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O Trono de Arthur e a Sombra do Patriarca
O triplex nunca pareceu tão pequeno para o ego e a presença de Emanuel quanto naquela manhã de terça-feira. O resultado do exame de sangue estava sobre a mesa de mármore da cozinha, uma sentença definitiva que havia alterado o eixo da gravidade naquela casa. Eduarda estava grávida de quatro meses, e a ultrassonografia morfológica precoce não deixara dúvidas: um menino. Arthur.
Emanuel não apenas aceitara a notícia; ele havia sido possuído por ela. Desde que o sexo do bebê fora confirmado, o tatuador e empresário rico parecia ter retrocedido a uma linhagem de antepassados que governavam terras e linhagens com punho de ferro. Não era uma agressividade ruim, mas um instinto de proteção e posse que beirava o arcaico.
— Você não vai descer essas escadas sozinha hoje, Eduarda — decretou Emanuel, sua voz ressoando pela sala enquanto ele observava a prima e amante tentar alcançar o corrimão.
— Emanuel, eu sou professora de ballet! — Eduarda protestou, soltando um riso curto, embora estivesse visivelmente cansada. — Eu tenho equilíbrio suficiente para descer dez degraus sem cair.
— O equilíbrio de uma bailarina não conta quando você está carregando o meu herdeiro — ele rebateu, aproximando-se com passos firmes. Ele a pegou pela cintura, quase a suspendendo do chão. — O centro de gravidade muda. O risco aumenta. De agora em diante, você só circula por esta casa com supervisão ou se eu instalar um elevador interno.
Sara, que passava pelo corredor usando um conjunto de lingerie de renda vermelha e um robe transparente, soltou uma gargalhada vibrante, encostando-se no batente da porta com sua habitual ironia.
— Alguém chame um antropólogo, porque o Emanuel virou um homem das cavernas — provocou a loira, retocando o batom chamativo. — O que foi, querido? O fato de ser um menino despertou o seu lado "dono da tribo"?
— Não comece, Sara — Emanuel advertiu, mas sem raiva. Ele a puxou para perto também, mantendo as duas mulheres sob seu domínio físico. — É diferente. As meninas são nossas joias, mas o Arthur... ele é a continuidade de tudo o que eu construí. Eu não vou arriscar um centímetro da saúde dele.
— Ele está impossível, Sara — queixou-se Eduarda, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Ele quer controlar o que eu como, a hora que eu durmo e até o tipo de música que eu ouço "para não estressar o garoto".
— Aproveite, boneca — Sara deu de ombros, sorrindo. — Pelo menos ele parou de monitorar se eu estou gastando demais na loja para focar na sua barriga. Mas falando em atenção... temos um problema ali no canto.
Sara apontou com o queixo para o tapete da sala. Maya, com seus cachos castanhos e olhos grandes, estava sentada de costas para eles. Ela segurava um par de sapatinhos de lã azul que Emanuel comprara no dia anterior. A pequena não brincava; ela apenas olhava para os sapatos com uma expressão de profunda traição.
— Maya? — chamou Eduarda, desencilhando-se de Emanuel. — Venha aqui com a mamãe, querida.
A menina não se moveu. Pelo contrário, ela pegou um dos sapatinhos e o arremessou com toda a força que seus pequenos braços permitiam em direção ao vaso de orquídeas.
— Não! — Maya gritou, a voz infantil carregada de um ciúme que ela ainda não sabia nomear. — Bebê não! Maya!
Emanuel suspirou, sentindo a primeira rachadura em seu império perfeito. Ele caminhou até a filha, agachando-se à altura dela.
— Maya, escute o papai. O Arthur é seu irmãozinho. Ele vai precisar de você.
— Não! — A menina cruzou os braços, fazendo o mesmo biquinho manhoso que Eduarda fazia quando queria algo. — Papai da Maya. Arthur não.
— Ela está sentindo o cheiro da mudança no ar — comentou Sara, cruzando as pernas e observando a cena. — Você passou os últimos três dias falando no telefone sobre "o quarto do Arthur", "os investimentos do Arthur", "o futuro do Arthur". A menina não é boba, Emanuel. Ela sabe que o trono dela está sendo ameaçado por um invasor de fraldas.
