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O Escândalo no Celeiro e o Peso do Desejo
O tempo na fazenda dos avós parecia correr em um ritmo diferente, mais lento e denso, como o mel que escorria dos favos no café da manhã. Dois meses haviam se passado desde a noite em que o sangue de Emanuel manchou o chão da sala de jantar, e muita coisa mudara. Eduarda e Sara agora caminhavam juntas pelo pomar, uma imagem que desafiava qualquer lógica tradicional: a loira exuberante, com seu vestido justo de seda verde realçando a barriga de cinco meses da pequena Ágata, e a bailarina delicada, cujos movimentos haviam se tornado mais lentos e manhosos sob o peso da doce Maya.
A reconciliação com Ricardo, pai de Eduarda, fora parcial e tensa. Ele pedira perdão à filha em um encontro regado a lágrimas, mas se recusava a dirigir a palavra a Emanuel. Já Afonso, pai de Emanuel, surpreendera a todos. O homem rígido derretera-se ao ver o primeiro ultrassom 4D de Maya. Ele já comprava cavalos de raça para a neta que nem havia nascido, tratando a situação com uma naturalidade que irritava os parentes mais distantes.
Emanuel, no entanto, vivia sob uma pressão constante que só ele conseguia mascarar. Ele amava Sara com uma paixão carnal e uma cumplicidade de negócios; ela era seu porto seguro, a mulher que não o julgava. Mas Eduarda... Eduarda era sua obsessão silenciosa. O fato de ela acreditar na mentira de que ele era o pai biológico de Maya criara um vínculo de gratidão e dependência que Emanuel alimentava com cada gesto de proteção.
Naquela tarde quente, o ar cheirava a feno seco e terra molhada. Emanuel observava Eduarda de longe. Ela estava sentada sob a sombra de uma mangueira, lendo um livro de História da Arte, com os cabelos castanhos presos em um coque frouxo.
— Você olha para ela como se quisesse devorá-la, Emanuel — comentou Sara, surgindo ao lado dele com um copo de suco de laranja. Ela sorriu, aquele sorriso de quem sabe de todos os segredos. — Por que não vai lá? Eu vou tirar um cochilo. A Ágata está chutando como se estivesse em uma rave.
— Você não se importa mesmo, Sara? — Emanuel perguntou, a voz baixa, observando a curva do pescoço de Eduarda.
— Eu já te disse, meu amor — Sara tocou o rosto dele, os dedos longos e bem feitos traçando a cicatriz quase invisível no seu supercílio. — Eu quero você feliz. E se para você ser o homem que eu amo, você precisa ter a doçura dela nos seus braços, eu aceito o pacote completo. Só não esqueça quem manda nesta casa.
Ela deu uma piscadela vulgar e saiu rebolando, deixando Emanuel sozinho com seus instintos.
Eduarda levantou os olhos quando a sombra de Emanuel cobriu seu livro. Ela sorriu, aquele sorriso tímido que sempre desarmava a racionalidade dele.
— Está muito calor aqui fora, Duda — disse ele, estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Vamos caminhar até o celeiro velho? Lá é mais fresco, e eu quero te mostrar o cavalo novo que seu pai comprou para a Maya.
— Papai exagera — ela murmurou, aceitando a mão dele. — Mas eu adoraria ver.
Eles caminharam lentamente. Eduarda sentia-se cada vez mais atraída por Emanuel. Para ela, ele era o homem que sacrificara tudo por sua honra. Ela não sabia que, por trás da proteção, havia um desejo que queimava há anos.
Ao entrarem no celeiro, o contraste de luz foi imediato. O interior era vasto, com feixes de luz solar atravessando as frestas das tábuas de madeira, iluminando a poeira que dançava no ar. O cheiro de alfafa e couro era inebriante.
— É tão calmo aqui — disse Eduarda, aproximando-se de uma baia.
Emanuel não olhou para os cavalos. Ele olhou para ela. O vestido de algodão leve de Eduarda marcava a curvatura de sua barriga e o volume novo de seus seios, que haviam crescido com a gestação, tornando-se mais fartos e sensíveis.
— Duda — a voz dele saiu como um comando rouco.
Ela se virou, encontrando-o perigosamente perto. A tensão sexual que eles vinham cozinhando em banho-maria nos últimos meses finalmente atingiu o ponto de ebulição.
— Emanuel... a gente não deveria... — ela começou, mas a voz falhou quando ele colocou as mãos em sua cintura, puxando-a para perto.
— Eu não aguento mais, Duda. Eu cuido de você, eu protejo você... mas eu preciso sentir você.
— E a Sara? — ela sussurrou, embora suas mãos já estivessem subindo pelo peito largo dele, agarrando a camisa de linho.
— A Sara sabe. Ela quer isso tanto quanto eu.
O beijo foi uma explosão de sentimentos contidos. Não houve delicadeza inicial; foi um encontro de urgências. Emanuel a prensou contra uma pilha de feno macio, suas mãos grandes explorando as curvas novas do corpo dela. Eduarda soltou um gemido manhoso, entregando-se totalmente. Ela sentia-se segura e, ao mesmo tempo, perigosamente exposta.
Emanuel levantou o vestido dela com agilidade, seus dedos tatuados contrastando com a pele alva e macia das coxas de Eduarda. Ele a venerava com os olhos e com as mãos.
