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Neblina sobre Trilhos e Desejos
O ar frio e úmido de Paranapiacaba parecia envolver a vila ferroviária em um mistério eterno. As construções de madeira em estilo vitoriano, as ruas estreitas de paralelepípedos e a névoa densa que subia da serra criavam o cenário perfeito para o que Emanuel planejava como um refúgio, mas que, na verdade, estava se tornando uma panela de pressão emocional.
Emanuel havia alugado uma das casas históricas restauradas para o final de semana. O pretexto era oficializar o convite para Gabriel ser o padrinho de Ágata, mas o motivo real, aquele que queimava sob sua pele tatuada, era ter Eduarda por perto, longe da rotina da faculdade e dos olhos vigilantes da cidade grande.
No entanto, ele não contava com o fato de que o instinto de Gabriel estava mais afiado do que nunca.
— Está um gelo aqui, não está, Duda? — Gabriel disse, passando o braço pelos ombros da irmã e puxando-a para mais perto enquanto caminhavam pela passarela que cruzava os trilhos do trem. — Você devia ter trazido aquele casaco mais grosso que a mamãe te deu.
Eduarda, encolhida dentro de um cardigã de lã clara que a fazia parecer ainda mais delicada contra a paisagem cinzenta, sorriu fraco.
— Eu estou bem, Biel. O movimento da caminhada ajuda a esquentar.
Emanuel caminhava alguns passos atrás, ao lado de Sara. Ele observava a mão de Gabriel possessivamente pousada no ombro de Eduarda. O maxilar de Emanuel travou. Ele odiava aquela barreira física que o amigo impunha, mesmo sabendo que, para o mundo, Gabriel era apenas um irmão protetor. Para Emanuel, era um obstáculo entre ele e o que ele considerava seu.
— Olhe para eles — Sara sussurrou, a voz carregada de uma diversão maliciosa. Ela usava botas de salto alto que estalavam nas pedras e um casaco de pele sintética branca que gritava luxo em meio à simplicidade da vila. — O Gabriel parece um cão de guarda. Ele sente o cheiro do seu desejo, Emanuel. É quase engraçado.
— Não tem nada de engraçado, Sara — Emanuel respondeu por entre os dentes, a voz baixa para não ser ouvida à frente.
— Ah, querido, relaxe. — Sara parou de andar, obrigando-o a parar também, e ajeitou a gola do casaco dele. Ela estava radiante; a gravidez de quatro meses a deixava com uma aura de poder, e ela sabia disso. — Deixe o menino brincar de herói. No final do dia, somos nós que sabemos a verdade. E a pequena bailarina sabe também. Veja como ela olha para trás toda vez que você se cala por muito tempo.
Emanuel olhou. Exatamente naquele momento, Eduarda virou o rosto por cima do ombro. Seus olhos castanhos encontraram os dele por um breve segundo — um olhar carregado de uma timidez dolorosa e de um anseio que ela não conseguia esconder. Quando ela percebeu que ele a observava, desviou a atenção rapidamente, tropeçando em uma pedra irregular.
— Cuidado, Duda! — Gabriel a segurou firme pela cintura. — Você é muito distraída, pequena.
— Eu estou bem, sério — ela murmurou, a voz sumindo na neblina.
Eles chegaram à casa no final da tarde. O interior era rústico, com uma lareira de pedra que Emanuel fez questão de acender imediatamente. O fogo estalava, lançando sombras dançantes pelas paredes de madeira.
Sara se instalou na poltrona mais confortável, esticando as pernas e pedindo um chá. Gabriel, sempre inquieto, decidiu que iriam preparar um jantar especial.
— Duda, me ajuda com os temperos na cozinha? — Gabriel chamou, mas antes que ela pudesse responder, Emanuel interveio.
— Deixe ela descansar, Gabriel. Ela caminhou muito e as pernas de bailarina precisam de repouso. Eu ajudo você com a carne.
Gabriel arqueou uma sobrancelha, o olhar desconfiado alternando entre o amigo e a irmã.
— Eu não estou cansada, Emanuel... — Eduarda começou a dizer, mas o olhar firme dele a calou. Era aquele olhar de comando, o mesmo que ele usava para gerir seus estúdios ao redor do mundo, mas temperado com uma suavidade que só ela recebia.
— Sente-se aqui com a Sara, Eduarda — Emanuel ordenou, embora o tom fosse de um cuidado profundo. — É uma ordem do seu futuro "cunhado" de consideração.
Relutante, Eduarda sentou-se no sofá de veludo, mantendo uma distância segura de Sara. O silêncio na sala era preenchido apenas pelo som de Gabriel batendo facas na cozinha e o crepitar da lenha.
Sara observou a garota por cima da borda de sua xícara de porcelana.
— Você está estudando o quê agora na faculdade, querida? — perguntou Sara, quebrando o gelo com sua franqueza habitual. — Emanuel me disse que você está obcecada por um período específico.
