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O Batismo das Águas e a Fúria da Terra

A Fazenda das Palmeiras, propriedade ancestral da família de Emanuel, exalava um cheiro de terra molhada e café fresco que parecia curar qualquer angústia urbana. Eduarda, agora com nove meses completos de uma gestação que transformara seu corpo em um templo de curvas suaves e promessas, sentia-se mais conectada à natureza do que nunca. A barriga de Maya e Arthur estava baixa, pesada, e cada movimento dos gêmeos era um lembrete de que o tempo de espera estava chegando ao fim.

Dona Margarida, a mãe de Emanuel, era o oposto do filho em temperamento. Enquanto Emanuel era metal e tinta, Margarida era terra e raízes. Ela observava Eduarda caminhar com dificuldade pelo jardim, os cabelos castanhos presos em uma trança frouxa, e via nela a continuação de uma linhagem que Emanuel, em sua modernidade rica, parecia ter esquecido.

— Você sabia, querida? — Margarida começou, enquanto servia um chá de erva-doce para a nora na varanda colonial. — Que as mulheres da nossa família, as que vieram antes de mim e de você, nunca conheceram o frio de um hospital para dar à luz?

Eduarda parou, interessada. O sol da tarde filtrava-se pelas frestas do telhado, criando padrões de luz em seu rosto doce.

— Não sabia, Dona Margarida. Emanuel sempre fala de clínicas de última geração e equipamentos modernos.

— Emanuel fala como um homem que tem medo da vida — Margarida sorriu, uma expressão de sabedoria antiga. — Minha avó, minha mãe e eu... todas parimos nossos filhos na cachoeira do Véu de Noiva, aqui no fim da propriedade. A água é pura, a energia é sagrada. É um batismo antes mesmo do primeiro fôlego. Infelizmente, Sara é uma mulher da cidade... ela não entende essas coisas. Ágata nasceu cercada de máquinas. Mas você, Eduarda... você tem a alma da água.

Eduarda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ideia de dar à luz Maya e Arthur em meio ao som da queda d'água, sentindo a força da natureza ao seu redor, pareceu-lhe a coisa mais poética e certa do mundo.

— Eu adoraria isso — sussurrou Eduarda, os olhos brilhando. — Mas o Emanuel... ele nunca vai permitir. Ele é controlador demais.

— Emanuel não precisa saber de tudo — Margarida piscou, segurando a mão de Eduarda. — O parto é um mistério das mulheres. Quando a hora chegar, eu estarei com você.

A paz da fazenda, porém, foi interrompida pelo som do motor potente do carro de Emanuel. Ele chegara de São Paulo acompanhado de Sara e da pequena Ágata. Assim que desceu do veículo, a aura de comando de Emanuel preencheu o ambiente. Ele caminhou até Eduarda, beijando-lhe a testa com uma possessividade que o tempo não suavizara.

— Como eles estão? — perguntou ele, a mão pousando sobre a barriga dela. — O médico ligou. Ele quer que voltemos para a capital amanhã. Ele não quer riscos com gêmeos.

— Eu estou bem, Manu — Eduarda respondeu, sentindo uma pontada de rebeldia. — Os bebês estão calmos. A fazenda faz bem para eles.

— Não importa. O hospital tem UTI neonatal, tem tudo o que vocês podem precisar. Aqui é longe de tudo — Emanuel sentenciou, os traços do rosto endurecendo.

Sara, que vinha logo atrás com Ágata no colo, revirou os olhos.

— Deixe a menina respirar, Manu. Ela parece uma flor aqui no campo, e na cidade ela parece um passarinho na gaiola. Mas, por favor, não me peça para ficar muito tempo. O sinal do celular aqui é uma tragédia e eu preciso postar as novidades da loja.

A noite caiu sobre a fazenda com uma densidade incomum. O ar estava carregado, prenúncio de uma tempestade de verão. No quarto, Eduarda sentiu a primeira contração. Foi como uma onda, começando nas costas e irradiando para o baixo ventre. Ela respirou fundo, tentando manter a calma.

— Emanuel? — chamou ela.

Emanuel, que estava revisando alguns documentos no notebook, levantou-se imediatamente.

— O que foi? Uma dor?

— Só um desconforto. Acho que eles estão se ajeitando.

Ele cronometrou. Dez minutos depois, outra. E outra. O rosto de Emanuel empalideceu.

— Vamos para o carro. Agora. Vou avisar a Sara e minha mãe.

— Não! — Eduarda gritou, segurando o braço dele. — Está chovendo muito, as estradas de terra vão estar um lamaçal. É perigoso, Emanuel!

