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O Gosto Amargo do Zelo
A manhã no duplex de Emanuel começou com o brilho metálico do sol refletindo nas superfícies de vidro e aço. O silêncio era cortado apenas pelo som baixo da cafeteira italiana na cozinha gourmet. Emanuel, já vestido com uma calça de alfaiataria escura e uma camisa de linho que deixava transparecer o relevo de suas tatuagens nos antebraços, observava a marca arroxeada em sua mão. Os dentes de Eduarda haviam deixado uma assinatura clara, um lembrete físico de que a docilidade dela tinha limites perigosos.
Eduarda apareceu no arco da cozinha, vestindo um vestido de malha leve que marcava a barriga de seis meses. Seus olhos estavam baixos, e ela parecia hesitar a cada passo.
— Emanuel... — chamou ela, a voz quase um sussurro.
Ele se virou, a expressão fechada, mas não agressiva.
— Você está pronta? O motorista já está lá embaixo.
— Estou. Mas antes... — Ela se aproximou, estendendo a mão pequena para tocar a ferida na mão dele. — Eu sinto muito. Pela mordida. Eu perdi a cabeça, eu não queria ter te machucado de verdade.
Emanuel olhou para a mão dela sobre a dele. A pele de Eduarda era macia, contrastando com a textura áspera da sua.
— Não peça desculpas por lutar pelo que quer, Eduarda — disse ele, a voz grave, surpreendendo-a. — Mas não espere que eu peça desculpas por proteger o que é meu. Vamos.
Antes de saírem, Sara surgiu no corredor, envolta em um robe de seda preta que mal escondia as curvas que ela fazia questão de exibir. Ela bocejou, ajeitando o cabelo loiro platinado que parecia impecável mesmo ao acordar.
— Já vão para o passeio no jardim das lápides? — ironizou ela, aproximando-se de Emanuel com um sorriso provocador.
Emanuel retirou uma pequena caixa de veludo do bolso e a entregou a Sara.
— Um presente para você não se sentir entediada enquanto eu estiver fora, loira.
Sara abriu a caixa, revelando um bracelete de ouro cravejado de diamantes negros. Os olhos dela brilharam com uma satisfação predatória. Ela adorava o modo como Emanuel comprava sua paciência com luxo.
— Você me conhece tão bem, Manu — ela disse, esticando o braço para que ele fechasse a joia em seu pulso. — Divirtam-se. E Duda, querida, tente não morder o papai dos seus filhos novamente, sim? O sangue dele é caro demais.
Eduarda corou, desviando o olhar, enquanto Emanuel apenas deu um aceno seco antes de conduzi-la para o elevador.
O Cemitério da Consolação, em São Paulo, era um museu a céu aberto de arte sacra e arquitetura fúnebre. O grupo da faculdade de História da Arte já estava reunido perto do portão principal quando o carro blindado de Emanuel estacionou. Ele saiu primeiro, oferecendo a mão para Eduarda com uma cortesia possessiva.
— Eu vou ficar a uma distância segura — disse Emanuel, ajustando os óculos escuros. — Mas se eu perceber que você está se esforçando demais, nós vamos embora na mesma hora.
— Tudo bem, Emanuel — ela concordou, sentindo um misto de alívio e opressão.
A aula começou. Eduarda, com seu caderno de esboços, parecia em transe diante dos mausoléus de mármore e das esculturas de anjos desolados. Ela se movia com a leveza de uma bailarina, apesar da barriga, absorvendo cada detalhe técnico que a professora explicava. Emanuel a seguia de longe, como uma sombra vigilante. Ele observava a maneira como os outros alunos olhavam para ela — alguns com curiosidade pela gravidez evidente, outros com admiração pela beleza etérea da jovem.
Foi durante uma pausa, enquanto a professora explicava a simbologia das colunas quebradas, que um rapaz se aproximou de Eduarda. Era Lucas, um colega de classe com quem ela costumava trocar anotações.
— Duda! Que bom que você veio — disse Lucas, sorrindo abertamente. — Fiquei sabendo que você estava meio presa em casa ultimamente.
Emanuel, a alguns metros de distância, sentiu os músculos da mandíbula retesarem. Ele não gostava do tom de familiaridade do rapaz.
— É... as coisas estão um pouco intensas — respondeu Eduarda, retribuindo o sorriso de forma tímida.
— Ei, eu lembro que você comentou na aula passada sobre aquele chocolate belga artesanal, com recheio de lavanda e mel, lembra? — Lucas enfiou a mão na mochila e tirou uma barra luxuosa, embrulhada em papel dourado. — Eu passei na doceria hoje cedo e vi. Pensei em você. Um presente para os gêmeos, ou para a mãe deles.
Os olhos de Eduarda brilharam com uma alegria genuína, quase infantil.
— Lucas! Você lembrou? Eu estava desejando esse chocolate há semanas, mas não conseguia encontrar em lugar nenhum! Muito obrigada!
Ela pegou o chocolate, as mãos tremendo levemente de empolgação. O brilho no rosto dela era algo que Emanuel não via há muito tempo — uma felicidade pura, desprovida da tensão que ele mesmo impunha a ela.
De onde estava, Emanuel sentiu um golpe seco no estômago. Não era apenas ciúme do rapaz; era uma irritação profunda consigo mesmo. Ele era um homem de recursos ilimitados. Ele havia comprado diamantes para Sara naquela manhã sem sequer pensar duas vezes. Ele pagava os melhores médicos, comprava as melhores roupas, mas não tinha percebido que a mulher que carregava seus gêmeos desejava algo tão simples quanto uma barra de chocolate.
Ele a observava de longe, mas não sabia o que se passava na mente dela além do básico. Ele controlava a rotina de Eduarda, mas não habitava os desejos dela.
