eu não quero incomodar — Eduarda disse, sentando-se timidamente na beirada do sofá de veludo cinza.
— Boneca, entenda uma coisa — Sara parou na frente dela, as mãos nos quadris, exibindo a barriga de três meses que já começava a marcar o vestido justo. — O Emanuel é rico. Muito rico. E ele é louco por nós duas. Se você ficar tentando ser humilde, só vai deixar ele irritado. Aceita o luxo, aceita a proteção e, pelo amor de Deus, me ajuda a escolher o papel de parede do quarto das meninas. Eu quero rosa e dourado, mas o Emanuel cismou com cinza e branco.
Eduarda olhou para Emanuel, que estava no bar, servindo-se de um copo de água gelada. Ele a observava com uma intensidade que a fazia perder o fôlego.
— A Sara tem razão, Duda — ele disse. — Descanse. Amanhã é um novo dia.
Horas mais tarde, após Eduarda ter sido instalada no quarto e Sara ter adormecido após um banho demorado, Emanuel estava na varanda, observando as luzes da cidade. Seu rosto estava inchado, e ele sentia o gosto de sangue sempre que passava a língua nos lábios.
A porta da varanda se abriu e Eduarda apareceu, vestindo uma camisola de seda clara que ele mesmo tinha mandado Sara comprar para ela meses atrás, prevendo que este dia chegaria.
— Emanuel? — Ela se aproximou, hesitante. — Minha mãe ligou.
— E o que ela disse?
— Ela brigou com meu pai. Disse que ele está arrependido de ter me expulsado, mas que ainda quer matar você. Ela quer vir me ver amanhã.
Emanuel assentiu.
— Ela é bem-vinda. Seu pai... ele vai precisar de tempo. Mas ele não vai tocar em você. Nunca mais.
Eduarda ficou ao lado dele, sentindo a brisa da noite.
— Eu ainda não entendo por que você fez isso. Você sacrificou sua reputação com a família. Sara poderia ter te deixado.
Emanuel virou-se para ela. A luz da lua refletia nos traços fortes de seu rosto, suavizando a expressão severa.
— A Sara nunca me deixaria, Duda. Ela sabe quem eu sou. E quanto à reputação... eu não ligo para o que meu pai ou seu pai pensam. Eu ligo para o que eu sinto quando vejo você chorar.
Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar acariciando a pele macia.
— Eu sempre quis cuidar de você. A Maya foi apenas o motivo que o destino me deu para parar de fingir que eu não me importava.
— Mas você ama a Sara — Eduarda disse, em um sussurro, buscando clareza.
— Eu amo a Sara — ele admitiu, sem hesitar. — Ela é o meu fogo, a mulher que segura as rédeas quando o mundo tenta me derrubar. Mas você... você é a minha paz, Duda. E eu não sou um homem que se contenta com pouco. Eu quero o fogo e a paz. Eu quero as duas.
Eduarda sentiu o coração disparar. A revelação de Emanuel não soava como uma traição, mas como uma promessa de devoção absoluta. Ela, que sempre se sentira pequena e insignificante, agora era parte central da vida daquele homem poderoso.
— E se eu não for o que você espera? — ela perguntou, a insegurança de bailarina vindo à tona. — Eu não sou forte como a Sara. Eu não sei ser... vulgar ou chamativa.
Emanuel soltou uma risada curta e rouca, aproximando-se mais.
— Eu não quero outra Sara, Duda. Para isso eu já tenho a original. Eu quero você. Exatamente assim. Manhosa, doce, sensível. Eu quero proteger essa sua fragilidade do resto do mundo.
Ele se inclinou e beijou a testa dela, um gesto carregado de um carinho quase paternal, mas com um subtexto de posse que a fez estremecer.
— Vá dormir. Maya precisa de descanso.
Quando Eduarda voltou para o quarto, Emanuel soltou um suspiro longo. Ele sentia uma satisfação profunda, quase inebriante. O plano estava em curso. Ele tinha Sara, a mulher que o entendia e compartilhava sua visão de mundo sem julgamentos. E agora tinha Eduarda, o objeto de seu afeto mais puro e protetor.
Ele sabia que a confusão com a família estava longe de terminar. Sabia que a sociedade veria sua vida como um escândalo. Mas, enquanto olhava para as mãos que ainda guardavam a sensação da pele de Eduarda, Emanuel sorriu.
Ele era o pai da Ágata. Ele era, agora, o pai da Maya. E ele era o dono do coração das duas mulheres que habitavam seu apartamento e sua alma. O sangue em seu rosto era um preço pequeno a pagar por um império que não era feito de dinheiro, mas de vidas que agora dependiam inteiramente dele.
— Pode vir o mundo inteiro — ele sussurrou para o vazio da noite. — Eu estou pronto.