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O Silêncio das Rosas e o Gosto do Desprezo

O luxuoso apartamento em São Paulo, que antes ecoava o choro agudo de recém-nascidos, agora era palco de uma sinfonia diferente: o bater de pés pequenos e o silêncio gelado de uma guerra fria. Maya e Arthur haviam completado um ano, e a doçura da celebração parecia ter ficado presa nas fotos da festa.

Eduarda estava sentada no tapete felpudo da sala de brinquedos, observando os gêmeos tentarem empilhar blocos de madeira. Ela usava um conjunto de moletom de seda em tom pastel, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo, e seu rosto carregava uma expressão que oscilava entre a tristeza profunda e uma teimosia infantil. Ela estava com um bico tão proeminente que Arthur, em sua inocência de bebê, tentou tocá-lo com o dedinho gordo, achando que era um brinquedo novo.

A briga havia acontecido há três dias. O motivo? O de sempre: o controle asfixiante de Emanuel sobre a carreira dela. Eduarda queria voltar a dar aulas de ballet na academia do irmão, Gabriel, mas Emanuel decretara que ela "ainda não estava pronta para o esforço físico" e que ele já havia contratado uma professora particular para vir ao apartamento caso ela quisesse apenas "se exercitar". Eduarda, em um raro momento de explosão, disse que ele a tratava como uma boneca de porcelana de segunda mão. Emanuel, ferido em seu complexo de protetor, respondeu que ela era ingrata.

Desde então, nem uma palavra.

Emanuel entrou na sala, ignorando a presença de Eduarda como se ela fosse parte da mobília, embora seus olhos traíssem uma vigilância constante sobre ela. Ele estava impecável em uma camisa preta que destacava as tatuagens que subiam pelo pescoço, exalando aquele perfume amadeirado que costumava fazer Eduarda se derreter.

— Bom dia, meus campeões — disse Emanuel, abaixando-se para beijar o topo da cabeça de Maya e Arthur.

Eduarda não levantou o olhar. Ela continuou brincando com um urso de pelúcia, fazendo movimentos exageradamente lentos, o corpo todo gritando por atenção. Ela queria que ele a notasse, que ele visse como ela estava manhosa e carente, mas Emanuel parecia ter decidido que a indiferença seria sua arma de escolha.

— Manu, meu amor! — A voz de Sara ecoou pelo corredor, vibrante e cheia de uma energia que Eduarda não conseguia emular naquele momento.

Sara entrou na sala usando um vestido justo de leopardo, saltos altíssimos e segurando Ágata, que já caminhava com a confiança de quem sabia que era a dona do mundo. Sara estava radiante. A maternidade não havia tirado um grama de sua vulgaridade magnética; pelo contrário, parecia ter lhe dado uma nova audiência.

— Olhe o que eu achei no closet, Manu — disse Sara, estendendo uma sacola de uma grife francesa para o marido. — Você disse que eu precisava de algo novo para o jantar de amanhã, não disse?

Emanuel envolveu a cintura de Sara com o braço, puxando-a para um beijo estalado na bochecha, bem na frente de Eduarda.

— Você merece tudo o que há de melhor, Sara — disse ele, a voz propositalmente alta e carinhosa. — Ficou perfeito em você. Aliás, mandei entregar aquelas joias que você namorou na vitrine semana passada. Devem chegar em uma hora.

Eduarda sentiu uma pontada de ciúme tão forte que quase mordeu o lábio. Emanuel sabia exatamente o que estava fazendo. Ele estava mimando Sara, cobrindo-a de atenções e presentes, apenas para mostrar a Eduarda o que ela "perdia" ao ser teimosa. Era um jogo de poder cruel.

— Ah, você é um santo, Manu! — Sara exclamou, lançando um olhar de soslaio para Eduarda. Ela não odiava a menina; na verdade, sentia pena daquela dinâmica infantil, mas não perderia a chance de aproveitar os mimos extras. — Duda, querida, você está tão quietinha. Está com dor de dente ou é só esse bico que está pesando no rosto?

