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O Triunfo do Desejo e o Som da Inocência

O sol da manhã entrava pelas amplas janelas de vidro do triplex, iluminando o caos luxuoso que se tornara a vida de Emanuel. No centro da sala de estar, sobre um tapete persa de valor inestimável, duas crianças de um ano de idade representavam perfeitamente o dualismo que governava aquela casa.

Ágata, a filha de Sara, já se mantinha em pé com uma postura que beirava a arrogância. Usava um vestido de grife em miniatura, cheio de babados e brilhos, e segurava uma boneca importada como se fosse um troféu. Se outra criança se aproximava de seus brinquedos, ela apenas arqueava uma sobrancelha loira e empurrava o objeto para longe, com um olhar de desdém que era a cópia fiel do de sua mãe. Ela era soberba, imponente e sabia exatamente como atrair todos os olhares para si.

Ao lado dela, sentada de forma mais contida, estava Maya. A filha de Eduarda era o oposto. Com seus olhos grandes e expressivos, herdados da mãe, ela observava o mundo com uma timidez doce. Maya nascera com uma cardiopatia congênita que assustara a todos nos primeiros meses, mas, após uma cirurgia bem-sucedida e cuidados meticulosos de Emanuel, ela era agora uma bebê saudável, ainda que mais delicada. No entanto, por trás daquela aparência de anjo tímido, escondia-se uma pequena travessa; Maya era mestre em engatinhar silenciosamente para debaixo das mesas e "redecorar" as plantas da casa quando ninguém estava olhando.

Emanuel observava a cena do mezanino, encostado no parapeito de aço escovado. Ele estava mais rico, mais influente e, visivelmente, mais realizado. A barba estava bem aparada, e as tatuagens em seus braços pareciam mais nítidas sob a luz. Ele conseguiu o que muitos diziam ser impossível: mantinha as duas mulheres sob o mesmo teto, em uma harmonia que desafiava a moral da sociedade mineira.

— Elas estão calmas demais. Isso me assusta — disse Sara, aproximando-se dele. Ela usava um robe de seda preta, aberta o suficiente para mostrar que, mesmo após a gravidez, seu corpo siliconado continuava impecável. — Ágata já tentou morder a babá hoje porque o leite não estava na temperatura que ela gosta. Aquela menina vai comandar um império ou uma prisão, ainda não decidi.

Emanuel riu, puxando Sara pela cintura e dando-lhe um beijo possessivo.

— Ela tem a quem puxar, Sara. É uma líder nata.

— E a Maya? — Sara olhou para a outra bebê com um carinho genuíno. — Ela está ali, fingindo que está lendo aquele livrinho de pano, mas eu sei que ela já escondeu o meu batom favorito dentro do vaso de porcelana. Eu vi o brilho nos olhos dela.

— Ela é a minha pequena bailarina — Emanuel murmurou, seu olhar suavizando. — Ela tem a alma da Eduarda, mas a esperteza de quem sabe que o silêncio é a melhor arma.

Nesse momento, Eduarda saiu do corredor dos quartos. Ela usava um conjunto de malha leve, tons pastéis, e seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo prático. Ela parecia ter florescido na maternidade; a insegurança de antes fora substituída por uma serenidade radiante, embora mantivesse o jeito manhoso que sempre enlouquecera Emanuel.

— Maya, querida, não coloque isso na boca! — Eduarda exclamou, descendo as escadas apressada ao ver a filha tentando mastigar uma peça de Lego que Ágata havia "gentilmente" deixado no caminho.

Emanuel desceu logo atrás, seus olhos fixos no movimento dos quadris de Eduarda. Havia algo nela que o atraía de uma forma quase primitiva. Enquanto Sara era o fogo que o desafiava, Eduarda era a terra que o nutria. E, ultimamente, um desejo específico vinha consumindo seus pensamentos.

Após o almoço, enquanto as bebês dormiam sob a supervisão das babás e Sara saíra para resolver pendências em sua loja de roupas, o apartamento ficou mergulhado em um silêncio raro. Emanuel encontrou Eduarda no estúdio de dança que ele mandara construir para ela em uma das alas do triplex. Ela estava praticando alguns movimentos leves na barra, a silhueta graciosa refletida nos espelhos do teto ao chão.

