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Entre Relíquias e Destinos Traçados
O sol da manhã em Paranapiacaba era apenas um brilho pálido e difuso tentando atravessar a cortina de névoa que ainda insistia em abraçar a vila. Dentro da casa de madeira, o ambiente estava impregnado com o cheiro de café fresco e o perfume doce e invasivo de Sara. Emanuel estava sentado à cabeceira da mesa, observando Sara devorar uma fatia generosa de bolo de rolo que ele havia mandado buscar especialmente para ela em um empório local logo ao amanhecer.
— Você é um santo, Emanuel — Sara disse, limpando o canto da boca com o polegar, o olhar brilhando de satisfação. — Ágata estava exigindo açúcar desde as seis da manhã.
Emanuel sorriu, um gesto raro e contido que ele reservava apenas para os seus círculos mais íntimos. Ele estendeu a mão e acariciou a barriga dela, sentindo a firmeza da gravidez de quatro meses sob o tecido fino do robe de seda que ela usava, ignorando o frio da serra.
— Eu já disse que você só precisa pedir, Sara. O que você e ela quiserem, eu busco. — Ele se inclinou e beijou a testa da esposa, um gesto de posse e carinho profundo. Ele amava aquela mulher; amava a força dela, a vulgaridade consciente que ela usava como armadura e a lealdade inabalável que ela lhe dedicava.
A porta da cozinha se abriu e Gabriel entrou, com os cabelos bagunçados e uma expressão que misturava animação e uma determinação renovada. Atrás dele, quase como uma sombra delicada, Eduarda apareceu. Ela usava o blusão de Emanuel — que ele fizera questão de não pedir de volta — e parecia ter dormido pouco, suas bochechas levemente coradas sempre que seu olhar cruzava com o dele.
— Bom dia para quem já está de pé! — Gabriel anunciou, batendo palmas e indo direto para a cafeteira. — Cara, tive uma ideia sensacional durante a noite. Estava conversando com a Duda agora pouco.
Emanuel sentiu um nó se formar em seu estômago. Ele conhecia aquele tom de voz de Gabriel. Era o tom de "missão de resgate".
— Que tipo de ideia, Gabriel? — Emanuel perguntou, a voz caindo para aquele tom profissional e frio que ele usava em reuniões de negócios.
— A Duda está muito estressada com a faculdade e com os ensaios de ballet. Ela precisa de um choque de energia, de algo espiritual, sabe? — Gabriel serviu-se de café e olhou para a irmã com um orgulho protetor. — Decidi que vou levar ela para viajar. Uma turnê mística. Vamos para São Thomé das Letras agora no próximo feriado, e nas férias de julho, estou planejando levá-la para Salém, nos Estados Unidos. Ela ama a história das bruxas, a estética... vai ser perfeito para a pesquisa dela em História da Arte.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Emanuel sentiu a pressão subir, o controle que ele tanto prezava escorregando por entre seus dedos como areia fina. A ideia de Eduarda, sua pequena e frágil Eduarda, atravessando continentes com Gabriel, longe de sua supervisão e de sua proteção, era insuportável.
— Salém? — Sara interveio, soltando uma risadinha irônica. — Cuidado, Gabriel. Capaz da Duda ser confundida com uma daquelas fadas da floresta e nunca mais querer voltar. E você, querido, o que acha disso?
Emanuel não olhou para Sara. Seus olhos estavam cravados em Eduarda, que permanecia em silêncio, brincando com a borda das mangas compridas do blusão dele.
— Acho que é uma viagem longa demais para quem tem tanto trabalho acadêmico — Emanuel disse, a voz soando como um veredito. — São Thomé é um lugar rústico, Gabriel. As estradas são ruins, a estrutura é precária. E Salém... bom, é o outro lado do mundo.
— Qual é, Emanuel? — Gabriel riu, embora houvesse um desafio em seu olhar. — Eu sou o irmão dela. Eu cuido dela melhor do que ninguém. A Duda precisa sair dessa bolha, ver coisas novas. Não é, maninha?
Eduarda levantou os olhos, encontrando a intensidade sombria de Emanuel. Ela sentia a possessividade dele emanando em ondas, atravessando a mesa.
— O Biel acha que vai me fazer bem — ela murmurou, a voz doce e vacilante. — Eu sempre quis conhecer as pedras de São Thomé... e Salém é o sonho de qualquer estudante de arte que se interesse pelo oculto e pelo simbólico.
— Exatamente! — Gabriel bateu na mesa. — Está decidido. Vamos começar a ver as passagens amanhã.