Emanuel pegou Maya no colo, mas a menina se debateu, querendo descer. O ciúme de Maya era silencioso e persistente, uma sombra que acompanhava cada gesto de carinho que Emanuel dedicava à barriga de Eduarda.
— Eu vou levar ela para o jardim — disse Eduarda, preocupada. — Talvez ela precise de um tempo só comigo.
— Nada disso — Emanuel interveio, o tom de comando voltando a dominar sua voz. — Você não vai carregar peso, Eduarda. A Maya está pesada e você está na fase sensível da gestação. Deixe que a babá a leve, ou eu mesmo levo. Você vai se sentar e descansar.
— Emanuel, é a minha filha! — Eduarda exclamou, a irritação começando a superar a doçura. — Você está sendo... sufocante.
— Eu estou sendo prático — ele rebateu, a mandíbula tensa. — Se algo acontece com você ou com o Arthur porque você insistiu em fazer esforço desnecessário, eu nunca me perdoaria. E você também não.
Eduarda olhou para Sara, buscando um pouco de sanidade, mas a loira apenas piscou. Sara entendia a mente de Emanuel melhor do que ninguém; ele não era um homem de meios-termos. Para ele, a gravidez de Arthur era uma missão de estado.
— Deixe ele, Duda — disse Sara. — Quando o Arthur nascer e começar a chorar às três da manhã, o Emanuel vai descobrir que o "herdeiro" é um ser humano que faz cocô e grita, e aí ele volta ao normal. Por enquanto, deixe ele brincar de patriarca.
Mais tarde, o clima na casa continuava tenso. Emanuel havia decidido, por conta própria, que o quarto de Arthur seria o maior da casa, o que exigiria uma reforma que deslocaria parte do estúdio de tatuagem que ele mantinha no triplex para uso privado.
— Você vai mesmo tirar as suas máquinas daqui para dar espaço a um berço de carvalho? — perguntou Sara, enquanto observava os operários medirem o espaço.
— Eu posso tatuar em qualquer um dos meus dez estúdios na cidade, Sara — Emanuel respondeu, sem tirar os olhos da planta baixa. — Mas o Arthur precisa de espaço. Ele precisa de luz natural e de um sistema de purificação de ar de última geração.
— E as meninas? — Sara arqueou a sobrancelha. — O quarto da Ágata e da Maya é metade desse tamanho.
Emanuel parou o que estava fazendo e olhou para ela. Havia uma seriedade quase sombria em seus olhos.
— Elas terão tudo o que quiserem, Sara. Sempre. Mas o Arthur... ele carrega o meu nome. Ele vai ser o rosto da família. É uma responsabilidade diferente.
— Cuidado, Emanuel — Sara avisou, a voz perdendo o tom de brincadeira. — O machismo fica mal em você quando começa a afetar as meninas. Elas sentem a preferência. A Maya está chorando escondida no closet da Duda porque você não a levou para tomar sorvete ontem, como faz todo sábado, porque estava ocupado escolhendo o enxoval azul.
Emanuel sentiu uma pontada de culpa, mas a sua natureza controladora era difícil de domar. Ele caminhou até o quarto de Eduarda, encontrando-a deitada, lendo um livro sobre desenvolvimento infantil.
— Como você está? — ele perguntou, sentando-se na beirada da cama e colocando a mão sobre o ventre dela.
— Arthur está agitado — ela respondeu, cobrindo a mão dele com a sua. — Acho que ele sente a sua tensão.
— Eu só quero que tudo seja perfeito, Duda.
— Nada é perfeito, Emanuel. E você está afastando a Maya. Ela é sensível, você sabe disso. Ela acha que você não a ama mais porque ela não é um menino.
Emanuel fechou os olhos por um momento. A complexidade de sua vida emocional estava cobrando o preço.
— Eu a amo. Mas este menino... Duda, você não entende o que ele representa para mim. Eu cresci em uma família onde o poder passava de pai para filho de forma bruta. Eu quero fazer diferente, mas quero que ele tenha a força que eu tive que conquistar sozinho.
