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O Peso da Vontade e o Gosto do Sangue
A atmosfera na cobertura de Emanuel havia se transformado em uma rotina de opulência e tensão silenciosa. Três meses haviam se passado desde a descoberta da gravidez de Eduarda, e o apartamento, antes um santuário de minimalismo industrial, agora estava repleto de nuances de uma vida doméstica complexa e tripla.
Sara, com seus sete meses de gestação, parecia uma rainha em seu trono. A barriga de Ágata estava enorme, esticando a pele impecável sob vestidos de grife que ela fazia questão que fossem curtos e justos. Ela não havia perdido um grama de sua autoconfiança ou de sua vulgaridade elegante. Emanuel a tratava como porcelana fina, apesar de saber que Sara era feita de aço. Ele a mimava constantemente: joias novas para compensar o inchaço nos pés, massagens diárias com óleos caríssimos e todos os desejos gastronômicos satisfeitos no momento em que eram proferidos.
— Manu, minha vida, esses morangos não estão doces o suficiente — reclamou Sara, jogando-se no sofá de couro, os cabelos loiros espalhados como um halo platinado. — Quero aqueles daquela fazenda orgânica que você comprou semana passada.
Emanuel, que estava revisando relatórios de um de seus estúdios em Berlim, levantou-se imediatamente. Ele caminhou até ela, beijando-lhe a testa e acariciando a barriga proeminente.
— Vou pedir para o motorista ir buscar agora mesmo, loira. Mais alguma coisa? — A voz dele era suave, um contraste absoluto com o tom que usava com qualquer outra pessoa.
— Um beijo aqui — ela apontou para o decote generoso, rindo com aquele sarcasmo que Emanuel tanto amava.
Eduarda observava a cena da porta da cozinha, segurando um copo de água. Com seis meses de gravidez, a barriga de gêmeos — Maya e Arthur — já era bem visível em seu corpo esguio, dando a ela uma aparência ainda mais delicada e frágil. Ela usava um vestido de malha leve, cor de lavanda, e seus cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo de bailarina.
O coração de Eduarda apertava. Ela não sentia inveja de Sara — as duas haviam estabelecido uma convivência estranhamente pacífica, quase uma amizade onde Sara a protegia das explosões de Emanuel —, mas ela sentia falta daquela atenção espontânea. Emanuel cuidava de Eduarda com uma disciplina militar. Ele controlava suas vitaminas, suas horas de sono e suas consultas, mas havia sempre uma sombra de punição em seu olhar, uma frieza que dizia: "Eu cuido de você porque você carrega meus filhos, mas ainda não te perdoei".
Eduarda respirou fundo e caminhou até a sala. Ela precisava falar com ele.
— Emanuel? — A voz dela saiu pequena, manhosa, como sempre acontecia quando ela estava nervosa.
Emanuel se endireitou, a expressão suavizando apenas um milímetro ao vê-la, mas a rigidez logo voltou.
— O que foi, Eduarda? Já tomou seu suplemento de ferro?
— Já, eu tomei — ela disse, aproximando-se e sentando-se na beirada de uma poltrona. — Eu... eu queria te pedir uma coisa. Amanhã tem uma aula especial da faculdade. História da Arte Funerária. A professora vai levar a turma para uma aula prática no Cemitério da Consolação. É importante para o meu portfólio.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Emanuel largou o tablet na mesa de centro. Sara parou de mastigar o morango "insosso" e olhou de um para a outra, pressentindo o conflito.
— Não — disse Emanuel, simples e direto.
— Mas Emanuel, é uma aula única! — Eduarda insistiu, as mãos acariciando a barriga de forma inconsciente. — Eu quase não saio de casa, só para o ballet e para a faculdade. Eu preciso ir.
— Você está grávida de seis meses, de gêmeos, Eduarda. Um cemitério é um lugar insalubre, cheio de desníveis, pedras soltas e... é um cemitério. O que você tem na cabeça? — Ele cruzou os braços, a postura de controle total assumindo o comando.
— Eu sou cuidadosa! Eu sou bailarina, tenho equilíbrio — ela rebateu, a voz ganhando um tom de choro que costumava dobrar o irmão dela, mas que com Emanuel era uma faca de dois gumes. — Por favor, deixa eu ir. Eu me sinto presa aqui.
— Você não está presa, você está protegida — Emanuel corrigiu, levantando-se e caminhando até ela. Ele parou na frente de Eduarda, a sombra dele a cobrindo por completo. — A resposta é não. Se quiser estudar arte funerária, eu compro dez livros de fotografia para você. Mas você não vai andar em um lugar daqueles sob o sol de meio-dia.