Emanuel caminhou até eles, sua presença cortando o ar como uma lâmina fria. O sorriso de Lucas murchou instantaneamente diante da estatura e da aura de perigo que Emanuel exalava.
— Está tudo bem aqui? — perguntou Emanuel, a voz soando como um trovão baixo.
— Sim, Emanuel! Olha, o Lucas me trouxe o chocolate que eu tanto queria! — Eduarda mostrou a barra, sem perceber a tempestade nos olhos do homem à sua frente.
Emanuel olhou para o chocolate e depois para o rapaz, que deu um passo involuntário para trás.
— Obrigado pela atenção com a minha... — Emanuel hesitou por uma fração de segundo na palavra — ... com a Eduarda. Mas ela já tem tudo o que precisa.
— Foi só um presente, cara — gaguejou Lucas, sentindo o peso do olhar de Emanuel. — Eu vou voltar para o grupo. Tchau, Duda.
Assim que o rapaz se afastou, Emanuel pegou Eduarda pelo braço, conduzindo-a para uma área mais reservada, entre dois túmulos monumentais.
— Por que você não me disse que queria esse chocolate? — perguntou ele, a voz carregada de uma frustração que ela não conseguia entender.
— O quê? — Eduarda piscou, confusa. — É só um chocolate, Emanuel. Eu comentei na faculdade, foi um comentário bobo.
— Nada é bobo se você deseja — rosnou ele, a mão ferida latejando sob o curativo improvisado. — Eu te dou tudo. Eu te dou segurança, luxo, os melhores médicos do mundo. E você recebe presentes de garotos de faculdade porque eu não fui capaz de te dar um doce?
Eduarda olhou para ele, e pela primeira vez, viu uma rachadura na armadura de controle de Emanuel. Não era apenas raiva; era uma insegurança possessiva.
— Você não me dá tudo, Emanuel — disse ela, a voz subitamente firme, embora doce. — Você me dá coisas. Mas você não me ouve. Você está tão ocupado cuidando de mim como se eu fosse um investimento que esquece que eu tenho vontades que não podem ser compradas em joalherias.
Emanuel sentiu o peso das palavras dela. Ele queria gritar, queria proibi-la de comer aquele chocolate, queria comprar a fábrica inteira só para provar que podia. Mas, em vez disso, ele apenas a olhou, o silêncio se estendendo entre eles no meio do cemitério.
— Guarde o chocolate — disse ele finalmente, a voz rouca. — Mas se você quiser qualquer coisa, da menor à maior, você vai me dizer primeiro. Entendeu? Eu não quero outros homens suprindo o que é minha obrigação.
— Não é uma obrigação, Emanuel. Deveria ser cuidado — ela murmurou, voltando para o grupo.
Emanuel ficou para trás, observando-a. Ele sentiu um gosto amargo na boca, que nenhum chocolate seria capaz de adoçar. Ele percebeu que, embora tivesse Eduarda trancada em sua vida, ele ainda estava muito longe de possuir o que realmente importava. E aquela percepção o irritava mais do que qualquer mordida ou qualquer segredo.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem curta para sua secretária: "Descubra o fornecedor do chocolate artesanal de lavanda e mel. Quero uma entrega semanal na cobertura. E compre a loja, se for necessário."
Ele guardou o aparelho, os olhos fixos na silhueta delicada de Eduarda entre as estátuas de pedra. Ele a queria. Ele queria Sara. Ele queria o controle total. Mas, naquele momento, o homem que tinha tudo sentia que não tinha nada.
A aula continuou, mas o clima havia mudado. Eduarda sentia o olhar de Emanuel queimando em suas costas, uma proteção que agora parecia mais com uma vigilância faminta. Ela acariciou a barriga, sentindo Maya e Arthur se mexerem, como se sentissem a turbulência emocional da mãe.
Ao final da tarde, quando voltaram para o carro, o silêncio entre eles era denso. Eduarda segurava a barra de chocolate como um troféu de uma pequena liberdade conquistada, e Emanuel dirigia com as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
Ao chegarem na cobertura, Sara os recebeu com um sorriso irônico, exibindo o novo bracelete.
— Como foi o passeio, pombinhos? — perguntou ela, notando o clima pesado.
— Instrutivo — respondeu Emanuel, passando direto por ela e indo para o escritório.
Sara olhou para Eduarda, que segurava o chocolate dourado.
— O que aconteceu, Duda? O Manu está com cara de quem quer matar alguém.
— Um amigo me deu um chocolate — explicou Eduarda, exausta. — E o Emanuel agiu como se eu tivesse aceitado uma proposta de casamento.
Sara soltou uma gargalhada sonora, jogando a cabeça para trás.
— Ah, querida... você ainda não entendeu? O Emanuel não aceita concorrência. Nem de um pedaço de açúcar. Ele quer ser o seu sol, a sua lua e o seu ar. E o fato de ele ter falhado em te dar um doce o atinge mais do que a mordida que você deu nele.
Eduarda suspirou, sentando-se no sofá.
— É cansativo ser amada assim, Sara.
— É um preço alto, eu sei — disse a loira, sentando-se ao lado dela e pegando um pedaço do chocolate belga sem pedir licença. — Mas olhe pelo lado positivo: pelo menos agora você vai ter chocolate para o resto da vida. E eu? Eu ganhei diamantes porque você foi rebelde. Continue assim, pequena. No final, todas nós saímos ganhando.
Eduarda olhou para a porta do escritório de Emanuel. Ela sabia que, em breve, ele sairia de lá com um novo plano, uma nova forma de controle, um novo presente. E ela, em sua timidez e manha, continuaria a navegar entre o medo e o desejo por aquele homem que a amava como um furacão, destruindo e protegendo tudo em seu caminho.