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O Protocolo de Segurança e a Fuga do Balanço
A manhã na cobertura de Emanuel começou com o que ele chamava de "Estado de Alerta Nível 5". O episódio do anel de plástico azul ainda ecoava em sua mente como um alarme de incêndio mal desligado. Enquanto vestia sua camisa social preta, ele observava o movimento pelo reflexo do espelho, ajustando o relógio de luxo com uma precisão cirúrgica. Ao seu lado, Sara terminava de aplicar uma camada generosa de rímel, os cílios postiços dando a ela aquele olhar predatório e magnético de sempre.
— Manu, você está com aquela cara de quem vai mandar alguém para o fundo do rio — comentou Sara, ajeitando o decote do vestido justo. — É por causa do "noivado" da Maya ou o Arthur derrubou café nos seus esboços de novo?
— O Arthur é uma criança cheia de energia, Sara. O Leo, por outro lado, é uma ameaça externa — Emanuel respondeu, a voz grave e sem um pingo de ironia. — Eu vou ao parque com a Eduarda hoje. Quero ver quem é esse garoto.
Sara soltou uma risada alta, jogando a cabeça para trás.
— Você é patético quando está com ciúmes, sabia? Um magnata das tatuagens intimidando uma criança que provavelmente ainda acredita em Papai Noel. Eu pagaria para ver a cara da Duda tentando te segurar.
Eduarda entrou no quarto naquele momento, carregando Valentina no colo e segurando a mão de Arthur. Ela parecia a imagem da serenidade, com um vestido floral leve e o cabelo castanho preso em um coque frouxo, mas seus olhos brilharam com diversão ao ouvir a conversa.
— Emanuel, você prometeu que ia se comportar — disse Eduarda, aproximando-se para beijar a bochecha dele. — O parque é um lugar de paz, não uma zona de interrogatório.
— Eu sou um observador silencioso, Duda. Apenas isso — mentiu ele, pegando Arthur no colo e dando um beijo na testa do filho.
O grupo se dividiu. Sara ficou com Valentina e Ágata, que insistia em passar a manhã na sua loja de roupas "ajudando na administração", enquanto Emanuel, Eduarda, Arthur e Maya seguiram para o parque.
O sol brilhava suavemente sobre o gramado verdejante. Maya corria na frente, o anel de plástico azul brilhando no dedo como um troféu. Eduarda e Emanuel caminhavam logo atrás, ele com os óculos escuros estrategicamente posicionados para monitorar o perímetro.
— Ali está ele! — gritou Maya, apontando para um menino de cabelos loiros bagunçados que estava sentado no banco de areia.
Emanuel parou bruscamente. Ele estreitou os olhos. O tal Leo parecia ter, no máximo, cinco anos, mas para Emanuel, ele tinha a aparência de um vilão de filme de ação em miniatura.
— Ele está usando uma camiseta do Homem-Aranha — murmurou Emanuel. — Claramente um dissidente.
— Emanuel, por favor... — Eduarda suspirou, sentando-se em um banco próximo enquanto Arthur corria para o gira-gira.
Maya se aproximou de Leo. Emanuel, fingindo ler algo no celular, aproximou-se sorrateiramente, escondendo-se atrás de um grande carvalho, a poucos metros das crianças. Ele precisava ouvir o que estava sendo tramado.
— Leo, eu tenho uma notícia ruim — disse Maya, a voz embargada de drama infantil. Ela se sentou ao lado do menino, olhando para o chão. — O papai Manu ficou muito bravo com o anel. Ele disse que eu não posso namorar e que você é um... um "delinquente".
Emanuel sentiu uma pontada de orgulho por ela ter usado a palavra certa, mas a resposta do menino o fez quase engasgar.
— O meu pai também diz que eu sou muito novo — respondeu Leo, limpando o nariz na manga da camisa. — Mas eu gosto de você, Maya. A gente pode fugir.
Emanuel travou. O mundo pareceu parar. *Fugir?*
— Fugir para onde? — perguntou Maya, os olhos arregalados de curiosidade.
— Atrás do escorregador grande. Lá tem uma caverna de arbustos. A gente pega os seus biscoitos e a minha garrafa de suco. A gente mora lá para sempre e seu pai nunca vai achar a gente.