— Renascimento Italiano — Eduarda respondeu, a voz ganhando um pouco mais de firmeza ao falar do que amava. — A forma como eles equilibravam a luz e a sombra... a busca pela perfeição nas proporções humanas. É fascinante.
— Luz e sombra — Sara repetiu, dando um sorriso enigmático. — Combina com o Emanuel. Ele é a sombra, você sabe. E eu sou a luz que ele usa para se exibir para o mundo. Mas ele sempre precisa de um lugar calmo para descansar os olhos.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela nunca sabia como lidar com a honestidade brutal de Sara.
— Eu não quero causar problemas, Sara. Eu juro. O Emanuel é seu marido, vocês vão ter a Ágata...
Sara soltou uma risada curta e sonora, levantando-se com certa dificuldade por causa da barriga e sentando-se ao lado de Eduarda. Ela pegou a mão pequena e fria da bailarina entre as suas, que eram quentes e adornadas com anéis caros.
— Escute bem, menina. Eu não sou uma mulher comum e não sigo regras comuns. Eu conheço o homem com quem me casei. Emanuel é um colecionador de almas e de belezas. Ele me ama, ele me adora, eu sou a rainha dele. Mas ele tem um espaço vazio que só alguém como você preenche. Eu não te odeio. Na verdade, eu gosto de você. Você é doce, é pura. E se ele quer você, e você quer ele... por que eu seria o obstáculo para a felicidade do meu homem?
— Mas e o meu irmão? E os meus pais? — Eduarda sussurrou, os olhos marejados. — Eles nunca entenderiam. O Biel mataria o Emanuel.
— O Gabriel é um menino brincando de ser homem — Sara desdenhou, soltando a mão dela. — Ele vai ter que aceitar a realidade mais cedo ou mais tarde. O que importa é o que acontece quando a neblina fecha e ninguém está olhando.
Nesse momento, Emanuel voltou à sala. Ele trazia uma garrafa de vinho e dois copos. Gabriel ainda estava na cozinha, reclamando de alguma coisa sobre o ponto da carne.
Emanuel parou diante das duas. A visão era o que ele sempre sonhara: a exuberância loira e provocante de Sara ao lado da delicadeza castanha e sensível de Eduarda. O contraste perfeito. O seu equilíbrio.
— O jantar vai demorar uns vinte minutos — ele anunciou, servindo o vinho para si e oferecendo um pouco para Eduarda, que aceitou apenas para ter algo onde segurar.
Ele se sentou no meio delas, no espaço que Sara havia deixado propositalmente. Emanuel passou o braço pelo encosto do sofá, os dedos roçando levemente o ombro de Eduarda, enquanto sua outra mão repousava possessivamente sobre a barriga de Sara.
— Você está bem, Ágata? — ele perguntou, inclinando-se para beijar o topo da cabeça de Sara.
— Ela está agitada hoje — Sara respondeu, fechando os olhos e aproveitando o carinho. — Acho que ela gosta do frio.
Emanuel então virou o rosto para Eduarda. A proximidade era perigosa. O cheiro dele — uma mistura de sândalo, tinta de tatuagem e o frio da serra — invadiu os sentidos dela.
— E você, Duda? Está com frio?
— Um pouco — ela admitiu, a voz falhando.
Sem dizer uma palavra, Emanuel retirou o próprio blusão de lã que usava por cima da camisa e o estendeu para ela.
— Vista. É melhor do que esse cardigã fino.
— Mas você vai ficar com frio...
— Eu não sinto frio, Eduarda. Vista.
Ela obedeceu, sentindo-se engolida pelo tamanho da peça e pelo calor que ainda emanava do corpo dele. Era como ser abraçada por ele por inteiro.
— Ei! O que é isso? — A voz de Gabriel surgiu da porta da cozinha. Ele segurava um pano de prato e tinha uma expressão de puro desagrado ao ver a irmã vestindo a roupa de Emanuel. — Duda, eu te disse para pegar seu casaco. Não precisa pegar as coisas do Emanuel emprestadas.
— Deixa de ser chato, Gabriel — Sara interveio, salvando a situação. — É só um blusão. O Emanuel é praticamente um irmão para você, esqueceu?
— É, mas ela é minha irmã de sangue — Gabriel retrucou, caminhando até eles e puxando Eduarda pelo pulso para que ela se levantasse. — Vem, o jantar está pronto. Vamos comer na mesa da cozinha, é mais quente.
O jantar foi uma provação de nervos. Gabriel falava sem parar sobre os tempos de escola, tentando reafirmar o vínculo de amizade com Emanuel, como se quisesse lembrá-lo de que havia limites que não deveriam ser cruzados. Emanuel, por sua vez, mantinha a calma gélida de sempre, mas seus olhos nunca deixavam Eduarda por muito tempo.
Cada vez que Eduarda levava o garfo à boca, ou quando ela ajeitava uma mecha de cabelo atrás da orelha, Emanuel registrava o movimento com uma intensidade predatória.
— Emanuel, você está me ouvindo? — Gabriel perguntou, batendo com o garfo no prato.