Eduarda finalmente levantou os olhos, mas não para Sara. Ela olhou para Emanuel, esperando um sinal, uma faísca de arrependimento. Mas ele estava ocupado demais ajustando o colar de Ágata.

— Eu estou ótima, Sara — respondeu Eduarda, a voz saindo pequena e trêmula, carregada de toda a manha que ela possuía. — Só estou cansada de ser ignorada por quem deveria me proteger.

Emanuel finalmente olhou para ela. Seus olhos eram como aço frio.

— Proteção é para quem sabe valorizar, Eduarda. Quem prefere agir como uma criança mimada não pode reclamar quando é tratada como tal.

— Eu não sou uma criança! — ela protestou, levantando-se com dificuldade do tapete, as pernas trêmulas pela carga emocional. — Eu só quero a minha vida de volta!

— Sua vida é aqui, com seus filhos e comigo — Emanuel sentenciou, cruzando os braços. — Se você não consegue entender que tudo o que eu faço é para o seu bem, então não temos nada para conversar até que você recupere o juízo.

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela se virou e saiu da sala em direção ao quarto, o passo apressado denunciando seu desespero silencioso.

— Você pegou pesado, Manu — comentou Sara, enquanto se sentava no sofá e começava a lixar uma unha. — A menina está derretendo de carência e você está agindo como um carrasco.

— Ela precisa aprender, Sara — Emanuel suspirou, sentando-se e massageando as têmporas. O estresse estava acumulado. — Se eu ceder agora, ela vai achar que pode fazer o que quiser, colocar a saúde em risco voltando para aquela academia cheia de poeira e esforço excessivo.

— Ela é bailarina, Emanuel. O corpo dela é feito de esforço. Você está tentando transformar um cisne em um canário de gaiola. Vai acabar ficando sem o pássaro.

Emanuel não respondeu. Ele se levantou e foi para o escritório, mas a imagem de Eduarda com aquele bico dengoso e os olhos cheios de água não saía de sua mente. Ele a amava tanto que chegava a doer, mas sua natureza racional e controladora o impedia de simplesmente ir até lá e abraçá-la.

Horas depois, a noite caiu sobre a cobertura. Sara já havia saído para um evento da loja, levando Ágata para passar a noite na casa da avó. Os gêmeos já estavam dormindo em seus berços. O silêncio no apartamento era denso, quase palpável.

Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda. Ele não bateu. Entrou e a encontrou encolhida na cama, enrolada em um edredom pesado apesar do calor da noite paulistana. Ela parecia tão pequena, tão frágil.

— Eduarda — ele chamou suavemente.

Nenhuma resposta. Apenas o som da respiração dela, que ele sabia ser fingida. Ele sentou-se na beirada da cama e colocou a mão sobre o volume do edredom.

— Eu sei que você está acordada.

Eduarda se descobriu devagar. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ela olhou para ele com uma expressão tão carente, tão manhosa, que as defesas de Emanuel começaram a desmoronar como um castelo de areia.

— Você deu presentes para a Sara — ela sussurrou, a voz rouca. — Você beijou ela o dia todo. E para mim você só deu ordens.

— Eu mimo a Sara porque ela não me desafia em coisas que envolvem a segurança da nossa família — Emanuel explicou, tentando manter a voz firme, embora sua mão já estivesse acariciando o cabelo castanho dela. — Eu trato você de forma diferente porque você é diferente, Eduarda. Você é... você é o meu ponto fraco.

— Então por que você me machuca? — Ela se sentou na cama, deixando o edredom cair, revelando uma camisola de renda fina que ela sabia que ele adorava. — Por que você não me deixa ser quem eu sou?

Emanuel suspirou, puxando-a para o seu colo. Eduarda não resistiu; ela se aninhou nele imediatamente, escondendo o rosto em seu pescoço, buscando o calor e o cheiro que eram seu porto seguro.

— Eu tenho medo, pequena — ele confessou, a voz baixa, apenas para ela ouvir. — Medo de que você se machuque, medo de que você perceba que o mundo lá fora é mais interessante do que ficar aqui comigo.