— Perigoso é você ter esses bebês aqui sem assistência! — Ele estava entrando em modo de pânico controlado.

Margarida entrou no quarto, a expressão serena, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo.

— Emanuel, acalme-se. A bolsa ainda não rompeu. Vá preparar o carro se quiser, mas deixe Eduarda respirar.

Emanuel saiu bufando para falar com os seguranças e preparar a logística de saída sob a chuva torrencial. Assim que ele saiu, Margarida fechou a porta e olhou para Eduarda.

— É agora, não é?

— Sim — Eduarda ofegou, a dor aumentando. — Mas ele quer me levar para a estrada. Eu estou com medo, Dona Margarida.

— Você não vai para a estrada. Você vai para a água.

Margarida pegou uma bolsa que já estava preparada, cheia de toalhas limpas e ervas. Ela ajudou Eduarda a se levantar e, por uma porta lateral que dava para o jardim dos fundos, as duas saíram sob a chuva fina que começava a cair. Margarida tinha um jipe antigo escondido no galpão, um veículo que Emanuel nem lembrava que funcionava.

Enquanto isso, na sala principal, Emanuel gritava com Sara.

— Onde está a minha mãe? E a Eduarda?

— Eu vi as duas indo para o quarto — Sara respondeu, pintando as unhas com indiferença. — Pare de surtar, Manu. Você vai acabar tendo um infarto antes dos bebês nascerem.

Emanuel correu para o quarto. Vazio. Ele correu para a varanda e viu as luzes traseiras do jipe de sua mãe desaparecendo na trilha que levava à parte mais fechada da mata, em direção à cachoeira.

— Não... — ele sussurrou, a fúria e o terror lutando em seu peito. — Ela enlouqueceu. Minha mãe enlouqueceu!

Ele correu para o seu carro, mas Sara o segurou.

— Emanuel, você vai se matar naquela trilha com esse carro de luxo! Pegue a caminhonete do caseiro!

Emanuel não esperou. Ele saltou para a caminhonete, acelerando pelo caminho de terra que se transformava em um rio de lama.

Na cachoeira, o cenário era místico. A água caía com força, mas havia uma pequena gruta natural atrás da queda principal, onde o chão era de pedra lisa e a temperatura era morna devido às fontes termais da região. Margarida havia acendido algumas lanternas a óleo.

— Respire, Eduarda. Sinta a força da terra. Maya e Arthur estão vindo.

Eduarda estava agachada, a água batendo em seus pés, sentindo uma força ancestral dominá-la. Ela não era mais a menina tímida e manhosa; ela era a mãe, a loba, a vida em sua forma mais bruta.

— Eu não consigo! — ela gritou, quando uma contração excruciante a atingiu.

— Você consegue! Você é uma de nós! — Margarida encorajava.

O som de um motor roncando e pneus derrapando anunciou a chegada de Emanuel. Ele saltou do carro antes mesmo de parar totalmente, correndo em direção à luz das lanternas. Quando ele entrou na gruta, a visão que teve o paralisou.

Eduarda estava nua da cintura para baixo, apoiada em sua mãe, os cabelos colados ao rosto pelo suor e pela umidade. Ela parecia uma divindade pagã.

— O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? — Emanuel rugiu, a voz competindo com o barulho da cachoeira. — VOCÊS FICARAM LOUCAS? EDUARDA, VAMOS EMBORA DAQUI AGORA!

Eduarda levantou o rosto. Seus olhos, antes tão submissos, estavam fixos em Emanuel com uma determinação que o fez recuar um passo.

— NÃO! — ela gritou. — Eu não vou a lugar nenhum, Emanuel! Meus filhos vão nascer aqui! No meu tempo! Na minha vontade!

— É perigoso! Você pode morrer! Eles podem morrer! — Emanuel tentou se aproximar, mas Margarida se colocou na frente dele.

— Afaste-se, meu filho! — Margarida ordenou, a voz de mãe que Emanuel ainda temia. — Este não é o seu domínio. Aqui, você é apenas um espectador. Se quiser ajudar, segure a mão dela e cale a boca!

Emanuel sentiu o mundo girar. Ele, o homem que controlava estúdios em três continentes, o homem que marcava a pele alheia com aço e dor, estava ali, impotente diante da natureza. Ele olhou para Eduarda e viu o sofrimento dela, mas viu também uma força que ele nunca permitira que ela mostrasse.

Ele caiu de joelhos ao lado dela, ignorando a lama e a água que ensopavam suas roupas caras.

