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O Ciúme do Rei e o Pequeno Anel de Plástico

O tempo na cobertura de Emanuel não corria; ele galopava, transformando o silêncio austero de outrora em uma sinfonia caótica de risadas, choros e o som de pés pequenos batendo contra o mármore. Três anos haviam se passado desde o incidente que quase fragmentara a paz da família, e muita coisa havia mudado sob o teto do tatuador.

Ágata, agora com cinco anos, mantinha o olhar gélido e a postura de rainha, mas a convivência forçada e a disciplina rígida de Emanuel haviam lapidado suas arestas mais cortantes. Ela ainda era a dona do mundo, mas aprendera que Maya era o seu território protegido, não o seu alvo. Maya, por sua vez, florescera como uma flor delicada em solo fértil, tornando-se a sombra doce de Eduarda.

Mas o verdadeiro terremoto chegara dois anos atrás. Eduarda, em uma entrega absoluta ao amor que nutria por Emanuel, dera à luz Arthur. O menino era um furacão de cabelos castanhos e olhos intensos, a cópia fiel da energia indomável do pai, mas com a sensibilidade intuitiva da mãe. Emanuel e Arthur tinham uma ligação que beirava o sobrenatural; o homem mais poderoso do império da tatuagem transformava-se em uma criança gigante quando o filho pulava em suas costas. E, para completar o quadro, Sara, em um momento de generosidade e desejo de expandir o clã, tivera Valentina, uma bebê de poucos meses que parecia ter herdado a calma que faltava a todos os outros.

Emanuel estava no seu escritório, tentando concentrar-se no projeto de uma convenção em Berlim, quando a porta foi aberta sem cerimônias. Não era Sara com seu sarcasmo, nem Eduarda com sua timidez. Era Maya.

A menina entrou com passos decididos, segurando as pontas do vestido de renda que Eduarda insistia em vesti-la. Ela subiu na cadeira giratória de couro de Emanuel e apoiou os cotovelos na mesa, olhando-o com uma seriedade solene.

— Papai Manu, preciso te contar uma coisa muito séria — disse Maya, a voz doce, mas carregada de importância.

Emanuel largou a caneta, um sorriso de canto surgindo em seu rosto. Ele adorava quando Maya o chamava assim, uma mistura de respeito e afeto puro que ele conquistara com paciência.

— Diga, minha pequena. O que é tão sério que te fez interromper o meu trabalho?

Maya estendeu a mãozinha direita. No dedo anelar, brilhava um anel de plástico azul com uma pedra de vidro mal colada, claramente um brinde de alguma máquina de moedas do parque.

— Eu estou namorando, papai. O Leo, do parque. Ele me deu esse anel e disse que agora eu sou a noiva dele — anunciou ela, com as bochechas coradas e um brilho de orgulho nos olhos.

O sorriso de Emanuel desapareceu instantaneamente. O ar na sala pareceu esfriar dez graus. Ele sentiu um latejo na têmpora, o mesmo que sentia quando alguém tentava sabotar um de seus estúdios.

— Namorando? — A voz de Emanuel saiu rouca, quase um rosnado contido. — Maya, você tem quatro anos. Quem é esse... Leo? E onde ele pensa que está para dar anéis para a minha filha?

— Ele é meu colega de balanço! — explicou Maya, alheia à tempestade que se formava no rosto do pai. — Ele é muito forte e me deu o anel antes da mamãe Duda me chamar para ir embora. Ele disse que vai casar comigo quando a gente tiver dez anos.

Emanuel levantou-se da cadeira, a altura imponente fazendo sombra sobre a mesa. A racionalidade que ele usava para gerir milhões de dólares evaporou, dando lugar ao instinto primitivo do protetor.

— Dez anos? Ele vai estar em um reformatório aos dez anos se chegar perto de você de novo! — Emanuel saiu de trás da mesa, pegando o celular no bolso. — Onde está a Eduarda?

Ele não esperou a resposta. Saiu do escritório a passos largos, com Maya correndo atrás dele, tentando acompanhar suas pernas compridas.

— Manu! Por que você está bravo? O anel é azul, sua cor favorita! — gritava a menina.