Ele parou na porta, observando-a. O suor brilhava em seu pescoço, e a respiração era rítmica. Emanuel sentiu aquela tensão familiar no baixo ventre. Ele era, por natureza, um homem que gostava de controle, mas Eduarda o fazia querer se perder.

— Você está cada dia mais bonita, Duda — disse ele, entrando no recinto e fechando a porta atrás de si.

Eduarda parou o movimento, virando-se para ele com um sorriso ofegante.

— Eu me sinto bem. Sinto que recuperei meu corpo depois da Maya.

Emanuel aproximou-se, envolvendo-a por trás e espalhando beijos pelo seu ombro. Suas mãos desceram para o ventre dela, ainda plano e firme, mas que ele já imaginava crescendo novamente.

— Eu amo o seu corpo, Duda — ele sussurrou no ouvido dela, a voz carregada de uma urgência sombria. — Mas eu sinto falta de algo.

Eduarda inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos sob o toque dele.

— Falta de quê, Emanuel? Você tem tudo. Tem a mim, tem a Sara, as meninas...

— Falta um menino — ele declarou, virando-a de frente para si. — Eu quero um filho seu, Duda. Eu quero ver você grávida de novo.

Eduarda arregalou os olhos levemente, uma mistura de surpresa e desejo brilhando neles.

— Outro bebê? Agora? A Maya acabou de fazer um ano, Emanuel. E a Ágata também exige tanto de nós...

— Eu não me importo — ele a prensou contra a barra de ballet, suas mãos subindo para apertar os seios dela, que ele sabia serem o ponto fraco de sua sensibilidade. — Eu sou tarado por você grávida, sabia? Aquele brilho na sua pele, o jeito como você fica mais manhosa, o peso do meu filho crescendo dentro de você... Isso me deixa louco.

Eduarda soltou um suspiro trêmulo. Ela amava a forma como Emanuel a desejava, como se ela fosse a única mulher no mundo, apesar de saber que Sara compartilhava daquele mesmo homem.

— Você é um homem insaciável — ela murmurou, passando os braços pelo pescoço dele.

— Por você? Sempre — ele respondeu, baixando a alça do top de dança dela. — Imagine um menino, Duda. Um pequeno Emanuel com os seus olhos. Ele completaria o nosso império. A Sara concorda. Ela disse que não quer engravidar de novo tão cedo, quer focar na expansão da loja, mas ela adoraria ter um menino correndo por aqui.

— Ela disse isso? — Eduarda perguntou, surpresa.

— Disse. Nós conversamos ontem à noite. Ela sabe o quanto eu desejo isso de você.

Emanuel não esperou por mais argumentos. Ele a tomou ali mesmo, no chão de madeira do estúdio, em meio ao reflexo de dezenas de espelhos que multiplicavam a imagem daquela entrega. Para ele, ver Eduarda vulnerável e receptiva era o ápice de seu poder. Ele a amava com uma intensidade que beirava o doentio, e a ideia de perpetuar sua linhagem através daquela doçura era sua maior ambição.

Horas mais tarde, Sara retornou, encontrando os dois na cozinha, compartilhando um vinho enquanto observavam as babás prepararem o jantar das crianças. Ela percebeu imediatamente o clima no ar. O olhar de Emanuel para Eduarda estava mais pesado, e Eduarda tinha aquele rubor característico nas bochechas.

— Pelo visto, o projeto "herdeiro" já começou — disse Sara, jogando as chaves do carro sobre a bancada e servindo-se de uma taça.

— Ele é persistente, Sara — Eduarda disse, tentando esconder o sorriso.

— Ele é um animal, isso sim — Sara riu, aproximando-se e dando um tapinha carinhoso na barriga de Eduarda. — Mas eu apoio. Quero um menino para ensinar a colocar essas duas pequenas pestes na linha. A Ágata já está achando que é a rainha da Inglaterra, e a Maya... bem, a Maya precisa de um cúmplice para as travessuras dela.

Emanuel abraçou as duas, uma em cada braço. Ele se sentia no topo do mundo.

— Vai ser um menino — ele afirmou com convicção. — E ele vai ter as melhores mães que alguém poderia desejar.