— Eu não quero livros! Eu quero a aula! — Eduarda levantou-se também, o rosto ficando vermelho. — Você mima a Sara o dia inteiro, deixa ela fazer o que quer, e comigo você só sabe dar ordens!
Sara soltou uma risadinha, achando graça da audácia da menina.
— Ih, Manu... o passarinho aprendeu a bicar — comentou a loira, ajeitando-se no sofá para assistir ao show.
— Eduarda, suba para o quarto — Emanuel ordenou, a voz baixa e perigosa. — Essa conversa acabou. Você não vai.
— Eu vou! — Ela bateu o pé, um gesto infantil que refletia sua personalidade manhosa e teimosa. — Você não é meu dono!
Emanuel deu um passo rápido, segurando o braço de Eduarda. Não foi um gesto para machucar, mas foi firme, uma demonstração de força para contê-la e encerrar a discussão.
— Eu disse que você não vai — ele sibilou, os olhos fixos nos dela. — Você já provou que não tem julgamento próprio quando escondeu a gravidez por três meses. Agora, eu decido o que é seguro para os meus filhos.
A menção ao seu erro passado foi o estopim. Eduarda sentiu uma onda de frustração e raiva que nunca havia experimentado antes. Ela tentou puxar o braço, mas o aperto de Emanuel era como uma braçadeira de ferro. O toque dele, que ela tanto desejava que fosse de carinho, agora era apenas o símbolo de sua submissão.
Em um impulso de puro desespero e rebeldia, Eduarda inclinou a cabeça e cravou os dentes na mão de Emanuel, bem na parte carnuda entre o polegar e o indicador.
Emanuel soltou um grunhido de surpresa, mas não a soltou imediatamente. Ele ficou estático, olhando para a garota que, com os olhos arregalados e cheios de lágrimas, continuava a morder com toda a força que seus dentes pequenos possuíam. O gosto metálico do sangue atingiu a língua de Eduarda, e só então ela soltou, recuando dois passos, o peito arfando.
Havia uma marca profunda de dentes na mão de Emanuel, e o sangue começou a brotar, escorrendo pela pele tatuada.
Sara deu um pulo do sofá, a boca aberta em um "O" perfeito.
— Meu Deus, Duda! Você mordeu o homem! — Sara exclamou, entre o choque e a admiração.
Emanuel olhou para a própria mão, depois para Eduarda. A fúria em seus olhos era palpável, mas havia algo mais — uma centelha de surpresa, talvez até um respeito distorcido. Ninguém nunca o enfrentava fisicamente. Ninguém ousava tirar sangue de Emanuel.
— Você está louca? — Ele perguntou, a voz vibrando de uma raiva contida que fez as paredes parecerem tremer.
— Eu não me arrependo! — Eduarda gritou, as lágrimas finalmente caindo. — Eu odeio o jeito que você me trata! Eu odeio que você me olhe como se eu fosse um útero de aluguel que cometeu um crime! Se você quer me controlar, vai ter que me amarrar, porque eu não sou a sua escrava!
Ela se virou e correu em direção ao corredor dos quartos, o passo pesado de quem carregava o peso de dois bebês e de um coração partido. O som da porta do quarto de hóspedes batendo ecoou por toda a cobertura.
Emanuel ficou parado no meio da sala, o sangue pingando no tapete claro.
— Caramba, Manu — Sara disse, aproximando-se devagar e pegando a mão dele para analisar o estrago. — Ela te pegou de jeito. Acho que a sua "menininha doce" tem dentes de loba.
Ele não respondeu. Seus olhos estavam fixos no corredor por onde Eduarda havia sumido. A raiva ainda estava lá, mas a adrenalina do confronto havia despertado algo sombrio e possessivo. Ele queria ir até lá, arrombar a porta e mostrar a ela quem estava no comando, mas, ao mesmo tempo, a imagem de Eduarda — descabelada, com os olhos brilhando de fúria e o rosto manchado de lágrimas — foi a coisa mais excitante e perturbadora que ele já vira.
— Deixa ela — Emanuel disse, puxando a mão das mãos de Sara. — Ela precisa entender que isso não muda nada. Ela ainda não vai a lugar nenhum amanhã.
— Você é um cabeça dura — Sara revirou os olhos, voltando para o sofá. — Ela está carente, Emanuel. Ela vê você me dando tudo e, para ela, você só dá ordens. Ela é nova, é sensível. Você está tratando ela como se ela fosse um dos seus funcionários bandidos.
Emanuel caminhou até a cozinha, lavando o ferimento na pia. A ardência da água sobre o corte o lembrava da resistência dela. Ele limpou o sangue, mas não colocou um curativo. Queria que a marca ficasse visível por um tempo.