Emanuel chegou à sala de estar, onde o caos habitual reinava. Arthur estava correndo em círculos ao redor do sofá, fazendo barulhos de motor, enquanto Ágata tentava ler um livro de ilustrações, ignorando o irmão com uma paciência fingida. Sara estava no bar, retocando o batom enquanto segurava Valentina no colo, e Eduarda estava dobrando algumas mantas, com aquele ar de paz que sempre desarmava Emanuel. Até agora.

— Eduarda! — a voz dele ecoou, fazendo Arthur parar de correr e Ágata erguer as sobrancelhas.

— O que foi, Manu? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Eduarda, aproximando-se com preocupação imediata, os olhos grandes cheios de doçura.

— O que aconteceu é que a nossa filha está noiva! — Emanuel apontou para a mão de Maya. — Quem é esse Leo? Por que você permitiu que um delinquente juvenil desse joias para ela no parque?

Sara soltou uma gargalhada alta, quase engasgando com o próprio drink.

— Noiva? Ah, Maya, que bom gosto! Azul combina com seus olhos, querida — provocou Sara, olhando para Emanuel com deboche. — Relaxa, Manu. É uma criança de quatro anos. O "delinquente" provavelmente ainda usa fraldas para dormir.

— Não me interessa! — Emanuel estava andando de um lado para o outro. — Ninguém dá anéis para as minhas filhas. Primeiro é um anel de plástico, depois é um convite para o cinema, e antes que a gente perceba, tem um moleque de cabelo espetado sentado no meu sofá pedindo a mão dela em casamento!

— Manu, pelo amor de Deus — Eduarda tocou o braço dele, tentando acalmá-lo. — O Leo é um menino adorável. A mãe dele é professora. Foi só uma brincadeira de criança. A Maya ficou tão feliz...

— Feliz? Ela é minha! — Emanuel parou na frente de Eduarda, a possessividade brilhando em seus olhos escuros. — Ninguém toca na Maya, nem na Ágata, nem na Valentina. E o Arthur... o Arthur vai me ajudar a vigiar esses garotos. Não é, campeão?

Arthur, sentindo a tensão e o chamado do pai, bateu no peito com a mão pequena.

— Eu bato neles, papai! Eu sou o furacão!

— Isso mesmo! — Emanuel pegou Arthur no colo, apontando para o anel de Maya. — Viu isso, Arthur? Isso é o inimigo.

— Emanuel, você está enlouquecendo — Sara disse, caminhando até ele e tirando Valentina do colo para colocá-la no cercadinho. — Você é um homem de vinte e oito anos, dono de metade do mundo da tatuagem, e está declarando guerra a um menino que provavelmente nem sabe amarrar os sapatos.

— Eu não estou declarando guerra, Sara. Eu estou estabelecendo perímetros de segurança — Emanuel olhou para Maya, que agora parecia um pouco assustada com a reação do pai. Ele suspirou, sentindo a raiva ser substituída por aquele ciúme dolorido de quem sabe que, um dia, suas meninas realmente cresceriam.

Ele se ajoelhou na frente de Maya, colocando Arthur no chão.

— Maya, escute o papai. Você é muito pequena para anéis. Se você quiser joias, o papai compra as melhores para você. Diamantes, esmeraldas... o que você quiser. Mas esse Leo... ele não pode te dar nada. Entendeu?

— Mas ele é meu amigo, papai Manu... — os olhos de Maya encheram-se de lágrimas, e o coração de Emanuel, aquele que ele jurava ser feito de aço, derreteu-se instantaneamente.

— Oh, não, não chore — Emanuel a puxou para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça. — Você pode ser amiga dele. Mas nada de anéis. E nada de casar aos dez anos. Vamos renegociar isso para quando você tiver uns quarenta e cinco, está bem?

— Quarenta e cinco? — Eduarda riu, aproximando-se e abraçando os dois. — Você é impossível, Emanuel.

— Eu sou um homem prático, Duda — ele murmurou contra o cabelo dela, sentindo o cheiro de baunilha que ela sempre exalava. — E o que é meu, eu protejo.

Sara observava a cena de longe, com um sorriso de satisfação. Ela adorava ver Emanuel perdendo o controle por causa da família. Para ela, aquilo era a prova de que o homem implacável que ela conhecera na juventude agora tinha raízes profundas.