Emanuel sentiu uma raiva surda borbulhar. Ele queria gritar que ela não iria a lugar nenhum sem ele. Queria dizer a Gabriel que a proteção dele era insuficiente, que só Emanuel sabia como lidar com a fragilidade dela. Mas ele não podia. Não na frente de Gabriel. Não ainda.
— Vamos ver — Emanuel limitou-se a dizer, levantando-se da mesa. — Sara, você terminou? Vou te levar para o quarto para você descansar um pouco antes de pegarmos a estrada de volta.
— Claro, meu rei — Sara disse, levantando-se com elegância, fazendo questão de exibir a curva da barriga e o decote generoso. Ela passou por Eduarda e deu um tapinha carinhoso no ombro da garota. — Aproveite a ideia, Duda. Mas lembre-se: às vezes, os lugares mais perigosos são aqueles onde nos sentimos mais protegidos.
Sara e Emanuel subiram as escadas. Assim que entraram na suíte e fecharam a porta, Emanuel soltou um suspiro pesado, encostando a testa na madeira.
— Ele quer tirar ela daqui, Sara — Emanuel rosnou, virando-se para a esposa. — Ele percebeu. Ele não é burro. Ele quer levar a Eduarda para longe para que eu não consiga alcançá-la.
Sara caminhou até ele, desabotoando os primeiros botões da camisa dele com calma.
— É claro que ele percebeu, Emanuel. Você olha para aquela menina como se quisesse devorá-la e protegê-la do mundo ao mesmo tempo. E o Gabriel é um cão de guarda. Mas você está se esquecendo de uma coisa.
— Do quê?
— Você é Emanuel — ela disse, os olhos loiros brilhando com uma confiança absoluta. — Você é rico, você é poderoso e você consegue tudo o que quer. Se você não quer que ela vá para São Thomé com o irmão, ou se quer que ela vá para Salém com você, você vai dar um jeito. Eu não me importo de ter ela por perto, já te disse. Ela é como um bichinho de estimação caro e raro. E eu gosto de ver você satisfeito.
Emanuel segurou o rosto de Sara com as duas mãos, beijando-a com uma urgência que misturava gratidão e desejo.
— O que eu faria sem você?
— Você seria apenas um homem rico e mal-humorado — ela brincou, afastando-se. — Agora, vá lá embaixo. Mime a sua pequena bailarina antes que o irmão dela a coloque em uma redoma de cristal mística. Eu vou tirar uma soneca. Ágata está chutando a minha bexiga.
Emanuel desceu as escadas minutos depois. Ele encontrou a sala vazia, mas ouviu o som de passos leves vindos da varanda dos fundos, que dava para os trilhos abandonados cobertos pela mata.
Eduarda estava lá, observando a neblina se dissipar. Ela parecia tão pequena dentro daquela roupa dele, uma imagem de vulnerabilidade que fazia o instinto protetor de Emanuel rugir.
Ele se aproximou silenciosamente e parou atrás dela, envolvendo-a em um abraço por trás. Eduarda deu um pequeno salto, mas logo relaxou, encostando a cabeça no peito dele.
— Você não vai para São Thomé — ele sussurrou no ouvido dela, a voz carregada de uma autoridade inquestionável.
— Emanuel... o Biel já planejou tudo. Ele está tão empolgado...
— Eu não me importo com a empolgação dele. Eu me importo com você. São Thomé é lugar de mochileiro, de gente que dorme em qualquer canto. Você é delicada demais para isso, Duda. Suas mãos, seus pés de bailarina... você precisa de conforto. Você precisa de mim.
— Ele é meu irmão — ela disse, virando-se nos braços dele, os olhos cheios de uma confusão emocional. — Ele sente que algo está acontecendo. Ele está tentando me salvar de você.
Emanuel soltou uma risada sombria, tocando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele.
— Me salvar? Ele deveria estar tentando salvar a si mesmo da frustração de perder o controle sobre você. Você não precisa ser salva, Eduarda. Você precisa ser cuidada. E eu vou cuidar de você de um jeito que o Gabriel nunca poderia.
— E Salém? — ela perguntou, a curiosidade vencendo o medo por um momento. — Ele quer me levar para lá em julho.
Emanuel estreitou os olhos.
— Se você for para Salém, será comigo. Em um jato particular, ficando nos melhores hotéis, vendo a história da arte de perto, sem pressa, sem o seu irmão fungando no seu pescoço a cada cinco minutos.
— A Sara nunca deixaria...
— A Sara quer que eu seja feliz, Eduarda. E a minha felicidade envolve ter você e ela sob o meu teto, sob a minha proteção. Ela já aceitou isso. Por que você ainda luta?