— Ele vai ter a força que você der a ele, mas ele também precisa de um pai que não seja um ditador — Eduarda disse suavemente, puxando-o para um beijo.
A paz durou pouco. Um estrondo veio do corredor, seguido pelo choro agudo de Maya. Emanuel e Eduarda correram para ver o que havia acontecido.
No meio do corredor, um dos vasos de cristal que Emanuel comprara para decorar a entrada do futuro quarto de Arthur estava estraçalhado no chão. Maya estava parada diante dos cacos, com as mãos sujas de terra e o rosto banhado em lágrimas de pura raiva.
— Quebrei! — ela gritou, apontando para os restos do vaso. — Quebrei o Arthur!
Emanuel sentiu a fúria subir, mas ao ver o desespero nos olhos da filha, a raiva se transformou em um peso no estômago. Ele deu um passo à frente, mas Maya recuou.
— Maya, por que você fez isso? — a voz dele foi firme, mas não alta.
— Papai só olha pro azul! — ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Papai não vê a Maya!
Eduarda tentou se aproximar, mas Emanuel a segurou.
— Não se abaixe, Duda. Tem vidro por todo lado.
— Emanuel, pelo amor de Deus, esqueça o vidro por um segundo! — Eduarda explodiu, soltando-se dele. — Ela está sofrendo!
Sara apareceu logo atrás, observando o cenário com um suspiro pesado.
— Eu disse que isso ia acontecer. O "Rei Arthur" nem nasceu e já está causando uma guerra civil.
Emanuel olhou para as três mulheres de sua vida. Eduarda, grávida e emocionalmente intuitiva; Sara, prática e observadora; e Maya, a pequena bailarina que ele tanto protegera, agora ferida pelo seu próprio entusiasmo excessivo pelo herdeiro.
Ele caminhou por cima dos cacos, ignorando o risco de cortar os próprios pés, e pegou Maya no colo com força. A menina lutou no início, mas depois se rendeu, enterrando o rosto no pescoço do pai.
— Me desculpe, pequena — Emanuel sussurrou, a voz falhando pela primeira vez em muito tempo. — O papai errou. O Arthur é só um bebê, ele não vai tirar nada de você.
Ele olhou para Eduarda e Sara.
— Eu vou levar a Maya para o jardim. Vamos plantar algo juntos. Algo que seja dela.
— E o Arthur? — perguntou Eduarda, com um meio sorriso.
— O Arthur vai ter que aprender a dividir o trono com a irmã mais velha — Emanuel admitiu, dando um beijo na testa de Maya. — E eu vou ter que aprender que um filho não é um projeto de negócios, mas uma vida.
Sara sorriu, satisfeita.
— Finalmente o cérebro voltou para a cabeça. Agora, limpem essa bagunça. Eu tenho uma loja para gerenciar e não quero ver ninguém sangrando quando eu voltar.
Emanuel saiu com Maya nos braços, sentindo o peso da responsabilidade triplicado. Ele ainda era o protetor, ainda era o homem que queria controlar o mundo para que elas fossem felizes, mas o ciúme de Maya e a firmeza de Eduarda haviam lhe ensinado uma lição valiosa.
Enquanto descia para o jardim, ele sentiu Arthur chutar dentro do ventre de Eduarda, quase como se o menino estivesse concordando. O império de Emanuel não seria feito de mármore e regras rígidas, mas de uma teia complexa de amores, ciúmes e reconciliações. E, no fim das contas, era exatamente isso que o tornava o homem mais rico do mundo.
— Papai? — Maya murmurou, já mais calma, enquanto observavam as flores.
— Oi, meu amor.
— O Arthur pode brincar de boneca comigo?
Emanuel riu, imaginando o futuro herdeiro de seus estúdios de tatuagem sendo forçado pela irmã a participar de chás de bonecas.
— Tenho certeza de que ele vai adorar, Maya. Ele não vai ter muita escolha com uma irmã como você.
A paz, finalmente, voltou ao triplex, mas Emanuel sabia que era uma paz vigilante. Arthur estava chegando, e com ele, uma nova era. Mas, desta vez, o patriarca estava pronto para ser, acima de tudo, apenas um pai.