— Nada é mais interessante do que você, Manu — ela murmurou, os lábios roçando a pele tatuada do pescoço dele. — Mas eu preciso respirar. Eu preciso que você confie em mim.

Emanuel a apertou mais forte. A fragilidade dela em seus braços era sua maior perdição. Ele odiava brigar com ela, odiava aquele silêncio, mas o desejo de controle era uma parte intrínseca de quem ele era.

— Eu vou deixar você voltar para as aulas — ele disse finalmente, sentindo Eduarda tencionar de alegria em seus braços. — Mas com condições. Três vezes por semana, não mais que duas horas por dia. E o meu motorista leva e busca você. Sem discussões.

Eduarda se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. O bico de antes desapareceu, substituído por um sorriso radiante e vitorioso, embora ainda carregado de manha.

— Duas horas e meia? — ela negociou, inclinando a cabeça de forma adorável.

Emanuel soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Você não perde uma oportunidade, não é? Duas horas e meia. Mas se eu souber que você pulou uma refeição ou que está exausta demais para cuidar dos gêmeos, eu cancelo tudo.

— Prometo! — Ela o abraçou pelo pescoço, cobrindo seu rosto de beijos pequenos e rápidos. — Eu te amo, Manu. Mesmo quando você é um ogro rabugento.

— Eu também te amo, sua pirracenta — ele respondeu, prendendo os lábios dela nos seus em um beijo profundo, que selava a paz, ao menos por aquela noite.

Emanuel sabia que a trégua era frágil. Sabia que Sara voltaria e que o equilíbrio entre as duas mulheres de sua vida continuaria a ser uma corda bamba. Mas enquanto sentia o corpo macio de Eduarda relaxar contra o seu, ele percebeu que, por mais que tentasse ser o mestre do controle, era ele quem estava completamente sob o domínio daquelas duas mulheres.

Ele a deitou suavemente na cama, cobrindo-a.

— Agora durma. Amanhã temos muito o que resolver.

— Você vai me dar um presente também? — ela perguntou, já fechando os olhos, a voz sumindo no sono. — A Sara ganhou joias...

Emanuel sorriu, beijando-lhe a testa.

— Eu vou te dar algo muito melhor do que joias, Eduarda. Vou te dar a sua liberdade... vigiada, é claro.

Ele saiu do quarto e encontrou Sara no corredor, que acabara de chegar. Ela o olhou de cima a baixo, notando a expressão suavizada no rosto do marido.

— Fez as pazes com a princesa? — perguntou ela, tirando os saltos e jogando-os em um canto.

— Fizemos um acordo — Emanuel respondeu, passando o braço pelos ombros de Sara e conduzindo-a para o quarto principal.

— Sei bem que tipo de acordo — Sara riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Você é um fraco por ela, Manu. E ela sabe disso.

— E você não se importa? — ele perguntou, parando na porta do quarto.

Sara olhou para ele, os olhos brilhando com uma inteligência afiada e uma confiança inabalável.

— Manu, meu amor... eu sou a rainha deste império. Ela é a princesa que você precisa proteger. Enquanto você souber me dar o trono e me dar o que eu quero, eu não me importo que você gaste um pouco de tempo cuidando do jardim dela. Afinal, uma rainha precisa de paz no palácio, não é?

Emanuel a beijou com fervor, admirando a força e a falta de escrúpulos de Sara. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: a paixão ardente e a cumplicidade de Sara, e a doçura devota e vibrante de Eduarda. Era um equilíbrio perigoso, um jogo onde os sentimentos eram as apostas mais altas, mas enquanto ele estivesse no centro daquele furacão, ele se sentia o homem mais poderoso do mundo.

A noite em São Paulo continuou, com suas luzes e seus segredos, mas dentro daquela cobertura, a paz reinava novamente — uma paz comprada com mimos, concessões e a eterna dança entre o amor e o controle. Emanuel Albuquerque, o tatuador que marcava a pele para sempre, entendia agora que as marcas mais profundas eram aquelas que não se via: as que as mulheres que ele amava deixavam em seu coração todos os dias.

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