— Eu não sei tratar ela de outro jeito, Sara — ele confessou, a voz baixa, mais para si mesmo do que para a esposa. — Quando eu olho para ela, eu só consigo pensar no que ela fez. No risco que ela correu com os meus filhos.
— E no quanto você está louco por ela e não quer admitir que perdeu o controle — Sara completou, impiedosa. — Você a ama, Manu. Do seu jeito torto e autoritário, mas ama. E se você não amaciar um pouco, ela vai acabar te odiando de verdade. E aí, meu querido, nem todo o dinheiro do mundo vai fazer ela encostar em você de novo.
Emanuel secou a mão e voltou para a sala. Ele olhou para o relógio. Eram quase oito da noite.
— Vou levar o jantar dela no quarto — ele anunciou.
— Boa sorte, domador de feras — ironizou Sara, pegando o controle remoto da TV. — Se eu fosse você, levava um chocolate junto. E talvez um pedido de desculpas, se é que essa palavra existe no seu dicionário.
Emanuel não respondeu. Ele preparou uma bandeja com a comida preferida de Eduarda — risoto de aspargos e um suco natural de framboesa. Ele hesitou por um momento e, seguindo o conselho de Sara, colocou uma pequena caixa de bombons finos que ele guardava no armário.
Ele caminhou até a porta do quarto dela e tentou abrir. Estava trancada.
— Eduarda, abra a porta. Trouxe o seu jantar.
— Vá embora! — A voz dela veio abafada, claramente vinda debaixo das cobertas.
— Eu não vou pedir duas vezes. Se eu tiver que buscar a chave reserva, vai ser pior.
Houve um silêncio prolongado, seguido pelo som de passos arrastados. A chave girou e a porta se abriu apenas uma fresta. Eduarda estava com o rosto inchado, os olhos vermelhos e a expressão de uma criança que havia sido injustiçada.
Emanuel entrou, colocando a bandeja na mesa de cabeceira. Ele se virou para ela, que permanecia em pé perto da porta, abraçando o próprio corpo.
— Coma tudo — ele disse, tentando manter o tom neutro.
Eduarda olhou para a bandeja e depois para a mão dele. A marca da mordida estava vermelha e inflamada.
— Dói? — Ela perguntou, a voz falhando, a doçura natural começando a lutar contra a raiva.
— Um pouco. Você morde forte para alguém tão pequena.
Eduarda baixou o olhar, sentindo um misto de culpa e satisfação.
— Você me obrigou. Você me segura como se eu fosse fugir.
— E você não ia? — Ele deu um passo em direção a ela. — Você ia para aquele cemitério mesmo se eu dissesse não.
— É importante para mim, Emanuel. Eu sinto que estou perdendo a minha identidade. Eu sou bailarina, sou professora, sou estudante... mas aqui, eu sou só a "mãe dos gêmeos".
Emanuel sentiu um aperto estranho no peito. Ele estendeu a mão — a mão não ferida — e tocou o rosto dela, limpando uma lágrima solitária com o polegar.
— Você é muito mais que isso, Eduarda. Mas eu não sei lidar com o medo de perder o controle sobre o que eu amo. E eu não posso perder você. Nem a Maya, nem o Arthur.
Eduarda inclinou o rosto para o toque dele, a necessidade de afeto vencendo a rebeldia. Ela se apoiou no peito dele, sentindo o batimento cardíaco firme de Emanuel.
— Então me deixa ir na aula? — Ela sussurrou, tentando uma última vez, usando todo o seu charme manhoso.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. A fragilidade dela em seus braços era sua maior fraqueza.
— Eu vou com você — ele disse finalmente.
Eduarda se afastou, olhando para ele com surpresa.
— O quê?
— Eu vou com você. Vou ficar no carro, ou caminhando por perto. Se você tropeçar, se passar mal, eu estarei lá. É o meu único termo. Ou eu vou, ou você fica.
Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e radiante que iluminou o quarto escuro. Ela se jogou nos braços dele, abraçando seu pescoço.
— Obrigada! Obrigada, Emanuel!
Ele a segurou, sentindo o peso dos bebês entre eles. Por um momento, a tensão desapareceu. Ele a beijou no topo da cabeça, um gesto de proteção pura.
— Agora coma. E se você me morder de novo, Eduarda... eu juro que coloco você em uma torre de verdade.
— Eu não prometo nada — ela brincou, escondendo o rosto no pescoço dele.
Na sala, Sara ouviu o riso baixo de Eduarda e sorriu para si mesma, acariciando Ágata em seu ventre. Ela sabia que a vida deles era um castelo de cartas perigoso, mas, por enquanto, a rainha e a princesa haviam encontrado uma forma de manter o rei sob controle.