Emanuel sentiu o sangue subir para a cabeça. Uma síncope iminente ameaçava desligar seus sentidos. Ele visualizou a cena: sua pequena Maya, sua protegida, vivendo em uma "caverna de arbustos" alimentada por biscoitos de polvilho e suco de caixa, liderada por um estrategista de cinco anos.
Ele estava prestes a sair de trás da árvore e decretar a prisão domiciliar perpétua de Leo quando um grito vindo da outra parte do parquinho o distraiu.
— O que você pensa que está fazendo?! — a voz de um homem ecoou, carregada de indignação.
Emanuel e Eduarda se viraram simultaneamente. Arthur estava parado perto de uma menina extremamente tímida, de cabelos cacheados e olhos grandes, que parecia prestes a chorar de vergonha. Arthur, com a confiança inabalável que herdara do pai, tinha acabado de depositar um beijo sonoro na bochecha da menina.
O pai da garota, um homem alto, de terno cinza e expressão severa, segurava a filha pelos ombros como se a protegesse de um ataque nuclear.
— Esse menino... ele tocou na minha filha! — o homem exclamou, olhando para Eduarda, que já corria em direção ao conflito.
— Sinto muito, senhor! — disse Eduarda, pegando Arthur pela mão. — Ele é apenas uma criança carinhosa, ele não quis ofender...
— Carinhosa? Isso é falta de limites! — o homem rosnou. — Minha filha é reservada, ela não gosta de contato físico. Esse garoto deveria ser ensinado a respeitar o espaço alheio.
Emanuel, esquecendo momentaneamente a "fuga" de Maya, caminhou até o homem. Sua presença física era esmagadora. Ele tirou os óculos escuros, revelando os olhos frios que costumavam silenciar estúdios inteiros.
— O menino é meu filho — disse Emanuel, a voz baixa e vibrante, como um trovão distante. — E embora eu concorde que o espaço pessoal deva ser respeitado, ele é uma criança de três anos expressando afeto. Não há necessidade de gritar com a mãe dele.
O homem do terno cinza pareceu vacilar por um segundo ao medir a estatura e a autoridade que emanava de Emanuel, mas o orgulho falou mais alto.
— Eu não me importo de quem ele é filho. Mantenha-o longe da minha Alice.
— Com o maior prazer — respondeu Emanuel, pegando Arthur no colo com um gesto possessivo. — Arthur, vamos embora. Este lugar está infestado de pessoas que não entendem a natureza humana.
Eduarda olhou para Emanuel, dividida entre a vergonha pelo comportamento do filho e a gratidão pela proteção do primo. Ela se virou para o homem uma última vez.
— Pedimos desculpas novamente, senhor. Arthur, peça desculpas para a Alice.
— Desculpa, Alice — disse Arthur, embora não parecesse nem um pouco arrependido. Ele olhou para o pai da menina e completou: — Seu terno é feio.
Emanuel teve que tossir para disfarçar o riso, enquanto Eduarda o puxava pelo braço para longe dali.
— Emanuel, você não ajuda! — sussurrou ela, o rosto corado.
— Ele defendeu a honra da família, Duda. E o terno era realmente de um corte péssimo — Emanuel olhou em volta, procurando por Maya.
A menina ainda estava no banco de areia, mas Leo tinha sumido.
— Onde está a Maya? — perguntou ele, o pânico voltando instantaneamente.
— Ela está ali, Manu, pegando a mochila — apontou Eduarda.
Emanuel correu até a filha, pegando-a nos braços com uma urgência que a deixou confusa.
— Papai? O que foi?
— Nada de cavernas de arbustos, Maya. Nada de biscoitos. Nós vamos para casa. Agora — decretou ele.
— Mas o Leo disse que...
— O Leo não sabe de nada! — Emanuel a interrompeu, caminhando em direção ao carro. — A partir de amanhã, você vai ter aulas de karatê. E o Arthur vai para o boxe.
— Karatê? — Eduarda riu, seguindo-os. — Emanuel, ela faz ballet!
— Ela pode fazer os dois. Um *plié* seguido de um chute lateral parece uma estratégia de defesa excelente para mim.
Ao chegarem na cobertura, Sara os recebeu com Valentina no colo e Ágata ao seu lado, que usava um mini óculos escuros e segurava uma pequena bolsa de couro.