— Eduarda... — ele sussurrou, a voz quebrada. — Por favor...

— Segure-me — ela pediu, a voz agora um gemido de dor.

Emanuel a envolveu por trás, servindo de apoio para as costas dela. Ele sentia o tremor do corpo dela, a temperatura febril de sua pele.

— Eu estou aqui — ele disse, a fúria sendo substituída por um terror sagrado. — Eu estou aqui, pequena. Eu não vou soltar você.

A bolsa rompeu, misturando-se à água da cachoeira. O parto foi rápido e violento, como a tempestade que rugia lá fora. Primeiro, Maya. Ela nasceu com um choro vigoroso que ecoou pelas paredes de pedra, um som de triunfo. Margarida a limpou rapidamente e a entregou a Eduarda, que a aninhou no peito por apenas um segundo antes que Arthur decidisse que também era sua hora.

Arthur veio logo em seguida, maior e mais calmo, deslizando para as mãos de Margarida como se já conhecesse o caminho.

Quando os dois bebês estavam nos braços de Eduarda, e o silêncio da exaustão caiu sobre o grupo, Emanuel chorou. Ele chorou como nunca havia chorado na vida, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda, sentindo o cheiro de sangue, água e vida.

— Me desculpe — ele soluçou. — Me desculpe por tentar ser o dono do mundo.

Eduarda, exausta, mas com um sorriso de vitória que Emanuel nunca esqueceria, tocou o rosto dele.

— Eles são lindos, Manu. Maya e Arthur. Nossos filhos da água.

Horas depois, já de volta à casa da fazenda, com os bebês devidamente examinados por um médico que Emanuel fizera vir de helicóptero assim que a chuva parou, o clima era de uma paz absoluta.

Sara entrou no quarto, olhando para os gêmeos no berço improvisado. Ela se aproximou de Eduarda e, de forma surpreendente, beijou-lhe a bochecha.

— Você é muito mais corajosa do que eu, Duda. Eu teria exigido uma epidural só de ver aquela cachoeira. Bem-vinda ao clube das mães exaustas.

Emanuel estava sentado na poltrona, observando as duas mulheres e os três filhos. Ele percebeu que sua vida nunca mais seria a mesma. O controle que ele tanto prezava fora lavado pelas águas daquela cachoeira.

— Emanuel? — Eduarda chamou, a voz fraca, mas doce.

— Sim?

— Você ainda está bravo com a sua mãe?

Emanuel olhou para Margarida, que estava na porta, sorrindo com um ar de "eu te avisei".

— Eu deveria internar ela — Emanuel disse, mas um sorriso apareceu em seus lábios. — Mas acho que, pela primeira vez na vida, eu entendi o que é ser um homem da família Albuquerque.

Ele caminhou até a cama e sentou-se ao lado de Eduarda.

— Você me assustou, Eduarda. De verdade. Eu quase perdi a cabeça quando vi vocês saindo naquele jipe.

— Eu precisava disso, Manu. Eu precisava sentir que eu tinha o controle sobre o meu próprio corpo e sobre o nascimento dos meus filhos. Você entende agora?

Emanuel pegou a mão dela e a beijou.

— Eu entendo. Mas não pense que isso significa que você pode fugir para a praia ou para cachoeiras sempre que quiser. Eu ainda sou o seu homem, e eu ainda vou cuidar de você. Só que... talvez eu deixe você escolher o caminho de vez em quando.

Eduarda riu, a manha voltando aos poucos ao seu rosto.

— De vez em quando? Eu acho que Maya e Arthur vão ter muito o que te ensinar sobre quem realmente manda nesta casa, Emanuel.

Sara, da porta, soltou uma gargalhada.

— Ela tem razão, Manu. Agora você tem três contra um. Quatro, se contar comigo. Boa sorte, meu rei. Sua coroa acaba de cair.

Emanuel olhou para sua família — a loira vulgar e magnífica que ele amava, a bailarina doce e agora poderosa que ele idolatrava, e os três bebês que eram o seu futuro. Ele percebeu que a verdadeira riqueza não estava em seus estúdios ou em suas contas bancárias, mas naquela teia complexa, confusa e maravilhosa de amor que ele conseguira construir.

Naquela noite, sob o céu estrelado da fazenda, Emanuel Albuquerque finalmente aprendeu que o amor não se marca com agulhas, mas com a coragem de deixar quem amamos ser exatamente quem eles precisam ser. E enquanto observava Eduarda dormir com os gêmeos, ele soube que a marca daquela noite na cachoeira seria a tatuagem mais profunda e eterna de sua alma.

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