— Bom, já que o "Rei do Ciúme" terminou seu discurso — Sara disse, batendo palmas —, vamos jantar. E Emanuel, tire esse celular do bolso. Eu sei que você estava prestes a ligar para um detetive para investigar a ficha escolar do tal Leo.

Emanuel resmungou algo ininteligível, mas guardou o aparelho. Ele olhou para Ágata, que continuava lendo, alheia ao drama.

— Ágata, você não recebeu nenhum anel no colégio, recebeu? — perguntou ele, desconfiado.

Ágata levantou os olhos azuis, idênticos aos de Sara, e deu um sorriso de canto que era puro veneno e elegância.

— Papai, eu não aceito plástico. E o único homem que eu deixo me dar ordens é você. Por enquanto.

Emanuel soltou um suspiro de alívio, embora soubesse que Ágata seria um problema muito maior no futuro.

O jantar transcorreu entre a energia caótica de Arthur, que insistia em comer usando uma capa de super-herói, e a doçura de Eduarda, que tentava manter a ordem enquanto alimentava Valentina. Emanuel, no entanto, não tirava os olhos de Maya. A menina comia seu purê com a boneca de pano ao lado e o anel de plástico azul ainda brilhando no dedo.

— Ela não vai tirar o anel, Manu — sussurrou Eduarda ao pé do ouvido dele, enquanto servia o vinho. — Tente não ter um infarto.

— Eu vou confiscar isso enquanto ela dorme — Emanuel respondeu no mesmo tom, os olhos estreitados.

— Você não vai ousar — Eduarda o repreendeu com um olhar severo, mas carinhoso. — Deixe ela ter a pequena fantasia dela. Ela sabe que você é o homem mais importante da vida dela.

Emanuel olhou para a mesa, para as três mulheres e as três crianças que formavam o seu mundo improvável e maravilhoso. Ele tinha Sara, a força que o desafiava; Eduarda, a seda que o confortava; e os filhos que eram a extensão de sua alma.

— Tudo bem — cedeu ele, pegando a mão de Eduarda e beijando-a. — Mas amanhã eu vou com você ao parque. Quero ver a cara desse Leo.

— Emanuel! — Eduarda riu, jogando a cabeça para trás.

— Eu estou falando sério, Duda. Se ele for mais alto que o Arthur, eu vou ficar preocupado.

A noite caiu sobre a cobertura, trazendo a calma após a tempestade de ciúmes. Enquanto as crianças dormiam, Emanuel caminhou pelos quartos, verificando cada um deles. Parou no quarto de Maya e viu o anel azul sobre a mesa de cabeceira. Ele o pegou, sentindo o plástico barato entre os dedos. Por um momento, sentiu vontade de jogá-lo pela janela, mas a imagem de Maya chorando o deteve.

Ele colocou o anel de volta, mas não sem antes deixar um pequeno bilhete ao lado, escrito com sua caligrafia firme: "O papai te ama mais que qualquer anel do mundo".

Ao voltar para o quarto principal, encontrou Sara e Eduarda esperando por ele. Sara estava deitada, folheando uma revista de moda, enquanto Eduarda estava sentada na beira da cama, soltando os cabelos castanhos.

— O detetive particular já deu o relatório sobre o menino? — provocou Sara, sem tirar os olhos da revista.

— Muito engraçada, Sara — Emanuel tirou a camisa, revelando as tatuagens que narravam sua história. — Eu só quero garantir que elas cresçam seguras.

— Elas estão seguras, Manu — disse Eduarda, levantando-se e abraçando-o pela cintura, encostando o rosto em suas costas tatuadas. — Elas têm você. E nós temos você.

Emanuel virou-se, envolvendo as duas em seus braços fortes. Ele era um homem de posses, de poder e de renome, mas ali, naquele abraço triplo, ele entendia que sua maior riqueza não estava nos estúdios espalhados pelo mundo, mas naquelas vidas que ele protegia com a ferocidade de um leão.

— Eu amo vocês — murmurou ele, a voz carregada de uma emoção que raramente mostrava ao mundo exterior.

— Nós sabemos, seu grande bobo ciumento — Sara disse, puxando-o para um beijo, enquanto Eduarda se aninhava ao lado deles.

O império de Emanuel estava seguro. Pelo menos até o próximo passeio ao parque.

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