— Como foi o passeio dos "normais"? — perguntou Sara, notando a cara de poucos amigos de Emanuel.
— O Arthur atacou uma herdeira e a Maya tentou orquestrar uma fuga romântica para uma floresta de jardim — resumiu Emanuel, jogando as chaves na mesa. — Eu preciso de um uísque.
Sara gargalhou tanto que Valentina começou a rir junto, sem entender nada.
— Minha nossa, Manu! Você não aguenta um dia de vida suburbana — Sara se aproximou, passando a mão pelo ombro dele. — O Arthur beijou alguém? Esse é o meu garoto!
— O pai da menina era um idiota, Sara — disse Eduarda, sentando-se no sofá e suspirando de exaustão. — Mas o Arthur realmente precisa aprender que nem todo mundo quer beijos.
— Ele aprende com o pai — provocou Sara, lançando um olhar cúmplice para Emanuel e depois para Eduarda. — O Manu também acha que pode conquistar e proteger tudo o que vê pela frente.
Emanuel não respondeu. Ele foi até a varanda, observando a cidade. Maya se aproximou dele, puxando a barra de sua calça.
— Papai Manu? Você está bravo porque eu ia fugir?
Emanuel se ajoelhou, ficando na altura dela. A raiva tinha passado, restando apenas aquele medo visceral de perder a pureza daquele lar que ele tanto lutara para construir.
— Eu não estou bravo, pequena. Eu só... eu quero que você saiba que não precisa fugir para lugar nenhum. Tudo o que você precisar, eu vou te dar. Se você quiser uma caverna, eu construo uma no meio da sala. Com ar-condicionado e Wi-Fi. Mas não me deixe, está bem?
Maya sorriu, abraçando o pescoço dele.
— Eu não vou, papai. O Leo disse que a caverna tinha formigas. Eu prefiro o meu quarto.
Emanuel soltou um suspiro de alívio tão profundo que seus ombros finalmente relaxaram.
— Ótima escolha, Maya. Ótima escolha.
Naquela noite, a casa estava em uma paz relativa. As crianças dormiam, e o trio de adultos estava na sala. Sara estava sentada no chão, revisando planilhas da loja, enquanto Eduarda descansava a cabeça no colo de Emanuel no sofá. Ele acariciava os cabelos dela com uma mão, enquanto a outra segurava a mão de Sara, que estava apoiada em seu joelho.
— Você percebeu que a Ágata nem se envolveu na confusão hoje? — comentou Eduarda, a voz sonolenta.
— Ela estava ocupada demais julgando a todos nós — disse Sara, sem tirar os olhos do tablet. — Ela me disse no carro que o Leo é "cafona" e que o Arthur é "vulgar".
— Ela é sua filha, Sara. Não há dúvidas disso — Emanuel riu baixo.
— E a Maya? — perguntou Eduarda. — Você realmente vai colocá-la no karatê?
— Já fiz a matrícula online — respondeu Emanuel, sério. — E para o Arthur também. Se ele vai sair por aí distribuindo beijos não solicitados, ele precisa saber como se defender dos pais furiosos.
Eduarda riu, fechando os olhos.
— Você é louco, Emanuel. Mas é o nosso louco.
Emanuel olhou para as duas mulheres. Sara, a chama que o mantinha alerta e ambicioso; Eduarda, a luz que o mantinha humano e calmo. E as crianças, que eram o mosaico de tudo o que eles eram.
— Eu só quero que eles tenham o que eu não tive — sussurrou Emanuel. — Uma família que, por mais estranha que pareça para os outros, seja um forte inabalável.
— E ela é, Manu — disse Sara, fechando o tablet e olhando para ele com uma sinceridade rara. — Ninguém entra aqui sem a nossa permissão. E ninguém sai sem saber que é amado.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pela segurança de que, apesar dos anéis de plástico, das fugas para arbustos e dos beijos roubados, o império de Emanuel era, acima de tudo, um império de afeto. E enquanto ele tivesse o controle, ou a ilusão dele, nada mudaria.
Pelo menos até Maya descobrir que o karatê tinha meninos de faixa amarela. Mas essa seria uma batalha para outro dia. Por ora, o Rei podia descansar, sabendo que suas rainhas estavam ao seu lado e seus herdeiros estavam seguros sob seu teto de vidro e aço.