— Você é tão linda, Duda — ele murmurou contra a pele do pescoço dela. — Tão doce.
Ele a possuiu ali mesmo, entre o cheiro do campo e o calor da tarde. Foi uma transa lenta, profunda e carregada de uma possessividade que Emanuel não conseguia mais esconder. Eduarda arqueava as costas, a postura de bailarina conferindo uma graça até mesmo naquele momento de entrega selvagem. Ela era dele. Em sua mente, ele era o pai de sua filha, o homem que a salvara da ruína, e aquele ato era a confirmação de um vínculo que ninguém poderia quebrar.
O prazer foi intenso, deixando ambos ofegantes e suados, perdidos um no outro sobre o feno dourado. Emanuel a abraçava, protegendo sua barriga com uma das mãos, enquanto a outra acariciava seus cabelos.
O que eles não esperavam era que a porta lateral do celeiro, que rangia por falta de óleo, se abrisse lentamente.
Tia Judith, a irmã mais velha do avô de Emanuel, uma mulher que usava o terço no pescoço como se fosse uma arma de guerra e cujos valores morais haviam parado em 1940, entrou no celeiro procurando por uma cesta de vime que fora deixada ali.
— Mas o que é... — A voz dela morreu na garganta.
Emanuel e Eduarda se sobressaltaram. Emanuel, com reflexos rápidos, cobriu o corpo de Eduarda com sua própria camisa, mas era tarde demais. A cena era inequívoca. Judith estava estática, os olhos arregalados por trás dos óculos de grau grosso, a boca aberta em um "O" perfeito de puro horror.
— Emanuel? Eduarda? — Ela gaguejou, levando a mão ao peito. — Mas... mas vocês são primos! E a Sara... a Sara está lá na casa grande!
Emanuel, mantendo a calma fria que o caracterizava em crises, levantou-se lentamente, ajustando as calças, enquanto Eduarda tentava se esconder atrás dele, o rosto vermelho de uma vergonha absoluta.
— Tia Judith — disse Emanuel, a voz firme, sem um pingo de arrependimento —, a senhora não deveria estar aqui.
— Eu... eu vou ter um síncope! — Judith exclamou, começando a abanar-se com a mão trêmula. — Isso é pecado! É luxúria! É... é... Emanuel, você engravidou a menina e agora a desonra no meio do mato como se fossem animais?
— Tia, por favor! — Eduarda choramingou, a voz abafada pelas costas de Emanuel.
— Não fale, Eduarda! — Judith apontou um dedo acusador. — Você, que sempre foi a santinha da família! Uma bailarina! Uma professora! No feno! Com o primo! Que já tem outra grávida!
Nesse momento, Sara apareceu na porta principal, atraída pelos gritos da tia. Ela observou a cena: Emanuel sem camisa, Eduarda descabelada e Judith prestes a desmaiar. Em vez de escândalo, Sara soltou uma gargalhada sonora que ecoou pelas vigas do teto.
— Ora, tia Judith — disse Sara, caminhando com elegância até o grupo, sem se importar com o caos. — Deixe de ser antiga. O feno é ótimo para a circulação, sabia?
— Sara! — Judith gritou, chocada. — Você está vendo isso? O seu homem com a outra! No celeiro!
— Eu estou vendo um homem cuidando das suas mulheres, tia — Sara respondeu, colocando a mão no ombro de Judith e começando a conduzi-la para fora. — O Emanuel tem muito vigor, a senhora sabe como é. Vamos entrar, vou te dar um chá de camomila e a senhora me conta como era na sua época, quando as pessoas faziam as mesmas coisas, mas fingiam que estavam rezando.
— Isso é o fim dos tempos! — Judith continuava a protestar enquanto era levada. — Eu vou contar para o seu avô! Eu vou contar para o padre!
Lá dentro, o silêncio retornou, quebrado apenas pelo som dos cavalos nas baias. Eduarda olhou para Emanuel, os olhos cheios de lágrimas e um sorriso nervoso brincando nos lábios.
— O que a gente vai fazer agora? — ela perguntou.
Emanuel a puxou para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça.
— Agora? Agora o mundo inteiro vai saber o que eu já sabia desde o início, Duda. Que vocês duas são minhas. E se a tia Judith quer fazer um escândalo, que faça. Eu paguei o preço com sangue naquela noite na sala; agora eu pago com a língua do povo.
Eduarda encostou a cabeça no peito dele, sentindo as batidas fortes do coração de Emanuel. O medo da desaprovação da família ainda existia, mas, ali, nos braços dele, com a proteção de Sara e a certeza de que Maya e Ágata cresceriam sob o mesmo teto, o escândalo parecia um preço pequeno.
— Você é louco, Emanuel — ela sussurrou.
— Sou — ele concordou, apertando-a mais. — Louco por essa nossa família torta. E ninguém vai mudar isso.
Enquanto caminhavam de volta para a casa grande, viram de longe a tia Judith gesticulando freneticamente para o avô na varanda, enquanto Sara, calmamente, retocava o batom vermelho, observando o pôr do sol. O caos estava apenas começando, mas, pela primeira vez, Emanuel sentia que não precisava mais esconder nada. O celeiro fora o palco de sua libertação, e o sabor daquela união era muito mais doce do que qualquer convenção social.