— Estou, Gabriel. Você estava falando sobre o estúdio que queremos abrir em Londres.
— Exato. Eu acho que a Duda devia ir com a gente na inauguração, o que acha? Seria bom para ela ver as galerias de arte de lá.
Emanuel deu um sorriso lento, um que não chegou aos olhos.
— Eu acho uma excelente ideia. Eduarda merece ver o mundo. E eu farei questão de que ela veja tudo do melhor ângulo.
Eduarda sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura externa. A promessa na voz de Emanuel era clara.
Após o jantar, a neblina lá fora tornou-se tão densa que era impossível ver um palmo diante do nariz. A vila de Paranapiacaba parecia ter desaparecido do mapa, restando apenas aquela casa e as quatro pessoas dentro dela.
Gabriel insistiu em conferir se todas as janelas estavam trancadas.
— Eu vou dormir no quarto de baixo, perto da porta — Gabriel anunciou. — Duda, você fica no quarto ao lado do meu. Emanuel e Sara, vocês ficam na suíte lá em cima.
— Como desejar, capitão — Sara zombou, levantando-se e esticando o corpo de forma que o vestido subisse ainda mais pelas coxas grossas. — Vamos, Emanuel? Estou exausta.
Emanuel assentiu. Ele se aproximou de Eduarda, que estava parada perto da lareira, observando as últimas brasas.
— Boa noite, Eduarda — ele disse, a voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse. — Tente não ter pesadelos.
Ele tocou a mão dela rapidamente, um toque que durou apenas um segundo, mas que deixou um rastro de eletricidade.
— Boa noite — ela sussurrou de volta.
Horas depois, a casa mergulhou no silêncio. No andar de cima, Emanuel esperou até que a respiração de Sara ficasse pesada e rítmica. Ela estava dormindo profundamente, o cansaço da gestação vencendo sua mente alerta.
Ele se levantou silenciosamente, vestiu uma calça e desceu as escadas de madeira sem fazer o menor ruído. Ele conhecia cada tábua que rangia; sua mente racional já havia mapeado a casa assim que entraram.
Lá embaixo, ele passou pela porta do quarto de Gabriel. O som de ronco baixo confirmava que o amigo estava em sono profundo.
Emanuel girou a maçaneta do quarto de Eduarda. A porta estava encostada, não trancada.
O quarto estava iluminado apenas pela luz pálida da lua que filtrava através da neblina na janela. Eduarda estava sentada na cama, ainda usando o blusão dele por cima do pijama de seda. Ela parecia estar esperando por ele.
— Você não deveria estar aqui — ela disse, a voz trêmula, mas sem qualquer intenção de expulsá-lo.
Emanuel caminhou até ela e sentou-se na beirada da cama. O peso dele fez o colchão afundar, trazendo-a para mais perto.
— Eu disse que não ia perder você, Duda. Nem para o seu irmão, nem para o medo que você sente.
Ele estendeu a mão e acariciou o rosto dela. Eduarda fechou os olhos, inclinando a cabeça para o toque, como uma flor buscando o sol. A timidez dela era sua maior tentação; ele queria desvendá-la, camada por camada, até que não sobrasse nada além da entrega total.
— A Sara... ela falou comigo — Eduarda sussurrou, abrindo os olhos. — Ela disse que não se importa. Como ela pode não se importar?
— Porque a Sara me conhece melhor do que eu mesmo — Emanuel respondeu, aproximando o rosto do dela. — Ela sabe que o que eu sinto por ela é inabalável. Mas ela também sabe que você é a parte de mim que eu não consigo tatuar, que eu não consigo controlar. Você é a minha paz, Eduarda. E eu sou um homem em guerra constante.
— O Biel vai nos odiar.
— O Gabriel vai ter que aprender que você não é uma boneca de porcelana que ele pode guardar em uma caixa. Você é uma mulher. E você é a minha mulher.
Emanuel não esperou por mais protestos. Ele selou os lábios nos dela em um beijo que começou lento, quase exploratório, mas que rapidamente se tornou faminto. Eduarda soltou um pequeno gemido contra a boca dele, suas mãos subindo para os ombros largos de Emanuel, agarrando-se a ele como se ele fosse seu único porto seguro em meio à tempestade.
Lá fora, a neblina de Paranapiacaba escondia o mundo. Dentro daquela casa, entre o fogo que morria na lareira e o frio que batia nas janelas, as linhas entre o certo e o errado desapareciam. Emanuel tinha Sara no andar de cima, o fruto de seu amor e de sua história crescendo nela. E tinha Eduarda em seus braços, a promessa de um futuro onde ele não precisaria escolher entre o fogo e a paz.
Ele queria as duas. E, naquela noite, sob o manto de silêncio da vila ferroviária, ele soube que teria. Ninguém, nem mesmo a proteção feroz de um melhor amigo, seria capaz de impedir o que o destino — e a vontade implacável de Emanuel — já havia traçado.