Eduarda baixou a cabeça, sentindo as lágrimas arderem. A insegurança era sua sombra constante. Ela amava o jeito como Emanuel a fazia se sentir importante, quase sagrada, mas o peso daquela situação a esmagava.
— Eu sou apenas uma professora de ballet, Emanuel. Uma estudante. Eu não tenho o brilho da Sara, eu não tenho a força dela.
— Você tem a minha paz — ele disse, levantando o rosto dela e limpando uma lágrima solitária com o polegar. — A Sara é o meu império, a minha força pública. Você é o meu jardim secreto. E eu não deixo ninguém pisar no meu jardim. Nem mesmo o Gabriel.
Ele a puxou para um beijo profundo, um beijo que selava um pacto silencioso. Eduarda entregou-se, as mãos agarrando o tecido da camisa dele, o corpo esguio tremendo contra a solidez de Emanuel.
— Eu vou falar com o Gabriel — Emanuel disse, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. — Vou dizer que tenho um projeto de expansão para um dos meus estúdios e que preciso dele comigo em outra cidade durante o feriado. Ele não vai poder te levar.
— Você vai mentir para o seu melhor amigo?
— Vou fazer o que for necessário para manter você onde você pertence. Perto de mim.
Emanuel voltou para dentro, deixando Eduarda na varanda, envolta no cheiro dele e na percepção aterrorizante de que sua vida estava sendo moldada por mãos muito mais fortes que as dela.
Naquela tarde, o retorno para a cidade foi silencioso no carro de Emanuel. Sara dormia no banco do carona, com a mão de Emanuel repousando sobre sua coxa. No carro de trás, Gabriel dirigia com Eduarda ao lado, alheio ao fato de que seus planos de "resgate" já haviam sido sabotados antes mesmo de começarem.
Ao chegarem na cidade, Emanuel fez questão de parar em uma joalheria de luxo antes de deixar Sara em casa.
— Escolha o que quiser, Sara — ele disse, entrando na loja onde os funcionários o recebiam com reverências. — Um presente para a mãe da Ágata.
Sara não hesitou. Ela escolheu um bracelete de ouro cravejado de diamantes que brilhava tanto quanto seu sorriso vitorioso. Emanuel pagou sem piscar, a riqueza sendo apenas uma ferramenta para manter o equilíbrio de seu mundo.
— E para a pequena? — Sara perguntou, apontando para um par de brincos de pérolas delicadas em uma vitrine lateral. — Elas combinariam com a pele da Duda.
Emanuel olhou para as pérolas. Eram puras, clássicas e discretas. Exatamente como Eduarda.
— Compre — ele disse ao vendedor. — E mande entregar neste endereço. — Ele escreveu o endereço da casa de Eduarda em um cartão.
Naquela noite, Emanuel ligou para Gabriel.
— Cara, surgiu uma emergência em um dos estúdios de Miami. Preciso que você vá lá resolver para mim na semana que vem. Pago o dobro da sua comissão e cubro todas as despesas. É coisa séria, Gabriel. Só confio em você para alinhar a equipe de lá.
Do outro lado da linha, Gabriel hesitou.
— Puts, Emanuel... eu ia levar a Duda para São Thomé no feriado.
— O feriado é na outra semana, Gabriel. A viagem para Miami é curta, mas intensa. Você volta a tempo. Ou, se preferir, eu mando outro gerente, mas sabe como é... a confiança não é a mesma.
Gabriel, movido pela lealdade ao "irmão" e pela ambição profissional que Emanuel sempre incentivava, cedeu.
— Tudo bem, cara. Eu vou. A Duda vai ficar triste, mas a gente remarca São Thomé.
Emanuel desligou o telefone com um sorriso gélido. O primeiro obstáculo fora removido.
Enquanto isso, em seu quarto, Eduarda recebia uma pequena caixa de veludo. Ao abrir, encontrou as pérolas e um bilhete escrito com a caligrafia firme de Emanuel:
"Pérolas são formadas sob pressão e no silêncio. Você é a minha joia mais rara. Não faça planos para o feriado. Eu estarei cuidando de você."
Eduarda apertou as pérolas contra o peito, sentindo o coração disparar. Ela estava presa em uma teia de seda e diamantes, tecida por um homem que não aceitava "não" como resposta e por uma mulher que achava que o amor poderia ser compartilhado como um banquete luxuoso.
E o pior — ou talvez o mais doce — era que ela não queria mais ser libertada. A névoa de Paranapiacaba podia ter ficado para trás, mas a névoa que Emanuel criara ao redor de sua alma estava apenas começando a se fechar, tornando-o o único guia possível em seu mundo de luz e sombras.