— E o pai mais possessivo da história — completou Sara, beijando o rosto dele.

A rotina seguiu, mas com uma nova eletricidade pairando no apartamento. Emanuel estava mais atento do que nunca a Eduarda. Ele monitorava seu ciclo, trazia-lhe presentes caros e a cercava de cuidados que a faziam se sentir uma rainha.

Certa tarde, enquanto as famílias estavam reunidas para o chá, a tia Judith — que agora frequentava a casa a contragosto, apenas para ver as sobrinhas-netas — observava a dinâmica com seu habitual olhar crítico.

— Vocês vivem em um pecado constante — resmungou a velha, enquanto Ágata ignorava solenemente um brinquedo que a tia lhe oferecera, preferindo brincar com o colar de pérolas de Sara. — Duas mulheres, um homem... e agora ouvi boatos de que querem mais um?

— O pecado, tia Judith, é uma questão de perspectiva — respondeu Emanuel, sem tirar os olhos de Maya, que estava tentando, sem sucesso, subir no sofá. — Minhas filhas são amadas, minhas mulheres são rainhas e eu sou um homem completo. Se isso é pecado, o céu deve ser um lugar muito entediante.

— Você é um atrevido, Emanuel! — Judith bufou. — E essa menina, a Ágata... ela tem um nariz tão empinado que me dá tontura.

— Ela sabe o que vale, tia — Sara interveio, piscando para a filha. — Diferente de muita gente que passa a vida se escondendo atrás de terços.

A tensão foi quebrada pelo som de algo quebrando na cozinha. Todos correram para ver. Maya estava sentada no chão, cercada pelos restos de um prato de porcelana que ela conseguira derrubar da bancada baixa. Ela olhou para todos com seus olhos enormes, fez um biquinho manhoso e estendeu os braços para Emanuel.

— Papai... — ela balbuciou, a voz doce e vacilante.

Emanuel a pegou no colo instantaneamente, verificando se havia algum corte.

— Está tudo bem, meu anjo. O papai limpa.

— Ela faz isso de propósito — comentou Ágata, ou ao menos foi o que pareceu pela forma como a bebê balançou a cabeça e voltou a brincar com suas bonecas, claramente desinteressada no drama da irmã.

Naquela noite, após o turbilhão familiar, Emanuel e Eduarda estavam deitados na cama king-size. O quarto estava na penumbra, apenas com a luz da lua filtrada pelas cortinas de linho.

— Você acha que eu vou conseguir ser uma boa mãe para dois, Emanuel? — Eduarda perguntou, aninhando-se no peito dele. — Às vezes eu me sinto tão pequena diante de tudo isso.

Emanuel acariciou o braço dela, sentindo a maciez da pele.

— Você é o coração desta casa, Duda. A Sara é a estrutura, mas você é o que dá vida a tudo isso. Eu nunca deixaria você cair.

Ele se inclinou sobre ela, seus olhos brilhando com uma intensidade que a fez estremecer.

— Eu sinto que já está acontecendo — ele sussurrou, a mão repousando sobre o ventre dela. — Eu sinto que o meu menino já está aqui.

Eduarda sorriu, deixando-se levar pela certeza dele. Ela sabia que a vida deles era fora dos padrões, que muitos os olhariam com nojo ou inveja, mas dentro daquelas paredes, sob a proteção de Emanuel e a cumplicidade de Sara, ela encontrara um lar.

— Se for um menino — ela disse baixinho —, ele vai ser tão teimoso quanto você.

— E tão amado quanto você — ele respondeu, antes de selar o destino deles com mais um beijo.

O império de Emanuel estava crescendo. Entre a soberba de Ágata, a doçura travessa de Maya e a promessa de um novo herdeiro, ele sabia que tinha construído algo indestrutível. O preço fora alto — socos, escândalos e rompimentos familiares —, mas, ao observar as duas mulheres de sua vida e a promessa de um futuro cheio de vozes infantis, ele sabia que cada gota de sangue e cada mentira dita no passado haviam valido a pena. Ele era o senhor de seu próprio destino, e sua família, por mais torta que parecesse aos olhos dos outros, era o seu maior triunfo.

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